Saudades do tempo presente

Andava há alguns dias a adiar a tarefa de guardar a roupa de Verão dos miúdos, mas as notícias da vaga de frio polar que se aproxima fizeram-me parar de procrastinar e avançar para as gavetas. E caramba, que difícil foi…

Tantas e tantas memórias que passaram por mim naquela hora em que carinhosamente guardei fofos, calções, e babygrows de Verão… Se a roupa do Pedro foi menos difícil de guardar porque sei que ainda verá a luz do dia no corpo do João, já a roupa do mais pequeno foi embalada com lágrimas, sorrisos e com um coração apertado.

Sei que não voltarei a ter bebés cá por casa. Estas duas gravidezes, tão difíceis e tão próximas deixaram marcas, e não pretendo voltar a colocar-me numa posição tão frágil novamente. Pelos meus filhos e por mim. E é por isso que embalar a roupinha do João é uma espécie de despedida. A partir de agora não haverá mais recém-nascidos, mais mãozinhas minúsculas e fraldinhas de pano. A partir de agora o tempo começa a sua contagem impiedosa e os meus bebés passarão a meninos e, depois disso, a homens.

Eu sei que agora ainda estão aqui comigo, que precisam muito de mim, mas já temo pelo dia em que o meu colo ficar vazio.

Quem me dera que houvesse um comando para controlar o tempo. Era hoje, agora, neste momento, que carregaria no botão de pausa e aqui permaneceria. Sem medo que tudo fosse demasiado rápido.

Sem medo que as gargalhadas felizes que ouço agora se perdessem. Sem medo que este cheirinho a bebé não fosse mais do que uma lembrança de dias felizes.

Nunca fui de viver agarrada ao passado; sei que a vida ainda tem muito para nos dar mas quem me dera que o tempo andasse mais devagar, quem me dera ter todo o tempo do mundo para eternizar estes instantes.

Será assim tão estranho já sentir saudades do momento presente?

 

O meu filho está doente

Já passa da meia-noite. Deitado ao meu lado o Pedro vai descansando num sono leve e constantemente interrompido por gemidos. As bochechas absurdamente rosadas não enganam: a febre disparou outra vez.

Estamos há mais de vinte e quatro horas nesta dança onde volto a vestir a farda com que trabalho todos os dias. A questão é que no hospital sou “só” enfermeira e aqui, no nosso quarto, a sentir o calor exagerado que emana do corpo do meu pequenino, sou uma mãe que, por acaso, também é enfermeira lá fora.

Aqui, com o meu filho, o meu discernimento perde-se um bocadinho e esqueço-me que a febre significa que o sistema imunitário dele está a funcionar e que até às 72h não são necessárias preocupações. Aqui não quero saber de fisiologia, normas hospitalares ou protocolos de actuação. Aqui tenho o coração mais pequeno que uma noz. Aqui só quero que a doença vá embora e deixe o meu menino em paz.

Há meia-dúzia de meses, à porta da Unidade de Cuidados Intensivos onde trabalho, uma mãe desesperada dizia-me entre lágrimas engolidas que dava tudo para poder trocar de lugar com o filho. Nessa tarde eu dei-lhe a mão e disse-lhe que a compreendia. E a verdade é que a cada dia que passa a compreendo um bocadinho mais.

Somos mães.

Somos mães, não estamos preparadas para ver os nossos filhos sofrer. Se for preciso lutar contra moinhos de vento para os termos felizes nós lutamos, se for preciso ir à lua nós vamos, se for preciso dar a nossa vida nós damos. De boa vontade. Sem pensar duas vezes.

Hoje a minha casa permaneceu arrumada, houve pouco barulho e o sofá chegou ao fim do dia sem migalhas. E eu tive saudades da gritaria, dos constantes pedidos de pão e das peças de Lego espalhadas.

Os olhos do meu filho que costumam ser brilhantes de felicidade hoje estiveram brilhantes por culpa da febre.

Quem me dera ser eu no lugar dele.

Hoje o meu filho está doente. E o meu coração também.

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Ser mãe dói…

“…sobretudo no coração quando os vemos fazer algo novo. Quando nos abraçam e nos olham com amor. Quando percebemos que o tempo passa e jamais voltará atrás.”

