Limites na adolescência

“O meu filho não acata os meus limites!”

(Ponto de partida para este texto: os limites não se impõem. Compreendem-se, experimentam-se e constroem-se em conjunto.)

A questão dos limites e do seu (in)cumprimento por parte dos filhos é uma das dificuldades que mais as famílias partilham. E se a questão na infância era mais ou menos contornável, com maior ou menor criatividade, com maior ou menor flexibilidade, na adolescência pode tornar-se um verdadeiro desafio, sobretudo quando as ferramentas usadas anteriormente se basearam na intimidação, na ameaça ou na coação.

Sim, porque na adolescência eles já são do nosso tamanho e as características do pensamento formal já lhes permitem chegar a uma concepção das coisas e do mundo muito própria e mais refletida. E ainda bem.

Do lado dos pais, aumenta a frustração, a sensação de impotência e a reatividade, que muitas vezes se transformam em gritos, ordens e distância afetiva crescente.

Na verdade, ainda que saibamos que nada disto funciona, rapidamente corremos o risco de ficar sem recursos e entrar numa espiral de negatividade marcada por um padrão de comunicação corrosiva, que não trará com certeza bem estar a nenhum dos protagonistas desta história.

Pensar em limites na adolescência

Pensar em limites e na sua construção com os nossos filhos implica que tenhamos, antes de qualquer outra coisa, a lucidez de descobrir algumas coisas dentro de nós:

  • Reconhecer que o nosso único super poder enquanto pais é a capacidade de nos conectarmos com os nossos filhos.

Sabendo que é ela que nos permitirá criar um espaço de crescimento e entendimento conjunto, mesmo nos momentos mais desafiantes.

  • Libertarmo-nos do pensamento automático de que tudo o que nossos filhos fazem, tem como objetivo atingir-nos, desafiar-nos maltratar-nos. 

Não minha gente, não tem. Nem tudo é sobre nós. Na maioria das situações e em relação a vários aspectos, existem outras motivações por detrás do comportamento de um adolescente e elas não passarão pela maquiavélica tarefa de levar o pai ou a mãe aos arames. Desenvolver esta consciência, far-nos-á toda a diferença.

  • Saber que uma das grandes tarefas da adolescência é precisamente conquistar uma maior autonomia perante a família.

Isto permite-nos ser mais empáticos com a natural e desejável necessidade dos adolescentes de sentir que conquistam, progressivamente, um maior controlo sobre si próprios e sobre as decisões da sua vida. Da mesma forma, que saber que um córtex pré frontal ainda em desenvolvimento no cérebro adolescente interfere com a capacidade de organização e planeamento nesta fase de vida, deixando facilmente cair por terra o compromisso assumido de arrumar o quarto no dia seguinte (sem que tal tenha sido maquiavelicamente premeditado, lembra-te…). Já para não falar na também dificuldade no adiamento da recompensa (típica no cérebro adolescente), sempre que alguma atividade mais interessante se meta no caminho.

Voltamos assim ao ponto de partida deste texto: 

Os limites não se impõem.

Compreendem-se, experimentam-se e constroem-se em conjunto e enchem-se de sentido e de significado sempre que:

  • São respeitadores e espelham uma preocupação genuína:

“Reparei que estás a chegar mais tarde a casa. Para mim é importante saber que estás bem e quando te atrasas fico preocupada. Qual é a tua sugestão para consigamos respeitar-nos neste assunto?”

  • São flexíveis e resultam da nossa capacidade de sermos empáticos:

”Vejo que ontem foi o aniversário da Sara e que por estarem a divertir-se tanto foi difícil sair mais cedo. Na próxima vez é mesmo importante que me avises que é um dia especial e que têm outros planos. Assim podemos definir em conjunto qual a melhor hora e forma de regresso.”

  • São específicos e participados:

“Combinámos que tomarias o teu banho antes do jantar, pelas 19h30. Obrigada. Fico contente que tenhamos chegado a um acordo, com base naquele que é o melhor momento para ti.”

  • Recorrem ao humor e desdramatizam:

 “Olha, pareceu-me ver alguém alguém no quarto parecido com o João! Impossível, a esta hora o João já está no duche…”

Os limites e a família

Os limites são importantes às famílias porque traduzem aquelas que são as suas rotinas, tarefas ou tradições e por isso devem ser adaptados às suas características e dinâmica conjunta, atendendo também às necessidades e especificidades de cada um dos seus elementos.

A nossa reflexão enquanto pais e mães sobre os limites que reconhecemos como essenciais, permite-nos entender se efetivamente estamos em sintonia com os mesmos ou se, pelo contrário, obedecemos-lhes  e a eles recorremos apenas e só, porque os herdámos da relação com os nossos pais ou porque outro alguém os defendeu como importantes.

Aceitar que alguns deles podem não nos servir naquele que é o nosso propósito na relação com os nossos filhos e permitir que os mesmos possam ser refletidos, participados e construídos em conjunto, é o passo mais importante para que efetivamente se constituam como um bom apoio à navegação.

Afinal, não é o limite em si que garante que o mesmo seja respeitado, ou até que tenha alguma utilidade. É, sobretudo, a forma como o sentimos, como o identificamos e como o comunicamos.

É este entendimento que permite que, de uma forma conectada e respeitadora, as diferentes necessidades (de pais e filhos) possam ser atendidas.

E que todos se sintam parte importante da viagem de crescer.

Carta a um jovem universitário

Estás a começar uma etapa importante da tua vida.

Já ouviste dizer que é determinante, que vai mudar tudo e por isso sentes algum peso sobre os ombros.

O peso dos teus sonhos, o peso da responsabilidade, o peso de não teres a certeza na maior parte das vezes… Eu sei e quero que saibas que não estás sozinho.

Que o curso que escolheste pode definir o teu percurso, mas não é uma marca a ferro na tua pele que possa determinar de forma definitiva o que vais fazer com esse futuro.

Acredita que, se te permitires, vais fazer uns quantos bons amigos. A ilusão talvez seja de que vão ser dezenas, mas no fim, como em tudo na vida, só ficam os que importam.

Acima de tudo vais conhecer-te melhor. Vais ser confrontado com situações que são inéditas para ti e aprender com as respostas que vais dar a cada um dos desafios.

Vais sentir-te no topo do mundo e, em alguns momentos, sentir-te muito só.

Vais questionar as tuas escolhas. Afinal para que servem aquelas cadeiras teóricas cuja bibliografia em três línguas não te dizem absolutamente coisa nenhuma.

Vais pensar desistir. Vais pensar em levar até ao fim só porque é isso que esperam de ti.

Lembra-te que, acima de tudo, o que se espera de ti é que cresças. E isso significa pores os teus problemas em perspectiva. Pores as tuas relações na balança, os teus sonhos sob escrutínio (teu!!!), as tuas decisões na almofada à espera de uma resposta quando o sol nascer.

Deixaste para trás anos de ensino pensados para todos de igual forma e é-te dada a oportunidade, ainda que de forma algo generalista, de te encontrares nas páginas dos livros que lês, dos trabalhos que te são atribuídos, no convívio nas apresentações de grupo, nas aulas práticas e nas horas de estágio. Na partilha de apontamentos e truques, experiências sobre os professores e aquelas cadeiras que parece que nunca vais conseguir fazer.

E claro, fora dos anfiteatros, nas jantaradas, saídas, directas. Nas novas amizades, nas novas paixões, nas desilusões.

Espera-se de ti que cresças no meio desse turbilhão e, acredita, é possível.

Também é possível que te percas pelo caminho, que cometas um ou outro erro, que faças asneiras, que digas coisas que não devias ter dito, que bebas mais do que seria desejável. Seres confrontado com avanços indesejados, com substâncias que não te interessam, com pessoas que não te dizem coisa alguma. O importante é o que vais fazer depois de tudo isto acontecer. Saber pedir desculpas, tomar um banho de água gelada, nunca pegar no carro depois de beber nem com quem tenha bebido. Saber dizer não e fazer a tua voz ser ouvida.

Os anos que agora estás a começar são importantes. Irás olhar para trás, por cima do ombro, e lembrar-te deles. Faz os possíveis para que as memórias desses tempos sejam positivas, que te deixem um sorriso.

E lembra-te, esses anos não são iguais para ninguém. Não te sintas pressionado a viver o mesmo que os outros, mesmo que os outros sejam as pessoas mais importantes para ti.

Tenta descobrir quem és sem nunca desrespeitares os outros.

Sem nunca te desrespeitares a ti.

Estuda. Por mais difícil que seja.

Dedica-te, por menos perspectivas de futuro que existam.

Esses anos vão passar a voar. Aprende a deixa-te levar e a não remar contra a maré.

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Depressão na adolescência: é preciso falar sobre isto.

“Os sintomas de depressão não desaparecem por si. Não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. “

Há, numa mãe ou num pai que perde um filho, uma permanente ferida aberta, que não tolera curativos, nem admite suturas.

Há, na ideia de perder um filho, qualquer coisa que corrói, que envenena, que mata por dentro. Por isso, quando um filho nos diz “quem me dera morrer” há algo em nós que se assusta irremediavelmente. Que se lembra de todas as mães e de todos os pais que ficaram sem mundo, sem chão, sem bem maior. E que sofre com eles, apenas e só, pelo fantasma de uma ideia assim.

A depressão na adolescência faz-se acompanhar por sintomas como a incapacidade de sentir prazer, a desesperança, a culpabilização, a diminuição da concentração e a baixa auto estima.

São também frequentes as alterações no sono e no apetite que, a par da sintomatologia atrás descrita, causam impacto significativo no rendimento escolar. Outro dos sintomas que pode surgir associado à depressão, é a ideação suicida, definida pela presença de pensamentos relacionados com autoagressão ou morte auto infligida, podendo estar ou não ligados a intenção suicida. Mas há algo que temos de saber: Os comportamentos suicidários estão entre as primeiras causas de morte na adolescência.

Por tudo isto, por mais que doa e por mais que assuste, é preciso pensar e falar sobre o assunto, de forma a que possamos compreender e ajudar.

Podemos ajudar sempre que estivermos próximos e quisermos saber mais. 

Não sob a forma de um interrogatório, mas procurando, com tranquilidade, o momento mais oportuno para conversar. Pode ser importante conhecer o que se esconde por detrás da tristeza. Por deytás da desmotivação, do sentimento de inutilidade ou de vazio. Afirmações como: “Sei que às vezes a vida pode ser difícil e gostava de poder ajudar-te”, contribuem para reforçar o amor que lhes temos, fazendo sentir que é para nós importante saber como apoiar. Perguntas como: “Quando é que te sentes mais preocupado?”, “ O que é que gostavas que pudesse ser diferente?”, “Com o que é que está a ser mais difícil lidar?”… favorecem uma compreensão mais profunda do problema, o que por sua vez abre caminho a que possamos, efetivamente, ser um dos suportes que precisam.

Podemos ajudar sempre que formos capazes de aceitar o que estão a sentir. 

Eu sei que enquanto pais, lidar com a dor dos nossos filhos é extremamente difícil. Sei que, naturalmente, a nossa tendência será distraí-los dessa dor. No entanto, quando o sofrimento é psicológico é fundamental ouvir, sem julgar, sem recriminar. Ouvir sem desvalorizar, sem enunciar uma lista de coisas pelas quais deviam sentir-se felizes. Não se sentem, e é importante aceitar esta ideia e receber, sem filtro, as emoções e as experiências dolorosas que vivenciam.

Podemos ajudar sempre que tratarmos com honestidade aquilo que partilham. 

Se falam em suicídio, é importante não evitar o tema. Perguntar: “Quando falas em querer morrer, estás a pensar em matar-te?” ou “Toda a dor que sentes já te fez pensar em magoares-te?”, permite explorar se existem planos mais definidos a este nível, não contribuindo para alimentar a ideia (que é muitas vezes um dos nossos medos), mas mostrando disponibilidade e abertura.

E finalmente podemos ajudar, sempre que confiamos no nosso instinto e procuramos ajuda. 

Os sintomas de depressão na adolescência não desaparecem por si. Não são “só uma fase” e exigem que olhemos para eles de frente e com a seriedade que merecem. A identificação conjunta de alguns recursos como o do acompanhamento psicológico, é fundamental para que se sintam mais apoiados e possam aprender a olhar de uma forma positiva para dentro de si e a desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com os desafios do mundo externo.

Falar sobre a morte com aqueles a quem demos vida, pode ser extraordinariamente assustador, mas pode também significar-lhes o alívio, o alento e a aceitação de que precisam no momento. Para depois agarrar a vontade de outros amanhãs…

Não sejas a miúda que vai no metro, ao lado das amigas, mas não tira os olhos do telemóvel.

Não te preocupes mais com a selfie em que pareces mais gira do que com a maneira como falas com a tua mãe.

Não digas que sim ao teu namorado só porque não estás com cabeça para discutir.

Não tires fotos ao jantar no restaurante com uma hastag toda pomposa quando te esqueces de dizer ao teu pai ou a quem quer que tenha feito o jantar em casa que está delicioso.

