Sempre que dizia que gostava tanto do meu pai e que tinha saudades dele, perguntavam-me porque nunca me ouviam dizer o mesmo em relação à minha mãe.

A verdade é que por não viver com o meu pai acabava por verbalizar mais esta falta, este sentimento de saudade. Em relação à minha mãe, como fomos sempre muito próximas (também fisicamente), posso dizer que comecei a sentir verdadeiramente saudades dela desde que saí de casa. E há tanta coisa que parece pequenina, mas que dou mais valor hoje do que alguma vez dei.

Sinto falta de ver a minha mãe todos os dias.

Tenho saudades de quando ela me secava o cabelo, mesmo sendo a coisa que mais detestava no mundo.

Sinto falta de estar debaixo dos lençóis, muito pequenina, e de ela me levar um biberon de Nestum com a tetina cortada para o beber ainda dentro da cama nas manhãs de inverno antes de ir para a escola.

Tenho saudades dos tempos em que nos inscrevemos no mesmo ginásio e fizemos aulas de aeróbica e éramos as duas alminhas mais descoordenadas que se viam a mexer naquela sala – e não nos importávamos nada.

Sinto falta de ir à mercearia do senhor João comprar pastilhas e saber a diferença entre nabiças e espinafres de tantas vezes que a vi a comprá-los lá.

Tenho saudades de estarmos no sofá, ao fim do dia, enroscadinhas a conversar ou em pleno silêncio.

Sinto falta de a minha mãe me perguntar por que é que, com um sofá tão grande, insistia em estar colada a ela.

Tenho saudades de ouvir a campainha tocar e saber que era para descer as escadas e ajudar a trazer os sacos do supermercado para cima.

Sinto falta de estar na cama e chamar “maímmmm!” e pedir um copo de leite com chocolate quentinho, como só ela sabe fazer, para me acalmar o corpo e a mente e poder dormir descansada.

Tenho saudades de poder pousar a minha cabeça no seu colo e a ouvir dizer que “vai correr tudo bem” enquanto me afagava os cabelos (continua a ser a única pessoa que gosto que mexa neles).

Sinto falta de fazer corridas de “golfinhos” no mar, nas férias. E de perder sempre para ela.

Tenho saudades de lhe pedir para me comprar uma bolinha com creme, mesmo sendo de tarde e estando tanto calor e ela me avisar, vezes sem conta, que era preferível comer uma sem creme.

Sinto falta de estar por casa e por isso, a “obrigar” a sair mais cedo do trabalho.

Tenho saudades de conversar com ela na cozinha, enquanto preparava o jantar e eu acabar por não ajudar quase nada porque não parava de falar.

Sinto falta de perguntar o que é que vai ser hoje o jantar (e ouvir como resposta “línguas de perguntador”).

Tenho saudades de acordar a meio da noite e ouvir barulho na cozinha e ir pé ante pé porque sabia que a encontrava, de camisa de noite, à janela a fitar as estrelas.

Sinto falta de quando ela me dizia que com as unhas pintadas daquela cor nem pensar, só para andar em casa.

Tenho saudades de irmos no carro para o Algarve e cantar todas as músicas e ouvi-la a dizer “mas como é que tu conheces isto tudo?”.

Gosto muito do facto de termos uma relação muito telepática, de estarmos constantemente a pensar uma na outra e nos ligarmos sem saber disso. De as minhas dores de cabeça passarem por te falar nelas (mesmo ficando tu com elas – ninguém acredita, mas sabemos que é verdade). Gosto de saber se vale a pena ir ver um filme ao cinema depois de ouvir a tua crítica porque é sempre certeira. Gosto que partilhemos livros. Gosto que faças jardineira nos domingos em que o mano vai almoçar e eu não porque sabes que eu não gosto muito. Gosto de poder dizer, sem hesitar, que és a melhor pessoa que conheço – sem ser para parecer bem, mas com a maior naturalidade do mundo – porque é verdade. Gosto tanto de ti. Gosto de nós.

E tenho saudades tuas, mãe, mesmo falando todos os dias contigo.

Porque sentir falta não é mau e ainda é melhor podermos matar essa saudade quando queremos.

Se me perguntarem o que é preciso para ser uma boa mãe é de ti que vou estar a falar. Sempre.

(E porque o dia da mãe se aproxima, deixo também um grande beijinho à minha “boadrasta” por tudo aquilo que sempre me deu: compreensão, tempo, carinho, paciência, a minha mana linda, amor. Por ter cuidado sempre de mim como se fosse sua. Como só uma boa mãe consegue fazer).