Ser mãe dói na garganta quando os enjoos teimam em não passar.

Na pele quando começa a esticar, no peito quando começa a inchar.

Dói nos órgãos quando o espaço começa a faltar, dói no parto, e nos seios nas primeiras vezes que damos de mamar.

Nas costas depois de horas de colo.

Dói no corpo quando dormirmos todas tortas para os manter aconchegados. Nos olhos quando lutamos de madrugada para os abrir.

Ser mãe dói na cabeça quando as palavras faltam, a memória falha e o cansaço teima em não passar.

Dói na barriga quando percebemos que eles nunca mais voltarão a lá morar.

Dói na alma quando os vemos doentes.

Ser mãe dói.

Sobretudo no coração quando os vemos fazer algo novo.

Quando nos abraçam e nos olham com amor.

Quando percebemos que o tempo passa e jamais voltará atrás.

A maior dor de uma mãe é a de viver com mais amor no coração do que aquele que acreditava ser possível.

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Minudências dirão alguns, necessidades básicas digo eu.

Estou há mais de cinco minutos focada numa nódoa do tamanho de uma moeda de vinte cêntimos que descobri na manga da camisola branca que tenho vestida. Num dia normal já estaria a pensar qual o produto mais adequado para fazer o pré-tratamento. Mas hoje, não sei porquê, acho que esta nódoa não caiu aqui por acaso. Hoje acho que esta nódoa é a prova inequívoca da falta de glamour da minha vida pós-maternidade.

Confesso que às vezes invejo aquelas mães das redes sociais sempre muito bem-vestidas, de unhas arranjadas e com imensa vida para lá dos filhos. Como é que elas conseguem é que eu não sei. É que desgraçadamente pertenço de corpo e alma à classe de pessoas que limpa a própria sanita. Desde que os putos nasceram que o expoente máximo da minha vida social sem eles é ir à casa-de-banho e sentar-me na sanita a olhar para o Facebook.

O meu estado é grave ao ponto de ver fotografias de copos de vinho nas mãos dos pais que se sentam no sofá juntos, depois de adormecerem as crianças, e a primeira pergunta que me vem à cabeça ser como é que já têm a cozinha arrumada àquela hora. E depois penso que se calhar têm empregadas. E que eu sou a única mãe no mundo que gasta mais de metade do tempo a dobrar meias. A fazer máquinas de roupa, passar a esfregona no chão ou limpar a fritadeira.

Caraças! Sempre que ouço dizer que é preciso existir para além dos filhos tenho vontade de me deitar em posição fetal e chorar. É que o tempo que vou conseguindo sem eles gasto com tarefas muito pouco glamourosas, contudo, necessárias ao bom funcionamento cá de casa. E já sei que vão dizer que devia esquecer as tarefas domésticas e dedicar-me ao que realmente importa. Mas é capaz de ser chato não ter umas cuecas lavadas para vestir ou uma sopa para o jantar do puto. Minudências dirão alguns, necessidades básicas digo eu.

A verdade é que padeço de falta de tempo, pronto. E de falta de glamour. Em dias como hoje, despenteada e de nódoa na manga, sinto-me uma espécie de mãe de armazém chinês do Porto Alto num mundo de mães de lojas da Avenida da Liberdade.

E agora vou só ali tirar a loiça da máquina. Vou passar a ferro a roupa dos putos e fazer as camas com lençóis lavados. Tempo para lá dos filhos e da casa? Devo conseguir arranjar daqui a uns dez anos.

 

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Palpites na gravidez. Quando o mundo inteiro tem uma palavra a dar.

Quando engravidamos e anunciamos ao mundo que vamos ser mães, o mundo segura-nos na mão e começa a dar-nos conselhos.

E por mundo quero dizer mundo, o mundo inteiro. Todas as pessoas do raio do mundo inteiro possuem informação privilegiada que por um qualquer acaso não chegou até nós. Mães. Mães desprovidas de cérebro, capacidade de pesquisar informação e de tomar decisões.

As mães dos grupos de mães, a vizinha do 3.º esquerdo e a colega de trabalho.  A enfermeira do centro de saúde, a nossa chefe, a mulher na sala de espera do consultório. As terapeutas do sono, as deusas da parentalidade positiva, a bloguer/influencer/instagramer/youtuber. (inspira, expira)

A avó que está com o neto no parque infantil, o taxista que nos leva a uma consulta.

