A sorte de (nascer, crescer e) acordar num país sem guerra

Ontem antes de adormecer conversávamos sobre a sorte de podermos fechar os olhos descansados, tendo um tecto sobre as nossas cabeças, um cobertor para afastar o frio, um quarto só para nós e a nossa filha no quarto ao lado com as mesmas comodidades. E a acrescentar a isto saber que podemos adormecer sem receio de acordar com o nosso mundo de cabeça para baixo.

As imagens, notícias e relatos que nos chegam de Alepo, na Síria, não deixam ninguém indiferente. Não consigo esquecer a imagem de uma menina de uns dois anos, idade da minha filha, com os olhos cheios de terror, a pele coberta de pó e sangue que lhe caía não se sabe bem de onde, porque o seu cabelo revolto escondia as feridas. As superficiais, é claro, porque as outras estão marcadas para sempre a um nível muito mais profundo. Refiro-me a ela como uma menina, mas ela deixou de ser criança. Não brinca, não sonha, não ri, assistiu a coisas que muitos adultos (felizmente) nunca terão de ver na vida e acima de tudo perdeu a inocência. O terror que tem nos olhos, a incapacidade de chorar, de expressar naquela idade o que está a sentir deixou-me o coração do tamanho de uma ervilha. Aquela menina perdeu toda a família. Não tem ninguém que possa dar-lhe colo, o que seria nesta altura provavelmente suficiente para a fazer crer que é humana. Não há nenhum tio, irmão, amigo, mãe ou pai, que lhe sussurre ao ouvido que vai passar, vai correr tudo bem. Ninguém que a abrace e lhe faça chegar calor, o bater de um coração próximo que ajude o seu a continuar a bater. Que futuro tem uma criança sozinha no mundo? Que futuro tem uma criança a quem é negado amor? Esperança? Educação? A quem provavelmente levarão para longe da terra que conhece como sua, onde há apenas ruínas e corpos no chão? Que terá de trabalhar apesar de ter idade para brincar? Que será abusada, violada, maltratada? Que morrerá antes de conseguir perceber que a infância não é nada disto?

Todos os dias acordamos, tomamos banho, tomamos o pequeno-almoço em família, brincamos e levamos a miúda à escola. Vamos trabalhar e corra o dia bem ou mal iremos busca-la, beijá-la e abraçá-la, perguntar-lhe como foi o seu dia, ouvir as novidades, fazê-la rir e rir com ela. Brincar no jardim enquanto comemos fruta. Voltar a casa e ler uma história, fazer um puzzle, ver desenhos animados na televisão. Dar-lhe banho, vesti-la e penteá-la, dar-lhe jantar, contar uma história, dar um beijo de boa noite e deitá-la. Desejar-lhe bons sonhos.

Na maior parte dos dias não nos apercebemos da sorte que temos, da sorte que ela tem por ter nascido aqui. Num país em paz, apesar de todas as suas dificuldades. A minha filha é uma criança feliz. Tem colo. Não está sozinha. Tem mais do que precisa, felizmente. Tem quem cuide dela.

Mas aquelas crianças, na Síria e em todos os outros países que vivem em guerra, todas as centenas de milhares de crianças que foram arrancadas da sua vida, da sua terra pela sede de dinheiro e de poder, que têm de assistir ao que de pior o ser humano tem e faz, que vêem os seus heróis morrer em vão, não têm essa sorte. Vivem num inferno. Alguns terão o privilégio de ser resgatados para uma vida melhor. Outros terão a ajuda dos muitos voluntários que doam o seu tempo e a sua vida em prol dos outros. Alguns terão a oportunidade de estudar, de se tornarem alguém, de mais tarde poderem ter um papel activo na mudança de mentalidades, na luta pelos direitos humanos.

Tomamos a nossa vida como garantida.

Este Natal, enquanto estivemos com as nossas famílias, à volta da mesa, quantos de nós estivemos verdadeiramente gratos?

Por os nossos problemas, maiores ou menores, não se poderem comparar com os das crianças de que aqui falo?

Porque o Natal é pensar mais nos outros do que em nós (e assim deveria ser durante todo o ano) e é uma boa época para fazer algo por eles.

Procurarmos informação.

Darmos a ajuda que está ao nosso alcance.

Ensinar as gerações que serão o nosso futuro a importância do diálogo, da tolerância, do respeito pela vida e dignidade de quem nos rodeia.

A serem gratos. A crescerem conscientes do privilégio que têm. A serem adultos que dão mais do que recebem.

Nesta época de Natal o meu coração está com todos os que amo e pensarei em todas as crianças que só colocariam uma coisa na sua lista de Natal: Paz.

Porque com ela vem tudo o resto.

Ontem à noite, antes de fechar os olhos para dormir, agradeci a sorte que tenho por viver num país sem guerra.

Esta noite não me esquecerei de fazer o mesmo.

imagem@Weheartit

O menino que era uma menina

Muito se tem falado, muitíssimo além fronteiras, sobre a questão de género. Sobre crianças que estão em transição desde muito novas com o acompanhamento dos pais e outras que só já em adultas o fizeram.

É um assunto delicado e importante.

Um assunto tão sério que entra para o topo da lista do: e se fosse comigo? Sinceramente não tenho respostas. Sei que se acontecer connosco tudo faremos para ouvir, para compreender, para orientar, para ajudar. Para aceitar. Mas falar de fora é fácil. E aqui fica uma palavra para todos os pais que lidam com este e com outros desafios diariamente.

Porque amar um filho é ter de estar pronto para o que ele traz consigo quando chega a este mundo. Todas as suas características, todas as suas decisões. Quer concordemos ou não. Quer esteja ao nosso alcance ajudar ou não. Quer possamos compreender ou não.

E falo deste assunto porque há uns dias estavam no jardim dois irmãos a brincar. Meteram-se com a minha filha e um deles, o mais velho, fartou-se de conversar. Está naquela idade engraçada em que todas as interacções com os adultos são uma oportunidade de mostrar o que sabem, o que aprenderam, os temas que dominam. E foi o que aconteceu: a Mariana no baloiço com o pai a dar balanço e este miúdo de volta deles a conversar. Sobre basquete, sobre futsal, sobre as competições, sobre como era melhor que o irmão mais novo em todas as modalidades, sobre como conseguia finalmente fazer alguns passes que o pai lhe tinha ensinado. Sobre clubes e por aí fora. Estiveram quase uma hora na conversa quando o irmão mais novo corrige e diz: ela é uma menina, eu é que sou um rapaz.

Para defesa do pai, que ficou como os desenhos animados japoneses, com uma gota gigante junto à testa, devo dizer que o menino, que afinal era menina estava com a farda da escola. E essa farda era pullover e calças. E o cabelo estava cortado curto. Depois desta correcção conseguimos ver traços femininos, é verdade, mas apenas porque estamos a ver com atenção.

Pode ter-se tratado apenas de uma menina Maria rapaz, mas pelos momentos em que estive a observar sem interagir directamente diria que não é o caso. Pode não estar em transição, mas acredito que irá acabar por fazê-lo. E não é por os assuntos falados serem tipicamente associados aos rapazes (sempre me deixou bastante irritada a tendência para dizer que os meninos só usam azul, não brincam com bonecas e gostam de futebol; que as meninas têm de se sentar direitas, não lhes fica bem fazer desportos masculinos e brincar com carros. Sou totalmente contra o estereótipo, acho que não é nenhuma destas coisas que faz um rapaz ser mais ou menos masculino e o mesmo acontece com uma rapariga). Ainda assim, sei que as raparigas e os rapazes são diferentes. Nem melhores nem piores, são diferentes. Os seus códigos genéticos fazem com que se comportem de maneiras diferentes (quantas vezes, e impensadamente, disse que a minha filha é um rapazinho autêntico por ser aventureira, não ter medo das brincadeiras mais perigosas, etc). Muito é imposto socialmente, mas um rapaz e uma rapariga são diferentes e não apenas no que diz respeito ao seu aparelho sexual e reprodutor.

E é por isso que é tão complexo lidar com uma criança que sente que nasceu no corpo errado. Que se sente infeliz com o invólucro com que é obrigado a viver, com as expectativas que são criadas para si.

Parte-me o coração saber que há milhares de pessoas que cresceram a sentir-se erradas, sozinhas, incompreendidas, em depressão profunda. Que foram julgadas, que tiveram de se esconder. Que viram os seus gestos serem confundidos com orientação sexual quando não é disso que se trata. E se se tratasse não haveria problema nenhum. Ou não deveria haver.

Nos dias de hoje nós, os pais, temos mais obrigações para com os nossos filhos do que os pais de antigamente (porque muito do que hoje se discute era antes tabu, ainda que existisse).

Devemos-lhes respeito.

Afecto.

Compreensão.

Amor.

Tempo.

Respeito (sim, outra vez).

E isso nem sempre é fácil, mas sou adepta convicta da comunicação.

Pais e filhos que comunicam serão sempre mais felizes. Mesmo que para lá chegarem tenham de percorrer um longo caminho. Porque todas as aprendizagens contam.

E devemos agradecer todas elas.

 

 Desafio de Igualdade

Como podes confiar nos adultos?

Querida filha,

Sei que te educámos para acreditares em nós, para nunca pores em causa o que dizemos, mas… às vezes dou por mim a perguntar como é que é possível que as crianças não deixem de confiar nos adultos.

Dizemos-vos que o Pai Natal e o Menino Jesus existem, que quando cai um dente vem a Fada dos Dentes, que na Páscoa o Coelhinho anda todo contente a esconder ovos de chocolate pelo jardim. Vais acabar por perceber que o Pai Natal não existe, o menino Jesus é uma conversa que dá pano para mangas, a fada dos dentes somos nós e o coelhinho da Páscoa é uma invenção dos gulosos.

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O mesmo acontece com outras coisas simples, como por exemplo:

– Passamos meses a fio a apontar para as pequeninas coisas, a chamar a atenção para elas. Quando vocês crescem um pouco e começam a esticar o dedinho para que sejamos nós a vê-las apressamo-nos a dizer “não se aponta, que é feio”.

– Quando dizemos que não, a justificação às vezes é simplesmente “porque eu estou a dizer que não”, mas quando é a vossa vez de o fazer não aceitamos um não como resposta. Queremos justificação, queremos argumentos, mas no fim acabamos por não os aceitar. Quando é ao contrário exigimos que sejam aceites sem a menor hesitação.

– Cantamos para que comam mais depressa, “come a papa, Joana, come a Papa” e tantas outras variações, mas se na hora da sopa começam a cantar lá terão de ouvir o “não se canta à mesa”.

– Insistimos e voltamos a insistir que só se atravessa a estrada com o sinal verde, só se passa para o outro passeio pela passadeira e depois, à primeira oportunidade, olhamos para um lado e para o outro (com sorte) E avançamos sem medos.

Sei que nós, os adultos, às vezes fazemos coisas estranhas. Outras vezes regemo-nos pelo “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, porque temos de vos passar a mensagem certa quando ela ainda é absorvida sem filtros.

Agimos por bem, sempre.

Só queremos que cresçam para serem pessoas educadas e atentas ao que se passa à vossa volta.

Que sejam imaginativos, criativos e que questionem muito – faremos o melhor para responder a todas as perguntas (mesmo que as nossas ainda não tenham sido todas respondidas).

Se podem confiar em nós?

Podem e devem.

Porquê?

Porque a mãe está a dizer que sim e pronto.

A minha mais nova e a minha mais velha

Conheço a minha filha de dois anos como ninguém e consigo descodificá-la em 99% das vezes. Entendo o que quer dizer quando não se consegue exprimir, antecipo o que vai fazer antes de ela se lembrar, conheço os seus hábitos e manias.

Ainda assim aquele 1% intriga-me… Como quando decide que quer estar no colo da minha avó e assim fica, quieta, durante uma hora, uma hora e meia, duas. E não está a dormir, está apenas ali, sentada ao colo dela, com as mãozinhas à volta do seu pescoço, a olhar a minha avó, a ler as palavras que se formam nos seus lábios, a descansar o corpo, e a mente. Fico a vê-la e a fazer-lhe perguntas, mas ela não quer sair dali, não quer fazer mais nada, não quer que mais ninguém sequer lhe toque. A minha filha, convém explicar, é muito carinhosa mas normalmente não gosta que a agarrem, que a beijoquem infinitamente, que lhe imponham carinho. Gosta de dar os seus abracinhos, beijos e festas, mas é coisa rápida, depois segue caminho para outra coisa mais divertida. E nunca fica assim com ninguém, nem comigo nem com o pai. Nunca está quieta durante muito tempo, a não ser que esteja a cair de sono e se enrosque em nós, mas mesmo assim é coisa para estar a ouvir uma história ou algo parecido.

Gostava de lhe perguntar por que o faz. Não que me incomode, até porque me enternece, mas intriga-me. Porque não é sempre, mas já aconteceu várias vezes. Ao ponto de ser a minha avó, que tem alguma dificuldade em mover-se, a ter de a levar para a casa de banho para tomar banho, senão ela não vai.

Será que quando olha para a minha avó ela vê que foi com ela que tive muitas conversas importantes?

Que foi ela que me preparou as gemadas mais deliciosas do mundo?

Que foi para ela que a minha prima e eu cantámos vezes sem conta, com os sapatos de salto alto nos pés pequeninos e batom nos lábios, a fazer macacadas?

Que foi na casa dela e do meu avô no Baleal que passámos momentos inesquecíveis da nossa infância?

Que foi ela que me ensinou a gostar de açorda (e ainda hoje praticamente só gosto da que ela faz…)?

Que fui tantas vezes com ela ao supermercado que hoje, em adulta, ainda é um sítio onde gosto muito de ir?

Será que vê no seu rosto agora com rugas, a rapariga confiante que conquistou o meu avô, onze anos mais velho – que não ficava muito contente com o facto de ela se maquilhar?

Será que consegue perceber que tem diante de si uma mulher que casou com um padre que nunca abandonou o hábito e sempre integrou a sua família… e o acompanhou de uma igreja para outra com os seus três filhos?

Pergunto-me se sente que não vai ter a bisavó para sempre com ela e aproveita cada segundo do seu colo.

Mesmo que o seu corpo comece a ser grande para ser segurado por aquelas duas mãos trémulas…

A verdade é que nem as mãos que a seguram se cansam, nem ela fica desconfortável pela posição, impossível de manter durante muito tempo.

Acho que os melhores colos da nossa vida são assim mesmo: vistos de fora podem parecer desajustados, mas no fundo do nosso coração não os trocaríamos por nada.

 

“O adeus dos avós: a primeira experiência com a perda.”

Começa a época do… consumismo!

Está em todo o lado: quem tem crianças dificilmente conseguirá escapar ao bombardeamento que começou há umas semanas. São bonecas de todos os tipos, peluches, carrinhos telecomandados, drones, jogos interactivos, maletas para miniaturas, pistas para carros, bonecada que já se vendia no meu tempo de miúda e outras completamente inovadoras… e a lista não tem fim.

É difícil para uma criança exposta a este tipo de mensagem filtrar a informação que recebe, mas cabe aos pais gerir a forma como ela a processa.

Temos por hábito incitar a que as crianças escrevam uma carta ao Pai Natal ou façam uma lista ao menino Jesus. Ora bem, sejamos sinceros, o menino Jesus recebeu ouro, incenso e mirra que eram apenas simbólicos. Tal como os presentes que damos e recebemos deveriam ser. Uma lista é logo um mau princípio.

Sou da opinião que os miúdos deviam pedir UMA coisa que gostassem muito de receber. (Cá por casa já trabalhamos o gostar em vez de querer: “gostava de fazer isto” em vez de “quero fazer isto” e o mesmo vale para o verbo ter). Fazê-los criar uma lista dá-lhes a ilusão que devem receber tudo o que pedem. E que devem pedir bastantes coisas. Ninguém precisa de muitos brinquedos e, definitivamente, as crianças não precisam de muita quantidade para serem felizes. Se se focarem em pensar naquela coisa que os deixaria mesmo satisfeitos e com que irão decididamente brincar, então a felicidade de a receberem (se o pedido for realista, claro) será muito maior que abrir presente atrás de presente.

