A grande importância dos três primeiros anos de vida

A ideia de que os bebés não ouvem, não veem e não sentem está ultrapassada.

Hoje sabemos que, logo na barriga da mãe, o feto ouve, vê e sente. E sabemos também que, os bebés são seres com inúmeras capacidades relacionais, motoras e cognitivas.

Hoje, sabemos ainda que, que os três primeiros anos de vida são fundamentais na formação da personalidade, nomeadamente que a qualidade das relações que é vivenciada nesta fase, será a base de todas as relações futuras.

O primeiro ano de vida (0-12 meses)

O primeiro ano de vida não é fácil, ao contrário do que vulgarmente se poderá pensar, as transformações que um bebé vivência neste período são árduas.

  • O bebé faz a transição de estar deitado para, a difícil tarefa que é caminhar sobre os seus próprios pés e ganhar autonomia.
  • Passa da ingestão de líquidos, para o complexo acto de mastigação de alimentos sólidos.
  • No sono, abandona progressivamente os curtos períodos de sono que tinha na barriga da mãe, ou seja, o seu ritmo de sono, para ter períodos de sono cada vez mais prolongados e mais aproximados ao ritmo de sono dos adultos.
  • Na comunicação, dão-se também grandes alterações. Antes de aprender a falar, o choro é a forma natural do bebé se expressar. Mais tarde, começa a dizer as primeiras palavras, o que por vezes acarreta uma enorme frustração até as conseguir verbalizar. A nível social, o bebé passa do seu mundo (eu e a minha mãe), para a noção de que existem outras pessoas em seu redor, que a amam igualmente.

O segundo ano de vida (12-24 meses)

No segundo ano de vida começam a surgir as birras, que se poderão intensificar mais tarde. A criança começa a brincar ao faz-de-conta (como por exemplo, brincar às papinhas), uma aquisição extremamente importante, visto que é através do brincar que a criança vai futuramente representar situações que vivenciou no seu dia-a-dia e reorganizá-las no seu pensamento.

O terceiro ano de vida (24-36 meses)

No terceiro ano de vida, a fase das birras atinge o seu auge – a “adolescência” da primeira infância. Esta é uma fase que pode levar os pais ao limite da sua paciência. Contudo, nada que não se ultrapasse com limites, amor e uma boa dose de paciência

É sobretudo importante olhar para este período com compreensão. A criança passa por uma fase de conflito interior em que, por um lado, já se sente autónoma para explorar o mundo, pois já caminha, mas por outro lado, ainda sente que precisa muito dos pais/cuidadores. A criança vivencia alterações bruscas de humor, uma vez que experiencia um turbilhão de emoções contraditórias ao mesmo tempo (Brazelton, 2013).

É também nesta fase que a criança começa a deixar as fraldas, o que é um enorme contributo para que se sinta cada vez mais segura de si e independente. O seu brincar ao faz-de-conta, torna-se cada vez mais elaborado, sendo que a promoção da imaginação e a fantasia são fundamentais para um desenvolvimento saudável.

Importa ressalvar que no desenvolvimento dito normativo, não existem apenas evoluções.

Por vezes, também existem regressões em algumas áreas, para que as outras possam avançar. Por exemplo, quando a criança começa a andar e a ter a capacidade de explorar o meio, esta aquisição torna-se demasiado interessante e a criança poderá começar a dormir pior, pois tem vontade de experimentar constantemente essa nova aquisição (Brazelton, 2013).

Apesar de estas serem competências que usualmente são adquiridas durante estas fases, cada criança é única e tem o seu próprio ritmo. Cada criança tem as suas potencialidades e fragilidades… como todos nós adultos!

Ser bebé não é fácil! E, apesar de não termos memória dos  como a conhecemos hoje, é durante estes primeiros três anos de vida que são construídas memórias sensoriais que perduram em nós para toda a vida.

 

Com frequência, os brinquedos de madeira são associados a alguma nostalgia por despertarem recordações de infância. E também é frequente encontramos quem pense que é esse regresso ao passado que a pretendemos com a actividade que desenvolvemos.

Na verdade, não é assim. Embora consideremos que, de uma forma geral, todos os brinquedos têm o seu papel e importância, consideramos que aqueles que são os fabricados em madeira apresentam enormes vantagens para as crianças.

1. Os brinquedos de madeira são de maior duração

O nosso filho de 6 anos (é o nosso director de qualidade) brinca com um comboio que tem quase 40 anos de existência! Ao longo do tempo algumas peças foram substituídas (o que faz dele, de resto, um excelente objecto de colecção), é certo, mas por se perderem e não por se danificarem. Os brinquedos de madeira são, efectivamente, menos susceptíveis de se partirem do que os seus equivalentes em plástico, sendo mais resistentes a quedas, pisadelas ou “testes de resistência”. Mesmo quando se partem, são normalmente mais fáceis de reparar. Além disso, não são tão susceptíveis à “obsolescência programada”, ou seja, não são fabricados de forma a rapidamente se tornarem tecnologicamente obsoletos.

É por isso que muitos se tornam objectos de brincadeira que passam de geração em geração, agregando valor sentimental mesmo junto dos adultos.

2. Os brinquedos de madeira são mais seguros

Sendo mais duráveis, o risco de ferimento com pequenas peças partidas é muito mais reduzido do que os equivalentes em plástico. E também não existe risco de engolir baterias, uma vez que, normalmente, não as têm.

3. Os brinquedos de madeira são mais ecológicos

Como os brinquedos de madeira tendem a durar mais do que os de plástico, o lixo que com eles é produzido é muito menor. Acresce o facto de que o plástico demora muito mais tempo a degradar-se.

Por outro lado, os brinquedos de madeira têm uma menor toxicidade química, uma vez que são produzidos com recurso a materiais essencialmente naturais. É claro que teremos de fazer uma análise crítica quando os escolhemos: há outros factores envolvidos que deverão ser tidos conta, como as tintas e vernizes, por exemplo. Esse aspecto é especialmente importante quando sabemos que o plástico é derivado do petróleo, recurso ambientalmente nocivo e não renovável. Se tivermos o cuidado de procurar brinquedos cuja madeira provenha de plantações sustentáveis, a vantagem é evidente.

Já referimos a vantagem de não funcionarem com baterias (nós costumamos dizer que funcionam a energia humana). Para além da questão da segurança, a sua não utilização reduz o impacto ambiental do fabrico e utilização.

4. Os brinquedos de madeira potenciam mais o desenvolvimento infantil

Normalmente, os brinquedos de madeira não têm um botão onde a criança carrega e se limita a ver o que o brinquedo faz. Ela tem de se envolver com ele, criando cenários e diferentes formas de interacção, desenvolvendo a imaginação e criatividade. Além disso, o único sítio onde uma criança deveria ouvir “amo-te” ou “gosto muito de ti” deveria ser no seio da sua família e não de um objecto de plástico.

São também brinquedos que têm, por norma, associado o desenvolvimento de diversas capacidades. Por exemplo, um puzzle ou um jogo de construção contribui para o reforço das competências lógicas, de percepção de espaço ou agilidade motora.

Os brinquedos de madeira tendem ainda a criar um ambiente mais calmo do que que os seus barulhentos e automáticos brinquedos de plástico.

Por tudo isto, não temos dúvidas: os brinquedos de madeira são melhores!

*imagem fornecida pelo autor

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É urgente ensinar as crianças a brincar!

No meu dia-a-dia como terapeuta ocupacional e trabalhando em comunidades educativas noto que as crianças estão cada vez mais “trapalhonas”. As crianças “trapalhonas” são aquelas que batem com as pernas e braços em tudo, aquelas crianças que chegam a casa cheia de nódoas negras e nem sabem explicar como as fizeram, aquelas que vemos correr e parece que não sabem muito bem como fazê-lo, são descoordenadas, estão sempre a cair.

E também ouço muitos educadores/professores/pais com queixas em relação à letra (caligrafia) das crianças, à forma como recortam, como pegam nos talheres, como realizam a maioria das atividades que envolvem motricidade fina. Estas crianças são as “desleixadas”.

Estas crianças “trapalhonas” e as “desleixadas”, normalmente são as mesmas!

Dando um bocadinho uma visão mais técnica, para que as crianças tenham bons desempenhos motores têm também que exercitar músculos, a coordenação e outras competências motoras. Mesmo para escrever é importante ter uma boa motricidade global porque, de uma forma muito simplificada isto também vai “mexer” com a postura nas atividades gráficas e tem um impacto enorme na coordenação motora fina.

