Nisto do amor (como se fosse uma coisa simples e definitiva), as coisas mudam muitas vezes.

Quando nos apaixonamos. Quando percebemos que afinal não era bem amor, que agora é que é (e que daquela(s) outra(s) vez(es) nem contou). Quando encontramos pessoas que nos fazem amá-las de uma forma não amorosa. Quando conhecemos sítios e culturas novas. Quando encontramos a casa dos nossos sonhos. Quando somos tios, ou padrinhos de uma criança, quando os nossos amigos têm filhos. Quando somos pais de um bebé.

Definir o amor seria uma tarefa demorada, bastante relativa e ainda mais redutora, mas há quem, tendo chegado à parte de ter filhos, se esqueça dos outros amores que sentiu – e deveria continuar a sentir.

A gestão do tempo é complicada e ter um filho requer uma entrega gigante, nunca ninguém o negará, mas este amor, este viver com o coração fora do peito, não pode nem deve obliterar o restante amor que existe nas nossas vidas.

Há pessoas que passam a ir trabalhar a olhar para o relógio, ansiosos que chegue a hora de voltarem para perto dos rebentos, há pessoas que quase se esquecem que precisaram do companheiro para que aquele bebé ali estivesse. Há pessoas que deixam, pura e simplesmente, de ter amigos. Nos casos mais extremos, as pessoas esquecem-se de se amar a si próprias.

Amar um filho é reaprender a amar. É não conseguir compreender como é que tanto amor cabe dentro do peito… como é que esse amor, não se repetindo, também não se divide quando chegam outros filhos.

Mas tal como o amor materno e paterno é elástico, também todos os outros níveis de amor o são. E têm de ser nutridos, alimentados ou desaparecem.

Os nossos filhos, se tudo correr bem, estarão sempre lá. Mas chegará a altura em que voam. E vai saber bem ter alguém ao nosso lado para os ver voar, seja um companheiro, sejam amigos. E vai saber ainda melhor perceber que mesmo tendo eles voado, nós continuamos a existir na nossa plenitude. Porque nos lembrámos de nos amar. Porque não nos esquecemos de distribuir o amor à nossa volta.

Às vezes precisamos de nos lembrar disto e abrir um pouco a roda. Para deixar chegar perto quem nunca deixou de ali estar.

Para o bem deles.

Para o nosso bem.

O amor, essa dádiva, chega para todos.

Todos já ouvimos, num ou outro momento, a expressão “ colhes o que semeias ”. É válido para quase tudo da vida, excepção feita às injustiças que por aí se multiplicam.

Se sairmos de casa irritados porque estamos atrasados, teremos muito menos tolerância para a pessoa que parece andar em câmara lenta a atravessar a estrada em frente ao nosso carro, ou àquele carro que não nos deixa entrar na faixa nem por nada.

Também com os filhos, em muitas ocasiões é assim. Somos, em muito, energia. E energia positiva cria energia positiva.

Se estivermos sem paciência, naturalmente os nossos filhos vão sentir isso mesmo e “provocar-nos” mesmo que sem se aperceber.

Se não estamos disponíveis para eles é quase certo que vão chamar a atenção e, maioritariamente, de forma negativa. Sabem que assim olharemos para eles, nos daremos ao trabalho de ir ver o que se passa, chegar perto, falar.

Se acordam mal dispostos da sesta a nossa maior prova de amor é tentar que essa indisposição passe. Brincando, rindo, distraído ou, muitas vezes, dando-lhes espaço para resolverem o que os está a perturbar ou deixá-los recuperar por si mesmos. Se, ao invés disso, nos deixarmos absorver pela má disposição e perdermos nós o bom humor, avizinham-se horas difíceis, em que tudo é uma chatice, em que fazem asneiras atrás de asneiras, em que queremos puxar os cabelos de tão desesperados nos sentimos.

Amor gera amor.

Paz gera paz.

Um sorriso provoca outro sorriso.

Procurarmos estar zen mais vezes traz a paz a nossa casa.