A minha filha fez anos há três meses e tenho um saco gigante com brinquedos que lhe ofereceram e que ainda não lhe dei para brincar. Porquê? Porque recebeu mais brinquedos num dia do que algumas crianças recebem durante toda a infância. Porque se lhos tivesse dado de imediato ficaria perdida no meio de tanto estímulo e depressa perderia o interesse. Vou dando durante o ano para que ela aprecie o que recebe. E acreditem quando vos digo que os presentes que recebeu no Natal chegaram quase ao aniversário, que é em Agosto.

Não sou uma defensora de uma infância sem brinquedos. Defendo, isso sim, uma infância para além dos brinquedos.

Nesta época acho importante ensinar os nossos filhos a olhar em volta. A selecionarem quais os brinquedos com que já não brincam, que já estão desadequados à sua idade. Para os darem a quem não os pode ter sem ser através de doações solidárias. Isto ensina-os a conhecerem a realidade à sua volta, a importância de partilhar, de dar sem esperar receber, de quando se tem mais ser capaz de olhar para quem tem menos, de serem solidários.

Por outro lado também acho importante envolve-los nos presentes de Natal da família. Fazer doces ou compotas e decorar os frascos e as tampas, pintar molduras feitas de molas para oferecer com os seus retratos, desenhar as etiquetas que vão ser postas nos presentes, elaborarem os postais. Porque o Natal é isto mesmo, é a entrega ao próximo, é o fazer sentir o outro que nos lembrámos dele e não apenas que gastámos dinheiro com ele.

Natal, mais do que tudo, é estar. Partilhar momentos, afectos, memórias. Os presentes são o bónus.

Se ensinarmos os nossos filhos a crescerem menos consumistas e mais afectuosos teremos um mundo melhor, sem a menor dúvida.

Ainda falta algum tempo para o Natal, por isso não há desculpa para não pensar no assunto e perceber se é importante mudar alguma coisa.

Cá por casa, vamos tentando.

E tentar já é meio caminho andado.

 

Saiba quais são as 8 principais razões para se livrar do excesso de brinquedos!

O meu avô costumava dizer que não se fala de religião, política e futebol à mesa. Hoje foi a excepção à regra.

Sentadas no sofá, ainda de pijama (porque a incredulidade me fez arrastar o início do dia, me fez ficar colada à TV), assistimos as duas, eu e a minha filha de dois anos, ao discurso do 45º Presidente dos Estados Unidos da América.

Ao contrário do que seria de esperar, a Mariana ouve e presta atenção, ao mesmo tempo que a colher com a papa de aveia que come fica no ar, esquecida. Talvez ela saiba ou sinta o momento histórico a que está a assistir. Se não sabe eu digo-lho.

“Mariana, isto que estás a ver é histórico. Mas, por favor, não deixes de acreditar na mãe”.

E ela sorriu. E a minha esperança ficou renovada.

Porque como é que podemos educar um filho para o bem, para a verdade, exaltando a necessidade de tratar sempre bem os outros, de não os diminuir, de aceitar as suas diferenças, de acreditar que trabalhando com rectidão mais tarde ou mais cedo se vai longe se chegamos ao dia 9 de Novembro de 2016 e este nos prova exactamente o contrário?

Como é que se explica a um filho que uma pessoa racista, xenófoba, sexista, que exclui as minorias, goza com as pessoas com deficiência, é mentirosa, desrespeita as mulheres, as outras religiões, não assume os seus erros e nem as suas palavras, é um bully como poucos, com uma mensagem negativa e apelativa à violência consiga ter o emprego mais importante do mundo? E como é que se explica que ele tenha conseguido este emprego porque houve sessenta milhões de americanos que assim o desejaram e lhe deram este poder? Sessenta milhões de americanos que preferem ter uma pessoa destas a comandar o seu país? É difícil e deixa-me repleta de receios.

E por isso senti a necessidade de dizer à minha filha que há dias em que o bem não vence. Em que não ganha o melhor ou quem mais merece (concorde-se ou não com todas as políticas da outra candidata). Em que nos apetece mandar a democracia passear e dizer “esqueçam lá isso, fica tudo como estava”.

Não pretendo impor-lhe as minhas visões políticas no futuro. Espero que tenha a capacidade de fazer as perguntas certas, de se interessar pelo seu futuro, de escolher em quem mais acreditar, se acreditar em alguém. Não falarei com ela de política a não ser que ela o deseje, mesmo que seja para ter uma discussão saudável de pontos de vista contrários.

