Ler primeiro “Mensagem que deixei ao meu filho adolescente na noite de Natal”

Olá mãe,

Pensavas que não tinha lido a mensagem que me escreveste no Natal? Apanhei-te! Li e reli, mas não me apeteceu logo falar contigo sobre ela. Eu sei que tens razão, mãe. Reparo como às vezes ficas a olhar para mim de longe, como se a tentar perceber. Quando fazes isso volto sempre atrás no tempo: tu sentada no banco do parque a olhar-me com muita atenção, para o caso de eu precisar de ajuda. Lembro-me de adorar que tu ficasses ali a observar-me, de fazer coisas só para exibir-me aos teus olhos. Mas agora sinto-me diferente e até um bocado parvo por ter feito essas gracinhas só para te conquistar.

Às vezes também não sei o que te dizer, por isso espero que esta resposta à mensagem que me deixaste no travesseiro nos ajude a melhorar para que possamos rir-nos dela daqui a uns anos. Tenho a certeza que tudo vai passar, porque tu fizeste tudo bem, mãe. Havemos de continuar a ser grandes amigos.

Há uns tempos – não te contei, sobreviverás – distraí-me com uma coisa que ia a ouvir a caminho das aulas e cortei caminho fora do passeio para atravessar a rua. Não vi,nem ouvi um carro que saiu de uma curva a grande velocidade. Quando dei conta já estava muito perto, saltei para voltar ao passeio, mas ainda me tocou na mochila. Caí. Apanhei um valente susto, muito maior do que aquele que estás a apanhar agora, acredita. Esses poucos segundos pareceram horas e durante o resto do caminho até a escola só pensava em ti, não sei porquê. Lembro-me das minhas mãos tocarem no chão, das pessoas correrem todas para me ajudar, e desta frase na minha cabeça: – Quero a minha mãe. Depois, não conseguia parar de imaginar-te a receber um telefonema, de ver a expressão na tua cara a mudar quando te dissessem que eu me tinha magoado a sério. Ainda bem que não foi preciso, porque ver o terror do teu rosto no meu pensamento, foi pior do que ter passado por aquilo tudo.

Quantas vezes me avisaste para não ouvir música com headphones na rua? Mil. Eu sei mãe, desculpa. Isso não interessa agora. O que me aconteceu serviu para perceber que tu és mesmo muito importante para mim. Esse foi um dos poucos dias em que tivemos contacto físico, porque quando cheguei a casa, pus os braços à volta da tua cintura e levantei-te no ar. Deves lembrar-te de ter respondido: – Olha, este meia leca já pode comigo! Prometo que vais dizê-lo mais vezes em 2016.

Não sei se consigo explicar-te o meu isolamento, mãe, nem a minha necessidade de ver um filme sossegado (podias fazer menos comentários bolas, já sei ler as legendas). Quando dou conta, já entrei no quarto, já fechei a porta e liguei o computador. Deve ser porque as aulas são muitas e barulhentas, porque há dias bem compridos. Muitas vezes, tudo o que me apetece quando chego a casa é distrair-me com alguma coisa. Não quero que fiques ainda mais preocupada, mas a maior parte dos dias não gosto nada da escola. Sei que tenho que estudar, já me chateia ouvir-te dizer isso, mas duvido que aquilo que ando a aprender desde setembro me vá servir de alguma coisa no futuro. Se ao menos me deixassem desenhar mais, tu sabes como eu adoro desenhar (e como detesto inglês). Eu podia ilustrar a matéria toda se me deixassem, toda! Dava muito mais trabalho, mas era muito mais interessante que fazer resumos. Depois não se deve falar nas aulas, mas ouvir o dia inteiro já se pode? Ando farto! Ninguém aguenta chegar a casa e ouvir cheio de vontade o que os pais têm para dizer, percebes?

Não sei se leres tudo isto é boa ideia, mas como tu costumas dizer, a verdade pode sempre ajudar.

Quero que saibas que se um dia eu precisar mesmo de ajuda, tu vais ser a primeira pessoa que eu vou procurar. E que também vou pensar em ti antes de me sentir tentado a fazer uma grande asneira, daquelas que todas as mães temem que os filhos façam (parece mesmo que te estou a ver a suspirar de alívio, também te conheço).