Para a próxima vez que estiver numa altura difícil tente lembrar-se de como gosta que lidem consigo quando se sente frustrado. Ou irritado por qualquer motivo. Aja com os outros e, principalmente com os seus filhos, como gostaria que os outros agissem consigo e com eles na sua ausência.

A serenidade é um estado de alma mas pode ser trabalhado para ser um modo de vida.

Baixe o tom da conversa.

Não se ria das fragilidades do seu filho.

Não o acuse.

Não seja implacável.

Pratique a paz de espírito.

Se lhe passar esta lição hoje, então pode esperar o mesmo tratamento da parte dele.

Agora e no futuro.

Seja o melhor exemplo que ele pode receber – mais tarde orgulhar-se-á da pessoa em que ele se tornou.

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Com três letrinhas apenas nos referimos ao ser mais complexo e completo do Universo.

A mãe consegue rir e chorar ao mesmo tempo devido a uma mesma emoção quando confrontada com uma proeza de um filho.

Só uma mãe entende o risco que é pintar as unhas em casa, à noite, depois de deitar um bebé. Aprendemos a rezar baixinho para que se aguente pelo menos até à segunda camada estar seca – mas não somos tão exigentes que vamos logo pedir que haja espaço temporal para a aplicação do brilho…

A mãe é enciclopédia, motor de busca, banco, amiga, depósito de segredos.

É capaz de fechar os olhos a uma asneira para não dar cabo de uma tarde perfeita. É incapaz de deixar passar uma injustiça.

É leoa, tigre, elefante, galinha – dependendo da ocasião.

É consultora de moda e, se a genética e os gostos assim o permitirem, mais tarde ou mais cedo tem o roupeiro atacado pelas filhas. E olhar crítico dos filhos em relação a uma ou outra roupa.

A mãe inventa histórias, canta canções, reaprende a matéria da escola quantas vezes for preciso.

Preocupa-se com as horas: de deitar, de comer, do banho, mais tarde com as horas de sair, de chegar a casa. Com os amigos, os namorados, os professores.

Só uma mãe acorda a meio da noite a jurar a pés juntos que ouviu um bebé chorar. Mesmo quando o seu dorme como um anjo ou já não é tão bebé assim.

Estranha se tem a casa de banho toda só para si.

Estranha se não a chamam de cinco em cinco minutos.

Estranha se há demasiado silêncio.

Estranha se acorda só com o despertador.

É estranha quando partilha isso com quem não tem filhos.

Compreende melhor, com mais ou menos julgamento, a sua própria mãe.

Lembra-se de todas as datas das etapas importantes, até que estas se misturam e já não sabe dizer com certeza se foi de um filho ou de outro.

Tem a sorte de aprender todos os dias.

Tem a responsabilidade de ensinar todos os dias.

Não pode simplesmente decidir que quer mudar de vida e arriscar. Mas já não faz mal.

Porque as mães gostam de ter raízes.

As que elas próprias plantaram.

As que elas regam diariamente.

As que um dia as regarão a elas.

Ser mãe nunca acaba.

Como o amor de uma mãe por um filho.

 

Feliz Dia da Mãe para todas as mulheres que têm o privilégio de o ser (força e coragem para as que tentam) e para as que têm sorte de ainda a ter – ainda que saibamos que o dia da mãe, esse sim, é todos os dias.

 

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História da receita:

O tempo que temos é curto e passa a correr. A seguinte receita procura devolver alguma normalidade ao caos, lembrar que por muito pouco tempo que se tenha, às vezes temos de o usar melhor. Só saímos a ganhar.

Receita de 60 minutos para ser feliz

Ingredientes (para famílias pequenas ou numerosas):

– Disponibilidade q.b.

– Atenção

– Muito amor

– Sentido de humor moderado

 

Dificuldade: Fácil/Moderada

 

Tempo: Acessível

 

Preparação:

Esta receita está dividida em três partes iguais de vinte minutos. O ideal será que consiga conciliar as três diariamente. A ordem apresentada é apenas uma sugestão.