Sou mesmo uma pessoa de sorte – e grata por isso.

Feliz dia da Mãe!

Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

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Não compres guerras desnecessárias só para provares que tens razão.

Não deixes que o teu filho sinta que pode fazer tudo só porque erraste.

Não ameaces que vais gostar menos só porque o teu filho fez algo que não devia.

Não o faças sentir que gostas tanto dele só porque corresponde exactamente às tuas expectativas.

Não uses o teu filho como uma arma, não o manipules para ser dependente de ti, para te preferir aos outros.

Não autorizes que se torne um ditador por saber aproveitar as vulnerabilidades do ambiente que o rodeia.

Não deixes que os teus medos façam com que o teu filho seja menos do que possa ser.

Não deixes de seguir o teu instinto, mesmo que isso te traga alguns amargos de boca.

Não o impeças de estar com quem gosta, com quem gosta dele, por causa de conflitos que lhe são alheios.

Não lhe desculpes tudo porque o teu amor por ele é maior que tudo.

Não lhe peças tudo porque queres que esse amor seja retribuído de igual forma.

Não o defendas nas suas asneiras quando o que precisa é de ser orientado para que não as volte a repetir.

Não o acuses quando os seus erros são algo que escapa ao seu entendimento.

Não ponhas as culpas nos outros para aliviar a culpa do teu filho.

Não culpes o teu filho só para te sentires um bom disciplinador.

Não o pressiones a responder aos teus padrões quando claramente ele tem os seus próprios.

Não deixes o teu filho mandar em casa e impor as suas vontades só porque tem de ter liberdade de pensamento e acção.

Não grites com o teu filho quando o teu dia correu mal apenas porque ele tem de te ouvir e não pode ir a lugar algum.

Não permitas que use a sua frustração para te tratar mal.

Não aches que sabes tudo e permite-te aprender com ele.

Não lhe passes a sensação de que sabe tudo e que é mais que os outros.

Não o deixes comer tudo o que quer só porque assim é mais feliz.

Não o deixes deixar de comer o que precisa porque assim é mais feliz.

Não permitas que a televisão e os gadgets te substituam porque assim tens menos trabalho.

Não permitas que o teu filho use a televisão e os gadgets como substitutos dos outros com quem pode e deve relacionar-se.

Não obrigues o teu filho a falar do que o deixa desconfortável só porque és pai dele e tens de saber.

Não sejas tão ausente na tua vida do teu filho que o faças sentir que mais vale falar do que sente com os outros.

Não te deixes enredar pela falta de tempo, de paciência, pelo amor em excesso, pela culpa por não estares tão presente, por teres sonhado algo diferente para a tua prole.

Aconteça o que acontecer, não sejas esse tipo de pai. Procura o meio-termo. Por mais difícil que seja.

 

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Meu amor,

Não sabes que és fruto de um amor com mais de uma década, que começou com dois miúdos (um de dezanove e uma de dezassete anos) que não sabiam nada da vida mas sabiam que queriam ficar juntos – sim, esses miúdos com quem vives agora.

Não sabes como os astros tiveram de se alinhar e o pai e a mãe tiveram de crescer para estarem prontos para te receber – e ainda crescem todos os dias, contigo.

Não sabes como foste desejada e planeada, como a nossa vida recomeçou depois de teres nascido – um dia quente, uma noite mal dormida, poucas dores e depois tu no meu peito.

Não sabes que eras um bebé pequenino, sem espaço na barriga da mãe, e que tivemos medo porque ganhavas pouco peso de cada vez – e hoje és robusta, cresceste cá fora e que bom que é respirar de alívio.

Não sabes como era mágico ver-te dançar dentro da minha barriga, mesmo estando tão apertada – ninguém acreditava que com dezasseis semanas eu já te sentia, mas comunicámos sempre muito, só tu e eu.

Não sabes como és parecida com o pai e que já nas ecografias se adivinhava que eras a cara dele – se tiveres também o seu bom coração, o sentido de humor e optimismo então tens meio caminho andado para seres feliz.

Não sabes que a música que sempre te cantei quando estavas na barriga, que agora te faz sorrir instantaneamente é a música que cantava com o avô e que tem o mesmo efeito em mim – é uma das nossas coisas, só nossas.

Não sabes que o pai e a mãe são os melhores amigos um do outro e que isso faz toda a diferença porque nos conhecemos como ninguém – e um dia, se tiveres sorte, vais encontrar alguém assim.

