Se há coisa que eu nunca vou perceber são mães que deixam os filhos chorar uma hora, duas horas até eles adormecerem. Para mim, é contra-natura. Se o nosso instinto nos impele a protegê-los, para quê contrariar isso? Estamos a criar ditadores e bestas prepotentes? Chorar só faz é bem e abre o pulmão? Palmadas nesses vossos rabos gordos! Levantem-nos mas é e vão mimar os vossos filhos, abraçá-los, dizer-lhes palavras de conforto, levem-nos para a vossa cama, fiquem lá a dormir com eles, façam o pino. Deixar chorar um filho: NÃO!

Ah! Mas ele não tem fome, nem a fralda suja, nem frio, é só manha!” Mas por que é que ele querer protecção não há de ser uma necessidade tão importante de suprir como todas as outras? Por que é que havemos de querer bebés de seis meses já autónomos e independentes?

Olha para esta a falar de barriguinha cheia! Vê-se mesmo que não está privada de sono há meses! Se soubesses o que é não dormir três horas seguidas, ias ver se não tinhas vontade de o mandar pela janela...”

De facto, tenho sorte. A Isabel dorme bem, faz noites de 7 ou 8 horas seguidas, consegue readormecer sozinha, nem sempre, mas quase sempre. Só que o normal é um bebé não conseguir. Ainda por cima, com as diversas fases de desenvolvimento por que passam, as noites podem ficar comprometidas. Se vão para a creche ou se a mãe vai trabalhar, precisam desse conforto extra. Se a minha bebé acordasse de duas em duas horas eu não conseguiria deixá-la a chorar no quarto ao lado para ela aprender a dormir sozinha, simplesmente porque isso não faz sentido! Preferia fazer trinta por uma linha, co-sleeping, dormir a dar-lhe a mão, ler livros e procurar vinte mil especialistas que não me propusessem deixá-los chorar até adormecerem de cansaço ou até vomitarem, tentar alterar a rotina durante o dia, mas nunca deixar chorar!

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Até porque é perigoso! O nível de stress é tão grande, que eles produzem elevados níveis de cortisol, uma hormona perigosa para o desenvolvimento saudável do cérebro. Até especialistas que defendiam esse método (Estivill, por exemplo) já se retrataram e disseram que afinal não deveria ser usado para crianças com menos de 3 anos. 

 
“Mas resulta. O meu mais velho deixou de chorar numa semana!” 

O problema é que até pode deixar de chorar amanhã ou para a semana, mas isso não vai significar que não continue a acordar e a ficar stressado e inseguro sozinho! Só vai aprender que não vai valer a pena chorar porque ninguém o vem ajudar. 

Quão triste é isto: um filho sentir-se perdido, precisar da Mãe, mas simplesmente desistir de pedir ajuda?

