Fui durante treze anos a irmã mais nova. Depois, passei a ser a irmã do meio, a posição privilegiada que tem a função de aprender mas também de ensinar em igual proporção, a única que pode dizer que tem irmãos mais novos e irmãos mais velhos!

De certa forma é como se já nem me lembrasse da fase em que não havia a minha irmã.

Foi com ela que aprendi que os bebés sorriem antes mesmo de terem dentes.

Foi a ela que ensinei a dançar em cima da cama.

Foi a ela que pedi vezes sem conta que me deixasse dormir mais um bocadinho. Ou que parasse de cantar para eu conseguir estudar.

Foram as lágrimas dela as que primeiro limpei, dizendo que ia correr tudo bem.

Foi a ela que ensinei muito rapidamente a pôr a mesa para me poupar essa tarefa.

Foi a ela que ajudei a fazer os trabalhos de casa.

Foi com ela que voltei a brincar com bonecas.

Foi com ela que passei “vergonhas” em sítios públicos quando dizia bem alto que tinha de ir à casa de banho.

Foi a ela que expliquei que os seus avós não eram meus avós, apesar de os outros avós serem avós de ambas.

Foi com ela que dormi as melhores sestas da minha vida.

Foi a ela que pintei as unhas de transparente com brilhantes – mas só para usar no fim-de-semana porque na escola não podia.

Foi nas festas da escola dela que me emocionei como se fosse minha filha.

Foi a ela que vi crescer e ter um discurso mais adulto que muita gente que conheço.

Foi dela que tive sempre o maior orgulho pela sua cabeça, pelo seu coração.

É com ela que falo de assuntos sérios, mesmo com os nossos treze anos de diferença.

É a ela que gosto de ouvir para perceber como algumas coisas são realmente diferentes das “do meu tempo” mas também como algumas coisas nunca mudam.

É a ela que digo para ter juízo.

Para respeitar os pais.

Para estudar.

Para ligar.

Para ler.

A quem empresto maquilhagem. E roupa.

É com ela que falo de músicas e de filmes. Que recomendo livros.

É a ela que vejo ser uma tia paciente, brincalhona, presente, divertida e adorada.

É com ela que me preocupo mais, enquanto a minha própria filha não cresce.

De quem espero receber uma mensagem quando sai à noite.

Que odeio ver com um coração partido. De quem me orgulho por seguir em frente com a cabeça erguida.

Que pede desculpa por esta semana não vir cá a casa.

Que é uma das melhores amigas que existem. E a minha melhor também.

Que tem uma memória de minhoca para muitas coisas, mas não se esquece das principais.

Que é a melhor companheira de férias.

A minha irmã mais nova é linda por fora e por dentro.

Foi o melhor presente que recebi na vida porque me ensinou a amar verdadeiramente. Porque é um presente que está na minha vida sempre. E para sempre.

E que sortuda sou por ser a irmã do meio!

Minha doce Mariana,

Como já percebes tão bem, tens a sorte de ter sete avós. Pois é, eu sei, parece um número pouco redondo e talvez exagerado para a importância desse parentesco mas foi uma das bênçãos com que nasceste. Cedo te aperceberás que nem toda a gente tem tantos avós assim e farei o meu melhor para te explicar o conceito de família moderna em que a nossa se insere e para que seja o menos complicado possível para ti. Porque o amor, este amor de que te falo é dos mais simples que existe. Ainda antes de nasceres já ele crescia de uma forma um pouco incompreensível nos teus avós, testemunhas de uma barriga que demorou um pouco a crescer e com a qual tinham alguma dificuldade em conversar. Mas o amor, esse, brotou no momento em que cada um dos teus avós soube que deixaria de ser apenas pai ou mãe de alguém para passar a ter mais essa responsabilidade neste seu caminho. Incrível o milagre de sentimentos que um ser que mal tem forma provoca em alguém, não é? Todos fomos esse milagre um dia, minha querida, e um dia poderás experenciar por ti própria este amor.

Tive o privilégio de ter os meus quatro avós perto de mim até bastante tarde. Mas em apenas três anos vi dois deles partirem e deixarem a minha vida mais incompleta. Parte-me o coração saber que a avó J. e o avô S. nunca te pegarão ao colo, como fizeram comigo tantas vezes. Como não terás a oportunidade de os conheceres, deixa-me falar-te um pouco deles.

O bisavô S. tinha o dom da palavra, muito por causa da sua profissão (vocação) e um coração de criança que nunca cresceu. Era ele quem nos torcia as orelhas com um sorriso maroto nos lábios, nos fazia rasteiras, foi ele que nos fez provar a todos – a mim, ao tio e aos primos – vinho tinto muito antes de ser altura para isso. Digamos que 15 anos antes, para teres a noção do brincalhão que ele era. Era também o homem mais vaidoso que alguma vez conheci – e bonito também. Se fechar os olhos consigo vê-lo entrar em casa à hora de almoço e sentir o cheiro de Old Spice que anunciava a sua chegada. Não imaginas as saudades que sinto dele. Conduzia terrivelmente e metia um medo horrível à bisavó, que lhe gritava para travar a dez metros do carro da frente. E ele obedecia. Não sabia viver sem ela. Era ela que lhe preparava tudo, desde a agenda que usava no dia-a-dia, ao prato de sopa que só tinha de aquecer no microondas se chegava mais tarde. Ele era tão desajeitado com as tecnologias que a bisavó lhe colou um post-it na parte de trás do telemóvel com o pin, o puk, a referência multibanco e o próprio número de telemóvel. Consegues imaginar o absurdo? Adorava praia e passámos muitos Verões na casa que ele e a bisavó têm no Baleal. Com ele rezava-se sempre antes da refeição e se estivéssemos num restaurante rezar poderia perecer um incómodo e por isso ele preferia que… cantássemos! Não existia! E nós, miúdos de 15 anos, passávamos a que pensávamos ser a maior vergonha da nossa vida e hoje quando nos juntamos gostamos de cantar essa mesma música e a vergonha não está lá. Só o amor da recordação. E as saudades. O bisavô S. ficou doente depois de se reformar, ou melhor, o facto de ter deixado de trabalhar deixou-o doente e isso deu-nos a oportunidade de nos irmos despedindo dele. Como se isso fosse possível…

A bisavó J. apesar do seu metro e sessenta, tinha um coração do tamanho do mundo. O pouco que tinha era para os outros e fazia questão de dar pequeninas lembranças aqui e ali, com tanto cuidado e dedicação que era incrível. Chegava a fazer marcadores de lugares para colocar na mesa dos restaurantes quando o bisavô fazia anos e jantávamos fora. Se, já em adulta, ia almoçar com ela e o bisavô, fazia um banquete com entrada, marisco, prato principal e sobremesa, só com os meus pratos preferidos. Gosto de acreditar que herdei dela esse gosto de fazer algo pelos outros mas estou a anos-luz de ser tão atenciosa como ela. Orgulhava-se dos nossos bons modos. Enchia o peito quando, em miúdos, estávamos com alguma das suas amigas e dizíamos “não tem de quê”. Foi ela que me ensinou a rezar antes de dormir, coisa que nunca mais deixei de fazer. Era na casa dela que havia o pote dos rebuçados a que eu e o tio corríamos assim que lá chegávamos. Era ela que fazia os melhores caracóis do mundo. Era ela que nos preparava pão-de-leite com fiambre e néctar de pêssego para o lanche quando o tio e eu íamos passar uns dias de férias com ela e o bisavô ao escritório. Nunca gostou de praia, mas enquanto os filhos foram crianças não falhou um Verão. Por eles. Nem quando adoeceu e ficou no hospital deixou de se preocupar com os outros. Se lhe ligava a avisar que ia passar por lá para lhe dar um beijinho, pedia para passar na pastelaria e comprar uma sandes e um sumo para o bisavô. Porque se fosse ela a dizer para ele comer, ele dizia sempre que não tinha fome. E estava certa. Eu chegava com o lanche, o bisavô aceitava e comia e bisavó piscava-me o olho, agradecida. Não cheguei a despedir-me dela porque acreditava piamente que ia ficar boa, mas na última vez em que nos vimos abracei-a com força. Já tinha aprendido com o bisavô S. que não podemos deixar para depois.

Os bisavós que ficaram e que tiveram a sorte de te conhecer não têm as caras metades com eles. Vejo a felicidade que sentem quando percebem que já sabes dar beijinhos e lhos dás a eles e o jeito com que dizes “bú” para chamar a bisavó se ela por acaso está a olhar para a televisão em vez de te ver dançar. Espero que possas conhecê-los, que estejam cá muitos anos para te ver crescer mas deixa-me contar-te também dois segredos sobre eles: a bisavó F., independente e muito à frente para o seu tempo, aprendeu a conduzir sozinha e durante 13 anos conduziu sem carta de condução! O bisavô A. quando namorava com a bisavó J. tinha de escolher entre ir ao cinema ou levá-la a lanchar porque o dinheiro não dava para as duas coisas. Pediu ao chefe para lhe dar dois dias de folga quando se casou, ele prometeu que falariam em breve e… até hoje nunca os gozou.

Desculpa se te macei com tanta informação, mas não posso deixar de te dizer de onde vens. É esta a tua herança… Pede ao pai que te conte sobre os avós dele, também tem histórias bonitas para partilhar contigo.

Cresci com os meus avós por perto e isso moldou a minha forma de ser. E é por isso que o pai e eu fazemos tanta ginástica para estares com os teus.

Porque com eles por perto serás uma pessoa melhor, mais rica.

Daqui a uns anos serás tu própria a dizer-me se tenho ou não razão…

Ah, e filha? Aproveita-os bem, abraça-os tantas vezes quanto puderes, liga-lhes para saber deles, deixa-os saberem de ti.

Confia na mãe, vai valer a pena.

imagem@akkarbakkar

Meu amor,

Acredita quando te digo que te conheço como ninguém. Sei de cor os teus traços, o teu cheiro, as tuas reacções antes mesmo de as teres… E os teus sons, que são universais, mas tão teus, tão nossos.

Sei perfeitamente que quando oiço o som da borracha das tuas pantufas, naquele compasso acelerado, é porque o pai chegou e vais ter com ele a correr ao corredor.

Conheço o arrastar do banquinho que agora levas contigo para todo o lado e significa sarilhos: porque estás a tentar chegar às bolachas, ao fogão, à cómoda e consequentemente à minha colecção de brincos.

Adivinho que estás a brincar com as tuas bonecas no quarto ao lado sem te ver, porque oiço o restolhar das fraldas que fazes questão de ir buscar para lhas tentares colocar.

Não preciso de olhar para ti para ter a certeza que estás a dançar, pela forma como bates com o pé direito no chão, ao mesmo tempo que moves as mãozinhas no ar.

Sabias que tens um riso diferente para o pai? Consigo perceber quando te ris de uma brincadeira que ele faz ou se estás apenas a divertir-te com os teus livros e bonecos.

O bater do teu coração quando adormeces ao meu colo e te deixas levar pelo cansaço de mais um dia? É uma melodia harmoniosa com a tua respiração, primeiro regular, depois um zumbido.

Domino a forma como adormeces, mas também a forma como acordas. Sei, mesmo que ainda esteja em piloto automático na madrugada, se choras porque tens fome, se te destapaste, se estavas a sonhar e te assustaste ou se acordaste com a tua tosse insistente.

Já sei que posso esperar um “tshhh” que acompanha as festinhas que fazes, principalmente quando estas servem para pedires desculpa por algo;

O “hum” que serve para mostrar que estás à procura de alguma coisa, como se ela estivesse constantemente a esconder-se de ti aprendeste-o comigo e nunca mais te esqueceste.

Conheço as gargalhadas que dás a dormir.

Adivinho o “não, não, não” que fazes a imitar-me quando te dá a vontade de ir brincar com o carregador do telemóvel.

Sei que posso esperar soluços depois de um ataque de cócegas, porque quando ris durante muito tempo não consegues escapar-lhes.

O “ah!” de espanto que fazes quando nos deparamos com bandos de pássaros, todas as manhãs a rasgar o céu, à chegada à creche é quase ensaiado. Todos os dias os vemos, todos os dias te fascinas.

Quando finges que estás a chorar, coisa que aprimoraste com o pai, numa brincadeira só vossa, sei bem que estás impecável e que com esse choro há um olhar que sorri.

O som maravilhoso que fazes quando dás a provar um bocadinho de cenoura crua à tua boneca e imitas o que seria o seu mastigar é inigualável.

E há o silêncio. Quando estás em casa e não há barulho é sinal de que estás a fazer asneiras. Minto, muitas vezes estás concentrada a brincar sozinha, mas outras tantas essa brincadeira tem elementos proibidos, que vais buscar sabe-se lá como e onde. O silêncio a meio da noite também me acorda, como nos teus primeiros dias. Aí, o meu subconsciente acordava-me, ou não me deixava ter um sono pesado, para me certificar que estavas bem (tantas vezes significava ver se estavas a respirar.) … Hoje acordo quando durmo mais horas seguidas do que estou habituada e fico em sobressalto, preocupada por não me teres acordado.

Ainda assim, há um som que é o meu favorito.

“Mãe”.

Mesmo que repetido cerca de trezentas vezes até que me desloque até onde estás para ver por que é que me chamas tão insistentemente.

Mesmo que seja o som que me rouba dos sonhos todas as noites quando queres que vá ter contigo ao berço porque acordaste.

Mesmo que se torne um “mamã” quando te queixas de alguma coisa ou queres mimo, ou estás particularmente mais carinhosa.

– “Mãe”.

Três letras.

Eu. Tu, porque sem ti não o seria.

O melhor som do mundo.

Sem dúvida.

Nos dias que correm parece-me correcto dizer que a culpa é o nome do meio da maior parte dos pais.

Sentem culpa porque trabalham demais, porque estão cansados demais, porque perdem a paciências vezes a mais do que gostariam, porque sentem que não estão tão presentes quanto deveriam.

Este facto faz com que tantas, mas tantas coisas que acontecem sejam atribuídas exactamente à falta de tempo, ou paciência, ou por aí fora.

No outro dia, no jardim com a minha filha, cruzei-me com uma mãe que tinha uma menina mais velha que a minha. A menina, de cerca de dois anos e meio ou três, quando via a minha filha a querer subir para o escorrega ou para o baloiço dizia “é meu!”. A mãe chamou-a várias vezes à atenção, com cuidado e sensibilidade e conversou um pouco comigo. Explicava-me que aquilo se devia ao facto de ela e o pai da menina se terem separado recentemente, de esta estar uma semana com cada um e de estar a receber mimo extra. Pedia desculpas, estava a tentar encontrar a melhor maneira de gerir tudo aquilo porque, dizia, “são muitas emoções, muitas mudanças, mas quem errou fomos nós, não ela. E somos nós que temos de fazer com que ela cresça bem. Mas não podemos deixá-la ficar perdida entre uma casa e outra, a achar que pode tudo só porque agora é uma espécie de vítima desta situação”. Ainda que nada tivesse a ver com o assunto, achei que devia dizer alguma coisa. Achei que aquela mãe precisava de conversar, mas acima de tudo de ouvir que estava no caminho certo. E foi o que lhe disse, que me parecia que estava a fazer as coisas equilibradamente, mas… E aqui ela olhou-me com algum receio. Senti que devia dizer-lhe que todas as crianças passam pela fase do “é meu”. Que é natural, que têm de passar por ela para perceberem que o mundo se espraia para além do seu umbigo e que apesar de serem muitas vezes o centro do mundo de alguém, este mundo maior que está à sua volta não ser curva perante eles. E esse “é meu” passará a ser um “também é meu, é nosso”. Com calma, com tempo, com acompanhamento.