E por favor, guarda bem este papel juntamente com o que me escreveste no Natal. Quando eu já não for um meia leca e tiver preocupações destas com um neto teu, talvez me faça bem voltar a lê-los. Se isso me impedir de desabafar com outros pais sobre os dilemas do meu filho adolescente, esta nossa conquista terá valido bem a pena.

Claro que já te perdoei. És a maior.

Feliz Ano Novo, mãe.

imagem@digistar

Mensagem que deixei ao meu filho adolescente na noite de Natal:

Querido filho:

Os preparativos para o natal tornaram mais claro e difícil que alguma coisa não anda bem entre nós. Fica descansado, hoje não vou falar das notas, da tua preguiça para levantar, nem do quarto desarrumado. Posso bem com a tua oposição às minhas reclamações, e até já aprendi a divertir-me com as tuas respostas em forma de suspiro controlado.

É mais grave.

Estamos distantes como nunca, e por mais que tente, parece que não consigo ligar-me a ti como dantes. Tu sabes que é verdade.

Quando te contar como tentei resolver isto na minha cabeça, vais odiar-me: ando tão preocupada, que pedi ajuda a literalmente todas as pessoas com filhos da tua idade que conheço. Sim, a alguns pais dos teus amigos, já deves estar a imaginar quem são.

Parece que te estou a ver a ler isto, e a mergulhar repentinamente a testa no travesseiro – sobreviverás. Não esperava deles uma cura milagrosa para o meu problema, contava sim com alguma sugestão que me surpreendesse, uma estratégia que tivesse resultado com eles e que eu pudesse replicar, para errar menos contigo. Mas nada, nenhum foi capaz de me ajudar na medida que eu precisava. Custa-me aceitar que os conselhos que me deram sejam tudo o que podemos fazer por nós: conformar-me  que na tua idade é assim mesmo, que te devo deixar estar alheado da tua relação comigo enquanto durar, e que por tempo indefinido possamos somente conversar de assuntos puramente funcionais – a que horas é que te vou buscar; se as calças que tu mais gostas já estão prontas; ou se tu achas que estar frente ao computador até de madrugada é normal.

Não me parece mesmo que a opção dar tempo ao tempo vá funcionar, e não é por detestar frases feitas.

Não gosto, acho perigoso ter com o meu filho uma relação de improviso, nem que seja a prazo. E porque há qualquer coisa que me diz que esperar que sejas tu a dar o primeiro passo é o mesmo que aumentar este intervalo vazio que aconteceu nas nossas vidas, pus tudo no papel, tal como fazia na escola antes dos testes, mas com muito mais cuidado. Tive mil cuidados, filho, para vermos se isto resulta melhor entre nós. Quem dera poder dizer-to, em vez de escrever, mas não consigo.

Vais pensar que não tem nada a ver, mas faço analogias muito óbvias entre ter que colocar este papel debaixo da tua almofada e a nossa vida quotidiana, porque parece que andamos mesmo a jogar às escondidas.

Sei que já não és uma criança, nem desejo que voltes a sê-lo, garanto-te. Deves pensar que o meu desejo é agarrar-te por debaixo dos braços e fazer círculos com o teu corpo pelo ar a grande velocidade, como quando eras pequeno. Nem penses, serias demasiado pesado. Mas já pensaste como estabelecemos tão pouco contacto físico? Podes abraçar-me de vez em quando, não te vou levantar a camisola da barriga e começar a fazer um alarido de sons com a minha boca, na tua pele arrepiada. Podes deitar a tua cabeça no meu colo quando estivermos no sofá, bem sei que perdi os teus caracóis de criança para a cera modeladora. Posso quando muito dar-te um beijo na testa, daqueles que já não te dou há meses, porque já nem sei como fazer para chegar a ti, sem que sintamos algum desconforto.

Agora compreendo porque cometi um erro em procurar ajuda junto dos pais dos teus amigos.

Tu não és o filho deles, tu és o meu filho, uma fusão da educação que te dei e da tua vontade. Demorei muito tempo a perceber isso porque temia a resposta, mas agora estou pronta.

