Carta de uma terapeuta a uma mãe

Querida mãe,

antes de mais nada, não se preocupe. Eu sei. Deve ser de cortar a respiração estar constantemente a receber cartas, convocatórias e recados à espera da nova queixa, da nova reclamação, da nova coisa que não fez e devia ter feito, ou que fez e que não deveria fazer. Mas não se preocupe, esta não é uma dessas cartas.

Esta carta é de alguém que está tão preocupada e quer saber tanto do seu filho como a mãe quer saber. No fundo, ambas queremos apenas que o seu filho cresça e se desenvolva de forma harmoniosa e feliz.

Compreendo que deve ser de deixar os nervos em franja ter constantemente dezenas de profissionais que acham que conhecem melhor o seu filho que a própria mãe. Opiniões que vêm de todo o lado a dizer qual a nova moda na pedagogia, qual o novo desporto que deve ser praticado, ou aquele novo centro de estudos que vai resolver todos os problemas. E pior, ter diversos técnicos que puxam pelo seu filho, um por cada membro, para ver quem tem mais razão, quem entende mais, quem irá fazer melhor, e tantas, tantas vezes sem sequer perguntar à mãe o que acha. Por isso, peço-lhe desde já desculpa. É errado da nossa parte, e se o fazemos, por favor, diga-nos para pararmos.

É que sabe mãe, esta carta não é uma dessas cartas. Esta carta é sobretudo para si. Curioso não é? Falamos tanto do seu filho que por vezes até parece que não nos conhecemos uma à outra. Mas conhecemos, mãe. E eu sei o esforço que faz para sair do trabalho mais cedo para trazer o seu filho. Eu sei que no final do mês tem de reduzir naquele casaco que lhe daria tanto jeito, ou naquele jantar fora, para conseguir manter esta terapia, que na realidade, a mãe espera que dê resultados mas sempre sem certezas absolutas.

Por isso, hoje quero apenas dizer-lhe: está a fazer um trabalho extraordinário. Sim, nada mais que isso. Quero dizer-lhe que sei que está a dar o seu melhor. Quero dizer-lhe que sei que faz o máximo por se informar, seja em blogs, em revistas ou em conversas com outros adultos. Sei que tenta navegar neste mar de informação, tentando pescar a verdade e atira o arpão para a informação que lhe parece adequada. Sei que não é fácil seguir entre as várias correntes. O que pedem na escola, o que o seu filho lhe pede e o que a mãe precisa. Por isso, respire… Está a fazer o melhor que pode. E tenha paciência connosco, se conseguir… É que no fundo, nós também estamos a fazer o que achamos melhor, o melhor que conseguimos. E se por vezes não concordarmos, não fique ressentida. Faça-se ouvir e escute-nos também.  E lembre-se que no fim do dia, quando o seu filho estiver a dormir e for lá aconchegá-lo, o que importa é que todos trabalhámos para fazer dele uma criança mais feliz.

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A ponte para a diversidade – crianças com necessidades educativas especiais

“Então as aulas acabam as 16.30, correto?”

“Sim, mas depois ele segue para o ATL”

“Certo, e se marcássemos a sessão para as 18.00 então?”

“Não pode ser, ele a essa hora está a ir para a natação…”

“Então, a que horas poderia ser?”

“Não sei, mas provavelmente entre a aula, o balneário e o trânsito… Por volta das 19.30?”

“A essa hora o serviço já está a fechar e possivelmente fica muito tarde para depois o menino sair daqui as 20.30 e ainda ir jantar, brincar um pouco e dormir… Se calhar a outro dia da semana, o que acha?”

“É um pouco indiferente sabe, é que tem a natação as terças e quintas, depois tem o futebol às quartas e sextas, e tem dias em que depois ainda tem o piano e a explicação… Normalmente só estamos a jantar as 21… E é sempre uma correria, fica impossível a correr de um lado para o outro… Estar na cama às 22.00 é sempre um desafio…”

“Então quando é que ele brinca?”

Silêncio…

Esta conversa não é nenhuma conversa em particular, mas podia ser tanta conversa que tenho tido com diversos pais neste início do ano. Praticamente todos. Quase todos os pais que contactei no início deste ano letivo me disseram que o horário que preferiam seria o horário das 19.00 às 20.00, dado à indisponibilidade das crianças.