O que se passa, é que a maior parte destas crianças não têm atividades motoras suficientes e eficazes nos primeiros anos de vida! Antigamente corria-se, trepava-se árvores, brincava-se ao eixo, à apanhada, ao berlinde…

Estas atividades eram excelentes práticas motoras que faziam com que as crianças fossem muito mais desenrascadas. Neste momento, o que se vê são crianças que jogam PlayStation e Tablets e não sabem fazer carrinhos de rolamentos.

O que os pais estão a ensinar às crianças?

Algumas crianças que acompanho até sabem empilhar cubos, e sabem extremamente bem contá-los. Até sabem fazer contas de adicionar e subtrair com esses mesmos cubos! Mas, por vezes, não sabem como fazer uma casinha, ou um foguetão! Não que não seja importante ensinar brincadeiras com conteúdo pedagógico, ou seja, as cores, os tamanhos, os números! Isso é deveras importante! Mas uma brincadeira lúdica, apenas por ser lúdica, também é importante! Brincar em liberdade! E depende apenas dos adultos as crianças conseguirem brincar! É urgente ensinar as crianças a brincar! Ou melhor, estimulá-las a brincar, porque brincar é inato! Brincar é tão inato ao ser humano que o nosso primeiro brinquedo é o cordão umbilical que nos liga às nossas mães! Impressionante!

O que vejo muitas vezes no meu dia-a-dia com crianças é que elas não sabem brincar!

Isto deixa-me triste! Sabem muito bem utilizar computadores, tablets, telefones! Sabem mexer nestes gadgets de uma forma brilhante, mas depois não sabem fazer encaixes de peças tridimensionais, não sabem brincar aos papás e mamãs, ficam perplexos quando vêem um brinquedo que não tenha botões e muitos perguntam ” onde é que se liga?”.

Pais e avós dizem que os miúdos já saiem da barriga das mães a saber mexer em Tablets e telefones de última geração. Eu faço uma correção: os miúdos sabem o mesmo que sabiam há anos atrás, a grande diferença é que os adultos só sabem mexer nesses gadgets e as crianças são muito observadoras e perspicazes que aprendem com o que vêem! E o que vêem são adultos a deslizar apressadamente páginas nos Tablets e o “tiritar” dos dedos nas teclas do ecrã do telemóvel! E de forma impressionante (e porque está nos genes) imitam!

A verdade verdadeira é que nós, adultos, não sabemos como ensinar as crianças a brincar!

A serem mais ativas para o bem delas e para bem geral. O brincar mais motor faz com que as crianças libertem o stress, interajam com as outras crianças, conheçam o seu corpo e aprendam a ter controlo motor eficaz.

São os adultos que têm que reensinar as crianças a brincar. Mas como podemos ajudar as nossas crianças a brincar?

Por mais estranho que pareça a resposta é: brincar! E a receita é bastante simples!

Os adultos também têm que se treinar. Precisam de reaprender a brincar. Isso implica saber distanciar-se dos tabus, deixarem levar-se pela imaginação, relembrar-se das brincadeiras que mais gostavam!

É preciso voltar a desenhar macacas no chão e jogar à apanhada!

Aqui vão algumas dicas:

  • Não são necessários grandes brinquedos! Aliás ficaríamos impressionados com a quantidade de brincadeiras que e possível fazer sem brinquedos nenhuns! Só pessoas! Criatividade é a palavra de ordem!
  • Precisamos de tempo! Mas também não é necessário assim tanto! E a máxima aqui é: mais vale 30 bons minutos do que 60 minutos “brincados a correr”.
  • É importante estar realmente presente! Estar ali com a criança, mesmo! Ajudá-la,  estimulá-la, protegê-la, ensiná-la! Responder às suas perguntas! Aceitar o copo com gelado que a criança fez na sua cozinha de brincar, ajudar a deitar a boneca, por o avião a voar, montar legos de várias formas, ajudar a trepar o escorrega, jogar à bola, mesmo nunca tendo sido grande futebolista!

Por mais que seja difícil para o adulto, é importante deixar os problemas dos adultos à porta do quarto das brincadeiras, fora do parque de diversões! Quarto (e mais importante): reforçar TUDO o que a criança faça bem! Se a criança sentir confiança nas suas ações, mais facilmente ela vai continuar a tentar coisas novas. E é assim que as aprendizagens multiplicam-se.

Estas dicas não me parecem muito difíceis! Há que pô-las em prática, e também nós, adultos nos divertirmos com as brincadeiras das nossas crianças!

Boas brincadeiras!

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Thaís Candido, Terapeuta Ocupacional, para Up To  Kids®
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