Sim, “a procissão ainda vai no adro”.
Sim, “vai piorar”.
Sim, “ainda vou morder a língua”.
Sim, “tenho de esperar pelos dois anos. E pelos três.”
Sim, “vou ver como elas mordem quando vier a irmã.”
Sim, admito que ainda não sei nada. Sei pouco. Que cada criança é uma criança. Que cada um gere as crises familiares à sua maneira, de acordo com o que sabe e acha melhor. Mas, assumindo que não tenho experiência nenhuma com uma criança de dois anos e três anos (só tenho a experiência de uma criança de 22 meses), posso dizer-vos como lido com as birras da Isabel.
Não a ignoro.
Não grito.
Não desato à gargalhada.
Não fico em pânico.
Não fico envergonhada.
Não lhe bato.
Não a imito, a gozar.
Não a ameaço.
Não faço birra.
Não lhe digo que ela é feia, nem má, nem um terror, nem que está impossível.
Não a ponho de castigo.
Respeito-a. Encaro como uma fase normal. Dura, difícil para nós, mas principalmente para eles. Para mim, fazer birras é bom sinal. É um sinal saudável de que ela tem emoções, vontades e necessidades. Está a desenvolver a sua personalidade e não sabe expressar-se de outra forma. O único entrave às vontades dela está a ser colocado pela mãe ou pelo pai. Mandar-se para o chão, chorar, tentar bater, mandar coisas para o chão está a ser a forma – a única que ela conhece – de expressar o seu desagrado. Não é nada contra mim nem contra o pai. É a frustração a falar mais alto.
Falo com ela de forma calma.
Ponho-me ao nível dela.
Às vezes dou-lhe festinhas.
Às vezes isso enerva-a mais e eu paro.
Digo-lhe que vai passar.
Tento abraçá-la.
Não lhe faço a vontade.
Converso com ela. Explico.
Tento desviar-lhe a atenção para outra coisa.
“Filha, não podemos ficar mais a brincar no parque, está a ficar frio. Se apanhamos frio, ficamos com dói-dói e atchim. Em casa, podemos encher a piscina de bolas! Fazer uma chuva de bolas. Também vai ser divertido.
Passou. Às vezes não explico minuciosamente. Digo que não pode ser, mas tento logo canalizar a atenção dela para outra coisa.
Não ganho nada em alimentar a frustração dela. Se gritar com ela, estou a deitar achas na fogueira. Se bater, estou a destabilizá-la ainda mais. E o que eu quero? Que a estabilidade volte. Que ela se acalme.
Há quem diga que não temos de explicar tudo. Que “não é não”. Mas, para mim, isso é pouco normalmente. Não quero que me veja como autoritária. Quero conquistá-la. Quero que confie em mim. Geralmente dou-lhe exemplos e modelos, que ela, devagarinho, vai compreendendo. Não queres vestir o casaco? A mãe tem um vestido, o pai também e até podemos vestir um ao cão. Tem de ser. Chora um bocadinho, às vezes não chora, às vezes tenho de forçá-la a vestir-se, mas passa. Acaba por passar.
No outro dia, perante uma birra da Isabel no cabeleireiro, uma mãe disse-me “ui, a minha comigo não faz farinha”. A minha faz. Espero que faça pão, até. Não lhe faço as vontades, não volto com a palavra atrás, mas tento ser paciente. Não ganho nada em ser agressiva. Eles são o reflexo do que vêem e do que sentem. Não vamos juntar à árdua tarefa de crescer os nossos stresses. Nós temos o dever, enquanto adultos, de tentar controlar os nossos nervos. Eles não, estão a aprender a gerir tudo.
Sim, muito provavelmente vai piorar. Sim, muito provavelmente vou morder a língua. Sim, vou descontrolar-me algumas vezes, sou humana. Mas, para já, é assim que tem sido. E, até agora, tem resultado com a Isabel.
Coragem!

Querida mãe da criança aos gritos no super-mercado:

Eu sei que estás envergonhada. Consigo ver nos teus olhos o desespero ao tentares levantar o teu filho histérico do chão. Estás toda encarnada, e vejo que prendes as lágrimas nos olhos para não correrem cara abaixo.

Tens umas calças elásticas pretas e uma t-shirt, e tal como eu, o cabelo com um ar de quem não vê pente há dias, embora o tenhas lavado e arranjado esta manhã. Eu sei que me viste a olhar para ti. Mas quero que saibas uma coisa: eu não te estava a julgar!

Eu não estou a pensar que deverias ter agido de outra forma, ou teres sido mais ou menos qualquer coisa. Eu não me estava a questionar porque é que trazes uma criança para o super-mercado, porque sei que não deves ter sítio melhor para a deixares. Nem me estou a questionar porque é que não consegues controlar o teu filho. As crianças não são robots, são pessoas livres que, de vez em quando, também lhes salta a tampa, e por vezes em público.

Nem sequer estou a perguntar porque é que não és um mestre Jedi, que usa o poder da força para acabar de vez com essa birra. Não estou a perguntar porque é que o teu filho não te respeita ou não tem medo suficiente de ti para se calar no minuto que o mandaste calar, porque sei que não és nenhum “Putin”.

Queres saber o que é que eu estou a pensar enquanto olho para vocês?

Eu estou a pensar em quantas horas de sono terás dormido a noite passada. Aliás, quantas horas de sono terás dormido nos últimos dois anos.

Eu queria saber se, tal como o meu, o teu filho ainda acorda todas as noites a chamar, apesar de já ter tentado de tudo! Eu queria saber se o teu filho também acorda com as galinhas, a pedir para ver televisão e para tomar o pequenos almoço (que acabo por ser eu a comer porque não aguento ver mais comida desperdiçada)

Eu tento adivinhar quando terá sido a última vez que fizeste uma refeição completa sem teres um par de mãos em miniatura a tirar-te o prato ou uma criança ao colo. Provavelmente foi há muito tempo. Será que o teu pequeno almoço, tal como o meu, foi o resto das torradas dos miúdos e meia chávena de café? A outra metade estava fria, puseste a aquecer no micro-ondas e nunca mais te lembraste dela? Pois, eu também…

Será que ficas tão animada simplesmente por sair de casa, mesmo que isso signifique que o teu filho te vai pedir para comprar o corredor completo de brinquedos, vai descalçar os sapatos no carro, pedir para fazer xixi 200 vezes e passar metade do tempo a chorar enfiado no carrinho do supermercado?

Enquanto tentas pegar no teu filho aos gritos, e pergunto-me se será a sua hora da sesta, e tal como eu, tentas fazer tudo o que precisas a correr para chegar a casa e pô-lo a dormir. E que anseias que não adormeça no caminho (claro que vai adormecer!) , e assim, em vez de teres uma tranquila hora de silêncio, vais ter uma tarde infernal de choro, drama, gritos, mais café à temperatura ambiente, isto tudo enquanto imaginas que a qualquer momento vais passar para uma bebida mais forte!

Gostava de saber se estarás tão surpresa como eu com o quão difícil é a maternidade, mas no entanto não mudarias nada!
Gostava de saber se amas os teus filhos mais do que pode ser descrito em palavras, e repetias tudo outra vez sem pestanejar. Menos a parte das birras!

Gostava de te perguntar se estás bem. Já levantaste o teu filho do chão e vais-te embora deixando o carrinho cheio de compras para trás. “I’ve been there!” Espero que os teus dias melhorem!

Acontece a qualquer uma. Basta ser mãe.

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Por Stuffmomsay, traduzido e adaptado por Up To Kids®

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Quando uma criança faz uma birra, enquanto uns se apressam a rotular a criança de teimosa, e imediatamente surge um familiar com quem a identificam, outros preocupam-se com a forma como podem lidar com a situação.

“Serão normais estas birras?”, “Por que é que acontecem?”, ou “Como devo reagir?”, são algumas das questões que surgem com frequência.

Mas afinal, qual o segredo das birras?

As birras são muito comuns na fase dos 2/3 anos de idade e são até saudáveis, isto é, são comuns a todas as crianças dessa faixa etária (ou espera-se que sejam) e são consideradas saudáveis porque acabam por passar uma aprendizagem à criança, se o adulto/cuidador reagir adequadamente à situação.

Antes de começar a caminhar, a falar e a conseguir o controlo dos esfíncteres, a criança é muito dependente dos cuidadores. É a partir do momento que começa a poder deslocar-se – com a aquisição da marcha; a começar a falar – aquisição da linguagem, e a controlar os esfíncteres que consegue sentir-se mais autónoma; mais independente. Ora a autonomia permite-lhe a possibilidade de opor-se aos outros e dá-lhe uma maior sensação de poder: “posso ir para onde quero; posso dizer “NÃO” e decidir onde e quando saem os meus cócós e xixis”. Esta “força” que sente vai tentar aplicar a todas as circunstâncias em que a vida não lhe corra como mais deseja. E usa o espernear, gritar, pontapear e atiradas para o chão como argumentos de peso.

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Como ser intuitivo e muito perspicaz que é (todas as crianças o são), lança os ditos argumentos de peso e aguarda pela reação dos cuidadores para perceber:

  1. Se assentem ao desejo, validando o argumento – que passa de negado, em primeiro plano, a consentido, logo a seguir;
  2. Ou, então, os cuidadores suportam a birra; não a valorizam e esperam calmamente que a criança consiga tranquilizar-se

É nesta reação dos adultos que pode residir a chave para que as birras sejam uma mera fase do desenvolvimento emocional infantil, considerada por si só como transitória, ou assumam contornos de comportamento característico da criança.

Os cuidadores devem esperar que a criança se tranquilize sem ceder ao que originou a birra, quer este comportamento seja em casa, num ambiente mais privado, quer seja fora, num espaço público. Os desejos concedidos durante uma birra promovem o continuar deste comportamento porque a criança percebe “isto funciona”.

A capacidade dos cuidadores suportarem/aguentarem o momento da birra, proporciona à criança:

  1. A possibilidade de aprender a tolerar a frustração. Efetivamente, nem tudo o que se deseja pode ser alcançado e é desde pequeninos que essa aprendizagem é feita, através destas pequenas frustrações.
  2. A sensação de limites que conduz a criança a sentir-se mais segura, mais apoiada, vivenciando os cuidadores como fontes de suporte.

Espera-se que a atitude dos cuidadores seja consistente no tempo, permitindo à criança espaço para compreender que os pais estão seguros de si e têm regras bem definidas, o que se traduz em conforto e segurança para a mesma. Desta forma, conseguirá sentir os pais como os pilares fortes que precisa para crescer confiante.

Muito embora as já referidas birras sejam comuns no processo de desenvolvimento emocional, é importante ter em atenção a idade da criança para poder definir o comportamento como ajustado (ou não).

Se persistirem dúvidas, não hesite em contactar-nos.

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Hoje acordei com sono! Depois de uma noite mal dormida só me apetecia um pouco de calma, um pequeno almoço descontraído, um banho revigorante antes de ir para o trabalho… Mas ele acordou rabugento. “Não quero mudar a fralda”, “Não quero tirar a roupa”, “Não quero comer”, “Não quero vestir”. Eu fui tentando, negociar, explicar o porquê, dar o tempo necessário, mas hoje estava com sono, eu também tinha o direito de estar rabugenta!

Tive de andar atrás dele para sairmos de casa, lá se tinha ido a manhã perfeita que eu havia idealizado!

Ao longo do dia fui pensando no que tinha acontecido nesta manhã e nos dias anteriores. O filhote anda numa fase de negativismo, diz não a tudo, quer ser independente mas ao mesmo tempo depende mais dos pais, acordando inúmeras vezes ao longo da noite e procurando o nosso conforto. O que vulgarmente se refere como os terríveis dois, ou seja anda numa luta entre a vontade de ser independente, de fazer sozinho algumas coisas e a insegurança, o medo de se afastar dos pais. Esta é uma fase assustadora e cansativa tanto para os pais como para as crianças.

Acabo por ficar com um sorriso na cara, o meu filho sente-se seguro em casa, junto dos pais, para exprimir sentimentos negativos, libertar as tensões do dia, experimentar as suas novas capacidades, exprimir as suas vontades, em suma para fazer “birras”!

Vou guardar este pensamento para a próxima manhã complicada ou fim de dia com menos paciência e repito para mim “Que bom que o meu filho se sente seguro para exprimir toda a sua individualidade e autenticidade”.

Por Rita Felizardo, Conselheira Parental em Leiria

imagem@whatafraid

Antes de mais, é importante dizer que os gritos são uma manifestação frequente das birras. O grito, é na realidade uma manifestação da própria vida em si, de força, de intensidade, vitalidade e desejo de viver e ser livre. A verdade é que é para nós adultos, já “socializados” e obrigados desde cedo a controlar os nossos impulsos e manifestação emocionais, muito difícil gerir e acolher os gritos dos nossos filhos. Olhamos para os gritos como algo que incomoda, que perturba os outros e a nós mesmos. Algo intenso, que deve ser controlado desde logo. Na verdade, é uma questão cultural também. Noutros contextos culturais, os gritos fazem parte de rituais e festas. E, enquanto que por cá choramos baixinho, noutros países, um funeral sem gritos de dor bem audíveis, não é um funeral digno.

Ainda assim, não quer dizer que não possamos debruçar-nos sobre o assunto e tentar perceber se, efectivamente, é possível ou desejável fazer alguma coisa. Antes de mais, é importante começar pela prevenção (ler algumas estratégias aqui). Isso vai permitir diminuir a frequência das birras e, eventualmente,  reduzir a sua intensidade (esta última não é garantida). Em segundo lugar, é preciso entender a razão pela qual o seu filho escolhe especificamente os gritos intensos como “ponto forte” das suas birras. Podemos pôr algumas hipóteses:

– É uma questão de temperamento da própria criança e está enquadrado nesta etapa das birras de forma natural.

– É resultado da forma de comunicação que tem em casa. Se estiver rodeado de uma comunicação muito agressiva e com muitos gritos, a criança exterioriza depois toda essa tensão gritando ela também.

– É resultado da vivência das emoções na estrutura familiar. Por exemplo, pais que carregam emoções negativas e que as retraem no seu dia-a-dia, podem ver a criança manifestá-las no seu lugar (de forma mais descontrolada porque são demasiado pesadas para ela). Raiva, frustração e/ou depressões latentes nos pais, podem ser alguns exemplos.

– A criança grita porque resulta. Isto quer dizer que os pais, de alguma forma ou cedem ao pedido (mesmo que seja muito raramente) ou ficam focados na criança (o que é um ganho secundário da birra). Sendo assim, mesmo que o processo ocorra de forma inconsciente na criança, ela tende a usar as estratégias que são, ainda que sem querer, reforçadas pelos pais.

– Os gritos tocam numa sensibilidade natural dos pais. Estes, reagem intensa e emocionalmente, fixando, ainda que sem querer, a criança naquele comportamento. Neste caso, quer dizer que a criança encontrou algo a que os pais ou um dos pais é particularmente sensível. Este processo é inconsciente para ambos. Por um lado, a criança sente que a mãe/pai reagem de forma diferente quando surgem os gritos. E da parte dos pais, a reacção é mais intensa precisamente por ter essa sensibilidade. A causa dessa sensibilidade normalmente pertence ao passado dos pais. O segredo está em perceber porque é que é tão difícil para os pais ouvir os gritos do seu filho. O que é que isso lhes recorda? Em quê que isso mexe com os adultos? Quando eram pequenos gritavam? Como reagiriam os seus próprios pais se gritasse daquela maneira? Tinham liberdade para expressar livre e intensamente a zanga e a frustração? Estes impulsos eram imediatamente reprimidos?

Há que referir que estas são algumas hipóteses, existem outras e servem apenas para que os pais possam acima de tudo perceber o que é que está em jogo naqueles momentos. Quando as causas são externas, então devem ser trabalhadas e mudadas de forma a libertar a criança de algo que não é dela. Aí passará a viver as birras de forma mais livre e dentro daquilo que lhe é natural (sim… as birras não desaparecem magicamente). Se a razão por detrás dos gritos for o temperamento da criança, e a forma como esta exterioriza a frustração, a zanga e/ou tristeza, então aí, a sugestão será ajudá-la a transformar essa forma de reagir, noutra mais “evoluída” e que a família possa aceitar melhor.

As estratégias:

  1. Aceitar a criança tal como ela é e entender que naquele momento, está a lidar com emoções que ainda não consegue gerir e que a deixam desestabilizada e/ou até descontrolada. Ou seja, evite gritar, insultar, ameaçar, castigar.
  2. Acolher a energia que ela está a libertar através dos gritos, choro, etc. Para isso é importante perceber o que é que aquele momento representa para nós também.
  3. Seja o que for que tenha decidido, proibido, negado à criança e que tenha desencadeado a situação, mantenha-se firme e não ceda. Não é isso que a criança precisa de si. Precisa sim de perceber que os pais podem ser firmes mas sem ficarem eles mesmos desestabilizados e agressivos.
  4. Diga-lhe que com gritos e choro não consegue entender o que ela está a dizer e que, por isso, vai esperar que ela se acalme para poderem conversar. Diga isto de forma firme mas calma e depois evite continuar a falar (isso alimenta a continuidade e intensidade do momento).
  5. Fique por perto, mesmo que decida levá-lo para o quarto por exemplo, fique com ele. Mas não interaja com a criança até que esteja mais calma.
  6. Depois da criança estar calma, aí sim poderá conversar. Diga-lhe o que sentiu, e dê-lhe espaço para fazer o mesmo. Explique que quando está no momento da “birra” não consegue ajudá-lo e só pode esperar que se acalme. Que a birra não serve para que mude de ideias, mas que entende que seja a forma que tem de mostrar que está zangado. Diga-lhe que no entanto, existem outras maneiras de mostrar que se está zangado que podem ser melhores para todos.
  7. No momento em que já é possível conversar com a criança, pode ser necessário dizer-lhe que a birra vai ter consequências. Estas devem ser lógicas e associadas ao acontecimento. Por exemplo, se a birra acontece de manhã porque a criança não quer desligar a televisão para ir para a escola, então pode fazer sentido que na manhã seguinte não haja televisão. Para que continue a haver, é importante que a criança faça a sua parte de a desligar na hora combinada.

Desta forma, os pais vão ajudar a que a criança, gradualmente, encontre outras formas de se manifestar. Ao mesmo tempo, é importante entender que naquele momento ela ainda tem muita dificuldade em lidar com determinadas emoções e principalmente com a frustração. Mas se os pais não cederem, vai aprender que as consegue gerir cada vez melhor. Para isso, é também importante que os pais valorizarem os momentos em que os filhos conseguem acalmar-se e/ou sempre que estes usarem outras formas de agir.

Publicado originalmente no Blog Ana Guilhas Psicóloga

Vi-te na biblioteca da escola primária onde eu dou aulas, e o teu filho de quatro anos estava a berrar contigo. Estava a gritar, desesperadamente, na tua cara. Foi por isso que eu olhei para ti. Foi por isso que toda a gente olhou para ti. Ele estava desesperado porque não lhe compraste o novo livro da Lego Star Wars, de 19.99€, que traz os bonecos que ele “precisa, precisa preciiiiiiiiiisa” mesmo de ter.

Está a fazer uma cena enorme. Eu ouvi do outro lado do corredor. Está a gritar e a espernear enquanto se contorce no chão. Ele só chora e grita, e diz que a mãe é má porque não lhe dá o que ele tanto quer. O mundo dele está desmoronar-se, e ele só consegue dizer que és a pior mãe do mundo.

Todas as pessoas à volta já estão a olhar para ti. A empregada está congelada, sem saber como reagir. Toda a gente está a olhar para ver o que vais fazer em relação à sua birra. É uma daquelas birras barulhentas e incomodativas de se assistir.

Vejo as lágrimas a subirem-te aos olhos, mas também vejo a coragem e força estampadas na tua cara. Estás calma e serena, e aparentemente não estás incomodada com a birra do teu filho. Continuas o pagamento na caixa, depois colocas os livros na mala, calmamente dás a mão à tua filha, recolhes o miúdo enquanto grita, e sais biblioteca fora. Ele continua a contorcer-se e a empurrar-te. Acabou de te arranhar na cara, deixando uma grande marca na bochecha, mas continuas a caminhar calmamente.

Conforme andas até ao carro (e eu não posso deixar de seguir-te e observar com admiração as tuas técnicas mágicas de parentalidade) ouvi-o gritar, entre soluços enquanto tentava recuperar o fôlego sem sucesso: “-A MÃE PROMETEU QUE EU PODIA COMPRAR UM LIVRO HOJE!“. Calmamente respondeste: “Eu dei-te 10€ para gastares num livro hoje. Escolheste um livro mais caro. A seguir preferiste passar o teu tempo na feira a chorar e a gritar em vez de procurares um livro que pudesses comprar com o dinheiro que te dei. Tenho muita pena que tenhas feito essa escolha, deve ser muito triste para ti saíres da feira sem nenhum livro hoje.”

Ele, claro, não gostou dessa resposta. Na verdade, ainda gritou e chorou mais alto. Contorceu-se tanto que quase que te caia dos braços. Colocaste-o calmamente no chão com firmeza, mas com amor, agarraste-lhe no pulso para que ele não fugisse. Num tom calmo, paciente e maternal disseste: “querido, eu adoro-te. Eu amo-te muito. Eu sei que agora estás triste, e eu fico triste quando tu estás triste. Vamos entrar no carro e vou dar-te o teu cobertor: faz-te sempre sentires-te melhor.”

Ele responde: “mas, mas, mas…a mãe não comprou o meu livro…” Repetiste o que disseste anteriormente: que estás triste por ele ter escolhido perder o seu tempo a chorar em vez de procurar um livro que custasse 10€.

Depois, em silencio, deste-lhe um grande abraço (ao qual ele resistiu), pegaste-lhe ao colo (apenas para ser novamente arranhada na cara), e sentaste-o na sua cadeirinha no carro. Fechaste a porta e, apoiaste-te inclinada no carro por um momento. Deixaste escapar um suspiro, de frustração, antes de entrar no carro e ir embora.

Hoje, tu não cedeste. Não cedeste em momento algum, e por isso eu quero agradecer-te.

Obrigada por seres uma mãe que estabelece limites para o seu filho. Obrigada por seres uma mãe que não cede ao constrangimento social para apaziguar os desejos do seu filho pequeno que está aos gritos.

Obrigada por escolheres não lhe dar tudo o que ele quer.

Obrigada por teres a maturidade de lhe pegar ao colo enquanto ele se contorcia e gritava, e calmamente explicar-lhe as razões pelas quais não compraste o livro da Lego hoje.

Obrigada por teres maturidade para conversar com o teu filho como um adulto e permitir-lhe ver as consequências de suas ações. Obrigada por lhe teres explicado que não era um problema teu, que era uma confusão criada por ele, baseada numa (má) escolha que ele fez.

Muito obrigada por seres um exemplo para todas as mães, porque ser uma mãe firme que cumpre a sua palavra é muito mais importante do que ceder, para evitar uma birra. Obrigada por seres uma mãe em quem os teus filhos podem confiar, porque és consistente e firme.

Obrigada por seres uma mãe que faz os seus filhos sentirem-se seguros. Obrigada por amares os teus filhos o suficiente ao ponto de não seres a amiga deles, mas sim assumires o papel de mãe.

Como professora, eu vejo todos os dias uma grande variedade de pais e vejo todo o espectro de estilos parentais e abordagens. E como uma professora, eu consigo ver a extrema necessidade que o mundo tem da existência de mães como tu.

A feira do livro foi há três meses, e eu ainda estou a pensar na forma como lidaste com a birra do teu filho naquele dia.

Obrigada por seres o tipo de mãe que cria filhos respeitosos e humildes. A tua influência é muito maior do que jamais saberás.

Atenciosamente,
Uma professora grata.

Ler também Carta às mães mais que perfeitas

 

Por , no blog argyle in spring
traduzido e adaptado por Up To Kids®

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Pais à beira de um ataque de nervos

Quem nunca assistiu à birra de uma criança em pleno supermercado?

A criança que entre choros e gritos estridentes se atira ao chão; os pais (descontrolados, desgastados, desesperados e por vezes até desgrenhados) que tentam a todo o custo dar termo à infindável birra e que, por vergonha, anseiam o fim dos olhares acusatórios que teimam em surgir (por entre fraldas e pacotes de bolachas).

Manter a calma.

Algo que é tão desejado entre os pais (e tantas vezes prometido) mas que é tão difícil de alcançar em certas ocasiões.

Como manter a calma quando, num abrir e fechar de olhos, tudo se transformou num verdadeiro campo de batalha?

Como garantir a serenidade quando as regras e os limites são constantemente desafiados até à exaustão e as birras teimam em chegar dia após dia?

Como voltar a recuperar o controlo quando a panela de pressão está prestes a rebentar?

Certos comportamentos funcionam em nós como “gatilhos” que, ao serem acionados, podem levar-nos a agir da forma menos ponderada. Na parentalidade, experiência pessoal particularmente complexa e emotiva, as emoções podem ganhar especial relevo e levar a respostas menos desejadas. O desafio prende-se com o reconhecimento das emoções e dos sentimentos que surgem nos momentos de tensão, tal como a procura de estratégias eficazes que possibilitem um maior controlo das emoções, sempre que o “gatilho” é ativado.1

Dar livre curso à raiva (com gritos e pragas de todo o tipo), pode dar-nos a sensação momentânea de que estamos a libertar a tensão e a reduzir a irritabilidade que estamos a sentir no momento.

Mas será que libertar a tensão do momento, como se de uma panela de pressão nos tratássemos, é a melhor solução? Será que a sensação de efeito catártico que sentimos naquele instante, é eficaz a longo prazo?

Na verdade, muitas vezes o que adquirimos é apenas uma falsa sensação de poder momentâneo. Violência gera violência e dar livre curso à raiva pode estimular a agressividade e prolongar a sensação de irritabilidade.

A longo prazo, e através da observação, as crianças podem aprender o comportamento dos pais e reagir de forma mais agressiva sempre que se sentirem frustrados.¹ Da mesma forma, observar uma postura calma em momentos de stress, poderá levar a criança a reagir de forma mais assertiva perante situações de frustração.

Aprender a relaxar e a gerir o nível de stress e irritabilidade pode ajudá-lo(a) a manter o controlo e a alcançar os seus objetivos sem o/a levar a si e aos outros à exaustão. Dê atenção ao seu corpo, aos sinais de tensão, e procure respirar e relaxar!2

Fazer tempos de pausa pode ser uma estratégia eficaz no alívio da tensão. Esta permitir-lhe-á afastar-se da situação, rever as estratégias usadas e “recuperar o folego”. Se está sozinho(a) com uma criança e não pode ausentar-se, tente alterar o tempo de pausa e adaptá-lo às circunstâncias.2

Sugerimos que experimente quais as estratégias que melhor funcionam ou não funcionam consigo.

Damos-lhe alguns exemplos:

Pare e pense antes de responder, sempre. Lembre-se da importância que é manter-se calmo e não perder o controlo.

Conheça os seus gatilhos e tome atenção ao seu corpo. Perceba quando o seu corpo lhe está a dizer para se acalmar (ex. coração acelerado, músculos tensos, nó na garganta).

Está no meio do conflito? Respire fundo e afaste-se por uns minutos. Durante o tempo de pausa, procure relaxar e distinguir as suas emoções dos seus pensamentos.

– Aprenda a relaxar. Aprender a relaxar fisicamente pode ser fundamental. Respirar profunda e lentamente sentindo o ar a entrar e a sair do nosso corpo, por exemplo, ajuda a libertar a tensão, diminui o ritmo cardíaco, relaxa os músculos e reduz a pressão sanguínea. Mesmo quando está em atividade, pode utilizar técnicas de relaxamento.

Liberte o stress através da prática de exercício.

 

1Pincus, D.  (2014). How to stop yelling at your kids: Use These 10 tips @ empoweringparents
2Webster-Stratton, C. (2010). Os anos incríveis: Guia de resolução de problemas para pais de crianças dos 2 aos 8 anos de idade. Braga: Psiquilibrios Edições

imagem capa@FreeDigitalPhotos.net

Aos dois anos as crianças quase não falam.
Aos três quase nunca se calam.

Aos dois anos as crianças choram.
Aos três fazem birras tão grandes que parecem possuídos.

Aos dois anos as crianças comem tudo o que lhes dermos, e ainda comem do chão se for preciso.
Aos três só gostam de dois alimentos, e um deles é queijo.

Aos dois anos o banho é um evento de 10 minutos, e o resultado é uma criança limpa.
Aos três os banhos levam mais de 20 minutos, e o resultado é a mãe encharcada, a casa de banho inundada, e 16 toalhas usada.

Aos dois anos as crianças usam fraldas.
Aos três o nosso mundo gira à volta das bexigas e intestinos deles.

Aos dois anos as crianças distraem-se com uma caixa de pastilhas elásticas na mercearia.
Aos três querem escolher as frutas e legumes que vamos comprar.

Aos dois anos escolhemos a roupa e vestimo-los. Ficam queridos que fartam.
Aos três as crianças insistem em vestir-se sozinhos e querem sair de casa com outfits indescritíveis.

Aos dois anos as crianças não gostam de se sujar.
Aos três a sujidade cresce com eles.

Aos dois anos podemos ajudá-los com as suas tarefas, poupando milhares de biliões de minutos na nossa vida.
Aos três querem fazer tudo sozinhos e demoram uma E-TER-NI-DA-DE!

Aos dois anos  a manipulação é a última coisa nas suas mentes.
Aos três três anos eles fazem de nós gato-sapato. E sabem-no!

 

por Jill Smokler, Scary Mommy,
tradução autorizado para 
Up To Lisbon Kids

imagem Jill Greenberg