Lembro­-me bem da minha primeira entrevista. A primeira. De todas. Esquecendo aqueles trabalhos pontuais, em épocas de férias (quem quero enganar?… eram sempre na sapataria do meu pai…) a minha primeira experiência em lides de apresentação de mim mesma ( vim para esta área porque entendo que é uma área de futuro; sim, estou à procura mas atualmente não estou em nenhum processo de recrutamento; tempos livres? Sair com amigos, ler… ) foi na empresa onde fiz o meu estágio profissional: uma multinacional do setor automóvel, daquelas de engolir em seco e agradecer ao universo inteiro pela sorte que se teve em se ser selecionada para uma empresa daquela envergadura.

Fui muito feliz no meu estágio: a equipa era constituída maioritariamente por homens: mecânicos automóveis, eletricistas automóveis, vendedores de automóveis, rececionistas de oficina, o meu chefe… Não vacilei com a minha vergonha de inadaptada, nem eles me deixaram ficar de braços cruzados: ensinaram tudo o que era possível uma miúda aprender sobre carros para além de terem rodas e um autorrádio. No final dos meses, recebia um cheque; fotocopiei o primeiro e guardei a cópia com carinho. E, a partir daí, nunca mais parei.

Atualmente, isso das novas experiências profissionais (as entrevistas, as avaliações de desempenho, os despedimentos, as despedidas, as mudanças de empresas, de locais, de pessoas, de rotinas e de destinos) já faz parte do meu percurso e da carreira que escolhi.

Paralelamente, o Mundo ofereceu-­me, também, uma vida pessoal (a conquista mais difícil): um marido, um filho e uma casa. Recentemente descobri um bloco de notas da época do estágio: um pequeno apontamento que não era mais que uma compilação de algo como Onde Quero Estar Daqui 10 Anos. Ia estar em todo o lado: em cálculo mais ou menos rigoroso, previa, aos meus 30 anos, uma carreira estonteante – a um nível de Cristiano Ronaldo. Devia falar até de viagens que já teria feito, provavelmente quase todas as capitais do Mundo, umas tantas de introspeção (ou não… bom, não me lembro, mas duvido que os meus 19 ou 20 anos quisessem conhecer o Tibete). Lembro-­me de ter sorrido, de ter enfiado o bloco ao bolso e nunca mais o ler. Não me recordo particularmente o que dizia mas, definitivamente, a mulher que, dez anos depois, queria ser, não se tornou no que dizia a carta.

Como eu, tantas outras mulheres da minha geração: as que trabalham 12 horas por dia, muitas vezes sem saírem do mesmo ponto onde iniciaram, anos e anos seguidos. As com experiências demasiado curtas para perceberem se é isso que querem ou o suficiente para não quererem ficar mais um dia. As carreiras da rotatividade. Ou até as carreiras que atiramos às urtigas para ir plantar feijões ou fazer sacos de sarapilheira. Também eu, um dia, dei o salto: larguei tudo para ir trabalhar para um horto voluntariamente. Não ganhava um tostão e era a mulher mais feliz do Mundo.
Voltei porque a vida assim me exigiu.

Porque fui mãe. Aceitei. Retomei.

Sei que, na época em que vivemos, falar de oportunidades de carreira é um tema delicado: se já é difícil uma oportunidade de trabalho, como se pode falar em carreira? É importante, contudo, ressalvar dois aspetos: o conceito de percurso profissional dos nossos pais ou até dos nossos irmãos mais velhos (a geração imediatamente anterior à minha, os que nasceram nos finais de 60, inícios de 70 do século passado) não é o mesmo que agora. E não é só por precaridade e falta de empregabilidade; se calhar essa causa até está na cauda. É uma questão de sociedade, cultural e estatutária: os nossos pais trabalham mais anos, sendo que alguns cargos para progressão ficam estanques por mais tempo; a otimização dos sistemas efetivamente existe e retira tarefas e responsabilidades, por vezes, de um inteiro posto de trabalho; o mercado está altamente expandido com centenas de milhares de empresas por atividades, quer seja a nível singular, quer seja a nível coletivo; somos um número cada vez maior de cidadãos ativos: precisamos de trabalhar e seguir caminho. Não podemos descorar o que existe mas também é importante não deixar de viver por isso. Sei bem que pode parecer um cliché mas, em boa verdade, é mesmo isto que acontece.

E eu só descobri essa realidade depois de ter sido mãe. Deixemos de lado os lacinhos e o eu olho para ele e fico embebecida de amor ou não há cheirinho como o da nuca dele… É claro que é isso que dá cor a quem ama a maternidade… Mas não é o que move. A capacidade de rasgar o bloco das dez máximas para os próximos dez anos está ligada única e exclusivamente à vontade de se estar totalmente ao lado de quem se gosta; e, sem rodeios afirmo que é absolutamente impossível esconder a um filho aquilo que somos. Não entremos em camuflagens: é impossível.

Deixa, então, nesse primeiro instante da consciência maternal, de fazer sentido levar trabalho para casa (o mental, porque o físico, por vezes, temos de levar com ele no portátil), atender permanentemente os telefones pós horário laboral ou até aceitar todos os convites para festas com colegas de trabalho.
Fecha-­se a porta do escritório e abrem-­se os braços em casa.
Para mim foi esta a poção mágica; curiosamente foi o elixir que me trouxe a oportunidade de trabalho que mais gostei até agora. Ao não contrariar o que sinto, ao aceitar as limitações e ao viver intensamente a minha profissão fora de casa e a minha maternidade dentro da mesma, faz-­me sentir completa e realizada – pelo menos para já.

Claro que todos nós devemos encontrar esse mesmo equilibro, sejamos pais, mães, solteiros, viúvos, sem filhos, sem sobrinhos. As relações sociais (os nossos amigos, a nossa família, as nossas atividades para lá do escritório) são tão fundamentais como angariar dinheiro: o homem é um animal de hábitos e de proximidade grupal. Não chega estourar toda a energia em tempo de trabalho se não se reserva em igual medida para uma saída com amigos, um passeio no parque com os filhos, uma ida à praia com o namorado, ou até uma tarde inteira connosco próprios a fazer rigorosamente… nada. Não adianta acreditar que uma coisa substitui a outra. As alternativas têm de existir e têm de ser rigorosas: continuar o treino funcional todas as terças e quintas; terminar o livro que tanto estavas a gostar; não arranjar desculpa para não ires ao jantar das colegas da faculdade (a não ser que não te apeteça mesmo aturar essas chatas). Faz o pino, solta à corda, cria as tuas próprias metodologias e planeamentos: mas não deixes de ser rigorosa para ti mesmo e vive para além da carreira. E aceitar – tão, mas tão importante – que a realização é no caminho, não na chegada. Foi exatamente quando aceitei a amplitude (e limitações) do meu ser que entendi, efetivamente, a clássica frase do Senhor Confúcio: Escolhe um trabalho que amas e não terás que trabalhar um único dia na tua vida.

Que assim continue.

Por Sofia Cruz, para Up To Kids®
Todos os direitos reservados

imagem@evolllution.com

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *