Mulheres-Objecto: Até quando?

O sol tinha acabado de se pôr e a luz na rua não era muita. À minha frente caminhavam dois rapazes, com cerca de vinte e cinco anos e, no meio deles, uma rapariga que não teria mais de vinte e dois.

Um dos rapazes agarrava-a na cintura e ela tentava afastar a mão, o outro rapaz fazia o mesmo, mas mais acanhado. Demorei alguns segundos a observar a cena, para perceber se se tratava de uma brincadeira entre amigos mas percebi que não. Que os rapazes não conheciam a rapariga, mas estavam a tocar-lhe. A impor a sua presença. A meter-se com ela de uma forma íntima. Olhei em volta, com o coração acelerado, à procura de alguém que me pudesse ajudar. Não foi preciso, a rapariga soltou-se e deixou-os para trás. Isto aconteceu numa rua movimentada de Lisboa, ao final do dia. Havia pessoas à volta e mesmo assim os rapazes não se coibiram de agarrar a rapariga.

Este é certamente uma das muitas coisas que nunca irei compreender: como é que alguém se sente no direito de invadir o espaço de outro, de o tocar de forma íntima sem a menor autorização e – mais! – sem o mínimo consentimento.

Depois de seguir o meu caminho, pensando em quantas vezes estas situações não acabam assim, tão “facilmente”, recordei-me de um episódio que aconteceu quando estava a estudar no 12º ano. Uma das alunas da minha escola, que se vestia normalmente com saia um pouco curta e decotes algo pronunciados, foi seguida durante dias a fio por um homem. Este homem aprendeu a sua rotina, entrava e saía com ela no autocarro. Num desses dias, decidiu pegar-lhe no braço e fazê-la acompanhá-lo até um jardim ali próximo. Ela debateu-se, naturalmente. Estava cheia de medo e tentou fugir. Ele disse que queria que ela fosse dele. Ela negou. Ele atacou-a violentamente com uma arma branca, deixando-lhe uma cicatriz do pescoço até ao umbigo.   “Se não és minha não vais ser de mais ninguém”, disse. Isto aconteceu a uma rapariga de dezasseis anos, em Lisboa, em 2004. Na escola, toda a gente falava nisso. A opinião mais popular era a de que ela “estava a pedi-las, a vestir-se daquela maneira. Para a próxima já pensa duas vezes antes de sair de casa assim”. É claro que ela vai pensar, porque a feriram de uma forma inacreditável. E maior que a ferida física e emocional que ela terá de enfrentar para a sempre, o que sempre me custou foi o que as pessoas à volta pensavam. Como é que é possível? Como é que a vítima é sempre culpabilizada?

Quando é que se reconhece às mulheres (e aos homens, a todos os seres humanos) o direito de decidir sobre a sua vida? Sobre como se querem vestir? Como se querem pentear, maquilhar, que música ouvir? Até quando terá uma mulher de pensar duas vezes se arrisca usar aquela peça de roupa sabendo que vai fazer uma viagem de metro?

Quando compreenderão os homens, e tantas vezes outras mulheres, que o facto de a pele estar à vista não é uma provocação por si só? Não é falta de respeito e amor próprio? Que não é um convite a que se vá tocar, mexer?

Concordo que temos de ter cuidado, que nem todas as pessoas são equilibradas, educadas e por aí fora, mas custa-me que uma mulher seja olhada como um pedaço de carne. Que seja julgada e logo etiquetada, pela sua forma de vestir.

Que, mesmo não se vestindo de uma forma que muitos consideram como provocatória, seja vista como um ser que existe para deleite dos homens, para que eles possam olhar e dizer de sua justiça.

Quantas de nós não foram já alvos de comentários inapropriados?

Quantas de nós não aceleraram o passo quando tinham um grupo de rapazes atrás de si?

Quantas de nós não pensaram “se eu fosse um homem nada disto tinha acontecido”?

Quantas de nós não tiveram situações desagradáveis no local de trabalho? Com um namorado? No grupo de amigos?

Como mãe de uma menina, como irmã mais velha de uma adolescente que sai à noite, preocupo-me.

E, sejamos sinceros, ainda me preocupo comigo.

Porque nenhuma de nós está imune. Infelizmente.

É urgente educar para o respeito, é urgente educar para a igualdade, é urgente denunciar e punir quem não age correctamente.

É urgente sermos melhores e abrirmos caminho para que as novas gerações se respeitem.

Independentemente do género.

 

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Lembro-me perfeitamente do momento em que a professora de inglês nos pediu para escrever uma composição sobre os nossos “role models”, as pessoas em quem nos inspirávamos, as que admirávamos, e porquê.

Lembro-me perfeitamente de a minha melhor amiga da época ter escrito sobre mim e de me ter sentido importante, no sentido em que alguém via qualidades em mim, qualidades a que eu não dava grande importância.

Hoje considero que, de facto, sou boa ouvinte, mas o resto talvez estivesse a ser empolado pelo facto de naquela idade, aos quinze anos, sentirmos tudo a mil porcento.

Pensava eu sobre isto quando me dei conta de que hoje, aos quase trinta e um, sou uma role model. E das a sério. Daquelas que deixam marcas. Das que podem influenciar o futuro. Das que podem dar confiança ou retirá-la para sempre.

Sou mãe.

E para a minha filha, não há quem a inspire mais que eu. E não há vaidade nestas palavras, simplesmente eu e o pai somos o porto mais seguro que conhece e, por isso, os seus modelos de eleição. Bem sei que as pessoas que a rodeiam têm a sua influência, mas ninguém tem a importância que nós temos.

E é aqui que me preocupa pensar o que há para a acrescentar à lista onde já está escrito “boa ouvinte”.

Porque quero que a minha filha, quando um dia fizer uma composição sobre mim (seja ela sobre as pessoas que admira ou simplesmente sobre a pessoa que a trouxe ao mundo), seja capaz de escrever pelo menos umas cinco coisas muito positivas sobre mim.

Isso quererá dizer que fiz um bom trabalho.

Sou o espelho das suas emoções, dos seus sonhos, das suas dúvidas. Sou eu quem lhe devolve a resposta a tudo. E tento que seja o mais positiva possível. O mais realista mas, ao mesmo tempo, a mais impulsionadora do verbo “sonhar”.

Hoje sou uma role model a sério e preocupo-me com o que vou pôr na mesa ao jantar.

Com os livros que lemos encostadinhas uma à outra.

Com as corridas que fazemos no corredor.

Com as flores que apontamos no jardim, com os animais que conhecemos pelo nome.

Com as músicas que ensino e as que já vou aprendendo.

Com a forma como reajo em situações de stress.

Como me dirijo aos outros.

Como respondo às perguntas que a minha filha me faz.

Como ajudo quem precisa e quem não parece precisar.

Como reparo em coisas que aparentemente não têm importância.

Porque tudo conta.

Porque tudo serão referências.

Tudo fará parte da pessoa em que em já se está a tornar.

Muita pressão?

Nem por isso, basta-me querer ser a melhor versão de mim mesma.

Sei que à minha filha isso bastará.

Isso e o amor que lhe tenho.

E que sei que será para ela um exemplo.

Sempre.

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Conversa típica com a minha filha de dois anos e meio

– Olha, Mariana, já não apanhámos o pôr-do-sol.

– Porquê?

– Porque o sol já está escondido…

– Porquê?

– Porque a noite está a chegar.

– Porquê?

– Porque o dia está a chegar ao fim.

– Porquê?

– Porque as horas passaram e está na altura de as pessoas voltarem a casa.

– Porquê?

– Porque voltar a casa sabe bem.

– Porquê?

– Porque é onde podemos estar todos juntos e conversar sobre o nosso dia, ler histórias, brincar…

– Porquê?

– Porque gostamos.

– Porquê?

– Porque nos sabe bem.

– Porquê?

– Porque o dia passa a correr e quando damos por nós é hora de ir dormir.

– Porquê?

– Porque temos de acordar cedo.

– Porquê?

– Porque vamos trabalhar e para a escola.

– Porquê?

– Porque temos de ir ganhar dinheiro para os teus iogurtes e tu vais aprender, brincar, estar com os teus amigos.

– Porquê?

– Porque os teus amigos também vão à escola.

– Porquê?

– Porque ir à escola é mesmo bom.

– Porquê?

– Por que é que ir à escola é mesmo bom, Mariana?

– Porquê?

– Ouviste a mãe? Diz-me tu, por que é que achas que é bom?

– Porquê?

– Ok… Acho que já chega, não é?

– Está bem.