Mas hoje não é de política que se trata.

É de princípios.

É de fé na humanidade.

E esses nenhum Trump conseguirá abalar.

Por mais difícil que seja.

Regras da casa

Cá em casa:

Limpamos os pés antes de entrar.
Damos abraços apertados e beijinhos repenicados.
Pedimos desculpa e perdoamos.
Somos sinceros.
Damos saltos e cambalhotas em cima da cama.
Tomamos banho com o cavalo marinho, os bebés e as bonecas como companhia.
Cantamos.
Lemos um livro todos os dias.
Dizemos disparates e temos conversas sérias.
Brincamos ao faz de conta.
Cuidamos das flores que trazemos do jardim.
Dizemos “bom dia” ao acordar, “boa noite, dorme bem, gosto de ti” ao deitar.
Damos beijinhos sem que nos peçam.
Rimos em voz alta.
Fazemos ataques de cócegas.
Pomos os bonecos a ver TV.
Inventamos histórias.
Damos bom dia ao sol, mesmo que ele esteja escondido atrás das nuvens.
Espreitamos a chuva e as poças que faz na escola do outro lado da rua.
Desejamos boa viagem aos aviões que vemos levantar voo do lado de lá da janela.
Ajudamo-nos.
Somos agradecidos.
Baixamos o tampo da sanita (pelo menos três terços dos moradores cá de casa… )
Limpamos o que sujamos.
Arrumamos o que desarrumamos.
Procuramos e encontramos coisas novas todos os dias no meio dos brinquedos.
Separamos o lixo.
Poupamos água.
Lavamos as mãos antes das refeições e os dentes depois de terminar.
Brincamos.
Não chamamos nomes (“feia”, má”) nem ameaçamos (“assim não gostamos de ti!”).
Não batemos.
Conversamos muito.
Pedimos opinião.
Ouvimos o que o outro tem para dizer.
Ninguém come uma bolacha sozinho.
Falamos sobre os amigos e a família.
Desenhamos.
Jogamos à bola.
Fazemos bolas de sabão.
Ouvimos música clássica e os hits do Panda.
Damos “mais cinco” e “brocks”.
Explicamos o melhor que sabemos.
Divertimo-nos todos os dias.
Ralhamos mas também elogiamos sempre que podemos.
Cultivamos a criatividade e a imaginação.
Falamos de sonhos.
Aceitamos e enfrentamos os nossos medos.
Damos as mãos para ir da sala ao quarto.
Dizemos “gosto de ti” a toda a hora.
Somos todos importantes.

Partilhamos uma peça de roupa quando está frio, um abraço só porque sim, um pedaço de pão quentinho, as tarefas.

Partilhamos a vida.

Partilhamos o amor.

Respira fundo, tu consegues.

Eu sei que o teu filho está a gritar no meio do supermercado, mesmo depois de ter lanchado, dormido e brincado. Estás no lugar daquela mãe que sempre juraste que nunca virias a ser e, para piorar, sentes que fizeste tudo bem.

Ou que se mandou para o chão no jardim a meio de uma brincadeira.

Ou que entrou no quarto, viu alguma coisa de que não gostou e começou a chorar copiosamente.

Eu sei que estás a falar com calma, até estares a falar com menos calma do que gostarias.

Eu sei que o teu filho não está a ouvir-te, apesar do esforço monumental que estás a fazer.

Que estás a olhá-lo nos olhos e à espera que isso seja suficiente para o lembrar que estás ali, com toda a paciência do mundo, mesmo ele não estando a demonstrar uma grande solidariedade para contigo.

Eu sei que te apetece virar costas e fingir que não é nada contigo.

Que parece que mais vale dizer “desisto” e deixar que ele se canse.

Que já te baixaste para falar ao mesmo nível que ele, que não levantaste a voz nem a mão e, mesmo assim, não parece ter resultado.

Eu sei que perdeste a paciência e acabaste por o puxar por um braço para o canto para, pelo menos, as pessoas deixarem de olhar para ti como quem sabe tudo, como quem resolveria aquilo num ápice.