Então decidi fazer algumas contas: a maioria das crianças está na escola a ter aulas entre as 8.30 e as 16.00, sobrando depois o lanche que dura até as 16.30. Após este período costumam ir diretos para o centro de estudos ou para o ATL onde ficam, de novo a estudar, a fazer TPC ou outras tarefas académicas, até as 18.00. Após este período quase todos eles costumam ter atividades desportivas ou culturais que se prolongam até as 19.30. Se analisarmos bem estamos a pedir às nossas crianças que tenham um dia de trabalho entre as 8.30 e as 19.30. Isto significa 9 horas de trabalho intensivo, a crianças que frequentemente não têm mais do que 10 anos.

Pior, ainda pedimos isto às nossas crianças obrigando as mesmas a estar a maioria do tempo em silêncio, paradas e concentradas. E quando no final do dia a energia extravasa questionamos sobre o porquê.

A realidade é que algures no tempo nos esquecemos do que significa ser criança e da sua principal obrigação: brincar. Hoje tenho crianças em consulta que não sabem escolher uma brincadeira, que não sabem dizer qual o seu jogo preferido ou qual a parte da semana que gostaram mais.

Apesar de termos anos de investigação em educação e desenvolvimento infantil, continuamos a querer a toda a força que as nossas crianças sejam pequenos adultos que obedecem a horários laborais.

Compreendo e aceito perfeitamente a necessidade de praticar atividades extracurriculares. Aliás, enquanto terapeuta até aconselho diversas segundo o perfil das crianças e comprometo-me a falar deste tema com mais calma futuramente.

Mas temos de nos lembrar que estas atividades, junto com um ATL e uma escola não podem roubar o tempo de exploração de uma criança. Como já aqui disse, a criança aprende a explorar o ambiente, e esta estará altamente condicionada se  não lhe for permitido sair para o meio envolvente.

Outro problema prende-se com a formação da personalidade da criança. A criança precisa de não fazer nada. Este tempo é fundamental para que ela aprenda a tomar decisões sobre o que quer fazer. É preciso deixar as crianças aborrecerem-se para que estas mesmas crianças aprendam do que gostam de fazer e o que gostam de explorar, sem que isto lhes seja imposto por um horário rígido e sem tempo para ela própria.

Ainda, é impossível pedirmos a crianças que aprendam quando o cérebro delas está constantemente em esforço. A nós adultos acontece o mesmo. Quando temos um dia inteiro de frente para um ecrã torna-se altamente difícil estar concentrado e ser produtivo e nós já temos mecanismos que nos permitem lidar com esse tipo de frustração. Mas se para nós é difícil, imaginem para uma criança que ainda está a aprender a regular-se.

Sei que as obrigações do quotidiano e dos nossos horários condicionam os das crianças. Mas vamos permitir que as crianças tenham o direito a ser crianças, ou teremos uma geração de adultos que não vai compreender o quão bom é brincar.


Veja o vídeo: Melhores recreios, melhor rendimento escolar!

O bichinho da ansiedade

O bichinho da ansiedade é um bichinho muito comum. Na realidade, bem mais comum do que aquilo que se acredita. Grande parte das vezes o bichinho da ansiedade aparece só esporadicamente e logo, logo se vai embora. No entanto, algumas das nossas crianças convivem diariamente com o bichinho da ansiedade, o que se torna muito complicado. É quase como ter para animal doméstico um animal selvagem.

Então, antes de mais, temos de esclarecer que a ansiedade é um mecanismo natural, essencial e de extrema importância. Este mecanismo é ativado de forma involuntária e automática sempre que o nosso cérebro deteta que estamos em perigo ou considera que devemos estar em alerta. Após ser ativado, o nosso corpo vai passar por uma data de reações naturais: o ritmo cardíaco acelera, aumentam os suores, a frequência respiratória aumenta, podemos sentir tremores. Ou seja, a ansiedade, muito mais do que um estado mental, ou do que um fenómeno psicológico, é um processo corporal, que vai trazer alterações em todo o corpo. Estas alterações são o que permitem uma resposta de luta-fuga. Ou seja, quando o nosso corpo começa a passar por todas aquelas alterações, na realidade está a preparar-se para fugir ou para lutar. Esta decisão geralmente é tomada numa questão de segundos e, após passar o perigo, o corpo regressa gradualmente ao normal. E claro, estas alterações são tão maiores quanto o estímulo inicial. Quer dizer, existe um espectro entre o ansioso até positivo, ao ligeiro desconforto, e até mesmo ao pânico, na outra ponta do espectro.

