A ver uma fotografia minha e do pai:

– Onde é que eu estava quando tiraram aquela fotografia?

– Ainda não tinhas nascido.

– Estava na tua barriga?

– Ainda não.

– Então onde é que eu estava?

As questões existenciais têm sido uma constante. Onde é que ela estava quando eu nasci, para onde foi o gato que estava morto na rua, onde é que o irmão estava antes de estar na minha barriga, se há vida nos outros planetas ou só no nosso e porque é que o tempo passa. Diz também que a lua é o sitio onde está a avó do pai e que nunca vai querer morrer porque quer ficar com a família dela para sempre. Pede muitas vezes para eu a abraçar e prometer que a vou proteger de tudo. E eu digo que sim.

Ela ainda não sabe, mas eu sei que não a vou conseguir proteger de tudo, nem vou ter resposta para as questões que hoje vou respondendo como se estivéssemos num conto de fadas. A vida não é um conto de fadas, mas aos quatro anos ela ainda pode acreditar em sapatinhos de cristal, em princesas que com um beijo transformam sapos em príncipes, em bruxas más e meias-irmãs feias e malvadas.

Eu é que já não posso acreditar e penso muitas vezes naquele momento em que perdemos a inocência e a ideia da morte passa a viver connosco para sempre. Ainda me lembro da dor terrível e do desespero que senti da primeira vez que tomei consciência do fim, do meu e dos que amo. Um sentimento que só aliviou com o nascimento dos meus filhos e que me invade novamente com as perguntas feitas pela minha filha.

Eu não acredito em Deus, em igrejas ou religiões e talvez para quem não crê seja ainda mais difícil acalmar essa dor em nós e nos nossos filhos porque não tenho histórias bíblicas e paraísos para lhes oferecer. Talvez a religião sirva como um ansiolítico que nos acalma as angústias e torna o mundo um lugar mais fácil. Não sei, nunca experimentei esse sentimento porque, por muito que tente, não vejo mais do que aquilo que os meus olhos alcançam.

Um dia as perguntas dos meus filhos deixarão de poder ter respostas inocentes, o gato morto continuará morto para sempre e vai doer-lhes, como me doeu a mim e eu não poderei fazer mais que os amar e abraçar, como a minha mãe o fez a mim tantas vezes.

O amor não cura tudo, mas é a melhor ferramenta que tenho.

imagem@inforegi

Quando o Tiago nasceu, a Mariana tinha dois anos e dois meses.

Tem sido uma loucura ser mãe de dois filhos pequenos e com uma diferença de idades tão pequena. Há dias em que só o piloto automático me salva e em que basta só mais uma birra para começar a bater com a cabeça na parede, mas apesar do cansaço, do sono, da vontade constante de me atirar para o chão e por trás de uma mãe que às vezes é uma besta, existe um coração que ainda por cima é mole e no outro dia dei por mim de lágrimas nos olhos a ver os meus filhos a brincar um com o outro.

Ela do alto dos seus quatro anos dizia ao irmão ao que iam brincar e ele nos seus bem-dispostos dois anos respondia que sim. Ele era o médico, sentado na secretária pequenina, com o portátil do Ruca que nunca funcionou e ela era uma mãe que levava o seu bebé ao hospital. Ela dizia-lhe os sintomas, enquanto ele fingia que escrevia no portátil, depois examinou a bebé e no fim da consulta rabiscou um papel com a receita.

– Mano, agora sou eu a médica!

Estou a vê-los a brincar e de repente apercebo-me que já não são bebés.Como é que isto aconteceu? Os meus filhos cresceram e eu receio não ter reparado.  Este ano foi particularmente difícil, viroses a dobrar, fucking four em força, mudança de escola, birras e crises existenciais, noites sem dormir, eu a pedir socorro a toda a hora, mas o tempo não teve piedade de mim e os meus filhos cresceram.

E este sabor doce de os ver crescer, mistura-se com o sabor amargo de os ver crescer. De saber que um dia vou ter saudades do que hoje me enche de cansaço. Que a minha filha um dia já não vai fazer birras porque quer que seja sempre eu a adormecê-la ou que o meu filho já não vai acordar a meio da noite para vir para a nossa cama. Mistura-se o alívio de os ver crescer, com a tristeza de os ver sair devagarinho debaixo da minha asa até ao dia em que vão sair do ninho e voar.

Eu sei que estou a ser dramática, o meu filho ainda usa fraldas e a minha filha ainda precisa de ajuda para limpar o rabo, eles não vão já para a faculdade, nem me estão a pedir as chaves do carro para irem sair à noite, mas o tempo não tem piedade das mães e os filhos crescem sem darmos por isso.

Os meus filhos estão a crescer, juntos, ao ritmo das brincadeiras que me fazem chorar. Cresçam devagarinho meus amores.

O que eu me ri ao ler “Mãe do Ruca, odeio-te!“. A sério. Partilhei com amigas, li em voz alta ao meu marido e ri-me de novo sozinha. Obrigada Susana Almeida.

Ao ler alguns dos comentários que foram feitos ao texto percebi que muitas pessoas se identificam totalmente com a autora, outras ainda acrescentam aspectos da vida “animada” da mãe do Ruca sobre os quais eu nunca tinha reflectido e outras até discordam por achar que a senhora mãe é um óptimo exemplo a seguir. Todas me fizeram pensar, por isso, obrigada.

No meu caso, ainda que me identifique com o incómodo que a mãe do Ruca me traz, há uma coisa que me preocupa e com a qual me debato pessoalmente e que tem sido a base para os artigos que escrevo no meu blog. Para a minha vida pessoal nos últimos sete ou oito anos e até para o trabalho que desenvolvo com os meus alunos para que, em pequenos grupos de conversação nas aulas de inglês na escola que criei, consigamos vencer em cada aula o veneno da comparação.

Que maravilha, pensei, será o momento em que a nossa comparação pela positiva ou pela negativa com a mãe do Ruca não fica cravada nos nossos corações mais do que três ou quatro minutos. E que depois avançamos totalmente confiantes naquilo que somos. Imperfeitas e verdadeiras mulheres. Aqui não me refiro a uma falsa confiança super à defesa atrás da qual nos escondemos para nos sentirmos seguras. Mas de uma confiança que vem de estarmos alegres na nossa pele. A isto voltarei um pouco mais à frente porque penso que é importante.

Pessoalmente, posso dizer que nada me é mais difícil do que isto. Cedo aprendi a comparar-me. E agora como mãe da bebé Joana percebi que em nenhuma fase nos comparamos com outras mulheres e os outros nos comparam mais do que quando somos mães. Tantas expectativas, tantos modelos, visões, opiniões que por vezes só me fazem apetecer ir viver para uma ilha bem longe.

No meu percurso pessoal para acabar com este veneno e poder viver aqui e agora no meio das pessoas, recusando-me jamais a esconder-me por trás de ideias da vida que culpam tudo e todos pelas minhas inseguranças, uma das pessoas em que me tenho apoiado é a autora norte-americana Brené Brown. Recentemente estes dois textos ajudaram-me a reposicionar-me de novo nesta história da competição.

Em relação ao vários temas que ela aborda, o que aqui mais me interessa referir é o facto de defender que apontamos o dedo crítico às pessoas nas áreas da vida delas sobre as quais nos sentimos nós mesmos mais fracos.  Aqui entra a história da mãe do Ruca e o ponto que referi antes sobre sermos sinceras connosco. De não usarmos de uma falsa confiança. Penso que vivemos tempos em que a sinceridade de sabermos porque fazemos o que fazemos é difícil. A Brené Brown sugere-nos perguntas de sinceridade interior que exigem uma pausa. Uma pausa que me tem ajudado bastante a não me esconder por trás da máscara de comentários como “ah, mas eu também não queria ser como ela”.

Que venha o dia em que abraçamos a mãe do Ruca, a mulher que se irrita com o filho no supermercado e todas as outras com quem nos comparamos. Contentes com quem somos e apoiando a mãe diferente de nós que está ao nosso lado. Porque – e agora muito sinceramente – todas as mães que conheço desde que nasci se queixam de alguém que as criticou ou que comentou a forma como educaram e como se sentiram magoadas com isso. Mas quase nenhuma vi depois a não repetir a proeza com a mãe que vem a seguir. Vou tentar, quero mesmo tentar. Porque isto dói.

 

Por Ana Calha, Blog Prá Vida Real

 

imagem@google

“Pensa nos teus filhos.” Quem nunca ouviu esta frase quando diz um ai?

Tenho mau humor pela manhã (e muitas vezes o dia todo), discuto sempre com o despertador e custa-me horrores não ceder à preguiça e sair da cama. Esqueço-me muitas vezes de tomar a medicação para a tiroide e quando vou a sair de casa volto atrás para meter perfume ou para ver se estou penteada. Tenho dezenas de cabelos brancos e a tinta para os pintar fica semanas à espera de energia para o fazer. Faço planos para cortar o cabelo ou arranjar as unhas e só o faço realmente em ocasiões especiais. É a minha filha que muitas vezes me diz que gosta dos meus pelos das pernas e com isso me lembra que é melhor fazer a depilação. Vou-me repetir: durmo mal há mais de dois anos. Faço o caminho de casa para o trabalho em piloto automático e dou por mim a dormir em pé no metro. Sinto-me horrivelmente desmotivada no meu emprego e pico o ponto com grande sacrifício. Há dias em que só queria que os miúdos tomassem banho, jantassem e fossem para a cama sozinhos, para eu poder enfiar a cabeça na areia como uma avestruz.

Não me recordo da última vez que peguei na máquina e saí para fotografar. Li apenas um livro este ano, o que deve ter sido mais que no ano passado e não faço ideia de que séries são essas de que todos falam. Não há dia em que não pense que depois de os deitar me vou sentar a escrever e quase todos os dias adormeço no sofá sem o fazer. Sinto-me muitas vezes cansada, esgotada, no limite. Também faço birras e tenho estados de alma. Sou impaciente, resmungo e detesto pessoas. Tenho medos. E são tantos. Desde ficar doente a andar de avião. Tenho desejos por realizar e às vezes os meus desejos passam simplesmente por dormir. Quando atravesso o rio e olho a minha outra margem sinto sempre saudades da minha mãe e dos meus irmãos. Às vezes preciso do colo da minha mãe. Também tenho saudades do meu marido e vejo-o todos os dias. Sinto falta dos nossos jantares demorados, das conversas pela noite fora, do sexo a qualquer hora.

Ser mãe é a mais incrível das viagens, com todas as suas aventuras e desventuras, dá-nos força para lá do imaginável. O mais difícil é não nos esquecermos de existir para além dos filhos, por isso quando alguém diz “pensa nos teus filhos”, devia antes dizer “pensa em ti”.

imagem@gettyimages

Desculpa dizê-lo de forma tão dura, mas não encontro outra maneira de o fazer. Não interessa se tens 18 ou 50 anos, se sempre conviveste com crianças ou se nunca estiveste perto de uma, se te sentes imensamente motivada para esta fase de vida ou não, se é o teu primeiro ou o terceiro filho, se a maternidade estava nos teus planos,  se tens muitos ou poucos recursos financeiros, se tens tudo a postos para a chegada do bebé ou se ainda nem pensaste no assunto.

Nada disto importa, nem altera o facto de não estares pronta para ser mãe.

Simplesmente não estás pronta.

Para ver o teu corpo mudar, ganhar novos contornos, deixar de assentar tão bem nas tuas roupas favoritas.

Para sentir enjoos, dores de costas, dores nas mamas, sono, azia; todo um role de sintomas desagradáveis.

Não estás pronta para as dores do parto.

Não estás pronta para passar noites em branco a dar de mamar ininterruptamente, a mudar fraldas, a lidar com cólicas ou dentes a nascer.

Para lidar com o choro do bebé horas a fio.

Para lidar com a incerteza, com a frustração de não compreenderes o que se passa com o teu bebé, o que podes fazer para o ajudar.

Não estás pronta para constatar que jamais serás a mãe perfeita que sempre imaginaste.

Para deixar de pensar apenas em ti, no que queres fazer, no que te apetece naquele momento.

Não estás pronta para lidar com o peso de cuidar sem pausas, sem folgas, nem feriados.

Não estás pronta para perder a tua identidade.

Existem ainda outras experiências para as quais não estás pronta e sobre as quais ninguém te falou:

Não estás pronta para ver o teu corpo alterar-se de modo a que o teu bebé se encaixe perfeitamente nele e retire daí tudo o que necessita – alimento, contacto, conforto e amor.

Para perceber que o teu corpo está preparado e saberá o que fazer no momento do parto.

Para sorrir cada vez que os vossos olhares se cruzam.

Para ficar sempre em segundo plano, mas ainda assim sentires que tens um dos papéis principais, um foco de luz que provém dos olhos do teu bebé e te segue onde quer que vás.

Não estás pronta para descobrir uma nova forma de liberdade, em que não podes fazer o que queres, quando queres, mas em que aprendes a tirar o máximo de prazer de pequenos momentos.

Não estás pronta para esquecer o peso de cuidar sem pausas, sem folgas, nem feriados, com apenas um sorriso, um toque suave daquela mão pequenina no teu rosto, um “mamã” dito de olhos a brilhar.

Para te habituares a sair de casa cheia de mochilas, lanches e outros mimos, ao ponto de deixar de fazer sentido sair de casa só com a tua mala.

Não estás pronta para colocar tudo o que sempre acreditaste em causa e descobrir novas formas de agir e educar.

Para perceberes que não queres ser a mãe perfeita que sempre imaginaste mas sim a melhor mãe que consegues ser, aquela que o teu bebé precisa, uma mãe real que tem a humildade de aprender diariamente.

Não estás pronta para descobrir que tens em ti uma bússola valiosa – o teu instinto – que te irá guiar nesta aventura e conduzir a novos destinos (competências).

Para passar madrugadas a contemplar cada detalhe do teu bebé apesar do imenso sono.

Não estás pronta para ganhar um propósito na vida, encontrar resposta para aquelas dúvidas existenciais que sempre te assolaram.

Para perder a tua identidade, vê-la a transformar-se e a partir daí surgir algo novo que reúne maravilhosamente os teus papéis antigos e mais recentes.

Não estás pronta para perceber que tens junto a ti tudo o que precisas.

Para constatar que parte de ti passou a viver fora do teu corpo, e onde quer que vá tu também irás.

Não estás pronta para sentir tanto amor ao ponto de te doer o peito.

Não estás pronta para um simples abraço transformar os dias mais negros em dias luminosos.

Para passar o dia a pensar no quanto amas aquela pessoa, para sentires saudades mesmo quando a tens ao lado.

Não estás pronta para perceber que todo o teu percurso faz sentido – os talvez, as saborosas conquistas, as dolorosas perdas – tudo te conduziu a este ponto, a este lugar, a este grande amor.

Não estás pronta para ser mãe, na verdade não precisas de estar. É impossível sentirmo-nos preparadas para algo que não conhecemos. Além disso, o amor flui, não se treina nem se “prepara”.

imagem@wattpad

Escolher ser mãe

O cansaço das Mães acumula-se devagarinho, lentamente, noite após noite em que se dorme de forma intermitente, entre as refeições engolidas à pressa, em discussões diárias sobre assuntos pouco relevantes, insignificantes até, sobre o relógio que te apressa o passo e te acusa o constante atraso, com as palavras que se atrapalham umas sobre as outras e que te levam à dislexia que te tolda o discurso, nas birras exaustivas e frequentes, quando se trabalha dentro e fora de casa, quando tentamos cuidar de nós mesmas, quando chegamos ao ponto de esforço para conseguir alimentar o Amor.

Mas como gerir o efeito colateral deste Amor maior que é ter um filho? Porque o cansaço é nada mais, nada menos do que a consequência inevitável de uma escolha livre. Escolher ser Mãe!

E esta escolha faz-me viver sempre como se tivesse outros dois corpos para além do meu, corpos esses que também precisam de ser alimentados e cuidados, que me trazem angustia se ficam doentes, se não estão a respirar bem à noite, se não comem, se não estão a crescer como deveriam, outros dois corpos que tento proteger a todo o instante de toda e qualquer agressão, mas há ainda o meu corpo, que tem que existir e resistir porque aqueles outros corpos precisam de mim e às vezes o meu corpo não consegue acompanhar.

Não consegue porque as escolhas livres, às vezes, também são insidiosas, tal como o cansaço das mães é insidioso, suga-te por dentro e torna-se quase uma condição crónica, e às vezes és envenenada pela falta de paciência, pela frustração, pelo julgamento, pela falta de consolo, pela culpa, pelo descontrolo, pelos gritos, pela vontade de fugir, pelas respostas tortas e menos correctas, porque és humana e falível, e tudo isto porque simplesmente, estamos cansadas.

Mas às vezes, e independentemente da decisão de ter filhos ter sido minha, eu preciso de me permitir deixar de sentir este cansaço e preciso de um tempo.

Mas precisas de um tempo como? Mas não são os teus filhos o meu melhor da tua vida?

O Amor pelos meus filhos não tem limites ao contrário da minha energia que é tantas vezes levada pelo cansaço, quase como se o Amor fosse o motor da maternidade e a energia o seu combustível, e sem combustível todo o Amor que sinto não será suficiente para trazer sempre à tona o melhor de mim.

Não tenho muita paciência para as outras mães, mas o meu ódio de estimação é mesmo a mãe do Ruca.

A mãe do Ruca nunca se zanga com ele! – disse-me um dia destes a minha filha.

Os meus filhos adoram ver o Ruca e eu não me importava, era a desculpa ideal para os ter sossegados enquanto eu preparava os banhos. Mas, agora tinha de perceber que raio de mãe é essa que nunca se zanga com o filho. Isso existe? Com os miúdos na escola, atirei-me às gravações automáticas, peguei no meu chocolate com avelãs e dediquei-me a uma maratona de Ruca.

O que descobri foi chocante: as avelãs do chocolate do Minipreço são enormes e quase me partiram os dentes.

Quanto à mãe do Ruca, odeio-a! Episódio após episódio, birra após birra, asneira após asneira, ela não grita, ela não altera o tom de voz e o pior que a ouvi dizer foi um “Oh fofinho”. A sério? Quem é que escreve estes diálogos?

A mãe do Ruca não ralha, a mãe do Ruca não castiga, a mãe do Ruca não se enerva. Mesmo quando ele parte a chávena preferida dela ou tira os brinquedos das mãos da irmã, ela explica-lhe o que fez de errado e ensina-lhe qual o comportamento correto. É a rainha da parentalidade positiva.

E também uma fada do lar do caraças. Mesmo sem empregada doméstica consegue ter a casa limpa e arrumada, a roupa lavada e passada, as refeições na mesa a horas, faz pizzas caseiras, bolos, sumos naturais, tem o jardim cuidado e apesar de ter uma filha bebé não vi indícios de privação do sono. E, espantem-se, ainda a apanhei num episódio ou outro, sentada calmamente a ler o jornal.

O lado negro: usa sempre a mesma roupa, não sabemos quantas vezes por semana toma banho, está quase sempre enfiada em casa, é incrivelmente parecida com o marido e aquele corte de cabelo com uma bandolete azul não lembra a ninguém. E, este é que estraga tudo, aquele tom de voz de dona de casa desesperada encharcada em compridos não engana ninguém, “oh fofinho”, “parece-me tão divertido ires saltar nas poças de lama”, “cuidado que te vais ferir”, “não te preocupes que a mamã limpa”, os risinhos. A minha conclusão é só uma: a mãe do Ruca está à beira de cortar os pulsos.

Resolvi meter tudo em pratos limpos quando fui buscar os miúdos à escola.

“- Sabes filha, a mãe do Ruca não existe. Pensa bem, ela tem sempre a casa arrumada e sem pedaços de bolacha espalhados pelos móveis, ela não grita, nem se enerva e o pior que diz ao Ruca quando ele faz birras tontas é “oh fofinho”, achas que é parecida comigo?”

A minha filha fez uma cara de quem percebeu que estava lixada e pediu para ver a Masha e o Urso.

Ainda bem.

Sou mãe e as vezes tenho medo… Todas as mães têm medos dentro de si. Há quem os tenha adormecidos e há quem viva aos sobressaltos.
Ser mãe exige-nos esforços diários constantes que executamos com uma naturalidade tal que, por vezes, passam despercebidos à nossa volta. Temos um mundo ou vários mundos nas nossas mãos e cai em nós a responsabilidade de os segurar como fossem bolas de cristal.
Quando penso que posso adoecer e que a mão que segura a minha casa pode estremecer, tenho Medo!
Quantas vezes adoecemos e os filhos parecem perdidos pela casa. Não sabem da roupa, dos sapatos, dos livros e da alimentação… Parecem zombies que vagueiam pelo espaço, perdidos na luz. Exagerando nos meandros da escrita, mas confessem lá se não parecem!
Eu tenho um medo que me acompanha diariamente, luto contra ele constantemente, como os heróis lutam contra os terríveis.
Há dois anos adoeci e fiquei a morar no hospital apenas por nove dias, sendo os mais longos dias da minha vida. Imagino com frequência as outras mães que lutam diariamente contra doenças graves e que tem de proteger as suas casas com a força das leoas quando o seu corpo fraqueja e a alma sofre.
Penso nas mães que lutam para sobreviver e que têm a força de um vulcão equilibrando as emoções num corpo que sofre.
E quando o mundo parece que foge, aparece alguém que nos segura nas mãos e caminha ao nosso lado, ajudando a superar os medos que controlam os pensamentos e o corpo com uma habilidade assustadora.
Queridos filhos, espero não voltar a sentir este monstro perto de nós, no entanto, se ele ou outro aparecer por ai mantenham o lar unido e criem a tal corrente que o protege do mundo em constante correria.
A mãe tem muito medo e este medo visita-me frequentemente … não hoje!
Porque hoje tenho sede de viver e de estar aqui entregue ao amor que nos une incondicionalmente…

LER TAMBÉM…

Quando somos mães deixamos de ser donas da nossa vida. É o lado B da maternidade. Para lá dos sorrisos desdentados, do cheirinho a bebé, das primeiras palavras toscas, dos abracinhos doces e da magia de os ver crescer, existe um lado obscuro.

Por trás de cada mãe radiante com os seus pequenos milagres, existe uma mãe esgotada, carregada de sono e com falta de tempo para cuidar dela.

Quando engravidamos deixamos de ser donas do nosso corpo, isso é logo evidente desde a primeira consulta no obstetra. Tudo o que importa é que a mãe enquanto receptáculo do ser que carrega na barriga, coma apenas o suficiente para o fazer crescer e não engordar como um rinoceronte, que não ajavarde em açúcar para não ficar diabética, que faça todas as ecografias e exames de rotina e que se habitue desde logo a não dormir.

E dormir nunca mais vai ser o mesmo. Eu abri mão desse departamento assim que o meu filho nasceu. O que (não) durmo é da exclusiva responsabilidade do meu benjamim. Os filhos decidem quantas vezes vamos ser acordados durante a noite, se ficamos deitados ao pé deles em camas minúsculas para que parem de chorar antes de acordarem os vizinhos ou se temos direito a ir para a nossa cama dormir as poucas horas que faltam para o despertador tocar.

Acordar depois das seis e meia da manhã também passa a ser uma lembrança longínqua. Quando é que isso aconteceu pela última vez? Noutra vida. Os miúdos acordam-nos antes do sol nascer, somos arrastados para a sala, sintonizamos o Canal Panda, que é particularmente irritante àquela hora da manhã, e ficamos a amaldiçoar as escolas que não estão abertas ao fim-de-semana.

A conta bancária que um dia foi nossa passa a ser a conta onde está o dinheiro para gastar com os filhos. O dinheiro que antes seria para umas calças novas, para um fim-de-semana romântico, para jantar fora ou imaginem, para poupar, é sugado para os pediatras, para as vacinas, para as fraldas, para a farmácia, para as creches, para a ginástica, para a roupa deles. O que eles precisam (e não precisam) está sempre em primeiro lugar.

E a nossa vida profissional? O que dizer dela? Fica completamente à mercê das viroses que eles apanham na escola. Se eles vão para a escola ficam doentes, se eles ficam doentes nós ficamos em casa, se nós ficamos em casa não trabalhamos, se não trabalhamos a empresa diz que não fazemos falta, se não fazemos falta… Se noutras alturas podíamos mandar tudo mais alto que as estrelas, recomeçar e arriscar, com filhos todas as decisões são tomadas em função do que é mais seguro para eles.

Com filhos não há planos a dois que resistam. Ao planearmos uma escapadinha de fim-de-semana, um jantar romântico ou uma ida ao cinema, para além de termos que encontrar uma avó ou uma tia com disponibilidade, temos também que baixar as expectativas porque, de um momento para outro, um deles, ou os dois, pode adoecer e lá se vai o romantismo. E o sexo!

As férias deixam de ser férias, porque acreditem, os pais não têm férias. Estamos sempre de serviço, prontos a servir, vinte e quatro horas por dia. As férias acabam e nós precisamos de férias sem filhos. E adivinhem? Já não temos mais férias.

Sim, não desanimem, os filhos são o melhor do mundo, mas como diz a minha filha, não é disso que eu estou a falar.

image by norman rockwell

ARTIGOS RELACIONADOS

Ser Mãe todos os dias cansa!

A maternidade é a recruta das mulheres

Serão as outras mães melhores do que eu?

Eu que não quero ser super mãe, dei por mim a pensar até me dava jeito ter um superpoder ou outro. As circunstâncias deste devaneio? Estava a conduzir, em plena auto-estrada, sozinha com os dois, quando começam os gritos vindos de trás. O costume. O cinto está apertado demais, a chucha caiu, querem bolachas, água, fazer xixi, moer-me o juízo.

O que me dava jeito naquele momento? Ser a mulher elástica. Segurar o volante com uma mão, esticar o outro braço, apanhar a chucha, espetá-la na boca do mais novo, tirar a água da mochila e dar à mais velha e pelo caminho ia-lhes dando uma belinha na testa para pararem de gritar.

Quando dei por mim estava a pensar em todos os superpoderes que me iriam facilitar a vida:

Invisibilidade
Para não ter de me esconder dos miúdos na casa de banho.

Invencibilidade
Para me ajudar a não sucumbir à tortura do sono a que sou sujeita vai para vinte oito meses e para resistir a todas as viroses que os miúdos trazem da escola.

Ler pensamentos
Para conseguir perceber o que raio se passa naquelas cabeças para que façam tantas birras.

Controlar a mente
Em conjunto com o anterior, para antecipar as birras, para não serem teimosos como uma mula, para deixarem de dizer que não e para me obedecerem imediatamente! Até fiquei cansada.

Visão noturna
Para não dar pontapés nos brinquedos e cabeçadas na parede, quando me chamam a meio da noite para virem para a nossa cama.

Visão raio x
Para ver onde enfiaram o boneco que tanto procuram ou para estar na cozinha e a controlar os disparates que estão a fazer na sala.

Metamorfose
Porque às vezes me dava jeito transformar-me no pai, principalmente na hora de adormecer a minha filha (com o pai a coisa corre sempre melhor).

Duplicação
Para conseguir responder aos dois ao mesmo tempo, principalmente quando o pai está fora. Duas de mim era o ideal, para dar banhos, jantar e adormecer os dois. Duas mães a gritar também havia de ser bonito de aturar. Aguentem-me.

(Super) Resistência física e mental
Para conseguir levantar-me da cama fresca como uma alface, mesmo sem ter dormido decentemente e para aguentar todas as birras com um sorriso nos lábios e os neurónios intactos.

Agilidade
Para aguentar uma hora com eles no parque, dos baloiços para o escorrega e do escorrega para os baloiços ou para agarrar o mais novo no ar quando está prestes a cair do sofá e a bater com a cabeça no chão.

A força do Super-Homem
“O pai é mais forte que tu!” O que a minha filha quer é que eu alombe com eles ao colo até ao terceiro andar como o pai faz e chama-me fraquinha. Machista!

Velocidade
Para ao fim-de-semana arrumar a casa em meio minuto e alapar o rabo no sofá como não faço há mais de quatro anos.

As garras do Wolverine
Para cortar o cabelinho às mamãs que me irritam no parque. Vocês sabem quais são.

Voar
Para ir para casa sem passar pela confusão do metro e o mau cheiro dos barcos, para abraçar os meus filhos e curar as frustrações do dia com os sorrisos deles. Até que comecem a fazer birras porque não querem partilhar os brinquedos, claro.

Telepatia
Para comunicar com o meu marido sem os miúdos perceberem, do tipo “Meu amor, hoje és tu que vais adormecer os dois que eu estou que não me aguento!”

Se continuasse a pensar nisto nunca mais acabava, queria poder estalar os dedos e deixar de os ouvir a chamar por mim de segundo a segundo, curá-los imediatamente quando ficam doentes, prever o futuro para ter a certeza que estou a fazer um bom trabalho, estalar os dedos e dar por mim deitada numa praia paradisíaca a saborear um gin tónico sem miúdos por perto. Como não tenho superpoderes para além da minha incrível capacidade de andar na rua em piloto automático, vou deixar-me destas tretas e acordar para a realidade.

imagem@andyshango

RELACIONADOS

Os super poderes de uma mãe

Um dia na vida de uma mãe

10 confissões banais de uma mãe