São tempos de rótulos. Para todo o comportamento, cada modo de ser, cada emoção, há um termo científico. Somos impulsionados por uma necessidade incontrolável de dar nomes às coisas, na vã esperança de apaziguar a ansiedade inerente ao desconhecido, de justificar e controlar o que nos escapa.

Défice de atenção, Perturbação de hiperatividade, Dislexia… são patologias clínicas, sem dúvida, e ao mesmo tempo, caixas inflexíveis onde com demasiada frequência fechamos as nossas crianças, restringindo tudo o que as define a uma ideia pré-concebida, limitando consequentemente a perceção dos que as rodeiam, e pior ainda, a perceção que têm delas próprias a um preconceito.

Surgiu-me subitamente a imagem de uma linha de embalagem de uma fábrica, onde caixas todas iguais seguem ao longo de um tapete rolante a caminho de uma inspeção final, de uma avaliação conforme ou não conforme. Preto ou branco.

Não estaremos a colocar as nossas crianças nesse mesmo tapete rolante, fechadas em caixas inflexíveis para se submeterem mais cedo ou mais tarde a tal avaliação? E que fazer na desilusão de um chumbo? Ao menos, encontramos consolo na justificação de tudo o que consideramos inapropriado, encontramos consolo nos rótulos.

Como seres humanos dotados de uma visão policromática, porque é que nos restringimos tanto ao preto e branco? Os cães têm uma acuidade visual muito inferior à nossa: distinguem menos cores que nós, veem o nosso preto e branco, veem o cinzento das nuvens de chuva, mas também o azul e amarelo de um céu leve num dia de primavera. Veem muito mais além do que somos e do que pensamos poder ser.

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Não sendo pediatra, psiquiatra, psicóloga, nem terapeuta, não posso opinar quanto ao sobrediagnóstico de problemas comportamentais infantis como a hiperactividade e o défice de atenção. Baseio-me apenas em relatos de pais, de psicólogos clínicos, e de terapeutas de terapia assistida por animais (TAA). Segundo a psicóloga clínica Sílvia Freitas: “Se fosse actualmente, quase toda a nossa geração teria sido diagnosticada como hiperactiva” A grande maioria dos casos diagnosticados como Perturbação de hiperactividade e Défice de atenção não são reais, mas devem-se a problemas comportamentais que podem estar associados à falha na imposição de regras e limites e na orientação para lidar com a frustração; podem estar associados a problemas emocionais verdadeiros que levam o corpo a adotar determinados comportamentos como estratégia de defesa interna, ou podem dever-se simplesmente a um espírito enérgico e criativo com ânsia de explorar.

A interação de crianças com animais tem vindo a ser usada com grande sucesso, como terapia em casos de problemas comportamentais, défice de atenção, dislexia, e mau rendimento escolar. As atividades e terapias assistidas por animais trazem o “time-out” pelo qual as crianças desesperam, momentos de abstração da realidade que os deprime, de foco nos objetivos que os desafiam, sem perguntas, sem pressões nem humilhações, apenas com a vontade de vencer que os move bem no fundo. Segundo Pedro Paiva terapeuta e fundador da Petbhavior, as terapias assistidas por animais permitem desenvolver o autocontrolo, a atenção, e a serenidade emocional reforçando a autoestima e confiança das crianças.

E aqui entro eu, como Médica Veterinária, que cresceu rodeada de animais e ainda hoje vê magia na interacção de uma criança com um animal. Há alguns dias numa loja, um rapazinho perguntou-me se eu achava que os pássaros o compreendiam quando ele lhes assobiava. Respondi-lhe que sentiam na sua música o que ele sentia, e foi o suficiente para receber um grande sorriso orgulhoso: ele era compreendido.

Não valerá a pena procurarmos ouvir o assobiar das nossas crianças? Procuremos dar-lhes a liberdade de pensar “out of the box”, de explorar e de florescer com entusiasmo e orgulho por serem quem são. Procuremos ver menos preto e branco e mais cinzento, amarelo e azul.

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O Raposo, braco alemão de quatro anos, foi recebendo os sinais da chegada de um bebé com grande entusiasmo: mobília nova, objetos estranhos pela casa, cheiros diferentes, muitas visitas, a tutora em casa mais tempo, mais mimo…

A curiosidade levou-o inevitavelmente a explorar todas estas novidades, e um dia roeu a escova nova do bébé. Ficou de castigo fechado na varanda, nunca tinha ficado de castigo. Absorto no pânico, saltou. Saltou de um segundo andar, de uma altura de dez metros. Podia ter morrido; caído de uma altura como aquela deveria ter morrido, mas não. Sofreu um traumatismo craniano e uma hemorragia interna, ficou hospitalizado, passou vários dias a receber tratamentos em casa, e finalmente recuperou.