A empregada de balcão do café onde tomamos o pequeno-almoço, a mulher na paragem do autocarro, a educadora da escola dos miúdos. A nossa cabeleireira, a empregada da caixa do supermercado, a nossa gestora de conta do banco. (inspira, expira)

O nosso pai, a nossa mãe, a nossa avó, a nossa sogra, a nossa tia, a tia da tia da prima, a prima em quarto grau que só vemos no Natal. A melhor amiga, a amiga que está a viver o estrangeiro, a amiga que acabou de ser mãe, a amiga que não tem filhos, a sogra da nossa amiga e a amiga da nossa amiga que conhecemos na festa de aniversário da filha da nossa amiga. (inspira, expira)

Qualquer uma das pessoas acima e todas as outras que se abeiram de uma mãe, que me levava a vida toda enumerá-las a todas, conseguem perceber rapidamente que merda é que estamos a fazer mal e mostrar-nos a luz. O caminho da sabedoria, os passos para a perfeição e enfiar-nos na cabeça a filha da mãe da culpa.

Rapidamente nos mostram que não escolhemos o melhor obstetra.

Que estamos a engordar demasiado. Que não estamos a usar o melhor creme para as estrias ou a tomar as vitaminas adequadas. Que a barriga está muito descaída e a criança deve estar quase a nascer e que para acelerar o parto basta-nos andar muito ou comer comida picante. Dizem-nos que não sabemos o que é parir porque implorámos por uma epidural. Que devíamos ter tido o nosso filho num hospital público e não no privado.

Elas sabem se devemos ou não receber visitas, se estamos a amamentar bem ou que não devíamos dar leite adaptado. Elas olham para os nossos filhos e pesam-nos com os olhos e juram que estão magrinhos. Aconselham-nos os melhores médicos que nunca são os nossos. Indicam-nos medicamentos, tratamentos e duvidam seriamente das razões porque os nossos filhos estão sempre doentes. Dizem-nos que damos demasiado colo, que os miúdos são mimados, que sabem mudar as fraldas melhor que nós e os rabos só ficam assados com a mãe porque a mãe não usa creme suficiente.

Sabem a idade exata em que os nossos filhos devem começar a comer a sopa e fuzilam-nos se lhes damos papas.

Sabem quando devem nascer os primeiros dentes e quando devem começar a palrar, a sorrir, a gatinhar, a andar, a falar corretamente português e inglês e a andar a cavalo. Ensinam-nos todas as teorias da parentalidade positiva, consciente, mindfulness e todas as tretas para nos conectarmos com os nossos filhos. Conseguem resolver qualquer birra sem esforço, impor rotinas para adormecer e não, com eles não há cá essa merda da privação do sono.

(inspira, expira, inspira, expira)

Quando somos mães dizem-nos que estão felizes por nós. Dão-nos os parabéns e juram que vamos ser as melhores mães. Mas no fundo desconfio que estão só felizes por ter mais uma mãe a quem lixar o juízo.

A maternidade tem esta faceta curiosa – quase ninguém está disponível para te elogiar nos vários momentos em que dás o teu melhor enquanto mãe, ao passo que para te apontar o dedo nos momentos menos bons são muitas as vozes que surgem.

Toda a gente vê muita coisa, só vocês vêem o essencial.

Ninguém estava lá quando adormeceste o teu bebé e durante vários minutos o contemplaste a dormir.

Ninguém te viu a levantar várias vezes durante madrugada para dar colo, para procurar a chucha no meio dos lençóis, para levar à casa de banho ou mudar a fralda, para dar mama ou aquecer mais um biberão com leite.

Ninguém assistiu ao esforço que fizeste de manhã para te levantar da cama e ires ter com o teu filho com o “bom dia” mais feliz do mundo.

Ninguém reparou na paciência com que o vestiste de manhã e lhe lavaste os dentes após várias tentativas.

Ninguém sabe como te controlaste para não gritar enquanto o tentavas colocar no carro.

Ninguém viu as lágrimas presas nos teu olhos quando o deixaste na creche/escola.

Ninguém presenciou as brincadeiras que inventaste com o teu filho no parque.