Não sabes que todos os dias ultrapassas pequenos obstáculos, te desafias e que estás quase a gatinhar – é tão bom ver que não desistes.

Não sabes que essa impressão que sentes na boca é o teu primeiro dente a nascer e vais ficar abismada quando daqui a uns anos ele cair – e vais ficar linda desdentada.

Não sabes que o facto de acordares sempre a sorrir é um prenúncio de muitos acordares felizes que te esperam – espero que nunca mudes.

Não sabes que quando te mando ao ar e ris, nervosa, não te vou deixar cair – mas acreditas, confias.

Não sabes que há um mundo complicado e cheio de problemas lá fora – e ainda bem que és alheia a isso.

Não sabes que te vais apaixonar muitas vezes, ter a certeza de tudo, achar-te muito crescida e que nós não sabemos nada – todos nós o fizemos e, se calhar, vais ter de nos lembrar disso mesmo.

Não sabes o quanto vais errar – e só assim aprender.

Não sabes que vais sofrer por amor – e como depois tudo isso passa.

Não sabes como te vai custar perder amigos que achavas que eram para sempre – mas os que ficam vão fazer tudo valer a pena.

Não sabes como vai ser bom quando uma música ou um cheiro te fizerem viajar no tempo – viagens boas, viagens más, viagens…

Não sabes como é possível falar sem palavras – apesar de o fazeres todos os dias.

Não sabes o valor do perdão – e de como a vida é muito mais fácil quando deixamos o que não importa lá atrás.

Não sabes como é bom comer um gelado numa tarde de verão – mas pela maneira como comes a tua fruta adivinha-se que vais adorar.

Não sabes que vais amar muitas pessoas de formas muito diferentes – e que vai haver sempre espaço para todas.

Não sabes que vais sentir saudades e algumas vezes chorar por sentir falta de alguém – e que isso significa que esse alguém é ou foi muito importante para ti.

Não sabes como estarmos perto pode tranquilizar o dia mais agitado – o mais parecido é o que sentes quando choras e nos vês chegar ao pé de ti.

Ainda não sabes como o simples facto de existires torna o dia de tantos de nós mais feliz – pais, avós, tios, padrinhos, é só escolheres.
Não sabes como esperei toda a minha vida por ti.
Mas vais saber. A mãe encarrega-se disso.
Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

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DSC06662Ser mãe de uma rapariga é mais do que esperar ganchos com borboletas, purpurinas, saias rodadas e personagens da Disney a ocupar o sistema de som do carro.

Ainda que se advogue o contrário, a verdade é que os pais têm tendência para educar as raparigas e os rapazes de forma diferente. Pode ser de forma mais ou menos intencional, mas a verdade é que a diferença existe: nas tarefas atribuídas, na postura esperada, mais tarde nas permissões dadas nas saídas com os amigos, na tolerância em relação ao número de namorados. É um sem fim de diferenças. Os rapazes e as raparigas não são iguais, é um facto. E a procura pela igualdade de direitos muitas vezes confunde os deveres de cada um.

Ainda assim, há desafios que se colocam diariamente. Quando estamos grávidas e ainda não sabemos o sexo do bebé é quase impossível comprar roupa. As únicas cores disponíveis são azul-bebé e cor-de-rosa. Só para idades mais avançadas começam a haver outras cores. Há dias em que as pessoas têm de olhar com muita força para a minha filha para perceberem que é uma menina. “É uma menina?”, perguntam a medo. “Ah, pois, a mantinha é cor-de-rosa”. Porque se não fosse talvez se tornasse impossível perceber. E há ainda uma censura muito grande, pessoas que mordem a língua para não criticarem o facto de vestirmos um bebé com cor de laranja, ou por estar sempre de calças quando é uma rapariga. As críticas vão existir sempre. E as crianças, ainda mais ou menos alheias às críticas dos adultos, vão ser criticadas pelos seus pares. Sempre foi assim, sempre será. Se não for por usarem óculos é por serem baixinhos, altos, gordinhos, terem sardas, serem ruivos, terem voz fininha, não usarem ténis de marca. Todos passámos por isso, mas a sociedade evoluiu de tal forma que a pressão em cima das raparigas é enorme.

Esta geração preocupa-se com celulite (onde é que eu com onze anos sabia sequer o que era celulite?), maquilhagem (essa coisa longínqua que existia apenas na casa da minha avó materna e que usávamos para brincar), roupas e mais roupas (por mais que quiséssemos as roupas não eram tão acessíveis quanto são hoje).