Com algumas mudanças simples na atitude e na rotina da família (Ver Dogs-and-Babies), o Raposo rapidamente percebeu que tinha sido sempre muito querido pelos seus tutores e que nunca tinha perdido o seu lugar. Poderia ter percebido mais cedo se tivesse sentido que também ele fazia parte da grande mudança.

Já fui acusada, e justamente, de educar os meus filhos como cães, e os meus cães como filhos. Em alguns aspetos, não são tão diferentes assim. Tanto as crianças como os animais de estimação encontram segurança e tranquilidade na definição da sua posição hierárquica, no conhecimento do papel inerente à sua posição na família, e na previsibilidade do quotidiano. Adoram previsibilidade. Sabem onde pertencem, o que se espera deles, e o que podem esperar dos outros. Com esta segurança, encaram confiantes e acima de tudo, calmos, as mudanças que possam surgir.

Hoje, o Raposo é um cão alegre que recuperou a sua paz. Não abandona a guarda do berço por um minuto, e assim continuará: incondicionalmente fiel à sua família que sempre o adorou, e ao seu novo irmão.

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Provavelmente por ser Médica Veterinária, procuro muito frequentemente referências na vida animal para clarificar e desmistificar acontecimentos comuns nas nossas vidas. Nunca deixo de me surpreender ao sentir que as crianças conseguem aceitar com alguma paz, a tristeza da perda se a perceberem, e encaram-na com a mesma humildade e simplicidade que os animais encaram o trilho que a vida lhes reserva.

O Zaire era o cão do Avô. Um Perdigueiro Português branco, de castanho malhado e focinho arrebitado. Passados dez longos anos como caçador acérrimo, vivia os seus dias deitado à porta de casa, a dormir ao Sol.

A Luísa visitava-o de vez em quando, e observava com olho clínico as marcas que o Tempo deixava no velho corpo: a magreza, os tremores, o andar cambaleante e o cansaço. Um dia quebrou o silêncio: “O Zaire está doente. Vai morrer?” Estava doente, tinha dores, estava cansado, em breve iria deixar o corpo na terra, e a vida que tinha dentro dele iria para um lugar especial.

Na visita seguinte, o Zaire não estava deitado à porta. Visitamos o montinho de terra por baixo de uma cerejeira de jardim. “Vou ter saudades do Zaire, Mãe”

Alguns anos depois, passadas várias perdas na família, também a Bisavó da Luísa partiu com 104 anos. Tal como o Zaire, a Bis estava velhinha e cansada. Resignada na sua tristeza, a Luísa comentou: “Agora a Bis vai fazer companhia ao Zaire, podem passear em cima das nuvens e vão fazer uma grande festa de chá com as pessoas todas que já lá estão” suspirou ao de leve e terminou com uma simplicidade pura e comovente: “Vou ter saudades da Bis, Mãe”

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03Há quem os considere melhores amigos, quase irmãos, até mesmo almas-gêmeas e de facto há algo de muito forte na relação entre uma criança e o seu animal de estimação.

A Raposa ensinou ao Principezinho: ” Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”. Inconscientemente, uma criança aprende a importância de ser necessária, de ser verdadeiramente responsável por um ser que depende do seu cuidado, dedicação e amor. Como reconhecimento, recebe a recompensa inestimável da amizade e lealdade desmedidas.

Criam uma cumplicidade enternecedora, um jogo de sombras em que nunca se percebe quem persegue quem. Vivem um mundo só deles onde partem à aventura em expedições arrojadas, seja em busca de um tesouro de piratas enterrado na praia, seja das bolachas escondidas no armário da cozinha. Partem juntos, independentes e destemidos, desafiando-se sempre a ir mais longe e ser melhores.

Ao contrário de nós Pais, os animais não questionam, ouvem; não julgam, aceitam, e conseguem sempre ver o que há de melhor em cada um. Quem sabe se movidas pelo desejo de não desiludir essa fé tão ingénua na sua bondade, as crianças com animais tentam realmente ser pessoas melhores.

Entregam sem medos, sem vergonhas o seu coração em bruto, e partilham com esperança e com uma coragem renovada os mais tímidos desejos com os seus melhores amigos, os seus guardiões de sonhos.

Por Mary Leacock Côrte-Real, Veterinária
para Up To Lisbon Kids®

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