É basicamente isto. Em loop, todos os dias, durante todo o dia. Começa com coisas pequenas como por que é que o senhor atravessou a rua com o sinal vermelho ou por que é que o coração faz tum tum.

Eu tento sempre responder.

Às vezes tenho de ser criativa.

Às vezes invento um bocadinho, mas não contem a ninguém.

Às vezes digo palermices para nos rirmos.

Às vezes aproveito para explicar coisas sérias.

E às vezes a lenga-lenga é mesmo só isso.

É a idade dos porquês e que boa que é.

Porquê?

Porque me perguntas a mim.

Porquê?

Porque sou a tua mãe…

Porquê?

Porque estavas na minha barriga.

Porquê?

Bem, deixemos essa para daqui a alguns anos, pode ser?

Está bem…

 

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Querida filha,

Chegaste oficialmente à idade dos porquês. Chegaste também à fase em que achas que tudo será maravilhoso quando cresceres.

Dizes que quando cresceres vais pintar os olhos como eu.

Respondo-te que a beleza não está na maquilhagem que usamos, que deverás aprender a gostar de ti como és.

Dizes que vais ter barba, como o pai.

Respondo-te que o que tens dele e o que dele deverás querer honrar não tem nada a ver com isso, mas com a bondade do teu coração.

Dizes que vais andar de trotinete.

Repondo que verás o mundo com a ajuda de muitos meios de transporte, mas o que mais importa são os teus olhos: o que eles vêem, a forma como eles apreendem o que está à sua volta.

Dizes que pintarás também as bochechas.

Respondo que talvez, quem sabe se vais ligar a esse tipo de coisas?

Dizes que vais ler livros sem desenhos.

Respondo que te ajudarão a sonhar de olhos abertos, a viajar a sítios desconhecidos, a rir e chorar sozinha.

Dizes que irás de mota para o trabalho, como o pai.

Respondo que logo veremos, que o meu coração fica pequenino de te imaginar a passar por entre os carros.

Dizes que vais correr ainda mais depressa.

Respondo-te que não corras depressa demais, sob pena de perderes as coisas importantes por que vais passar.

Dizes que vais finalmente descer pelo poste que está no parque, qual bombeira.

Respondo-te que às vezes a espera sabe bem e nos faz apreciar as pequenas conquistas.

Dizes que vais conseguir andar no baloiço sem ser empurrada.

Respondo que, se fores como a mãe, gostarás dessa sensação até seres velhinha.

Dizes que vais chegar ao céu.

Respondo que tocamos o céu todos os dias, um bocadinho, quando temos a sorte de estar com quem amamos.

Contigo, chego ao céu. E estarei aqui para te ir respondendo a todos os teus porquês, para ouvir os teus planos e aquilo que acreditas que vais fazer quando cresceres. Quando lá chegares, nem te lembrarás de metade das metas que traçaste porque o segredo é viver, querida filha.

Vive.

Vive o agora.

Quando cresceres logo tens tempo de ser crescida.

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Amei-te na primeira vez que te vi.

Quando te segurei junto ao peito e fechei os olhos, agradecida por teres chegado.

Quando apertaste o meu dedo entre as mãos e senti o cliché que é saber que me procuravas para te saberes segura.

Amei-te quando tinha de te acordar para comeres, porque estavas mais interessada em descansar.

Quando deste o primeiro sorriso, quando me viste realmente pela primeira vez.

Quando vi o amor que do pai te enchia o coração.

Cresceste e amei-te sempre, cada dia, todos os dias.

Amei as tuas conquistas, os teus medos, o teu olhar.

Amei-te com todas as minhas forças quando me chamaste mãe.

Quando me ensinaste a ver melhor, a ser melhor, a parar. Para reparar, para sentir, para ponderar, para agradecer.

Quando me fizeste sentir que não estava à altura do papel que se materializou graças a ti.

Quando percebi que estar à altura é querer sempre o melhor, é corrigir o que está errado, é não exigir o que não é possível. É simplesmente amar.

Quando me ensinaste a apaziguar os meus receios.

Quando tornaste os meus dias bons só por existires.

Quando me fizeste esquecer os problemas com um sorriso.

Quando ouvi as gargalhadas que dás, tão genuínas e puras que procuramos que as repitas uma e duas vezes… (serão sempre umas trezentas, aqui entre nós).

Amei-te quando me desafiaste.

Quando fizeste a tua primeira frase completa, quando agradeceste e pediste desculpa.

Quando perguntaste porquê.

Quando aceitaste as minhas respostas, mesmo que não te satisfizessem a curiosidade.

Quando acreditaste em tudo o que te disse.

Quando te riste da minha piada.

Quando me deste um beijinho de todas as vezes que me magoei, para passar mais depressa.

Quando me “obrigaste” a voltar a ler a mesma história pela quarta vez.

Quando pediste ao pai que voltasse atrás quando estava de saída porque não me tinha dado um beijinho de até logo.

Quando choraste à noite e te perguntei o que se passava e foste sincera: “nada. Queria a mãe”.

Quando ralhei contigo e começaste a chamar o pai para interceder por ti. (às vezes ainda não compreendes que somos mais que uma equipa, somos uma frente unida, mas enternece-me de todas as vezes que chamas um ou outro como advogado de defesa. Em breve aprenderás que tens de te defender sozinha e enfrentar quem quer que te esteja a ralhar e perceber o porquê do que está a acontecer).

Quando me deste a mão à mesa, só porque sim.

Amei-te sempre.

Amar-te-ei para sempre.

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Gosto de ti, ponto final.

Querida filha:

Gosto de ti quando estás despenteada, gosto de ti quando tens um gancho a segurar os caracóis;

Quando dizes frases completas que me enchem o coração, quando pareces falar uma língua de outro mundo;

Quando choras por te sentires injustiçada, quando as lágrimas chegam sem razão;

Quando me acaricias o rosto; quando viras costas sem me ligar nenhuma;

Quando arrumas os brinquedos sem que tenha de te lembrar; quando desarrumas a casa de uma ponta a outra a uma velocidade estrondosa;

Quando abraças os teus amigos à chegada à escola, quando fazes queixas porque um deles te empurrou;

Quando mostras autonomia na maior parte das tarefas e quando pedes ajuda para algo que sabes muito bem fazer sozinha;

Quando comes bem, quando parece que o apetite te foge;

Quando queres cantar todas as músicas do mundo e quando me pedes que não cante por cima da música que está a passar na rádio;

Quando abres uma caixa e dizes “uau” ao ver o seu conteúdo; quando a pões para o lado ao fim de uns minutos;

Gosto de ti quando acordas com um sorriso, gosto de ti quando acordas a querer dormir mais;

Quando és justa; quando te pareces esquecer de que o mundo não gira à tua volta;

Quando brincas com o pai; quando queres é estar sozinha.

Quando fazes perguntas sobre o mundo que observas; quando pareces estar alheada do que se passa à tua volta.

Quando corres para os braços da tua tia, quando lhe respondes torto e não devias;

Quando te aninhas em mim e a tua respiração se apazigua, quando queres tudo menos colo;

Quando queres companhia para ler livros, quando me pedes que te deixe sozinha enquanto inventas as tuas próprias histórias.

Podia estar dois anos e meio a escrever o quanto gosto de ti e quais os momentos que me fazem perceber isso, mas… Não há nenhum momento em que não goste de ti e é isso que te quero dizer.

Erres ou acertes,

Sorrias ou chores,

Respondas ou obedeças,

Estudes ou sejas mais preguiçosa,

Sejas pontual ou te atrases sempre…

A mãe irá sempre gostar de ti da mesma maneira.

Porque me ensinaste que o verbo gostar não se conjuga com a expressão “mas” ao lado.

Nunca.

Por isso, gosto de ti.

Ponto final.

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Quanto pode amar uma mãe?

Maldito Cancro,

Ditam as regras de boa educação que se deve começar uma carta de outra forma, mais amistosa e cordial, mas sei que me compreendes.

Sabes que jamais conseguiria dirigir-te uma palavra amigável, não depois daquilo que vi quando visitei a ala pediátrica do Instituto Português de Oncologia. Não depois de ter passado horas na sala de espera com dezenas de pessoas que aguardavam a sua vez para serem admitidas para tratamento, simplesmente porque tu existes.

Graças a ti a minha filha não irá conhecer três dos seus bisavós, graças a ti a minha filha teve de se despedir, sem o saber, de um dos bisavós que teve a sorte de ainda conhecer. Não satisfeito apontaste armas novamente, mas posso deixar-te já o aviso que bateste à porta errada. Nesta luta-se e irá lutar-se até que te tenhas arrependido de aparecer.

Não sei se te apercebes do que roubas a milhares de famílias neste país. Do desespero que causas a tantos pais que se sentem impotentes por estares dentro do corpo dos seus filhos. Pais que rezam, pais que choram, pais que acreditam, pais que perdem a fé, pais que lutam, mas que nunca deixarão de amar. De estar. Pais e famílias inteiras arrancadas da sua normalidade porque tu decidiste aparecer. Pais que choram a perda dos seus filhos, dos seus afilhados, sobrinhos, amigos. Perdas essas tão fora de tempo, tão injustas, tão inglórias. Filhos que que têm de se despedir dos seus pais todos os dias porque não sabem quando será a última vez que podem segurar-lhes as mãos, dar-lhes um beijo na testa, segredar-lhes o quanto gostam deles ao ouvido.

Diariamente há crianças que lutam sem o saber. Há crianças que o sabem e que não percebem como ser crianças tendo de lutar. Há adolescentes que comparam as suas vidas com as dos amigos, que só gostavam de poder estar na escola em vez de numa lista de espera por um transplante. Há pais que acordam de manhã e têm mais com que se preocupar do que com o facto de não terem ouvido o despertador.

Penso que te apercebes, mas que és tão ganancioso que não te importas. Só queres mais e mais…

Mas nem sempre ganhas. Nem sempre consegues aquilo que queres.

Porque também há famílias a quem a fé foi restaurada com uma remissão, a quem foram devolvidos os entes queridos apesar de ti. Que venceram.

Há bebés que sorriem e que não têm noção de que poderão ter uma vida como os outros bebés apesar de teres batido à sua porta.

Há tantos vencedores que têm histórias com final feliz para contar. Felizmente não lhes roubaste tudo.

A todas as famílias que lidam com este maldito invasor, muita força. Que a fé, a força e o amor nunca vos faltem.

A todas as famílias que tiveram de seguir em frente, continuar as suas vidas, quando a sua vontade era de baixar os braços, um abraço enorme. Aos que por momentos tiveram de baixar os braços e chorar, desesperar e perder a fé, eu compreendo. Compreendo muito bem, mas o maldito C não merece que as vidas que foram poupadas não sejam aproveitadas. E por isso gostaria que se agarrassem ao que de bom a vida tem para se reerguerem. E a vida tem tantas coisas boas quando nos permitimos pensar nelas.

Aos sobreviventes e às suas famílias deixo um suspiro de alívio, um sorriso no rosto, uma reflexão sobre a nova oportunidade que lhes foi dada.

Portanto, maldito cancro, não te esqueças de uma coisa: juntos podemos mais que tu.

Chegará o dia em que só existirás nos manuais de história da medicina, em que teremos sido capazes de te erradicar do mundo.

Até lá prometo-te que a humanidade irá dar-te luta.

Poderá chorar e perguntar porquê mas irá acreditar.

Irá amar.

E as novas gerações irão enfrentar-te de frente.

E vais perder.

Promessa de(sta) mãe.

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Se o seu filho de dois anos é um anjo a quem faltam apenas as asas, se a única vez que levanta a voz são duas octavas acima do desejável quando espirra e se é tão bem comportado que a emociona, este texto não é para si. Ou talvez seja, se for daquele tipo de pessoas que gosta de passar por um desastre e ficar a olhar, pela incapacidade de fazer o contrário.

Ora bem… Sou adepta da parentalidade positiva. Sou adepta do diálogo, de respeitar os ritmos, algumas vontades, de não comprar guerras desnecessárias. Mas também tenho uma filha de dois anos, que atravessa a fase comumente apelidada de “terrible two”. Tenho de dizer mais? Então aqui vai.

A minha filha é um doce, meiga, imaginativa, tem um sentido de humor ímpar, é inteligente e atenta, mas tudo isso se dissolve de vez em quando. Começa a chorar porque sim (indo este “porque sim” desde ao “ohhhhhh, o sol está escondido”, ao “o Mickey é um rato?” ou simplesmente sem razão aparente). Não quer tomar banho e esperneia. Não quer lavar a cabeça. Não quer secar o cabelo. Não deixa pôr creme no corpo. Não quer vestir o casaco à saída da escola nem o bibe à chegada. Não quer essas bolachas, quer as outras. Não quer ir a pé, quer o colo. Não quer o livro, quer as plasticinas. Não quer a mãe, quer o papá. Não quer o papá, exige a mãe. Manda as coisas para o chão. Empurra o prato. Descalça-se. Nem pensar que vai vestir essas collants. Não quer essa camisola. As cuecas, deixa cá ser ela a escolher. Arranca o gancho da cabeça. (Mãe da criança exemplar dos dois anos, ainda está aí? Valente!). Quer carregar no botão do elevador que já está selecionado. Quer ver vídeos no telemóvel seja a que horas for. Deita-se no chão a rebolar e a chorar. Grita.

Podia continuar durante horas, mas penso que todas nós já encontrámos pelo menos duas coisas em comum.

Nenhuma destas coisas lhe foi passada como sendo aceitável. Nunca cedemos a birras. Nunca a deixámos pensar que se se comportar como um selvagem leva a melhor, nem que seja pela vergonha que nos faz passar. Às vezes custa muito. Dói. Penso onde foi que errei. O que poderia ter feito melhor. Que para a próxima tentarei uma nova estratégia.

Converso, explico, levanto a voz, desespero.

Já cheguei a ir o percurso de escola a casa todo a chorar sem ela ver.

Eu só tenho uma filha mas há quem lide com isto ao mesmo tempo que tem de fazer malabarismos com filhos mais velhos e mais novos.

E é muito complicado.

Injusto.

Ingrato.

Mas depois, como se bastasse uma brisa de ar, tudo muda e a nossa criança volta a ser alguém que reconhecemos como nossa.

Que sabe o que pode e deve fazer (dentro das limitações da sua idade), que testa os limites de forma um pouco mais racional, que não desespera face às primeiras frustrações.

E é nesse momento que tento lembrar-me que o que fazemos, o “trabalho” que temos com ela, não é em vão.

E que não estou sozinha.

Que mesmo que tivesse sido e fosse a mãe perfeita (estou longe disso), a minha filha passaria por esta fase.

Porque aqui não há culpas. Talvez haja apenas a da falta de paciência para lidar com algumas destas situações de vez em quando, mas humana me confesso. Quem lida com tudo isto com um sorriso no rosto e a tranquilidade no olhar? Poucos de nós.

Esta fase tem sido uma lição. Já consigo contornar algumas situações e até antecipar outras, de forma a evitá-las. Outras estão fora do meu controlo.

E estou a aprender a lidar melhor com isso. A aceitar.

Porque é mais uma lição, mais uma aprendizagem.

Que cansa, mas que no fim vale a pena.

Porque esta fase “terrível” vai passar e dará lugar a outras com os seus desafios.

E ser mãe é estar pronta para aceitar as fragilidades dos filhos e ter força suficiente para lhes indicar o caminho, os guiar e dar a mão para que saiam da bolha de infelicidade e frustração em que por vezes entram.

Se já passou por algo semelhante ou está a passar, estamos juntas.

Não desespere.

Se precisar, peça ajuda.

Não está sozinha (escrevo no feminino, mas vale para o masculino também).

Vai passar, vai melhorar.

Não desanime.

Agarre-se às coisas boas e, convenhamos, são tantas!

Seja feliz.

Ajude os seus filhos a serem felizes.

Por vezes basta estarmos lá e fazê-los sentir que não estão abandonados nos seus momentos de imperfeição. Que confiamos neles para encontrarem soluções adequadas à sua idade, subindo um degrau de cada vez.

Em relação aos terrible two? Lamento, mas não serás tu a transformar-me numa má mãe nem a fazer-me perder a fé na minha filha.

Somos muito maiores e melhores que tu.

 

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Coisas que aprendi com os meus avós

Tive a sorte de poder ter os meus quatro avós comigo até já ser adulta.

Hoje só posso beijar e abraçar dois deles, mas os outros dois continuam muito presentes na minha vida (de tal forma que nunca apaguei os seus contactos do telemóvel, nem quando comprei um novo).

Ao longo dos anos fui acumulando conhecimento que eles me passavam sem mo imporem. Nunca nenhum deles exigiu de mim fosse o que fosse, quis que aprendesse algo antes do tempo, me pressionou a ser diferente, a acreditar em algo só porque eles acreditavam. Desde que fosse bem-educada, coisa que sempre fui, tudo estava em paz.