As raparigas perguntam-se se são suficientemente bonitas, magras, se se vestem tão na moda quanto precisam para serem gostadas. Vejo isso à minha volta todos os dias. Algumas perguntam em voz alta, as restantes procuram em silêncio, com inseguranças crescentes e muitas vezes alimentadas em casa, pelos pais, em relação à imagem que passam para os outros.

Há miúdas de onze anos a maquilhar-se como adultas em dia de festa – para irem para a escola. Na televisão, nas revistas, nos filmes, a rapariga ideal é a rapariga sem defeitos físicos, é magra, sem borbulhas, está sempre a sorrir e com um cabelo impecável.

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Todas nós, mulheres, crescemos com esse ideal mais ou menos implementado – tanto é que são as mulheres as maiores críticas umas das outras: “já viste bem como aquela se deixou engordar depois do segundo filho?”, “A sério, mas ninguém lhe diz que aquela roupa é simplesmente horrível?”, “Ui, alguém não tem um espelho em casa, aquelas calças a marcar a gordura da cintura?”. E também há o oposto, claro. “Aquela passa tanto tempo no ginásio que já nem deve reconhecer os filhos”, “Lembras-te da nossa colega? Vi-a no outro dia e estava toda maquilhada, impecavelmente vestida… Quem é que tem tempo para isso?”. Se uma mulher é descontraída, é porque é desleixada, se usa roupa curta é porque não tem noção da idade ou do corpo e é oferecida, se se maquilha muito é porque quer chamar à atenção, se é simpática com os outros é porque é dada, se é antipática é porque tem falta de amor na vida.

Como mãe não quero que a minha filha se sinta inferior a alguém por causa do seu sexo. Não quero que sofra discriminação no trabalho. Não quero que seja rebaixada por um namorado que a faz sentir pouco merecedora de ser feliz. Não quero que duvide das suas capacidades porque a sociedade diz que o seu sonho é “coisa de homens”. Quero que perceba que foi percorrido um caminho enorme por gerações e gerações de mulheres. Quero que perceba que é uma privilegiada. Que há neste mundo raparigas e mulheres que não podem caminhar de olhar erguido, vestir umas calças de ganga, votar, estudar. Não podem dizer em voz alta aquilo em que acreditam, não lhes é permitido discordar. Há mulheres que passam uma vida inteira condicionada, mulheres cujos sonhos são automaticamente esmagados no momento do seu nascimento, por serem mulheres. Mulheres que são maltratadas, abusadas, feridas. E é neste mundo que ela vive. Um mundo onde os problemas das mulheres são vividos à escala. No nosso caso podemos considerar-nos sortudos, mas há ainda muitas conquistas a terem de ser feitas.

Não há maneira de preparamos um filho para estes desafios. Não há, é a conclusão a que eu chego. Podemos acompanhá-los, lembrá-los que o seu valor não está associado à forma como se vestem, à roupa que usam, à “beleza” que têm, àquilo a que acreditam, a quem amam, ao seu género.

Vão ter de passar por tudo isso sozinhos. Os rapazes também têm os seus dramas, é claro. Mas, por ser mulher, por se esperar de uma mulher uma perfeição que nunca existirá, sei que a minha filha tem um caminho pela frente em que terá de perceber que por mais que faça, por mais que lhe exijam, deve lutar por ser fiel a si mesma. Deve acreditar em si e não deixar que nada nem ninguém a faça duvidar daquilo que deseja. Porque ser mulher não é uma fraqueza, é uma característica. E como todas as características que temos, deve ser respeitada e abraçada. Só assim continuarão a existir no nosso mundo grandes mulheres.

 

Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

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Num dia tão solarengo como o de hoje, uma amiga que estava grávida ergueu os olhos e declarou: “nunca mais vou estar sozinha”.

Foi um misto de conclusão assustadora com um sentimento encantador. Era verdade na altura e será sempre.DSC06311

Sei que desde que a minha filha nasceu a minha vida mudou completamente. Todas as decisões que tomo têm de ter em conta não apenas a minha vontade, mas também as consequências que trarão para a vida dela. E é, de facto, assustador. Como podemos ter a certeza de que estamos a seguir o caminho certo? Uma pequena escolha pode determinar tanta coisa… Não sabemos, nunca saberemos, mas decidimos o melhor que sabemos, que conseguimos.