 

Primeira parte:

Converse com o seu companheiro sobre o seu dia. Nada de televisão ligada, nada de consultar o telemóvel de dois em dois minutos para ver o e-mail, nada de ter o tablet na mão, nada de “deixa cá ver o que é que os miúdos estão a fazer que estão muito calados”, nada de falar sobre problemas. Converse apenas. Partilhe algo engraçado sobre o seu dia. Não se queixe do trabalho nem do tempo que perdeu no trânsito nem a birra que o mais velho fez quando o proibiu de sair com os amigos por causa das notas. Só importam vocês.

Se não tiver companheiro, vale fazer uma vídeo chamada para a amiga que imigrou, ligar à sua mãe (relembre que o tema problemas é proibido), conversar com o seu irmão. O que importa é que fale, converse, partilhe o seu tempo com alguém, alimente as suas relações. Diariamente.

 

 

Segunda parte:

Dedique tempo ao(s) seu(s) filho(s) – Ajude-o a resolver o trabalho de casa, oiça o que ele tem a dizer sobre o seu dia, sobre o que aconteceu com os amigos, deixe-o contar uma piada e ria-se pelo esforço que ele fez (provavelmente inversamente proporcional ao nível da graça), brinque com ele sem ralhar nem lembrar que deixou os legos espalhados, a televisão ligada na sala, demorou imenso tempo no banho ou custou a comer a sopa. Este momento é para ser vivido numa bolha. São vinte minutos de puro amor. Aproveite-os.

 

Terceira parte:

É chegada a altura de se dedicar a si. Não se esqueça que são vinte minutos em que não deve preocupar-se com mais nada.

– Tome um banho demorado sem ser interrompida;

– Veja parte do episódio da série que começou a seguir em 2013 (é muito mais emocionante ver os episódios repartidamente, aumenta o suspense, não é?);

– Pegue no livro que tem na mesa-de-cabeceira e dedique-lhe a sua total atenção;

– Olhe-se ao espelho e veja quem lá está, converse com ela sem críticas;

– Adormeça no sofá sem culpa;

– Passeie com o cão pelas redondezas para fumar aquele cigarro da semana e ver a vista da cidade à noite;

– Todas as anteriores, se for capaz e se for importante para si.

 

Nota:

Para servir basta apenas um sorriso no rosto… E agradecer as coisas boas que tem – de certeza que encontra umas quantas.

Já tem meio caminho andado para ser feliz.

Eu vejo-te
Não me limito a olhar para ti, vejo-te.

Já tive a tua idade, treze anos, e sei como tudo o que sentes é exacerbado em duzentos por cento.

Há dias em que acordas e estás triste, sem saberes porquê. Quando chegas ao pé das tuas amigas pensas que sem elas não serias ninguém, porque foram elas que alegraram o teu dia.

Não te apercebes da forma como te tratam, como se devesses estar agradecida por poderes dizer que és amiga delas. No fundo, é o que sentes, porque elas são populares e falam de uma maneira confiante e não se envergonham dos seus corpos nem têm as borbulhas chatas que teimam em pontuar o teu rosto.

Gostas delas, mas principalmente gostas que gostem de ti. Não tens a oportunidade de experenciar esse gostar muitas vezes. Em casa amam-te, mas não se lembram de to dizer. (Eu digo-to sempre no teu aniversário, mas pensando bem também eu falho, porque não é suficiente. Em trezentos e sessenta e seis dias, um dia não chega. Vou melhorar, prometo. Porque gosto mesmo muito de ti).

Quando te olhas ao espelho vês uma série de coisas que não adoras. Não te demoras nos teus olhos, redondos e grandes, com um tom de castanho raro. Não te apercebes da forma dos teus lábios, que é sublime quando sorris. Só vês a dificuldade em desembaraçar o teu cabelo e não as ondas que se formam de maneira tão natural.

Para te sentires melhor “cobres-te”. Com roupas que as tuas amigas aprovam e os rapazes reparam (mesmo que te deixem desconfortável na maior parte das vezes), com maquilhagem que não deverias usar porque não é para a tua idade (e porque não precisas dela), com os últimos ténis de marca que toda a gente usa. Com essa “embalagem” sentes-te mais segura, consegues calar por momentos as vozes que estão dentro da tua cabeça e que te dizem que não és bonita o suficiente. Que não tens um corpo desejável. Que ninguém quer estar ao pé de ti se usares uma t-shirt comprida e o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo. É bom lutares contra essas vozes, mas tudo o que fazes é superficial. À noite tiras do corpo esse peso todo que transportas e é contigo que tens de dormir.

Sabes que mais? Tenho mais dezassete anos que tu e vejo as coisas de outra maneira. Não é fácil, mas tu consegues.

Livra-te dessas amigas que inferiorizam os outros com base nos seus “defeitos” (a ti incluída, se prestares atenção), volta a dar importância à escola, onde sempre te saíste tão bem e agora pareces fazer questão de que seja ao contrário, aprende a ver-te. E a gostar de ti. Terás sempre coisas que não gostas tanto. Aprende a viver com elas, porque vão estar sempre aí. Quando não forem essas serão outras.

Sei que tens dificuldade em falar. Achas que os adultos não te compreendem (provavelmente porque quando falaste não te ouviram com a atenção que merecias), mas não guardes para ti tudo aquilo que pensas. Escreve. Num caderno ou num blogue. Ninguém precisa de saber que és tu. Mas deita cá para fora. E depois lê o que escreveste. Vais aprender coisas sobre ti. Vais dar valor a algumas coisas e corrigir a maneira como vês outras. Vai ajudar, prometo. Se te sentires com coragem escreve uma carta à tua mãe. Diz-lhe o que pensas. O que gostavas que fosse diferente. A forma como ela pensa estar a ajudar-te e não está. Ela também precisa de saber e só tu poderás dizer-lho. Ouve-a mais vezes, ela tem o coração no sítio certo, mas não sabe como chegar a ti.

Sonha, não tenhas medo de sonhar. Mas acima de tudo, sonha pela tua cabeça. Pensa naquilo que realmente desejas. Tu, não o que os outros esperam que desejes, não o que achas que os outros vão querer ou esperar de ti.

Pode não parecer, mas eu vejo-te, não me limito a olhar para ti.

Tens um longo caminho pela frente e vai ser tão bom. Juro.

Vais ser muito feliz… Aconselho-te a começar agora!

(Nota: esta é uma carta para uma menina que vi crescer dentro da barriga da mãe, ser criança e entrar aos trambolhões na adolescência. É uma carta para alguém que está perdido e que não o reconhecendo não deixa ninguém aproximar-se. Faço o exercício que lhe aconselho, escrevendo. Pode ser que alguma coisa lhe chegue ao coração. Tenho a certeza que sim…)

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O nosso amor tem espaço para a novidade mas não se importa nada com a mesmice das rotinas.

Surpreende todos os dias porque cresce, aconteça o que acontecer.

É repleto de beijos e abraços, mas sei que nem sempre procurarás o meu colo.

Guardo todos os nossos momentos numa memória que extravasa o disco rígido a que chamamos cérebro porque haverá alturas em que as memórias serão aquilo que nos apaziguará as saudades.

Sinto saudades tuas por mais absurdo que seja e faço-te saber disso.

Não sinto ciúmes e sei que sentes amor por outras pessoas e isso é bom (tão bom!).

Aproveito, mesmo que ensonada, quando é a mim que chamas porque sou eu quem tem a oportunidade de te abraçar a meio da noite e sussurrar-te ao ouvido como és amada.

Zangamo-nos e eu ralho, mas depressa volta tudo ao devido sítio. Não guardamos rancores, só guardamos o que é bom e que nos faz bem.

Limpo as tuas lágrimas e evito que vejas as minhas.

Às vezes surpreendes-me com carinhos que não foram pedidos e esses são os que sabem melhor.

Ensino-te o que sei e deixo-me aprender contigo.

Conversamos e conversamos e conversamos.

Dançamos juntas e cantamos sem música de fundo. (Enquanto não te sentes ridícula a fazê-lo. Comigo).

Conheço todos os teus amigos e eles conhecem-me, como devia ser em todas as relações. Dou-te espaço para que a nossa não interfira na vossa.

Faço-te rir e o teu sentido de humor enche-me o peito.

Passeamos e conhecemos sítios novos.

Não nos cansamos uma da outra.

Tenho orgulho em ti e isso deixa-me sentir também um pouco de orgulho por seres minha filha.

Conhecemos os gestos uma da outra.

Conversamos sem palavras.

Contrario-te. Faço-te crescer. Digo muitas vezes sim mas também digo não.

Porque nunca te vou dar tudo aquilo que queres mas tudo farei para te dar tudo aquilo de que precisas.

É este o nosso amor.

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Dizem que ser mãe muda tudo. Na verdade, a maior parte das coisas à nossa volta permanece exactamente na mesma – nós e a nossa percepção do mundo e da realidade é que mudam.

A maternidade, no fundo, é uma aprendizagem: em relação a nós, à nossa família alargada, à família mais restrita que estamos a criar.

Coisas que uma mãe aprende…

Aprendemos afectos. Os que nos foram negados, os de que nos fomos esquecendo, aqueles que sempre nos rodearam. Tornamo-nos um poço de afeição mais ou menos contida.

A visão dos problemas dá uma cambalhota e aprendemos a dar prioridade ao que realmente importa.

Verbalizamos o amor de outra forma. Vemos o amor de outra forma. Sentimos o amor de outra forma.

Aprendemos a deslocar-nos pela casa totalmente às escuras, como ninjas, em direcção ao berço dos nossos bebés.

Tomamos como adquirido que os «Parabéns» podem ser considerados a canção preferida de uma criança.

Não conseguimos escapar ao facto de que toda a gente (e aqui é mesmo toda a gente, desde a prima em segundo grau que vemos apenas no Natal ao porteiro do prédio) tem uma opinião a dar. E um conselho grátis também.

Sentimos a dor de outra pessoa como se fosse a nossa. Contemos as lágrimas quando há algo que provoca as lágrimas dos nossos filhos, por eles tentamos ser mais fortes… e tentamos mostrar que não faz mal ser também frágeis, de vez em quando.

Aprendemos que é mais importante estar do que ser.

Que gostamos que elogiem os nossos filhos. Que mexe connosco quando são os outros a repreendê-los.

Aprendemos a ser mais ambivalentes. A dormir menos e a fazer mais.

A fazer ginástica mental, financeira, criativa, física.

A brincar como se tivéssemos outra vez três anos.

A ensinar coisas que não nos lembramos de ter aprendido.

A descobrir-nos dentro de quem sempre fomos.

Aprendemos que o tempo é mais valioso que qualquer fortuna do mundo.

Que os tempos mudaram e há muita coisa que não se faz da mesma forma, mas que o amor de mãe nunca muda.

Compreendemos que mesmo que aprendamos tudo temos tudo para aprender.

E ainda bem.

Não estamos sozinhas nesta viagem.

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Tens quinze anos, cabelo castanho claro curto e uns olhos lindos que engolem o mundo.

Ontem, quando te dirigias para casa passaste por um casal de adolescentes como tu que estava a discutir. Seguiste o teu caminho até que ouviste as palavras que o rapaz chamava à rapariga. Detiveste-te. Olhaste para trás e viste como lhe segurava o pulso com tanta força que faria qualquer um chorar. Ouviste a rapariga a pedir baixinho que ele parasse mas ele não estava a vê-la, estava furioso.

Eu e a minha filha estávamos um pouco mais afastadas, e só me apercebi que se passava alguma coisa porque ela gelou quando as palavras subiram de tom e se agarrou às minhas pernas. Estava com medo. Não está familiarizada com a violência. Teve a atitude típica para alguém com um ano e meio. Peguei nela e aproximei-me com calma, a tentar perceber o que estava a acontecer. Tu estavas ainda mais calma que eu, com metade da minha idade. Pedias ao rapaz que soltasse a namorada porque estava a magoá-la. Ele disse-te para não te meteres. Respondeste que não podias. Chamou-te um nome. Respondeste que não te conhecia, que não eras nada disso e disseste-lhe o teu nome: Laura. E que largasses a rapariga. Ele voltou a si e olhou em volta, percebendo que toda a gente o olhava. Soltou-a. Envergonhou-se e disse que estavam só a discutir. Não olhou mais para a namorada e foi-se embora. A rapariga começou a chorar baixinho. Disseste-lhe que já estava tudo bem. Ofereci-lhe água e ela abraçou-te. Disse obrigada. Que ele não era assim, mas que às vezes ficava irritado. Sabiamente aconselhaste-a a procurar alguém que não se irritasse com ela e muito menos que a magoasse. A rapariga disse que gostava dele e que ele tinha muitas coisas boas. Que… Não a deixaste terminar. Disseste que ela é que sabia. E chegou a tua mãe. Quis perceber o que se passava. Dei-lhe os parabéns pela filha que tinha. Quando lhe contaste o que fizeste fiquei com a sensação que não te bateu apenas porque estavas rodeada de pessoas. Proibiu-te de voltar a fazer tal coisa. Entre marido e mulher não se mete a colher. Tentaste ripostar mas a tua mãe não deixou. Levou-te dali pelo braço, a dar-te o maior sermão de sempre. O que é que tinhas na cabeça?

Por favor não te atrevas a ouvir a tua mãe.

Sabes que mais? Ela, tal como a minha filha, tem medo. Medo que te metas numa situação perigosa, com alguém que não tenha respeito pelos outros e te magoe também. Eu entendo-a e deves entendê-la e ter cuidado. Mas não deixes de ajudar quem precisa.

Isto aconteceu em Lisboa, num final de uma tarde igual a tantas outras. E acontece demasiadas vezes, e em grande parte ninguém vê. Ou não quer ver.

Está na hora de mudar a mentalidade que aquela mãe nomeava: entre marido e mulher não se mete a colher. É por isto que tantas vítimas continuam vítimas. Porque os vizinhos sabem, ouvem, mas não fazem nada. Porque há na polícia quem receba as queixas mas não lhes dê seguimento. Porque há assistentes sociais que têm conhecimento mas permitem que o agressor permaneça perto das vítimas. Nem todos viram a cara, há quem faça um trabalho extraordinário, mas ainda há demasiadas pessoas que se escusam de agir. (Nota: tanto polícias como assistentes sociais têm as suas tarefas dificultadas e há verdadeiros heróis, que felizmente são a maioria. Aqui refiro-me às excepções, àqueles que por motivos de várias ordens não conseguem fazer o seu trabalho como deveriam).

Ler também Carta aos adolescentes

E está na hora também de ensinar aos nossos filhos que os tempos mudaram e as mulheres procuram a igualdade (de direitos, quando é que entendem de uma vez?) mas isso não significa que se deva esquecer a máxima: a uma mulher não se toca nem com uma flor. E está na hora de ensinar as nossas filhas a valorizarem-se. A afastarem-se de quem as oprime, as rebaixa, as faz sentir que não são merecedoras de um tratamento humano. Porque é disto que se trata. Ensinemos isto e ensinemos também os nossos filhos a não se deixarem usar por aquela rapariga de quem gostam há tanto tempo e que finalmente reparou neles (e lhes saca os apontamentos e os goza e embaraça quando estão em público), de ensinar as nossas filhas que ninguém é mais que ninguém, que não devem maltratar os rapazes só porque podem e isso lhes aumenta o ego.

A violência no namoro, permito-me dizer, passou a ser algo considerado normal. Porque eles se irritam (culpa delas, claro), porque elas não têm paciência (eles olham demasiado para as outras miúdas) e as relações se baseiam no controlo tanto psicológico como físico. E na violência. O respeito escasseia.

Ler também Violência Juvenil em casais de namorados – bates forte cá dentro.

É nosso dever dar as ferramentas aos nossos filhos para não serem vítimas. Para se conseguirem libertar de situações em que não devem estar, a pedir ajuda, se não conseguirem sozinhos. É nosso dever dar educação aos nossos filhos para que não se tornem agressores, seja em que forma for.

É nosso dever incentivar os nossos filhos a ajudar, a denunciar. A ter cuidado, sempre, mas a nunca calar situações de injustiça.

Querida Laura, o que a tua mãe te queria dizer era: foste tão corajosa! Que orgulho eu tenho de ti. Mas tem cuidado, porque pode não correr sempre bem.

Cuida de ti, Laura. E continua a ajudar os outros. Pode ser que um dia tenhas mesmo de ajudar a tua mãe. E aí ela vai perceber: como mesmo tendo medo te ensinou para seres mais e melhor.

E, Laura?

Não te atrevas a ouvir a tua mãe.

Que essa tua coragem nunca se apague.

Tenho orgulho de ti.

Elogio aos pais.
É chegada a altura de aplaudir os pais.

  • Os que sabem que não existem apenas para “ajudar” a mãe quando ela precisa.
  • Os que voltam a ser crianças perto dos filhos.
  • Os que nunca descem da pose mas são os maiores pais que há.
  • Os pais que brincam e se sujam.
  • Os que não deixaram de ser quem são depois de terem sido pais.
  • Os pais que ficam cansados mas depressa recuperam.
  • Os que ficam na ronha com os filhos ao sábado de manhã.
  • Os pais que aproveitam o sábado de manhã para ir andar de bicicleta com os filhos.
  • Os que ensinam.
  • Os pais que explicam e não se escusam com o “não ias perceber”.
  • Os que reconhecem que não sabem tudo.
  • Os pais que são solteiros e se desdobram em mil para que nada falte.
  • Os que são separados e se desdobram em mil para que nada falte.
  • Os pais que estão juntos e se desdobram em mil para que nada falte.
  • Os pais que ouvem Panda e os Caricas no carro porque isso deixa a prole feliz.
  • Os que fazem questão de ouvir rádio no carro para a prole ter contacto com todos os tipos de música.
  • Os pais que ajudam a fazer os trabalhos de casa.
  • Os que estão longe e do longe fazem perto.
  • Os pais que estão perto e aproveitam essa sorte.
  • Os que não deixam as más ou boas relações com a mãe interferir no tipo de pai que são.
  • Os pais que não ofendem os filhos nem os culpam pelos seus erros.
  • Os que sabem pedir desculpa.
  • Os pais que erram, mas que tentam ser melhores.
  • Os que têm sentido de humor e se divertem com as traquinices dos filhos.
  • Os pais que sabem vestir os filhos com as peças de roupa a condizer.
  • Os pais que vestem os filhos como se tivessem tirado a roupa do roupeiro às escuras.
  • Os que incentivam os filhos a chegar mais longe.
  • Os pais que sabem reconhecer que os seus filhos não são perfeitos.
  • Os que sentem orgulho dos filhos e lhes dizem.
  • Os pais que sentem orgulho dos filhos mas só o demonstram sem dizer.
  • Os que inventam histórias na hora de ir dormir.
  • Os pais que sabem os nomes das princesas dos desenhos animados.
  • Os que trauteiam a música dos ”coloridos” ou da “ovelha choné”.
  • Os pais protectores.
  • Os que deixam os filhos cair para aprenderem.
  • Os pais que repreendem os filhos.
  • Os que sempre sonharam ter tantos filhos quanto jogadores numa equipa de futebol.
  • Os pais que nunca quiseram deixar um legado e se surpreendem todos os dias.
  • Os pais que não desistiram quando tiveram um filho com algum tipo de doença ou deficiência.
  • Os que tiveram medo no princípio mas depois perceberam que o medo só os tornava humanos.
  • Os pais que tiveram sempre tudo sobre controlo e hoje percebem que não controlam nada.
  • Os pais que dormem bem.
  • Os que não conseguem dormir bem.
  • Os pais que sabem a sorte que é poder dar banho, dar jantar, estar presente.
  • Os pais que são pais.