Não vejas sempre o lado negativo das coisas, nem te vitimizes.

Não sejas demasiado cruel ou exigente contigo, as coisas acontecem quando têm de acontecer e se puderes ajudar a que aconteçam, melhor – se não puderes então não te preocupes.

Não sejas aquela miúda que se esconde atrás do manto da sinceridade para dizer tudo o que pensa (doa a quem doer).

Não faças planos irrealistas, mesmo que tendes a chamar-lhes sonhos.

Não esperes dos outros o que não estás disposta a dar.

Não sejas imodesta, mesmo que sintas que és boa naquilo que fazes.

Não faças coisas só para que os outros reparem e te dêem palmadinhas nas costas.

Não faças vista grossa em situações de injustiça por teres medo de te envolver.

Não escolhas o caminho mais fácil porque parece mais rápido.

Não te menosprezes só porque os outros não vêem as tuas capacidades.

Não tenhas medo de dizer o que pensas, mesmo que isso signifique perderes alguma “popularidade”.

Não concordes com os outros se não estiveres a par do que se trata. Reconhece que não estás por dentro – e se te interessar o tema, investiga.

Não mintas a ti mesma sobre o que sentes.

Não finjas que não estás a ver aquela senhora com bebé ao colo nos transportes ou o senhor que tem dificuldades em manter-se em pé em pleno metro. Levanta-te. Faz a coisa certa.

Não aspires a ser perfeita.

Simplesmente não sejas pior miúda do que podes ser.

Não é tão difícil quanto parece.

Tu consegues.

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Meu amor,

É mesmo como dizem, a viagem de finalistas é daquelas coisas que só vivemos uma vez na vida. Quer dizer, depende de quantas etapas irás terminar, mas em cada uma delas será único.

Tens dezassete anos e sabes tudo. Eu sei, também já tive a tua idade e acredita que sei o que é sentir isso e não perceber que as pessoas à minha voltam não o entendam…

Mesmo assim, e mesmo sabendo que tens a cabeça e o coração no lugar certo, não posso deixar de te escrever esta carta, nem que seja para que ela fique guardada no fundo da tua memória e te ajude a tomar as melhores decisões para ti, nos momentos mais cruciais.

Nunca, em tempo algum, saltar de uma varanda para outra será uma boa ideia. A sério, pode parecer super divertido, mas pode acabar mal e para quê estragar a festa?

Vais conhecer gente nova e, com sorte, interessante. Aproveita para te divertires, para dançares muito e dormires pouco (recuperas quando voltares), mas não vás atrás de tudo o que fazem. Eu sei, eu sei, não és dessas, mas às vezes quando estamos todos juntos pensamos “e por que não?”. E tantas vezes não há um motivo que pareça verdadeiramente válido para nos deter. Que o motivo seja a razão a falar mais alto, pode ser?

Às tantas vai achar que tão depressa não haverá tanto álcool à disposição como ali. Talvez seja verdade, mas aqui fica um segredo: ele não se esgota se bateres todos os records do mundo. Não precisas de provar nada a ninguém, nem de beber até cair, ou beber de manhã à noite, ao ponto de não saberes quem és e o que estás a fazer. Isto sem ter de bater na tecla de nem sequer teres idade legal para te servirem álcool, mas já nem vou por aí.

Mesmo que o teu príncipe encantado surja numa nuvem de fumo, com os músculos do peito a espreitarem debaixo da t-shirt molhada… bem, provavelmente não será o teu príncipe encantado, por isso não tomes nenhuma decisão precipitada. E, aconteça o que acontecer, lembra-te de todas as precauções que deves tomar. Sempre, sem excepção, porque o que acontece em Punta Umbria não fica necessariamente em Punta Umbria.

Depois, de vires alguém, seja teu amigo ou não, fazer alguma coisa que o ponha em risco a ele ou aos outros… eu sei que pode ser chato, mas pede ajuda.

Sei que vai correr tudo bem e que vais criar memórias que vão ficar para sempre.

Faz por isso.

Só depende de ti.

Diverte-te, meu amor.

Espero-te no regresso para trocarmos cromos e para te chatear com comentários que incluem frases como “no meu tempo também fazíamos isso!” 😀

Ah, e tem juízo.

imagem@weheartit

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Carta aos adolescentes.

Carta à minha irmã adolescente

As palavras que te vou tentar dizer, agora que és adolescente