Ninguém imagina como corres entre banhos, jantares, tarefas domésticas e ainda assim arranjas tempo para beijos, abraços e mimos.

Ninguém te viu a ler a mesma história três vezes e a cantar a mesma canção outras quatro.

Ninguém sabe como te sentes cansada, mas ainda assim consegues contornar uma birra explicando e desenvolvendo soluções em conjunto.

Ninguém sonha como amas o teu filho com todas as tuas forças, até com as que não sabias ter.

Mas toda a gente viu como ralhaste no hipermercado quando o teu filho corria pelos corredores.

Toda a gente estava a observar-te quando reviraste os olhos depois do teu filho te perguntar pela quinquagésima vez se podia atirar pedras para o escorrega.

Toda a gente assistiu ao momento em que atingiste o teu limite e acabaste por gritar com o teu filho.

Toda a gente se apercebeu quando estavas com menos paciência naquele dia, devido ao cansaço acumulado.

A maternidade tem esta faceta curiosa – quase ninguém está disponível para te elogiar nos vários momentos em que dás o teu melhor enquanto mãe, ao passo que para te apontar o dedo nos momentos menos bons são muitas as vozes que surgem.

A verdade é que o que toda a gente vê representa muito pouco do que vocês vivem; ninguém está presente 24 sobre 24 horas para assistir a tudo e fazer uma avaliação justa. Desta forma, a única avaliação fidedigna é a que tu e o teu filho fazem, pois só vocês vivem esta relação.

Toda a gente vê muita coisa, só vocês vêem o essencial.

Ontem ouvi-te a falar com uma amiga sobre como são difíceis os dois anos!

Fiquei feliz. Pensava que não compreendias e fiquei muito feliz por saber que percebes o quão difícil são os dois anos.

Não é à toa que chamam a adolescência dos bebés, porque é mesmo isso. É uma fase de descobertas e de mudanças.

É a fase em que descubro que afinal também tenho vontades, também tenho direitos e acredita que é muito difícil para mim tentar controlar a forma como me expresso. E é por isso que há as birras, mãe.

É que, agora que descobri que posso fazer e mexer em muitas coisas, é quando me proíbem mais de as fazer e eu não percebo porquê.

Eu não te quero chatear…

Gosto muito mais quando estamos os dois a brincar em sintonia. Às vezes não percebo porque é que não posso brincar com tesouras, ou atirar água um ao outro… Fizemos isso na praia lembraste? E tu riste-te. Eu gosto tanto quando te ris comigo, mãe. Não percebo porque é que quando te atirei com a água em casa no outro dia ao jantar, ralhaste comigo.

Sabes mãe, também não percebo porque é que temos de ir para a cama. Estamos tão pouco tempo juntos. Gostava que ficássemos a brincar os dois para sempre, sem nunca ter de dormir.

Mas acho que isto faz parte da descoberta. Ainda estou a tentar descobrir o que posso ou não fazer para que fiques sempre a sorrir comigo sem te zangares.

Por isto é que fico feliz que percebas o quão difícil são os dois anos, e tudo aquilo que está a mudar.

Já queres que eu coma sozinho e sem entorna. Mas às vezes distraio-me e fico a brincar com a comida. Mas temos que comer depressa não é? Tu estás sempre a dizer para me despachar…

Agora também tenho que fazer xixi como tu e o pai, quando até agora podia fazer na fralda que simplesmente tu trocava. Eu tento mãe, mas às vezes quando estou a brincar não quero parar e depois zangaste comigo.

E antes, quando nos zangávamos, deixavas-me usar a minha chucha e o meu boneco. É que, sabes mãe, eles são meus amigos e ajudam-me quando estou triste. Ajudam para que tudo fique bem. Não percebo porque é que agora estás sempre a esconder a minha chuchinha e o meu boneco…

Ah e mãe, só mais uma coisa… Eu gostava tanto de beber o leitinho quentinho ainda na cama no biberon… Não me obrigues a ir para a mesa beber na caneca…

Não tenhas pressa que eu cresça. Não dizes sempre às tuas amigas que o tempo passa a correr? Então aproveita-o!

Mas, mãe, só queria dizer que fico muito feliz que percebas como os dois anos são difíceis para mim. Obrigada pela tua paciência!