Eu sei que sentes culpa por não conseguir sempre dar a volta à situação.

Que gostavas que a tua voz tivesse um efeito calmante imediato.

Que o teu filho fosse tão teu amigo nessas situações como tentas ser amiga dele.

Sei que gostavas que o caminho não tivesse sobressaltos. Ou pelo menos que os sobressaltos não te deixassem com a cabeça à roda, a dizer o que não querias, a sentir-te menos do que deverias.

Sei disso tudo e sei que tentas.

Que dás o teu melhor.

Que às vezes achas que não és capaz.

Que choras sozinha no duche ou ao adormecer.

Que partilhas o que sentes, mas desvalorizas e brincas com a situação para não te doer mais no peito.

Que juras que para a próxima vez já tens a solução mágica, já sabes o que vais fazer e dizer.

O que tu não sabes é que não és a única.

Todas as mães sofrem destes sintomas, por este ou por aquele motivo.

Não há filhos perfeitos e mesmo os mais bem comportados, os melhores alunos, os mais espertos, levantam desafios inimagináveis.

Sei que às vezes queres fechar os olhos por mais de dez segundos e fazer o ruído desaparecer… Mas não te esqueças que à tua frente está uma criança a aprender como se deve agir enquanto adulto. E tu és o seu adulto de referência.

Por isso, respira fundo. Tu consegues.

Afasta o mau humor, o mau feitio (teu ou dele), as energias negativas e tenta.

Não deixes de tentar porque nisto da maternidade às vezes é o teu filho que aprende contigo, noutras és tu que aprendes com ele.

E serão mais os dias em que adormeces a lembrar-te de como cantou aquela música pela primeira vez sem ajuda. Em que no supermercado te ajudou a escolher os legumes. Em que no duche reparou que te tinhas esquecido dos chinelos e tos levou até à banheira.

Se precisares, tira nota: os dias maus existem para que possas dar (sempre) mais valor aos bons.

Meu amor, eu prometo.

Prometo lembrar-me sempre de como te desejei ainda antes de saber se eras menina ou menino.

Prometo nunca perder as forças quando precisares mais de mim.

Não me desiludir ao ponto de não te reconhecer.

Acreditar em ti e na capacidade que tens e terás para compreender, mais tarde ou mais cedo, o que é melhor para ti.

Ajudar-te, mesmo que seja ao longe, a encontrar o teu caminho.

Não perder a esperança se a vida nos afastar de uma forma que pareça irremediável.

Nunca te atirar à cara seja o que for que tenha sido eu a decidir e que possa ter mudado a nossa vida.

Prestar sempre atenção, não deixar que o mundo à nossa volta me engula e me distraia de ti.

Prometo fazer os possíveis e os impossíveis para teres as melhores memórias de mim.

Não te culpar nem te deixar culpares-me pelas infelicidades que encontraremos certamente no caminho.

Cantar-te baixinho ao ouvido se isso te ajudar a adormecer.

Decorar os nomes de todos os teus amigos e seguir as histórias que contas sobre eles.

Nunca faltar aos teus momentos importantes.

Não desvalorizar os teus sentimentos.

Recordar-te de como és fruto do sentimento mais nobre: o amor.

Não cobrar por toda a dedicação que tenho.

Ouvir-te, mesmo que não concorde com as tuas palavras.

Fazer por ti o que precisares, mesmo que me apeteça seriamente fazer outras coisas no momento.

Não matar os teus sonhos.

Nunca deixar de brincar contigo.

Aceitar as verdades, a tua verdade.

Receber-te sempre com um sorriso.

Ensinar-te o melhor de mim.

Contar-te os meus erros, para que percebas que sou humana.

Pedir perdão.

Aceitar as tuas desculpas.

Abraçar-te sempre que tiver oportunidade.

Lembrar-te como és amada.

Não deixar de te amar, num todo. As tuas características, os teus defeitos, a tua personalidade, as tuas acções.

Prometo nunca deixar de ser a tua mãe.

Prometo.

 

imagem@Elliott Erwitt (American, b. France 1928), New York, New York, 1953. Gelatin silver print, 26.5 x 40.6 cm (image), disponível em weheartit