No fundo, aquela mãe estava a culpar-se por algo que não era, em absoluto, culpa sua. Baralhava uma fase do desenvolvimento da filha com uma consequência de uma mudança na sua vida. E fazemos muitas vezes isso. Demasiadas vezes. E é por isto que acho que é importante conversar. Partilhar experiências, vivências, sem as impor. Passar informação. Opiniões. Sem julgar. Ajudar, deixar ajudar. Ouvir.

Porque muitas das vezes o problema não somos nós, são mesmo os outros. E esses “outros” podem ser muitas coisas.

Estamos a fazer o melhor que sabemos e podemos.

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E tal como não devemos sacudir a culpa para as outras pessoas também não devemos apropriar-nos dela por termos algo menos bem resolvido.

É essencial procurar uma vida de meios termos, de equilíbrios.

Para nosso bem, para bem dos nossos filhos. Eles serão pais no futuro. Que possam dizer que são uma versão nossa melhorada.

imagem@weheartit

Lembro-me como se tivesse sido, efectivamente, ontem os primeiros passos da minha irmã. Deu-os comigo, numas férias de Verão passadas em Espanha. Recordo com a mesma intensidade as tardes passadas a brincar no quarto, a dançar em cima da cama, a apanhar ondas na praia, o choro dela quando no final do fim-de-semana me ia embora. Temos treze anos de diferença e já se passaram mais que esses anos desde que ela nasceu.

No outro dia ela deitou a cabeça no meu colo, no mesmo colo onde cabia inteira e agora já não consigo recebê-la. E concluí: o tempo voa. Somos hoje duas mulheres, mais maduras e com mais certezas, certamente com mais dúvidas. Somos hoje mais do que éramos há mais de uma década. Porque o tempo voa mas aprendemos a voar com ele.

De nada adianta ficar a olhar para trás e a pensar como ele passou, correndo o risco de ganhar um torcicolo e deixar passar o que está a acontecer agora. Do mesmo modo, ficar em aflição porque o tempo corre em inversa proporção ao que necessitávamos, nada nos traz. Minto, pode trazer-nos, mais do que essa aflição, um nível de stress desnecessário, porque acelerar o nosso ritmo para não perder pitada, para tentarmos ultrapassar um tempo que não pára para o recebermos de frente faz-nos viver no futuro. E o presente está mesmo aqui. A pedir para ser vivido.

O tempo pode voar, mas nós voamos com ele. Já o disse? Reitero, porque não somos o que éramos ontem e ainda estamos longe de atingirmos o que seremos amanhã.

Os nossos filhos saboreiam o tempo de uma maneira muito menos racional e muito mais real. Não se preocupam com o facto de ele estar a escapar-se por entre os dedos, aproveitam-no. Sabem que algures no dia lhes vão dizer para lavar as mãos, tomar banho, vestir o pijama, ver os trabalhos de casa, jantar, lavar os dentes. Mas o que os separa do momento em que estão do que vai acontecer é o agora. E eles sabem vivê-lo.

Deixar de estar constantemente a espreitar os emails, a consultar o relógio no pulso, em suma “desligar”, é essencial.

Todos os dias aprendemos com os nossos filhos.

Antes que chegue o dia em que eles próprios sintam que têm de se tornar escravos do tempo porque é isso que vêem nos adultos, cabe-nos a nós viver como eles.

Viver com eles este tempo precioso que é o agora.

Porque ele não volta.

E é responsabilidade nossa sentir que todos os “agoras” que constituem a nossa vida foram bem vividos.

Por um futuro melhor.

imagem@flickr

Os nossos filhos são humanos.

E isso significa que erram.

O que fazem com esse erro é responsabilidade deles mas, até que sejam capazes de o fazer por si mesmos, é uma responsabilidade nossa.

Grande parte dos pais poderia dizer que os “defeitos” dos seus filhos são demorar muito a responder quando os chamam para vir para a mesa, deixarem a mochila no chão quando chegam da escola, beberem leite directamente do pacote ou nunca substituir o rolo do papel higiénico quando o usam até ao fim. Até aqui tudo certo mas que ser humano tem apenas estas características negativas? Ninguém é perfeito e se alguns pais pecam por minimizar as situações há também os que tendem a transformar a mais pequena coisa numa calamidade a nível mundial e a tratar os filhos com a chamada rédea curta, demasiado curta para que possam usar as ferramentas certas para não voltarem a cair nos mesmos erros. Por si.

Mas não é destes pais que escrevo hoje. Nem dos filhos destes pais.

Falo dos filhos que tudo têm para ser felizes, saudáveis, educados e responsáveis e mesmo assim não o são.

Falo dos filhos que, apesar de isso ser algo absolutamente contrário à sua educação, são expulsos das aulas dia após dia (coisa que os pais desculpam porque tal acontece devido ao colega do lado que se comporta mal e que os faz rir), dos filhos que não almoçam em casa como os pais pensam (e porque pensariam outra coisa se lhes ligam para casa e eles não atendem mas atendem o telemóvel e advogam que o telefone anda sempre perdido pela casa e não o conseguiram encontrar a tempo de atender a chamada), falo dos filhos que mudam de roupa assim que chegam à escola, assim como o penteado e a maquilhagem que passa de inexistente a brutal.

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Estes filhos têm pais de vários tipos, bem sei, mas quero referir-me àqueles que tendem a fechar os olhos e a desculpar o que eles fazem de errado. Porque a culpa nunca é deles. Porque a professora embirra, porque calhou estarem numa turma problemática, porque o mundo não vê como estes miúdos são especiais e lhes aponta o dedo. Pode até ser verdade, mas fechar os olhos ao comportamento, não lhe dar o devido acompanhamento, faz com que os miúdos se sintam perdidos.

Perdidos porque ainda estão a tentar perceber quem são e se desafiam os professores para serem expulsos e a consequência desse acto é passarem-lhes a mão pelo pêlo isso acaba por os confundir e, a longo prazo, fragilizar. Se não sabes quem és mas estás a testar um lado teu mais negativo e os teus pais te dizem que és perfeito vais sentir que não és nem uma coisa nem outra. E vais sentir que consegues enganar os teus pais tranquilamente e isso dá-te uma aura de vitória mas também de desgosto, porque no fundo sabes que se eles acham que só te consegues comportar bem então por que é que te comportas tão mal?

Quando um pai não vê um filho por aquilo que ele é deixa de ser um porto de abrigo. Deixa de ser alguém que é procurado em alturas de crise. Deixa de ser alguém a quem pedimos desculpa. Porque ele não entende. Nada sabe. Não nos conhece. Muitos adolescentes passam pela fase de repetir este mantra mas é saudável quando sentem que isso acontece porque há um gap geracional. Porque é isso que os separa dos pais – o tempo que passou entre os pais serem adolescentes e serem pais. Não dialogam porque não se entendem, mas é melhor um não diálogo em que se diz o que realmente se sente e pensa do que um diálogo que nunca tem oportunidade de existir porque “está tudo bem”. Sempre.

Falo como filha. Falo como mãe. Falo como testemunha de alguns casos que tenho à minha volta e que me preocupam. Porque sem comunicação, seja ela o mais mínima que for, há muitos problemas que não são detectados. E o tempo aqui é de ouro.

Acha que conhece os seus filhos?
Quando teve a última conversa sincera com eles?
Ouviu-os verdadeiramente?
Tem a certeza do que acontece quando sai de casa e os deixa livres e soltos no seu tempo?
Está a pensar que também fez das suas, que os seus pais também nunca sonharam com muitas das coisas que fez e isso não fez de si alguém perdido no mundo?
Ainda bem. Tenha é a certeza que daqui a alguns anos o seu filho vai poder dizer o mesmo.

Os nossos filhos são humanos.

Erram.

E precisam de nós.

Precisam que não desistamos deles.

Precisam que os vejamos por quem são.

Precisam que lhes demos a mão.

Da melhor maneira que soubermos.

Que hoje ao jantar se construa uma conversa ou se comece a construir um diálogo. Porque ele é sempre rico. E é também nos silêncios que aprendemos a perceber aquilo que nos escapa e a que temos de nos dedicar mais.

Porque os nossos filhos são humanos.

Erram.

E nós também.

 

imagem@weheartit

Reza o ditado que há três coisas que não voltam atrás: a flecha lançada, a palavra dita e o tempo perdido.

É cultural, temos o hábito do diz que disse. Mas será que alguma vez parámos para pensar no que acontece quando falamos sobre algo ou alguém que não conhecemos? Ou mesmo sobre alguém que conhecemos, é um facto. Quando propagamos histórias que não vivemos ou testemunhámos? Será que alguma vez considerámos as consequências que esse acto, que parece inocente e simples, pode causar?

Uma mentira repetida muitas vezes passa a tornar-se verdade. A imagem que temos sobre uma pessoa ou um acontecimento é automaticamente moldada pela informação que temos sobre ambos. Ou pela informação que nos dão. Ou lemos. E em que acreditamos, muitas vezes sem questionar. É esse o peso das palavras.