A questão prende-se então ao quando é que o bichinho da ansiedade começa a ser demasiado inoportuno. Normalmente isto acontece quando o bichinho está sempre presente, ou seja, estamos permanentemente em estado de alerta, ou então quando nos leva a ter reações desadaptadas, o que nesse caso poderá se refletir numa perturbação da ansiedade. Claro que quando nos referimos a este quadro, ou à ansiedade no geral, estamos a falar de algo involuntário que muitas vezes é difícil de explicar mesmo para adultos.

No caso das crianças torna-se ainda mais complicado, uma vez que estas normalmente não conseguem identificar a ansiedade. Quando o conseguem, ou conseguem identificar o mau-estar e desconforto, é recorrente que não consigam explicar o porquê.

Dado às diferenças da expressão da ansiedade entre adultos e crianças, não é de todo raro que os sintomas da ansiedade sejam descurados, passem despercebidos ou que sejam confundidos com outros quadros. Por este motivo, é de extrema importância tanto para pais, como para professores e terapeutas estar atentos, para perceber se este bichinho está a importunar as nossas crianças.

-Preocupação excessiva – apesar das crianças poderem já estar a frequentar a escola e terem de gerir os trabalhos de casa, as atividades extracurriculares e ainda os testes (o que por si só já significa mais pressão do que aquela que as crianças deveriam suportar), a realidade é que a infância é uma altura de calma e passividade. Uma criança que esteja constantemente a preocupar-se de forma excessiva com o decorrer dos dias, das semanas e dos meses, poderá ser uma criança que esteja a dar sinais de ansiedade.

Dificuldades em gerir o sono – este sintoma é bastante parecido com aquele sentido pelos adultos. Crianças que estejam demasiado ansiosas são crianças que terão dificuldades em adormecer ou que vão evitar a hora de ir para a cama. No entanto, este sintoma poderá facilmente passar despercebido aos pais em crianças que vão para a cama mas que depois demorem em adormecer. Neste caso, será mais visível no dia seguinte quando a criança andar mais sonolenta durante o dia, e que comece a acordar gradualmente com o aproximar da hora de ir dormir.

Dificuldades de concentração – como é claro se a criança está preocupada e ansiosa, terá mais dificuldades em concentrar-se nas suas diversas atividades, nomeadamente académicas, até porque as crianças apresentam uma maior dificuldade de auto-regulação e do foco da atenção para determinadas tarefas. Desta forma, se a criança apresenta constantemente sinais de distração ou do famoso “cabeça na lua”, poderá significar que naquele momento a criança está de tal forma preocupada com outro assunto que não tem a capacidade de mobilizar a sua atenção para o que está a ser pedido.

Irritabilidade ou agressividade – estes dois tópicos são de extrema importância, até pela facilidade com que são confundidos com outras patologias. A irritabilidade e a agressividade no caso da ansiedade podem ter vários fundos. Em primeiro lugar poderão estar ligados com outros factores, tais como as dificuldades no sono que podem gerar maior frustração e agressividade. Por outro lado, o sentir ansiedade para a criança pode ser muito difícil de gerir, motivo pelo qual a criança poderá perder o controlo com maior facilidade. Contudo, importa referir que a ansiedade pode ter co-morbilidade com outras perturbações do desenvolvimento, tal como a PHDA.

Resistência à mudança – ou então dificuldade em processar a contrariedade e necessidade de controlo. Isto deve-se à necessidade de controlo que a criança tem para conseguir sentir-se segura e desta forma atenuar a ansiedade. No entanto, se for impeditivo para a criança, deve ser visto como um sinal de alerta.

Dificuldades na linguagem e gaguez – apesar das dificuldades no discurso representarem um campo vasto sobre o qual se deve ter muita atenção, a realidade é que a ansiedade pode moldar o discurso, provocando algumas dificuldades e, em muitos casos a gaguez.

Rigidez e agitação psicomotora – como já foi dito o primeiro veículo de comunicação que a criança controla é o corpo. Aliás, como explicado, a ansiedade vai ter respostas corporais de luta-fuga, nomeadamente o ritmo cardíaco e a respiração, o que por si só, pode levar a uma maior rigidez tónica e a uma maior sensação de agitação. Por outro lado, se a criança não processa a ansiedade e o motivo de estar ansiosa, a expressão será seguramente pelo corpo. Estas são também crianças que frequentemente gesticulam de forma excessiva ou que apresentam tiques motores.

Somatização – esta palavra é realmente complicada, mas significa apenas que o corpo começa a espelhar a ansiedade a um nível muito elevado. Este é o caso de crianças que apresentem muitas dores de cabeça, de barriga, vómitos ou diarreias sem motivo médico aparente. Na realidade, não é que as crianças não sintam as dores, mas é mais do que fisiológico, é o psicológico a refletir-se no corpo e a dar o sinal de alerta.