Vá, podes dizer-me que começaste a caminhar com apoio nas minhas pernas. Que fui eu quem te ensinou a tomar banho sozinho e a apertar os cordões aos sapatos. Que fiz de conta que as tuas braçadeiras preferidas estavam furadas, só para que aprendesses a nadar com a minha mão insegura na tua cintura. Explica como não só não me arrependi disso, como ainda te contei que o fiz, alguns anos depois. Havemos de rir. Vais falar-me daquele aniversário em que te ofereci uma viagem a Londres para melhorares o inglês. A tua cara de alegria a rodopiar para espanto, quando eu disse que não ia contigo, porque já te achava capaz de ires sozinho, motivou a maior gargalhada familiar de que há memória.

Vais perguntar-me porquê, filho.

Porque foi que passei a vida toda a dizer que os miúdos não nos pertencem e que os geramos para oferecer ao mundo, preparados com o melhor que lhe pudermos ensinar. Porque estou  agora a reclamar daquilo que eu sempre procurei desenvolver em ti?

Eu não sabia que ia ser tão difícil, e é-me muito difícil explicar. O tempo passou depressa demais, tu cresceste com ele, e já não precisas de mim para planear as tuas conquistas. Eu sei, nada me deves, nem posso cobrar-te. Por isso, se devolveres outra vez este papel ao lugar entre o lençol e o travesseiro, prometo acreditar que não reparaste, não leste, nunca soubeste.

E continuarei a aprender o mundo sem ti, o melhor que puderes ensinar-me.

Mãe.

 

Resposta em  “Carta do meu filho adolescente em resposta à minha mensagem”

imagem@digistar

 

De vez em quando ainda me dizes para não abrir a porta a estranhos e para apressar o ritmo se alguém se meter comigo a caminho das aulas. Ouço-te contar que a coisa que mais gostas lá na escola é ter porteiro. Que um adulto a controlar as entradas e saídas é muito importante para uma mãe ir trabalhar descansada.

Podes confiar, mãe: lá na escola um visitante também é muito controlado. É obrigado a mostrar identificação quando chega e a levar um cartão ao peito para poder circular.

É por isso que acho que quando eles aparecem, o mundo fica de pernas para o ar. Só quero que o porteiro me deixe fugir e que apareçam visitas em cada recanto da escola. Que todas as grades se afastem para eu poder sair. Quando os vejo,  só quero tudo aquilo que tu não queres, mãe. Alguma coisa que os faça parar.

Como é que eu te vou contar isto?

Como é que eu te vou contar que é dentro desta escola com porteiro que me gozam, me batem e me maltratam por causa daquilo que tu mais gostas em mim?

Acalma-te mãe, a culpa não é nossa. O mundo, quando eles chegam, é que fica de pernas para o ar (e eu também acredita). Ser bom aluno, ter sardas no nariz e usar calças de bombazine não deve incomodar assim tanto. Às vezes gosto de pensar que a vida destes colegas deve ser mesmo muito complicada e que é por isso que andam sempre a pisar nos outros. Mas a maior parte do tempo, só sinto medo. Medo de ir para escola, medo de lá estar, medo de sair. Medo de adormecer, da noite passar depressa demais e da manhã chegar, com mais medo que me apanhem.

Lembras-te quando vocês me tiraram as rodas pequenas da bicicleta e eu deixei de andar nela, com medo de cair? Disseste que o medo podia ser bom, que deixaria de ser medo quando eu o conseguisse ultrapassar, usando a tua ajuda e um pouco de coragem.

Ouvi dizer que agora há cá na escola um programa de prevenção do bullying. No fim das aulas, se eu for corajoso, podemos falar com um professor que promete não contar nada a ninguém.