A verdade é que há vários níveis da chamada “fofoca”, as personalidades públicas sofrem bastante com elas, mas também no nosso pequeno mundo há efeitos. Se as nossas crianças nos ouvem falar sobre alguém vão apreender o que estamos a dizer. É bom que o que estamos a dizer seja verdade. E seja apropriado para os seus ouvidos. Porque eles imitam o que ouvem e o que vêm fazer. E serão eles a espalhar o que ouviram ou simplesmente a ter uma imagem sobre alguém baseada naquilo que lhes disseram. E mais crescidos falarão sobre isso, espalharão factos e não-factos com a facilidade de um sopro. É esse o peso das palavras.

Não o fazemos por mal, mas fazêmo-lo. O meu pai costumava perguntar, quando nos via a falar de alguém: estavas lá? Ouviste? Viste? Então não fales.

Como sempre estava certo.

Já tive a oportunidade de ver de perto o que o diz que disse pode fazer a uma pessoa. Pessoa essa perfeitamente correcta, capaz, profissionalmente exemplar, mas sobre quem se tinha vindo a passar, à boca pequena, histórias sobre uma reunião em que tinham sido ditas “coisas”. Eu estava lá. Vi em primeira mão e sei o tom, sei o que foi dito e o que provocou o que foi dito, qual foi a resposta que foi dada. O que saiu cá para fora foi apenas uma das partes. Descontextualizada. Que condenou a pessoa em causa a ser desconsiderada profissionalmente com base em informações que ninguém se deu ao trabalho de confirmar. E na maior parte dos casos é isso que acontece. É esse o peso das palavras.

Fala-se muito de bullying e ele existe em todo o lado e é perpetrado de várias formas. Hoje falamos sobre o filho de alguém, amanhã poderá ser o nosso filho a vítima do falatório. Pelos motivos mais simples, ou por motivos mais complexos.

Quando andava na escola secundária houve um caso de uma rapariga que se zangou com a melhor amiga. Esta decidiu vingar-se dela e criou um perfil falso numa rede social da época, com fotos impróprias (outra coisa que devemos, até à exaustão, ensinar os nossos filhos a não fazer, a saberem proteger-se), que era alimentado com mentiras, em que a vítima era ofendida e ofendia os outros. A rapariga teve uma depressão, deixou de aparecer na escola, teve de ter acompanhamento para voltar a sair de casa sem se sentir um alvo. Sem se sentir completamente invadida. Sem se sentir maltratada. Hoje, mais de dez anos depois, acredito que ainda deve lutar contra esses demónios. Não deve conseguir confiar em ninguém à primeira. E se a primeira pessoa que teve acesso ao perfil falso o tivesse denunciado para que fosse apagado nada disto teria acontecido. Mas a corrente foi alimentada, foram partilhadas as fotografias, foi-se espalhando o terror.

Se ensinarmos as nossas crianças a pensarem antes de falar, a medirem as consequências do que dizem e fazem, a falarem verdade, a questionarem o que ouvem, teremos um mundo melhor. Mas teremos nós, pais, de aprender a fazê-lo também, para o podermos ensinar convenientemente.

O diz que disse é cultural.

Irá sempre existir.

Até ao dia…

imagem@weheartit

Querida filha,

Mais uma vez me dirijo a ti na calma dos dias, pensando naquilo que viverás, à distância do tempo que não controlo.

É-me permitido imaginar, até planear, mas tenho plena noção de que o teu futuro a ti pertence. Que a pessoa que serás terá a minha influência naquilo que conseguir para te tornares boa, decente, correcta, feliz, mas no restante estarei sentada na plateia a assistir ao espectáculo que vais dirigir com aquilo que te dei, mas principalmente com aquilo que farás do que o mundo te der e fizer de ti.

Seja como for há coisas que, inevitavelmente, vais experienciar. Boas e más.

Vais fazer planos e ter a certeza absoluta daquilo que queres e ver a vida fazer-te mudar de direcção uma e outra vez.

Vais ter várias conversas com o espelho. Farei os possíveis para que o teu reflexo seja sempre algo positivo.

Vais conhecer muitos professores, para grande parte deles serás apenas mais um aluno na lista, mas se tiveres sorte conhecerás aquele que reconhece a tua luz e puxa por ti para que a deixes brilhar.

Vais sentar-te na melhor cadeira do melhor cinema e, mesmo assim, ter alguém atrás de ti que se esquece do telemóvel ligado durante a sessão, que insiste em cochichar num volume obsceno, que te dá pontapés nas costas constantemente ou que come pipocas de boca aberta depois de demorar cerca de vinte intermináveis segundos a encontrá-las no fundo do balde. Ou todas as anteriores.

Vais desejar que não te estejam sempre a perguntar como está a correr a escola, e as notas como vão ser. Ou pelos namorados. E aquela amiga que deixaram de ver lá por casa (e que, como é óbvio já não é tua amiga!).

Vais desejar ter mais tempo para fazer praticamente tudo: dormir, fazer os testes, estar com os amigos, namorar, viajar, estar de férias.

Vais perguntar-te sobre o que é certo e o que é errado e por que é que as pessoas insistem em ver tudo em preto e branco quando o mundo tantas vezes tende a ser cinzento.

Vais assistir a violência e perceber o que isso desperta dentro de ti.