E sempre esteve.

Com a presença deles aprendi:

– Que o sabor de uma boa sopa caseira (e cacau quente) é impossível de copiar.

– Que um elogio na hora certa pode fazer-nos ganhar o dia.

– Que nunca somos crescidos demais para receber uma notinha na Páscoa “para as amêndoas”.

– Que as melhores piadas são as que contamos em silêncio e, mesmo assim conseguimos arrancar uma gargalhada ao outro.

– Que os filhos são o nosso bem mais precioso.

– Que o trabalho é importante e, sem ele, dificilmente daremos valor ao descanso.

– Que faz falta saber ouvir (mesmo quando já nos contaram três vezes a mesma coisa, uma ao telefone, outra no dia anterior).

– Que há cheiros que ficam para sempre (como o do aftershave do meu avô ou da laca que a minha avó usava).

– Que queremos ser para os nossos filhos melhores pais (se possível) que o que eles foram para os seus.

– Que há erros que se cometem por amor, não por maldade.

– Que as saudades não passam com o tempo (apesar do que nos teimam em fazer crer).

– Que esse tempo ajuda a esquecer coisas que não tinham valor, mas também levam pessoas importantes… que não é fácil ir vendo os amigos desaparecer, os dias a passar, o corpo a ceder.

– Que a solidão dói, que a presença importa.

– Que o nosso mundo se torna cada vez mais pequeno.

– Que os netos e bisnetos ajudam a esquecer a idade.

– Que é sempre tempo de nos surpreendermos, de mudar um bocadinho.

– Que nunca é tarde para dizer o quanto gostamos – e que é importante não deixar de o dizer.

– Que a saúde vale ouro e só nos damos conta disso quando ela começa a ir embora.

– Que há histórias que merecem ser contadas.

– Que há chamadas que não podem ficar para amanhã.

– Que nunca mais teremos ninguém com um amor igual por nós. Nem seremos capazes de amar mais ninguém como os amámos (e amamos) a eles.

Queridos avós, sorte de quem ainda os tem (e os teve um dia).

Honrar a sua existência, a sua memória e o que somos graças a eles pode não mudar nada lá fora, mas aqui dentro fica tudo cheio de luz, de um quentinho que só o amor provoca.

É importante relembrar.

É essencial dizer-lhes o que nos são.

Sempre.

Ter um filho é valorizar, como nunca, o acto de dar a mão.

É repetir baixinho as músicas que nos cantavam quando éramos crianças.

É contar histórias, dia após dia.

É desejar, mais do que nunca, o bem de outra pessoa.

É temer o futuro, a falta de controlo que temos sobre ele.

É ver numa caixa de sapatos um cenário de um mundo de fantasia.

É crescer num ápice e voltar a ser pequenino.

É ter o carinho na ponta dos dedos.

É ter o coração fora do peito.

É não saber como voltaríamos a viver sem esta dádiva.

É ouvir as perguntas mais importantes sobre a vida e pensar se estamos preparados para dar respostas.

É valorizar as coisas certas.

É querer ser melhor.

É perceber como somos falíveis.

É tentar, dia após dias, mascarar o melhor possível os nossos defeitos para que o nosso melhor seja o que vem ao de cima.

É aprender sempre.

É perceber como nos falta ainda aprender tanto.

É passar a ver o sono com outros olhos.

É aprender uma nova linguagem.

É reviver, através de outro que foi feito por nós, o que é aprender a andar, a comer, a falar, a rir.

É sentir que não voltaremos a estar sozinhos.

É ter saudades mesmo quando ainda há pouco estivemos perto.

É repetir uma graça vezes sem conta porque sabemos que vai ter um efeito positivo.

É aprender a ser alvo de julgamento dos mais próximos, dos mais distantes, inclusivamente dos seres de outras galáxias.

É viver bem com isso.

É lembrar, a cada segundo, para não fazermos o mesmo com os outros.

É partilhar experiências.

É ensinar as bases.

É dar asas.

É dar um empurrãozinho na hora certa e ficar a ver quando é preciso.

É emocionarmo-nos com as pequenas coisas.

É torcermos pelas ínfimas vitórias.

É limpar as lágrimas deles, as nossas, quantas vezes forem precisas, porque amanhã será sempre melhor.

É ter a maior sorte do mundo.