 

Do teu filho

 

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Eu sou a mãe perfeita que não amou loucamente o filho no segundo em que nasceu (ainda que o ame loucamente agora)

A mãe perfeita que só amamentou até aos 4 meses, e ainda assim lhe deu leite adaptado!

Eu sou a mãe perfeita que foi a correr para as urgências quando ele teve a primeira febre! Que chorou baba e ranho nos primeiros 15 dias!

Eu sou a mãe perfeita que viu o filho cair com a cara no chão, a centímetros das minhas mãos! Que já deu frutas de boião do supermercado (tantas vezes)!

A mãe perfeita que de vez em quando o deixa comer bolachas, estrelitas e pipocas!

Eu sou a mãe perfeita que já se chateou à séria com ele!

Eu sou a mãe perfeita que tem, quase sempre, a casa por arrumar, pó nas prateleiras e loiça por lavar! Que veste calças só para não ter que fazer a depilação! Que já esperou que o pai chegasse a casa para mudar a fralda! (enquanto não chegar aos joelhos, vale tudo)

Sou a mãe perfeita que já fingiu não o ouvir enquanto estava no banho, para que o pai fosse lá!

A mãe perfeita que já ficou na cama a dormir, enquanto o pai e ele se levantaram e foram brincar para a sala! A mãe perfeita que já o deixou com a avó para ir jantar fora!

Eu sou a mãe perfeita que o deixa comer terra ou areia e perceber por si próprio que não é lá muito agradável! Sou a mãe perfeita que nem sempre tem paciência para brincar! A mãe perfeita que, por vezes, quer apenas ficar a ver televisão.

Eu sou a mãe perfeita que às vezes o deixa dormir na minha cama só para não ter que o ir pôr na dele! Que nunca atinei com um marsúpio/sling  (ou lá o que chamam àquilo)! Sou a mãe perfeita que já o deixei dormir no carro!

Eu sou a mãe perfeita! E para quem tenha dúvidas perguntem-lhe a ele, quem seria para ele a mãe perfeita!

Aposto que a resposta, sou eu!

Não tenhas medo…

De olhar para a barriga a crescer e de sentir que ainda não te sentes preparada. Que talvez devesses ter esperado mais tempo e que ser mãe talvez tenha sido um passo precipitado.

Não tenhas medo desabafar que o parto te assusta, que tens receio da dor e/ou da recuperação.

Não tenhas medo de admitir que não foi amor à primeira vista. Que não sentiste o que supostamente toda a gente diz sentir durante as primeiras semanas de convívio com o bebé. Que precisaste de tempo para que a relação se fosse construindo e para que o amor fosse crescendo.

De dizer que estás cansada. Que tens saudades de dormir, que te doem as mamas e as costas.

Não tenhas medo de expressar como por vezes (ou muitas vezes) te sentes só.

De dar colo e de deixar o bebé dormir junto a ti.  De o transportar encostado ao teu corpo, de criar recordações e permitir que ele saiba que o amas.

De nem sempre acertar à primeira, de enfrentar palpites alheios e seguir o teu instinto.

Não tenhas medo de chorar e expressar o teu receio em estar a falhar. De por vezes dares por ti a sentir que não foste talhada para ser mãe, de te sentires enganada por nunca ninguém te ter falado do lado menos cor-de-rosa da maternidade. A dada altura todas sentimos o mesmo, no entanto a maior parte tem medo de falar sobre isso.

De pedir conselhos, delegar tarefas e aceitar apoio. Não és nem serás menos mãe por isso, serás sim uma mãe sensata que poupa recursos e os despende naquilo que realmente importa.

Não tenhas medo de contrariar os modelos parentais com que foste criada se pelo caminho descobrires outros que te façam mais sentido.

Não tenhas medo de constatar que não és perfeita, és apenas uma mãe real.

Não tenhas medo de dar o teu melhor. De admitir que apesar de tudo nunca foste tão feliz. De abraçar os teus filhos e de lhes dizer que os amas eternamente.

Não tenhas medo de reconhecer que és a melhor mãe que os teus filhos podiam ter, pois só tu (e o pai) os conheces e os amas como ninguém.

