Lembro-me como se tivesse sido, efectivamente, ontem os primeiros passos da minha irmã. Deu-os comigo, numas férias de Verão passadas em Espanha. Recordo com a mesma intensidade as tardes passadas a brincar no quarto, a dançar em cima da cama, a apanhar ondas na praia, o choro dela quando no final do fim-de-semana me ia embora. Temos treze anos de diferença e já se passaram mais que esses anos desde que ela nasceu.

No outro dia ela deitou a cabeça no meu colo, no mesmo colo onde cabia inteira e agora já não consigo recebê-la. E concluí: o tempo voa. Somos hoje duas mulheres, mais maduras e com mais certezas, certamente com mais dúvidas. Somos hoje mais do que éramos há mais de uma década. Porque o tempo voa mas aprendemos a voar com ele.

De nada adianta ficar a olhar para trás e a pensar como ele passou, correndo o risco de ganhar um torcicolo e deixar passar o que está a acontecer agora. Do mesmo modo, ficar em aflição porque o tempo corre em inversa proporção ao que necessitávamos, nada nos traz. Minto, pode trazer-nos, mais do que essa aflição, um nível de stress desnecessário, porque acelerar o nosso ritmo para não perder pitada, para tentarmos ultrapassar um tempo que não pára para o recebermos de frente faz-nos viver no futuro. E o presente está mesmo aqui. A pedir para ser vivido.

O tempo pode voar, mas nós voamos com ele. Já o disse? Reitero, porque não somos o que éramos ontem e ainda estamos longe de atingirmos o que seremos amanhã.

Os nossos filhos saboreiam o tempo de uma maneira muito menos racional e muito mais real. Não se preocupam com o facto de ele estar a escapar-se por entre os dedos, aproveitam-no. Sabem que algures no dia lhes vão dizer para lavar as mãos, tomar banho, vestir o pijama, ver os trabalhos de casa, jantar, lavar os dentes. Mas o que os separa do momento em que estão do que vai acontecer é o agora. E eles sabem vivê-lo.

Deixar de estar constantemente a espreitar os emails, a consultar o relógio no pulso, em suma “desligar”, é essencial.

Todos os dias aprendemos com os nossos filhos.

Antes que chegue o dia em que eles próprios sintam que têm de se tornar escravos do tempo porque é isso que vêem nos adultos, cabe-nos a nós viver como eles.

Viver com eles este tempo precioso que é o agora.

Porque ele não volta.

E é responsabilidade nossa sentir que todos os “agoras” que constituem a nossa vida foram bem vividos.

Por um futuro melhor.

imagem@flickr

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