Vais querer ver menos os teus pais até que quererás vê-los mais vezes.

Vais lembrar-te para sempre da tua primeira conquista plenamente consciente.

Vais arrepender-te de ter usado o dinheiro da mesada naqueles ténis que querias tanto, mas que só tinham no número abaixo do teu e compraste na mesma.

Vais sentir-te injustiçada uma série de vezes até que a tua maturidade te permita olhar o mundo com outros olhos e te faça ver como tens sorte em estares rodeada das pessoas que estás e de viveres no país onde vives.

Vais olhar para as matérias da escola e acreditar que nunca na vida irás pô-las em prática – até que isso aconteça diariamente quase sem dares por isso.

Vais continuar a pedir desejos às estrelas cadentes, mesmo quando já não tiveres idade para isso.

Vais apaixonar-te uma e outra vez, de várias maneiras, por várias pessoas e achar que não vais recuperar de um coração partido, até estares outra vez apaixonada e achares que daquela vez nem contou porque agora é que é.

Vais entrar no mar à noite mesmo contra todos os avisos dos teus pais.

Vais emocionar-te com coisas simples.

Vais redescobrir memórias há muito escondidas dentro de ti.

Vais desiludir-te de morte com os outros e algumas vezes contigo mesma.

Vais ter amigos brutais e outros que ninguém vai perceber o que têm em comum.

Vais usar roupa que mais tarde te envergonhará.

Vais achar que estás sempre esquisita nas fotografias ou que aquela que a tua mãe insiste em dizer que adora é simplesmente horrível.

Vais fazer promessas que deixarás por cumprir.

Vais levar uma tampa.

Vais dar algumas tampas.

Vais quebrar regras.

Vais ouvir bons conselhos. Vais ouvir maus conselhos. Vai chegar a altura em que não vais ouvir conselhos de ninguém. Mais tarde serás tu a dar conselhos.

Vais viver muitas coisas que eu vou ver, algumas que me vais contar, tantas que eu nem sequer sonharei e outras tantas que não estarei por perto para assistir. Espero que a lista tenha maioritariamente coisas boas.

Que se um dia escreveres uma lista desta aos teus filhos haja alguns itens que se possam riscar. Se bem que acho que o comportamento das pessoas no cinema vai ser uma constante. Não é defeito do ser humano, é feitio. No cinema, como na vida, tudo se resume a uma escolha. Que pessoa queres ser? A que dá pontapés na cadeira da frente ou a que se senta confortavelmente e assiste ao seu filme sem perturbar ninguém?

Só o tempo o dirá, minha querida.

E que o tempo seja bom para ti.

Um beijo,

Mãe.

Dizem-nos, ao longo da vida, que para sermos felizes devemos olhar em frente. Projectar no futuro, planear e trabalhar no sentido de alcançar aquilo a que nos propomos.

Não tenho nada contra essa máxima, mas tenho uma característica, talvez se possa tratar mesmo de um defeito, de olhar bastante para trás. Ajuda-me a ver de onde parti, o que vivi, o que aprendi e sem essa espreitadela metódica que vou fazendo aqui e ali parece-me difícil programar o que está por vir.

Lembro com muito carinho, e bastante saudade, a minha infância. Tenho memórias tão boas que gostaria que pudessem ser revividas hoje, sempre que eu quisesse. De certa forma é isso que faço quando as revisito.

Lembro-me de estar debaixo dos cobertores, de manhã cedo, antes de ir para a escola e beber o meu biberon com Nestum aquecido ainda de pálpebras pesadas.

De dançar com os meus pés pousados nos pés do meu avô e olhá-lo cá de baixo sem perceber como é que alguém podia ser tão alto.

De o meu outro avô me torcer a orelha para se meter comigo, sem nunca me magoar, e isso ser a coisa mais divertida de sempre.

De ver o meu pai engraxar os seus sapatos com uma dedicação incrível aos sábados à tarde enquanto dava o hóquei na dois.

De ao domingo almoçarmos bacalhau depois de ver a Fórmula 1.

De irmos andar de bicicleta ou de patins a Belém sem pressas.

De esperar que o telefone de casa tocasse a avisar que não havia escola porque estava a nevar – e esse dia nunca chegou.

Dos dias que íamos passar ao escritório dos meus avós, nas férias escolares e dos lanches que nunca me souberam igual: pão-de-leite misto com néctar de pêra.

De fingir que estava a dormir quando chegávamos de um jantar fora de casa só para me levarem ao colo.

De estar na cozinha enquanto a minha mãe cozinhava e contar-lhe todas as aventuras do dia – e acrescentar ponto atrás de ponto.

De escrever postais nas férias e muitas vezes regressar antes de estes serem entregues nas respectivas moradas.

De esperar ansiosamente pelas sextas-feiras para poder ver mais um episódio dos Ficheiros Secretos.

De encher o quarto de posters dos meus ídolos.

De gravar cassetes directamente da rádio e ouvi-las até à exaustão.

De me pintar com a minha prima e fazermos espectáculos para a minha avó com as músicas que estavam na berra na altura.