Ainda estamos a crescer. Ainda temos tanto para aprender e os nossos filhos são o veículo de uma das maiores aprendizagens. Vão fazer-nos pôr em causa as certezas absolutas que temos, aquilo que pensávamos em relação ao mundo e, tantas vezes, em relação aos nossos próprios pais. Tantas vezes ouvi a minha mãe dizer “filha és, mãe serás”. Hoje percebo-a como nunca e respeito e admiro todas as decisões que os meus pais foram tomando. Melhores ou piores, na altura tinham de ser tomadas.

Vou cometer erros. Vou ter mais paciência para umas coisas do que para outras. Mas espero que o saldo seja positivo.

Li algures que nada mata tanto os sonhos de uma criança como os seus pais. Temos de saber respeitar a criança que está diante de nós, que continuará a existir dentro do adulto que os nossos filhos serão. Perder a magia, perder os sonhos, é perder o rumo. Às vezes esquecemo-nos de brincar. Somos tão sérios que quebramos a proximidade com as crianças, fazemos com que cresçam no seu mundo, com que procurem outros abrigos. E é importante sermos o abrigo principal, sermos vistos como tal – mesmo que demore, mesmo que haja alguns anos em que parece que os amigos dos nossos filhos viraram a sua verdadeira família… Ou que essa função seja desempenhada pelas namoradas! É preciso dar asas para voar, manter as portas abertas, ser tolerante e forte, porque haverá alturas em que custa, em que não é fácil não ser a primeira escolha – mas todos passámos por isso enquanto filhos e é essencial que nos lembremos disso enquanto pais.

Um dia, quando a minha filha for crescida, espero que sinta que foi respeitada, ouvida, amada. Porque, mais ou menos presentes, faremos parte da vida uma da outra. Para sempre. E que bom que é.
Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

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Nove meses de barriga a crescer.
Preparas-te o melhor que consegues, sonhas, planeias, arrumas. O dia chega e tornas-te mãe.
O teu mundo vira-se de cabeça para baixo (uma tontura boa) e as prioridades são restabelecidas.
Lidas primeiro com as visitas na maternidade, depois em casa.
Lavas roupa de bebé vinte vezes ao dia, mudas fraldas, mal tens tempo de comer ou dormir, fazes um esforço para não falhar em nada e o tempo passa.
O bebé vai crescendo. Papas, sopas, pão. Senta-se, gatinha, sorri, bate palmas e gargalha.
Enche-te o coração, numa adoração crescente que nunca pensaste ser possível.
Sem saberes muito bem como dás contigo a ter de organizar o teu tempo de modo a encaixar festas de aniversário dos colegas da creche (como é possível que não haja um único fim de semana em que não se comemore um aniversário?), actividades extra curriculares, o ballet, a natação, o futebol ao sábado de manhã.
Organizas-te com o teu marido, quem faz o quê, quem leva onde.
Ajudas a fazer trabalhos de casa mesmo antes de os miúdos aprenderem a ler, depois acompanhas às aulas de inglês, ao karaté.
As máquinas de roupa continuam a existir e mesmo que tenhas ajuda tens tendência para dar um jeitinho à casa antes de a empregada chegar.
Na escola, tal como no médico, o teu nome é quase que apagado.
Desde aquele dia quente em que o teu filho veio ao mundo, passaste a ser mãe e é assim que te chamam. “Ó mãe, ela hoje comeu muito bem”, “Mãe, não se esqueça de trazer o fato de treino que na quinta-feira há a aula de ginástica”.
Levas os miúdos ao Jardim Zoológico, ao Planetário, ao Portugal dos Pequeninos, ao bailado, a concertos, aos museus, aos jogos de futebol, assinas a autorização para irem com a turma ao teatro.
Nem na pausa para café no trabalho as coisas são diferentes, há sempre uma colega a perguntar “quando é que vão ao segundo?”. Claro que se tiveres dois a pergunta vai aumentando até as pessoas se aperceberem de que não têm nada a ver com isso. Ou seja, nunca. E aquele colega que gosta de pôr o dedo na ferida: “Noite difícil com os miúdos, hã? Não estás com grande cara”.
Passas a ser mãe.
É assim que te vês, é assim que os outros te definem.
Vacinas, percentis, a roupa que parece deixar de servir num sopro, os pesadelos a meio da noite, as discussões entre os irmãos ou os dias em que estão em sintonia tal que se tornam “impossíveis”.
É fácil deixares-te levar. Mas há um facto que custa a aceitar: os miúdos sobrevivem sem ti. A sério.
Têm o pai (com sorte são uma dupla imbatível, mas mesmo assim gostas de ser tu a controlar tudo), os avós, os padrinhos, os tios, os amigos, os pais dos colegas.
Podem não estar tão bem vestidos, comer às horas que planeaste ou cumprir as tarefas como se estivesses presente, mas eles ficam bem. Tu talvez tenhas um pouco mais de dificuldade, mas também te adaptas.