Estes são apenas alguns dos sinais a que devemos estar atentos. Contudo, caso estes sejam identificados, o adulto não deve transmitir ainda mais insegurança e preocupação, uma vez que isso só trará mais ansiedade. Pelo contrário, os pais e educadores devem ser uma figura de referência e segurança, tranquilizando a criança, de forma a baixar os níveis de ansiedade. Existem diversas formas de relaxar que podem ser incutidas no quotidiano e que podem ajudar as crianças. Em todo o caso, caso os educadores ou os pais pensem que é necessário, podem e devem sempre consultar um profissional de saúde para mais esclarecimentos.

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A ponte para a diversidade – crianças com necessidades educativas especiais

Vivemos uma sociedade que tenta apresentar valores cada vez mais inclusivos. Por isso, faz todo o sentido pedir agora à escola o desafio de conseguir que todos os alunos, independentemente das suas diferenças, sejam capazes de obter sucesso em meio escolar.

No entanto, esta é a mesma sociedade que se baseia ainda em inúmeros estereótipos e preconceitos, nomeadamente no que diz respeito à deficiência e outras necessidades especiais, sendo que os mesmos são baseados nas ideias e valores das sociedades em que se inserem. Assim, a ideia de integração social, e consequentemente de escola inclusiva, vão estar dependentes do nível de conhecimento de uma sociedade e sua interpretação da diferença, que se vai refletir na organização social, legislação e preparação dos restantes membros e professores para lidar com a diferença.

Por isso a ideia de escola inclusiva e de integração social está altamente dependente da colaboração dos diferentes meios da sociedade, nomeadamente pais e professores.

Segundo o famoso decreto de lei 3/2008 de 7 de janeiro, a escola apresenta a obrigação de aplicar medidas e respostas que sejam adequadas para os alunos com necessidades educativas especiais (NEE) de forma a que estes possam estar enquadrados no ensino regular. Estas alterações implicam a diversificação e a flexibilização do currículo consoante as necessidades do aluno, tanto sentidas na escola, como as apresentadas em outros contextos, sendo que este processo requer o envolvimento tanto de professores como de pais e mesmo terapeutas.

Contudo, na prática é possível denotar um clima de grande oposição entre estes dois intervenientes, muitas vezes pautada pela indiferença e pela recriminação, sobretudo em casos de crianças com NEE em que a forma de agir da família é muitas vezes própria e específica segundo a criança.

Os pais de crianças com NEE sentem-se frequentemente desvalorizados e pouco compreendidos. Estas famílias são frequentemente rotuladas, com falta de apoio, o que leva a família a centralizar os problemas vivenciados, aumentando portanto o sentimento de estigmatização. O problema alastra-se mais quando se pensa no impacto que a deficiência ou que a incapacidade tem na dinâmica familiar no geral, tornando-se em crianças extremamente desafiantes, comportando um stress adicional tanto a nível financeiro, como logístico e familiar.

Por outro lado os professores apontam que com a mudança provocada pelo decreto de lei, foram obrigados a receber alunos para os quais não têm formação específica para lidar, admitindo a falta de apoio pedagógico tanto para lidar com as crianças, como com as próprias famílias. Ou seja, hoje os professores deparam-se com a falta de apoio, materiais e formação para conseguirem dar resposta às necessidades apresentadas pelas crianças.

Mas tanto pais como professores sabem da importância destas crianças serem aceites e integradas no meio escolar. Não só para elas como também para as outras crianças, permitindo uma sociedade heterogénea. Por isso é importante compreender os sentimentos e frustrações associadas tanto para as famílias como para os professores, criando um processo empático entre ambos.

Depois é necessário capacitar os professores no sentido de os preparar para as dificuldades encontradas em sala de aula. No entanto, a solução não passa apenas pelos professores, uma vez que a integração de alunos na sala de aula necessita de pais que sejam interventivos, colocando os professores mais no papel de mediadores.

Por isso, a família tem de ter um contacto regular e uma maior compreensão sobre o trabalho realizado ao nível da escola. Em contraponto, os professores devem apostar no foco nas competências fortes do aluno e da família, respondendo às necessidades apontadas pela mesma. Ou seja, os pais têm de passar a ser chamados a apresentar as suas necessidades, sendo ouvidos, a construindo assim uma ponte de comunicação entre pais e professores, o que tão bem sabemos é o melhor e necessário para as nossas crianças.

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