Gostava que viesses comigo. O medo ainda pode ser bom, mãe? Se contar o que eles me fazem, fosse tão fácil como pedalar sem rodinhas, amanhã até vestia as calças de bombazine.

imagem@bugaga.ru

É tocante. A vida toda vi pais sacrificarem-se pela família, da forma mais brutal à mais subtil. A mãe que educa sozinha, tem dois empregos e ainda vende cremes por catálogo; o pai que trabalha durante a noite e passa o dia em claro, para controlar a febre ao miúdo; adultos que separam no frigorífico iogurtes de marca branca para si, e os mais caros para os mais pequenos, porque são melhores. Gente que todos os dias de manhã, engraxa as  botas aos filhos para parecerem como novas. Também conheço pais que após quinze horas encolhidos num avião, ainda passam no centro comercial para comprar o jogo que prometeram; os que optam pelo casaco mais caro porque deve ser quente, impermeável e ter capuz; os que pagam as aulas de instrumento e as explicações; os que passam o domingo inteiro a fazer coisas de miúdos (só para depois se alimentarem dos sorrisos deles a semana inteira). É assim. Todos os pais que conheço, de todas as camadas sociais, fazem o impossível pelos filhos, o melhor que podem e sabem.

Têm as emoções, as alegrias, as fraquezas e as angústias todas misturadas numa coisa estranha, que depois de terem um filho, nunca mais lhes saiu do peito.

E depois, há escolas com amianto. Crianças que respiram dentro delas.

Todos os gestos de amor que aprendi destes pais me parecem maiores (e todas as reformas educativas menores), quando penso que em Portugal ainda existem escolas com amianto nos telhados, nas paredes ou no pavimento.

Quando os problemas são complexos é sempre bom analisar perspetivas. O contacto com o amianto (também conhecido por asbestos) está associado a cancro do pulmão, da laringe, dos ovários e ao cancro gastrointestinal, entre outras patologias. A doença pode surgir até quarenta anos após a exposição (por isso não é tão mediática), e no caso de mesotelioma, resta apenas um ano sofrido de vida aos doentes, após o diagnóstico.

É certo que parte do trabalho foi feito, muitas escolas foram intervencionadas para retirar o amianto (nem sempre da melhor forma, é certo), mas esse trabalho está manifestamente incompleto. Ainda assim, em janeiro deste ano o então ministro da educação Nuno Crato deu  por terminadas as obras de remoção.

Não há verba para a acautelar a saúde nas escolas que não foram eleitas pelo programa de reabilitação, nem sequer uma listagem atualizada que nos diga quais são elas, ou o que está a ser feito para monitorizar a questão.

Porque este é um tema sensível, usa-se muita cautela. A Direção Geral de Saúde alega que o amianto, regra geral, não é perigoso quando se encontra em bom estado de conservação. Mas a Organização Mundial de Saúde não arrisca um valor mínimo de exposição que possamos considerar seguro. Não há plano de ação em Portugal que garanta a verificação regular dos edifícios, garantindo o controlo da situação ao nível da libertação de fibras para o ambiente, embora a Comissão Europeia encoraje os governos a fazê-lo com rigor.

O poder político não tem dado a devida a importância a uma questão que deveria ser prioritária. No seminário que a Quercos organizou a passada sobre esta temática, a intervenção do Prof. Doutor José Alves, da Fundação Portuguesa do Pulmão, foi eficiente em separar o necessário do acessório. O médico defendeu claramente que “todas as pessoas que inalaram asbesto vão ter problemas de saúde, ” e que, perante a presença de asbesto, “há sempre perigo”.

A par do perigo inerente à exposição, são também conhecidos os riscos ligados à remoção, manuseamento e armazenamento do amianto, pelo facto de este libertar fibras que, uma vez inaladas se alojarão nos pulmões para sempre. Por essa razão, as placas de fibrocimento devem ser retiradas inteiras, porque a sua degradação multiplica em larga escala o risco de propagação das fibras. A formação técnica, o uso de vestuário adequado e a posterior descontaminação dos trabalhadores após o contacto com amianto, obrigam a que os trabalhos sejam operados por empresas certificadas e sob a vigilância da Autoridade para as Condições do Trabalho. É imprescindível evacuar as áreas alvo de remoção (de uma escola ou em qualquer outro edifício), até que as medições da qualidade do ar indiquem que é seguro “respirar” no local.

Os pais de Oliveira do Hospital também devem fazer os impossíveis pelos seus, como tantos outros que conheço. Mas os filhos deles que frequentam a Secundária são diferentes, porque na escola usam as mãos para arrancar dos corredores bocados de fibrocimento partido (material que contém amianto), para servir de baliza. As mesmas mãos que em casa vão abraçar o pai, a mãe e os irmãos. As mesmas mãos que seguram os livros para estudar, com muito afinco, para serem alguma coisa quando crescerem.

Não me sai da cabeça a ironia deste lugar com Hospital no nome. Os pais a engraxarem as botas dos filhos, para eles depois eles chutarem a bola contra balizas feitas de amianto. Se não tivesse tanto respeito pelo dito terceiro mundo, faria agora comparações absurdas.

Mas não é preciso, para besta já basta este abesto. Todos os golos que passarem por ele serão sempre batota.

Agradecimento: Lode, pai de  Oliver, Marcus e Elisabeth tirou as fotografias aos seus três pequenos, também eles filhos de Oliveira do Hospital.

School Embassy e a Confederação Nacional das Associações de Pais vão iniciar uma campanha de sensibilização contra o amianto nas escolas.

Ajude-nos a resolver este problema denunciando-o na página da sua escola em www.schoolembassy.com e partilhando no nosso facebook (e no seu perfil) uma fotografia com a mensagem:

Amianto Não! escrita nas mãos, acompanhada da hastag #amiantonao.

Lembre-se de fazer uma cara bem feia, porque com o amianto não se brinca. Por vezes, para fazer o impossível, basta intervir.

A escola está a perder os rapazes

Uma corrente de pensadores na área da educação tem produzido investigação muito interessante acerca da tendência que existe nas escolas, para desaprovar a essência dos alunos rapazes.

Ao mesmo tempo, a OCDE, inspirada pela análise do último relatório PISA (programa internacional que avalia a literacia dos estudantes) lança um alerta claro sobre a desigualdade de género na educação. Claro que faz todo o sentido refletir sobre este tema.

Mesmo assumindo que os rapazes podem ser frenéticos, desorganizados e arrebatadores, no sentido em que absorvem muita da nossa energia, parece-me contra natura julgá-los à luz do bom comportamento das raparigas.

E porquê? Uma analogia à leitura explica-o bem: banda desenhada e poesia são diferentes, e isso pode ajudar a perceber porque é que os rapazes se estão a afastar da escola.

Se analisarmos os números, a preocupação cresce: eles abandonam a escola mais cedo, são expulsos da sala de aula com mais frequência, ganham menos prémios de honra, lêem pouco e (não menos importante) acham que estudar é uma seca.

Ser um rapaz normal nas escolas de hoje não é fácil.

O que há alguns anos era olhado como traquinice, hoje merece tolerância zero. Os tempos de recreio diminuíram dramaticamente e já não há espaço (nem agenda) para brincadeiras não estruturadas que permitam aos rapazes gerir a vontade física de explorar o mundo como gostam, à força de correria.

As escolas deveriam fazer uma análise cuidada desta realidade, percorrendo o caminho necessário para recuperar os rapazes que se vão afastando do seu núcleo.

Para combater a desigualdade de género é preciso conhecê-la bem.

Perspetivar o mundo do ponto de vista masculino, pode ser importante para perceber como havemos de envolver mais os rapazes na escola. Um exemplo nada ao acaso: se o objetivo é converter os meninos que lêem pouco, então guardemos a poesia para mais tarde. Os rapazes gostam de ação e aventura. Portanto, esse é o trunfo que devemos usar quando lhes indicarmos um livro para lerem, mesmo que isso vá rasgadamente contra aquilo que pais e professores estejam habituados a praticar.

O mesmo estudo da OCDE demonstra que, aos 15 anos de idade, as raparigas são mais evoluídas na leitura que os rapazes o equivalente a um ano letivo. Vale bem a pena repensar a prática para que diminua esta diferença entre níveis de desempenho.

E agora, as ilustres composições. Se escrever sobre piratas e naves espaciais é muito mais interessante para rapazes do que dissertar sobre a beleza do outono, porque não sugerir-lhes temas que cativam mais?