Ler também Mãe Galinha ou Control Freak?

Aprende a delegar. Delega a ida às aulas de música, alguns banhos, a escolha da roupa, os passeios no domingo à tarde.
Tira um tempo para ti. Há quanto tempo não o fazes? Há quanto tempo não sais com os teus amigos para beber um copo? Dançar? “Ah, isso é tudo muito bonito, mas não tenho mesmo ninguém com quem os deixar”. É verdade, pode acontecer, mas aí…
Serve um copo de um bom vinho, liga a música no máximo e dança. Os miúdos que dancem contigo, se ainda não estiverem na fase de achar que tudo o que fazes os envergonha. Saltem para o sofá e dancem descalços. Parece mais possível assim?
Deixa as tarefas para depois, elas não vão a lado algum. Abre aquele livro que está a ganhar pó na mesa-de-cabeceira e lê.
Esquece um pouco o mundo, os problemas no trabalho ou como é que vais ajudar os miúdos a subirem as notas a Química.
Veste aquela roupa que te faz sentir bonita, põe um bom perfume, maquilha-te, se for algo que deixaste de fazer.
Valoriza-te. Não consegues encaixar tempo para ir regularmente ao ginásio? De certeza que arranjas meia hora para ir correr à beira-rio um dia ou outro. Ou levar a bicicleta que está a ganhar ferrugem na garagem.
Põe uns headphones, aumenta o volume da música e corre.
Sorri, sente o vento na pele, o sol a queimar, a chuva a deixar-te com pele de galinha.
Canta. Escolhe um filme e vai ao cinema. Janta fora com o teu marido.
Namora. Namora muito. Só os dois, sem interrupções de três em três minutos, pedidos de ajuda para cortar a carne, birra porque “odeio esse peixe, tenho sono, não quero mais”.
Conversem. Sem ser sobre os miúdos, para variar.
Chega a casa e olha-te no espelho. Procura-te. Afinal, continuas aí. Não deixes que o mundo te engula. Se fores mais do que apenas mãe todos ficam a ganhar. Tu, em primeiro lugar, os miúdos (“uau, quem és tu e o que é que fizeste à minha mãe?”), as tuas relações. Todas elas.

Há tempo para tudo, espaço para tudo e, por mais difícil que às vezes pareça, é importante não esquecer que continuas aí. E que fantástica que tu és.

(Fica aqui um enorme obrigada à minha sobrinha Leonor que, do alto dos seus dois anos, depois de ter conhecido a prima achou que “tia” já não servia para me caracterizar e passou a chamar-me Marta. Ajudou-me a não me esquecer de quem sou. Obrigada, meu amor).

 

 

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Há crianças que cresceram numa época em que um pai era apenas uma figura de respeito, autoritária e distante, a quem o afecto não estava associado. Não imagino o que é crescer sem o abraço do meu pai, sem passar a rua de mão dada na dele. A mãe que sou e serei é um reflexo do que aprendi com os meus pais. Sou um bocadinho de ambos, “bebi” algumas características e não podia deixar de lembrar algumas coisas muito importantes que o meu pai me passou:

  • Trata os teus filhos como pessoas

Não como seres de cristal que se partem à primeira desilusão. Os miúdos são fortes mas essa força trabalha-se e precisa de incentivo, caso contrário a insegurança acabará por se apoderar deles – quem nunca lidou com contrariedades terá muita dificuldade em crescer na vida.

  • Deixa-os cair, mas ajuda-os a levantar

Estar sempre lá (mesmo que seja depois de me ver ir contra um poste, coisa que aconteceu bastante quando era miúda, desastrada, e de ficar uns segundos a rir agarrado à barriga – desvalorizar os dramas ajuda bastante e a gargalhada é contagiante).