Acima de tudo, não tenhas medo de ser mãe e de sentir e expressar tudo o que faz parte da maior aventura da tua vida.

Sem tempo para ser mãe

Provavelmente sempre que te imaginavas a ser mãe projectavas-te a dar colo ao bebé. Vias-te presente nas suas primeiras conquistas, a alimentá-lo, a partilhar momentos de ternura e carinho. A incentivá-lo a explorar o meio, a protegê-lo nos momentos em que se sentisse inseguro, a consolá-lo quando chorasse.

Acreditavas que estarias sempre lá, para amar e cuidar, sem restrições.

Provavelmente à noite deitas a cabeça na almofada e choras por não estares a cumprir o que prometeste. Cada lágrima tem o seu motivo – uma por não estares lá quando deu os primeiros passos, outra por teres perdido aquele momento em que se riu vezes sem conta. Mais uma por não teres sido tu a dar colo quando se assustou e chorou. Ainda outra por teres chegado cansada e teres ralhado desnecessariamente. Por fim um mar delas por sentires que estás a falhar enquanto mãe. Sentes-te sem tempo para ser mãe.

Provavelmente acreditas que não estás a ser quem deverias ser. Que trabalhas demasiado, que estás sempre ocupada com outras coisas, que dás tudo de ti em tarefas que não são essenciais. Não estás onde queres, não vais para onde queres, não fazes o que queres, não és quem queres ser. És aquela mãe sem tempo para ser mãe.

Entre chegar a casa, dar banho, fazer o jantar e preparar as coisas para o dia seguinte, ficas com a sensação de que não estiveste verdadeiramente com o teu filho, quase como se vivesses a realidade em modo automático. Dás por ti a pensar que o tempo passa a correr. Que os momentos são únicos e que não podem ser recuperados. Que a melhor parte da tua vida não está a ser vivida. Que te está a escapar por entre os dedos, que estás a permitir que o dinheiro se sobreponha à felicidade.

Provavelmente és perseguida pela culpa, aquela que te bate constantemente à porta.

A que durante o dia te sussurra ao ouvido que, naquele exacto momento, o teu filho deve estar a aprender uma coisa nova e que, mais uma vez, não estás lá para assistir. Porque te sentes sem tempo para ser mãe.

Ao vê-lo dormir, tão sereno e inocente, sentes uma vontade enorme de lhe pedir desculpa por tudo e, ao mesmo tempo, por nada. A raiva apodera-se de ti – Estou farta desta vida injusta! Por que não tenho direito a viver o papel de mãe?

Provavelmente existe um desequilíbrio entre a mulher e a mãe. – A mulher, mais especificamente trabalhadora, está a sufocar a mãe, ocupando mais espaço e  roubando-lhe a oportunidade de se desenvolver e afirmar.  É esta repressão da mãe que faz com que te sintas insatisfeita. Afinal, não vives em pleno todos os teus papéis!

Provavelmente gostavas que no final do texto aparecessem algumas dicas mágicas de como mudar a situação.

A única coisa que está ao meu alcance é dar-te algumas certezas que talvez te aliviem.

A primeira é que somos muitas a sentir o mesmo, a pensar o mesmo e a viver o mesmo. Acho que esta é uma espécie de condição inerente ao papel de mãe – a culpa e a maternidade tendem a andar de braço dado.

A segunda certeza é a de que não estás a falhar. A culpa não é tua, fazes certamente o que tem de ser feito com as oportunidades que acreditas ter.

A última certeza, e na minha opinião a mais importante, é a de que quando estás com o teu filho dás o teu melhor e é isso, mais do que a quantidade de tempo que passam juntos, que fortalece o vínculo (relação) que vos une. É um cliché, eu sei, mas realmente aplica-se a velha máxima de que a qualidade é melhor do que a quantidade.

Acredita que se naquele tempo em que estão juntos, ainda que seja pouco, o teu filho sentir que as suas necessidades são escutadas, que as suas vontades são compreendidas (ainda que não sejam cumpridas),que as suas limitações são respeitadas, que lhe é dado incentivo para explorar o meio e ao mesmo tempo um porto seguro para onde regressar caso deseje, ele terá a confirmação de que realmente é amado e está seguro.

Tal como todas nós, estás a dar o teu melhor. Não te culpes por isso, orgulha-te!