De admirar as unhas dos pés da minha outra avó, que estavam sempre impecavelmente pintadas e sonhar com o dia em que poderia fazer o mesmo.

De roer as unhas às escondidas e de as pessoas me dizerem que não se notava nada porque não tinha os dedos cabeçudos.

De perguntar “falta muito?” quando estávamos a caminho de algum lugar muito desejado.

De jogar à bola com o meu irmão no corredor. E andar de skate. E vê-lo a jogar ao guelas. E ouvi-lo reclamar porque eu perdia as vezes todas quando jogava Sega. E porque não sabia cantar em inglês as músicas que passavam no rádio e mesmo assim insistia em cantá-las.

De ver as provas de natação do meu irmão e ficar desejosa de partilhar os queques e as pipocas doces que lhe davam no final.

De ler os livros da Sophia e ficar fascinada com aquela dança de palavras, com a melodia das histórias que cresciam dentro de mim.

De ir ao circo e maravilhar-me com os trapezistas.

De subir à árvore antes da catequese e conseguir sempre não arranhar os sapatos nem estragar a roupa.

De ir à praia no Baleal e andar de bicicleta sem rodinhas.

Lembro-me destas e de tantas, tantas outras coisas.

Lembro-me também de não ver esforço nos meus pais. Não se esforçavam para termos programas, não se esforçavam para nos fazerem felizes, não se esforçavam para termos o que fazer. Simplesmente as coisas aconteciam naturalmente, sem forçar nada, só porque assim é que deve ser.

É assim que quero que a minha filha veja a sua infância. Como algo bom, positivo, que desperta saudades. Em que nada foi forçado, em que o amor existiu naturalmente.

Sempre.

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Mais do que resoluções de ano novo, acho mais gratificante fazer uma retrospectiva do que fica agora para trás.

Há um ano já era mãe, mas era mãe de um bebé de quatro meses e meio. Tanto mudou que parece que passou meio século.

Vi a minha filha aprender a sentar-se, a gatinhar, a agarrar objectos, a divertir-se a conhecer novos sabores. Hoje é difícil segurá-la quieta, quase voa, vê em tudo uma brincadeira e transformou-me numa pessoa mais séria e mais divertida. Em igual proporção.

Há um ano eu não sabia muitas (demasiadas) coisas. Hoje sou melhor pessoa, melhor mãe, melhor mulher.

Descobri que é possível amar cada dia mais mesmo quando achamos impossível o nosso coração esticar mais um milímetro que seja.

Descobri que tenho muitos mais defeitos e tanta, mas tanta vontade de melhorar – e de esconder melhor aquilo que não consigo mudar e que é negativo para mim e para os outros.

Que é possível conciliar as tarefas mais inusitadas – como manicure fresca, lavar um ou dois pratos com o verniz a secar e ainda acudir ao bebé que está a chorar no berço – e ficar com as unhas impecáveis no final.

Que perguntamos muitas vezes as mesmas coisas pela delícia de ouvir vezes sem conta a mesma resposta.

Que ouvir “mamã” a meio da noite não me dá vontade de arrancar os cabelos – pode até fazer com que percorra a casa de cabelo desgrenhado e em piloto automático, mas com o coração mais quente.

Que as rotinas são essenciais para as crianças, mas também nos sabem bem a nós – por exemplo, entre a creche e a nossa casa há três paragens obrigatórias, faça chuva ou faça sol: primeiro o banco da paragem de autocarros (que era rasteiro ao chão e a minha filha adorava sentar-se e chegar com os sapatos à pedra da calçada), segundo a tampa de saneamento que está no passeio antes da nossa última curva e que tem centenas de estrelas em relevo (as coisas que inventamos para os entreter são de outro mundo), e que é um verdadeiro céu debaixo dos nossos pés, e o canteiro das flores roxas e vermelhas – a delícia da Mariana, que se despede delas com beijinhos e mil acenos. Se, por algum motivo, não fazemos este percurso, é como se faltasse alguma coisa ao nosso dia.

Descobri também como o tempo é precioso. E não o tempo de descanso, que o corpo acaba por se habituar, mas o tempo que temos entre mãos para dividir por tudo o que temos para fazer – e aqueles a quem queremos dedicá-lo.

Que muitas dúvidas, com esse precioso tempo, se transformaram em certezas. Outras certezas deram lugar a factos mais sensatos e outras ficaram mais aprofundadas. E novas dúvidas surgem todos os dias, para que o ciclo nunca se interrompa.

Que quero continuar a fascinar-me com a minha filha sempre, em todas as fases. Que não quero perder o rasto de quem ela é, de quem ela eventualmente se tornará. Porque ela faz de mim uma pessoa melhor pelo simples facto de existir e eu quero retribuir essa dádiva que ela é – respeitando a sua individualidade, o seu espaço, o seu tempo, o seu crescimento e intrometendo-me apenas naquilo em que possa contribuir de forma positiva.

Ora aqui está a minha resolução, no final das contas. Para 2016 e para o resto das nossas vidas.

A mais um ano de aprendizagem, de tanto amor, de todos os sonhos.

Mãe.

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