  • Mantém os miúdos perto

Na vida de adulto, depois de ter filhos, acho que o meu pai foi de férias sem nós talvez duas vezes. “Sacrificou” (ele não acha que o fez, naturalmente) paz e descanso para nos mostrar Portugal de norte a sul e vários países da Europa, parques temáticos, museus, paisagens inesquecíveis, praias e barragens. De carro e avião. Só fazia sentido se estivéssemos todos juntos. Hoje compreendo isso.

  • Confia

Dá-lhes as bases, os conhecimentos e depois a liberdade. Vê-os crescer com ela. Vi amigas mentir repetidamente aos pais para saírem à noite, para estarem em casas de amigos e depois com os namorados. Nunca tive de o fazer.

  • Sê um deles

O meu pai, ainda hoje, é mais jovem que qualquer um dos seus filhos – e somos três: de trinta e dois, vinte e oito e quinze anos. Faz piadas mais atrevidas, dança mais divertido, ri com mais vontade.

  • Protege-os

Não mascarando a realidade, mas estando por perto, sempre. A verdade é essencial, falar é essencial, ouvir ainda mais essencial é. Respeitar os “dramas” associados ao crescimento não é fácil quando essa vivência já vai longe, mas o meu pai sempre o fez. Mais ou menos impaciente, a puxar por nós, a querer que víssemos as coisas como elas são.

  • Está mais disponível do que um médico de serviço

Há quem diga que ser pai é um emprego não remunerado. E eu tenho a sorte de saber que posso pegar no telemóvel e encontrar o meu pai de imediato, seja a que horas for.

  • Ama

Ser um filho amado faz com que não faça sentido dissociar maternidade de amor. Amor nas escolhas, amor nos conselhos, amor nos gestos, amor nas reprimendas e chamadas de atenção, amor nas distâncias e na proximidade. Amor. Obrigada por isso.

Cresci a ouvir que sou a cara da minha mãe e, quando for grande, ainda quero ser como ela (não fisicamente, bem entendido). A ela devo o facto de ter escolhido o meu pai, meu amigo e companheiro de todas as horas. Seguindo-lhe o exemplo escolhi a melhor pessoa do mundo para ser o pai dos meus filhos (tenho um imenso orgulho no paizão que é).

Feliz dia do Pai aos três homens da minha vida: ao meu pai, ao pai da minha filha, ao meu mano mais velho, também ele um filho amado e, desde há dois anos e meio, um pai “amante”.

Marta Coelho
Para Up To Lisbon Kids®

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Todos os dias levo a minha filha à creche a pé. É um percurso de cerca de cinco minutos (que sorte), cinco minutos esses só nossos no meio da azáfama da cidade que acordou e das pessoas que correm para os empregos. Aproveito para lhe cantar ao ouvido, para a fazer rir, para lhe dar conselhos absolutamente dispensáveis (“aproveita para dormir bem nas sestas que hoje à noite acordaste muitas vezes”; “aprende uma música nova, amanhã vai saber-te bem reconhecê-la” ou “não arranques as meias dos pés do Pedro, por mais divertido que possa parecer, ele fica com frio nos amendoins, ok?”). No trajecto que fazemos passamos por dois infantários e duas escolas, tantos pais e tantas mães, muitos meninos e meninas. Tal como quando estamos prestes a ser mães e começamos a reparar que há muitas grávidas à nossa volta, o mesmo parece acontecer com as crianças. Ao fim de dois meses há caras muito conhecidas, pais que me cumprimentam… E duas crianças que marcam os meus dias. O primeiro menino é surdo. Tem os seus dois aninhos e caminha com a mãe, raramente a olhar em frente, porque vai comunicando com ela, tal como eu faço com a Mariana. Não consigo entender o que dizem, que conselhos ou histórias partilham, mas penso que nos seus dois anos de idade o menino não parece sentir os olhares inevitáveis que lhe vão lançando. É provável que já se tenha apercebido de que tem algo que o diferencia dos outros colegas. As crianças são cruéis, mas permito-me pensar: “desde que idade?”. Porque aos dois anos eles veem a diferença, podem verbalizá-la, mas só se incomodam com ela se os factores externos (muitas vezes, demasiadas vezes, os adultos) lhes derem razões para tal. Da minha parte digo à Mariana “agora temos de nos chegar um bocadinho para lá, vem aí o nosso amigo que também gosta das conversas com a mãe”. Porque ele parece gostar. E é diferente, sim, dos outros meninos que vão quase arrastados pelas mãos dos pais, que mal os olham, cheios de pressa para cumprir horários.