Seja de que forma for.

Feliz dia do Pai!

Ao meu pai, ao pai da minha filha (de nada, querida), ao pai da minha sobrinha (que calha ser meu irmão).

A todos os pais.

Fecho os olhos e consigo voltar àquele momento, no quarto da maternidade, em que éramos só nós as duas. Tu ainda mal te apercebias do que te rodeava, estavas adormecida como defesa dos estímulos constantes do mundo onde vieste parar… e eu aninhava-te no meu colo e ficava a ouvir-te respirar, a conhecer cada centímetro teu que antes só conhecia nos meus sonhos e nos movimentos que fazias cá dentro.

Passou mais de um ano e meio desde esse dia. Ainda temos este ritual em que te aninhas em mim e eu me deixo levar pela tua respiração… mas os teus olhos estão abertos e espertos e já sabes muito, bastante do que te ensinámos e outro tanto do que foste descobrindo sozinha.

Levas a mão ao peito instintivamente quando há um barulho súbito e declaras “shush”, que é como quem diz “ai que susto”.

Comes sozinha com a colher e a maior parte das vezes dispensas qualquer tipo de ajuda.

Sabes como colocar as fraldas nas tuas bonecas, mesmo que na maior parte das vezes não consigas fazê-lo sozinha.

Andas no baloiço enquanto te empurro, sem que seja preciso segurar-te.

Dizes “tá tá” quando termino de te secar o cabelo, anunciando que “já está”.

Usas a expressão “mais!” como gente grande e sempre no contexto correcto.

Identificas todas as pessoas da família e amigos mais próximos. Sabes que avô ou avó vamos visitar assim que entramos no átrio do seu prédio, percebes perfeitamente com quem falas ao telefone.

Cumprimentas as pessoas (e as árvores, e os cães e muitas vezes até os brinquedos) com um “olá, olá” contagiante.

Chamas quase diariamente a tua prima (“Nô!”) e só descansas quando te mostro a fotografia dela ou quando estão juntas e a abraças com um enorme sorriso nos lábios.

Despedes-te dos teus dois bonecos de estimação que te acompanham nas refeições com um beijinho antes de ires dormir.

Percebes perfeitamente tudo o que te dizemos, mesmo quando finges que não nos ouves.

Não te esqueces de nada nem de ninguém. Se alguém te encontra e cheira as mãos e diz que são muito cheirosas, no próximo encontro és tu quem estica de imediato as mãos para que chegue o elogio.

Tens um amigo de sempre na creche, que conheceste aos quatro meses e meio e é o teu companheiro de brincadeiras. Se o vemos ao longe a encaminhar-se com a mãe para a creche, pedes-me para ir para o chão e segues a correr.

Adoras livros e gostas de os ler e procurar os símbolos conhecidos e descobrir alguns que ainda não te tinham saltado à vista. Gostas de me chamar para que os veja e para que te possas sentar ao meu colo, no puff.

Adoras carrinhos e bolas de futebol e não tens medo nem vergonha de te intrometer no jogo de meninos mais velhos.

Arrumas o que desarrumas.

Cantas.

Ris com os olhos.

Já chegaste muito longe e o teu desonvolvimento encanta-me, surpreeende-me e deixa-me cheia de orgulho.

Vou continuar a puxar por ti para que dês sempre o melhor que tens e és.

Mas prometo não me esquecer que mesmo fazendo tudo isto és um bebé. Dezoito meses parecem muito para um bebé, mas tens direito aos teus limites e juro que não vou exigir mais de ti do que podes dar.

Somos uma equipa.

E em breve as nossas conversas ficarão mais claras pelas palavras que conseguirás usar, mas continuarão a dispensar qualquer floreado. Falamos mais com o coração, o olhar e o sorriso do que com sons.

Como no primeiro dia.

Como estás crescida, meu amor…