Admitamos: já sabemos quase tudo sobre o outono, e há muito pouco sobre ele que um rapaz de onze anos queira descobrir. Para além disso, corrigir o que diz o Capitão Gancho deve ser bem mais divertido do que repassar conteúdo sobre as cores da estação.

Ainda bem que não estão convencidos, porque a razão melhor ficou para o final: é preciso apostar na imaginação desta metade de alunos malandros, respondões e com a mania que são engraçados, porque um dia eles irão fazer vida com a outra metade,  serena, contida e metódica.

Desta missão fazem parte todas as filhas, mães e avós do mundo.

Nada como um pouco de poesia para percebermos porque é que a escola tem que chamar a si,os nossos rapazes.

imagem@fasebonus

É possível fazer mais pela escola pública

Sempre que ouço falar em projetos que ousam reinventar o ensino, mais acredito na necessidade de um ranking que sirva para valorizar as escolas inovadoras. Sobretudo se esse desejo de inovar servir para satisfazer uma vontade aflita,  teimosa, da escola em cumprir a sua utilidade, como aconteceu em Estremoz.

Descobri a Secundária Rainha Santa Isabel pelo livro “A Escola” de Paulo Chitas, um ensaio cuidadoso sobre o caminho que um conjunto de professores, pais e alunos percorreu no combate ao insucesso escolar.

O projeto surgiu no ano letivo 2002-2003, em resultado da inquietude de Teodolinda Magro, confrontada com a persistência dos maus resultados entre os alunos do 7º ano.”A única medida que existia para lidar com a perda de motivação deles era a repetição, o chumbo.” Determinada a provar que é sempre possível “aproveitar mais um aluno”, e sabendo que a composição das turmas era a razão da continuidade de maus resultados na escola, a professora expôs ao conselho executivo e a alguns colegas mais próximos, o plano que desenhara para recuperar os alunos em perigo de reprovação. “Eles não eram capazes, sozinhos. E um dia percebi que eles só eram capazes se fossem tirados dali. Se não os deixasse começar a fazer as coisas habituais. Precisava de os tirar de lá.” E tirou-os. Para a Turma Mais.

Ainda hoje a escola pratica com êxito o modelo de agrupar alunos numa turma extra, de acordo com o seu nível de desempenho. Durante 45 dias, dois professores em regime de codocência prestam apoio individualizado e centrado nas necessidades específicas do grupo. Fazem-se novas amizades.

A Turma Mais permite aos estudantes o direito a um período de recobro em que se minimizam assimetrias e compensam dificuldades pela poderosa cura do ensino refletido, planeado à medida da realidade. Os alunos voltarão à turma de origem já em condições de prosseguir as aprendizagens, numa lógica de igualdade que a ninguém abandona e a todos beneficia.

O tema intimida, não é confortável. Se nos apercebermos da relação existente entre os baixos recursos das famílias e a falta de rendimento escolar, diria que envergonha.

Esta mudança aconteceu à força dos muitos porquês que interrogam a desmotivação para o estudo. Cerca de 50% dos alunos que a secundária Rainha Santa Isabel recebe, é oriunda dos concelhos mais próximos cuja realidade socioeconómica impõe reflexão. Porque há envelhecimento, porque há desertificação, porque há franca diminuição do poder de compra. Porque o transporte disponível para quem vem de longe, deixa os miúdos na escola todas as manhãs às 7:15, quando a primeira aula começa às 8:30. Porque como estes casos há outros espalhados pelo país, muitos, perante os quais a escola não pode ficar alheia.

Teodolinda percebeu em boa altura que um aluno com mau desempenho urge ser tratado com melhor ensino. Que carregar nos ombros o peso do chumbo só o vai fazer parar mais vezes pelo caminho, levar o dobro do tempo, ficar pela metade.

A escola devia obrigar-se a fazer o contrapeso necessário para resgatar os alunos deste ciclo árido, infecundo, que os impede de evoluir, como faz Estremoz. Lá, as verdades simples são as primeiras a defender-se, até fora das muralhas: eles sozinhos não são capazes.