A segunda menina é um borbulhar de energia. Como leiga não sei explicar ao certo a sua condição, mas há algo no seu cérebro que a impede de ter memória a longo prazo. Porque todos os dias, sem excepção, quando nos vê diz à mãe: “olha, um bebé tão lindo, posso dizer olá?”. Tem treze anos, sei-o porque se orgulha de o dizer, e anda no terceiro ano. De todas as vezes fica encantada com as bochechas da Mariana, de todas as vezes se espanta por partilharem o mesmo nome. É sempre uma novidade para ela. A mãe pede-me desculpa, todos os dias, e todos os dias peço para não o fazer. Deve estar tão habituada a sentir que tem de pedir desculpa, que isso lhe dá um peso. Quando olho para a filha dela, vejo uma possibilidade infinita de novos começos. E é um bom começo quando diariamente ela se encanta com algo positivo.

Claro que deve ser cansativo, exasperador, mas… acredito muito na máxima que diz que Deus nos dá frio conforme a roupa. E acredito que aquela Mariana também deve ter sido embalada com histórias positivas e ensinada a reparar nas pequeninas coisas.

Ou talvez tenha vindo a ensiná-las à mãe. Dia após dia.

Queixamo-nos. Sentimo-nos cansados e perdidos. E poucas vezes gratos. Tento agradecer por aquilo que tenho, pela filha saudável e feliz que tenho comigo, mas acredito que podíamos ser mais agradecidos.

Levantar os olhos do nosso umbigo e agradecer as coisas boas. Pegar nas coisas más e aprender alguma coisa com elas.

Todos os dias aprendo alguma coisa e estes cinco minutos só nossos têm-me ensinado mais do que poderia prever. E tenho tanto para aprender, para depois lhe poder ensinar. Todos os dias. Até ao fim dos meus dias.

Por Marta Coelho, para Up To  Kids®

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Sinto que cheguei verdadeiramente à idade dos porquês. Vejo-te a dormir no berço e sei que não tenho todas as respostas para as perguntas que um dia me farás. O sentimento é estranho porque com os meus pais nunca tive dúvidas, eles sabiam tudo! Podia até perguntar por que é que a água do mar nunca acabava que o avô respondia com o seu ar de entendido e bom humor na ponta da língua e acalmava as minhas inquietações. A avó tentava perceber de onde surgiam as minhas perguntas e fazia-me sentir tão crescida… Contigo não sei se vou estar à altura. É um dos muitos medos que me assolam. Sei algumas coisas, mas mal arranho na matemática, que dirá na física quântica.

Esse sentimento do quanto somos pequenos nunca é tão grande como quando nos tornamos pais. Ali temos uma criatura indefesa, completamente dependente de nós e temos de estar à altura. Sei, no fundo, que as perguntas mais importantes não vão ser por que é que o céu é azul ou por que é que quando faz frio deitamos fumo pela boca. Mas, se insistires muito, peço-te que perguntes ao pai, ele é que é o sabido cá de casa. A minha ciência é a do coração e é com ela que te falo desde que nasceste. E, desde que nasceste, vejo-me a fazer tantas outras perguntas que acho que nem os avós me conseguem ajudar:

Por que é que as pessoas continuam a ter filhos, mesmo com a crise instalada e a guerra em tantos países do mundo?

Por que é que há crianças que nascem em famílias que não as desejaram quando tantas outras passam anos a fio a tentá-lo, sem o conseguirem?

Por que é que insistimos em tentar prever o futuro (“já consigo imaginar ginasta, já viste bem como mexe aquelas perninhas rechonchudas?”) quando a única coisa que temos como certa é que não o controlamos?

Por que é que não podemos ter todo o tempo do mundo para crescermos juntas? Tu a tornar-te uma rapariguinha e eu, agora sim, uma mulher?

Por que é que o tempo, depois de sermos pais, parece correr acelerado, cheio de pressa?

Não sei. Mas sei que vou dar tudo por tudo para que encontremos as nossas respostas, mesmo as que não queremos decifrar.

Quanto às outras… Mesmo não conseguindo antecipar o futuro, imagino que me vás colocar as perguntas mais difíceis do mundo e prometo que vou tentar não te desiludir.

Para que um dia possas dizer que a tua mãe sabia tudo (e jurar que as sardas que a tia tem junto aos olhos foram lá parar quando ela estava a ser desenhada e o desenhador espirrou, espalhando pedacinhos de tinta pela carita linda dela. Porque se a tua mãe disse, então é porque é verdade).

Por Marta Coelho, 
Para Up To Lisbon Kids®

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