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A Escola é parte integrante da vida das crianças

Como as crianças vêem a escola

Escola do Futuro em Espoo | Finlandia

imagem@novoshorizontesfm

Carta de um pai ao Diretor da Escola

Caro Senhor Diretor

Muito se fala de alunos ou professores e pouco dos diretores de escola. Parece-me injusto pois creio serem eles quem define o caminho que a escola deve seguir e a maneira como ela deixa uma marca na vida dos nossos filhos. Para além disto, gerir tantas sensibilidades deve ser complexo. Não compreendo o desinteresse pela sua atividade e até aceito que lhe sobrem poucos momentos de reflexão.

Espero que esta mensagem lhe chegue no arranque de mais um ano letivo. Reconheço que o número de currículos, faturas e e-mails o devem ocupar bastante. Quando tentar lê-la, também sei que o vão interromper umas três vezes, e que cada pessoa que lhe bater à porta vai trazer um problema novo para resolver. Pode ser da delegação de saúde para conferir as vacinas, ou, cruzes canhoto, a caldeira da escola a dar problemas novamente. Essas pessoas confiam em si para resolver problemas, é melhor abrir a porta. Logo, quando a escola estiver fechada, depois de verificar que ficou tudo limpo e desligado, poderá voltar ao gabinete para pegar nos assuntos que precisam de silêncio para resolver.

Ultimamente têm acontecido coisas na escola que me parecem estranhas. Peço que me ajude a compreender, Sr. Diretor.

Não me parece bem ver o meu filho passar tanto tempo à secretária, nem sei se isso nos garante que aprenda melhor. Não sou especialista em ensino, mas tenho a noção que na minha vida aprendi mais a fazer do que a ouvir, mais em grupo do que isolado.

Estou quase com quarenta, e no escritório, para pensar melhor, ainda preciso de dar uma volta de vez em quando, ou de vaguear pela sala quando o telefone toca. 

Para tentar perceber porque é que o meu filho resiste a sentar-se comigo a fazer os trabalhos de casa, resolvi atuar. Obriguei-me a ficar após o trabalho, mais uma hora e meia sentado numa cadeira. O resultado foi surpreendente: após a primeira meia hora comecei a suspirar frequentemente, a esticar as pernas, os braços e a coluna.

Ainda não tinham passado 45 minutos, quando reparei que o meu pensamento desacelerou (não porque estivesse cansado, pois saiu de mim a correr). Quando o voltei a apanhar já tinha passado uma hora e remexido articulações que nem sabia que tinha. Na fase seguinte, voltei à juventude: consegui equilibrar a cadeira em apenas duas pernas e espraiei o tronco todo no tampo da mesa.

Senhor diretor, sou adulto.

O médico diz que estou ótimo e é da minha natureza estar mais quieto do que uma criança. Se no final de um dia inteiro de escola me convidassem a resolver uma ficha durante 1.30h em casa, resistiria como um rebelde.

Desde que prolongaram a duração das aulas e diminuíram o tempo de recreio na escola, que há cada vez mais crianças medicadas na sala do meu filho. Tenho reparado, outros pais também, e não aceitamos que a modernidade seja a responsável. Realidades como esta preocupam-nos a ponto de afastarmos a ideia de ter mais filhos por ser arriscado. As instituições educativas são demasiado coniventes com as orientações do currículo que contrariam a natureza dos mais novos. Nós também já fomos crianças e ainda nos lembramos disso.

Sei que o Sr. Diretor também já deve ter pensado nisto. Assim, este ano, venho pedir-lhe que faça diferente. Confio na sua capacidade para moderar problemas sérios que precisam do nosso tempo e inspiração. Se abdicar dos trabalhos de casa por completo não é uma opção no ensino. Podem existir outros caminhos: será que precisam de marcar-se todos os dias da semana, seguindo repetidamente a mesma direção? Planear tarefas que valorizem e respeitem o tempo escasso que as famílias passam em conjunto, é possível. E devia praticar-se mais nas escolas.

Brincar é uma condição essencial para aprender mas também para ensinar.

Aplicar este princípio no caderno do tpc seria um passo determinante para aumentar a participação dos pais na educação dos filhos e para reafirmar a certeza de que a escola proporciona experiências positivas, mesmo à distância de um bolso da mochila, antes da hora do jantar.

O que me diz, Sr. Diretor?

imagem@paiefilho