A época de exames já começou para muitos alunos. Dos mais novos aos mais velhos todos estudam, todos se preparam para prestar provas sobre o que aprenderam

Muitos pais já se esqueceram do que sentiram quando eles próprios passaram por isso, outros não sabem como ajudar nesta fase.

Para mim, como irmã de uma finalista do 12º ano, acho que há coisas básicas que todos podemos fazer e que por vezes são suficientes para que os nossos “alunos” se sintam mais calmos.

– Desdramatizar. Por mais importantes que os exames sejam, por mais ponderação que tenham na nota ou até na média, é preciso não fazer um bicho de sete cabeças – um exame é, no fundo, uma recapitulação do que foi dado. E eles estiveram nas aulas. Estudaram.

– Aceitar as suas dúvidas. É natural que elas existam e podemos orientá-los sobre como conseguir ultrapassá-las. Muitas vezes eles precisam de se sentir acompanhados, apenas isso.

– Ser companheiros no que respeita a espantar os nervos. Trocar experiências, dar dicas, fazer com eles exercícios de relaxamento ou simplesmente ajudá-los a encontrar uma forma de fazer uma pausa no meio de tanto estudo.

– Valorizar o que nos dizem. Por mais que achemos descabido, devemos ouvir. Desabafar é essencial para nos ouvirmos a nós próprios, porque expressamos os nossos pensamentos em voz alta. Sistematizar o que sentem pode ser a chave para que entendam onde precisam de trabalhar mais ou por qaue motivo estão a ter mais dificuldades numa matéria que noutra.

– Ter muita paciência.

– Não deixar os nossos próprios nervos transparecerem. Eles já têm os deles e basta.

– Ir acompanhando, mas dar-lhes espaço. Não fazer perguntas a toda a hora (já estudaste? Não devias estar a estudar? Como assim vais ter com os teus amigos com o exame daqui a 144 horas???), não exigir que eles tenham as respostas todas na ponta da língua.

É uma fase que é ansiada o ano todo e que passa num instante. Pode ser determinante para a definição do futuro deles, como pode também significar ficar mais um ano à espera.

Vejam as férias à espera no fundo do túnel.

Os miúdos vão ser capazes e vocês também!

A cidade de Lisboa está em obras. Para onde quer que olhemos há máquinas a trabalhar, ruas fechadas ao trânsito, carros obrigados a estacionar em cima do passeio.

Há o projecto de fazer circular menos carros pela cidade, dando mais espaço às pessoas. Os passeios estão mais largos (tão largos que a maior parte das ruas quase perdeu uma faixa de circulação) e a estrada mais estreita. Pretende-se que haja mais espaço para as pessoas disfrutarem dos seus dias, em lazer, seja com os miúdos a andarem de skate, patins ou bicicleta, seja na criação de novas esplanadas e locais de convívio.

Poderia perder-me na discussão se faz sentido começar por aí ou criar condições para as pessoas deixarem os carros nas garagens, tendo nós os nossos transportes públicos como sabemos, mas não é sobre isso que aqui escrevo hoje.

Escrevo sobre dar-se prioridade a criar uma cidade para as pessoas, tendo nós um país onde as pessoas têm pouco tempo livre na sua semana. Já para não falar no tempo disponível para estar com os filhos. Estamos na cauda da europa no que diz respeito à produtividade, mesmo sendo dos que mais horas trabalhamos (porque, como é e deveria ser óbvio para todos mais horas não significa mais trabalho realizado).

Não precisamos de passeios largos, precisamos de mais tempo com as nossas crianças!

A maior parte dos pais consegue chegar perto dos filhos por volta das 19h00. Depois é chegar a casa, tratar dos trabalhos de casa (se ainda não tiverem sido feitos), tomar banho, jantar e deitar. Sempre me deu um aperto no coração esta lufa lufa da agitação dos “crescidos” em oposição às crianças. Temos crianças para pagarmos aos outros para que tomem conta delas e essa é a realidade de tantas famílias que juro que me custa mesmo muito. Há uma grande percentagem de avós que faz o papel de pais: vai buscar à escola, dá lanche, acompanha, brinca, dá banho e jantar e às vezes até deita os miúdos. Sei que para muitos pais não há uma alternativa, mas sou apologista da redução da carga horária de trabalho para que as famílias se possam ver crescer.

Porque adultos realizados pessoalmente terão um reflexo dessa felicidade, harmonia e equilíbrio no seu desempenho profissional. Não serão todos, mas os números sofreriam uma grande melhoria se assim fosse. Sou eu que o digo, não é nenhum estudo encomendado.

Claro que para todas as regras haverá excepções, tal como há pais que nas suas férias optam por deixar os filhos na escola, aqueles que saem a horas mais interessantes e escolhem não ir directamente ter com os filhos, aquelas mães que usufruem do horário reduzido por estarem a amamentar mas só vêem os filhos duas horas depois. Não critico ninguém, cada um saberá o que é melhor para si, o que funciona melhor, mas todos deveriam poder sair ainda de dia dos seus trabalhos.

Ir buscar os filhos à escola sem ter de pagar uma taxa adicional por causa do prolongamento. E isso ajudaria também as pessoas que tomam conta dos nossos filhos, e que tantas vezes deixam os seus postos de trabalho depois das 19h30, a chegarem elas mesmas mais cedo a casa. Para perto dos seus filhos. De que outros tomam conta.

É perverso tudo isto e talvez eu seja uma idealista, mas acredito que caminhamos para um futuro mais justo e igualitário, em que as pessoas não são obrigadas a permanecer nos seus postos de trabalho depois de terminarem as suas tarefas apenas para picarem o ponto.

As nossas crianças merecem o melhor de nós.

E o melhor de nós acontece quando sentimos que somos valorizados e respeitados, e para isso também tem influência o que fazemos.

Se chegarmos menos cansados a casa seremos mais pacientes, mais disponíveis. Seremos, quem sabe, melhores pais.

Este é o meu verdadeiro desejo para o próximo semestre de 2017: que os pais possam passar mais tempo de qualidade com os seus filhos sem sofrerem consequências a nível profissional.

Tempo de amor.

De brincadeiras.

De estar perto, só porque podemos.

De os observarmos ao longe e descobrirmos neles coisas que nos foram escapando.

De os ouvirmos sem ser a realizar outras tarefas pelo meio.

Tempo de sermos família.

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Que bom ver-te ser criança!

Meu amor,

É tão bom ver-te ser criança.

Rir afastada enquanto saltas nas poças, trepas às árvores, corres atrás de uma bola.

Dar-te colo quando te magoas e me explicas como aconteceu.

Ouvir-te cantar músicas diferentes todos os dias, aprender as que consigo apanhar.

Dar-te a mão para andares em cima dos muros e no fim saltares vitoriosamente para o chão.

Dar atenção às tuas perguntas, tão típicas, como a de hoje de manhã em que viste as fotografias em que o pai e eu estamos com os avós e perguntaste onde estavas tu.

Ouvir-te enquanto imaginas teorias estranhas e olhar-te para as perceber, receber uma careta porque te perdeste no teu raciocínio.

Ensinar-te pequenas coisas e bater palmas com as que vais aprendendo sem que dê conta.

Fazer-te as vontades que fazem parte, ter de lidar contigo quando digo que não a alguma coisa.

Observar-te a construir castelos de tudo um pouco, a ensinares os teus bonecos a portarem-se bem, a divertires-te quando encontras na rua quem gostas.

Receber o teu abraço mesmo quando não o peço, dar-te colo mesmo quando não preciso, enquanto consigo fazê-lo.

Embalar-te e fazer-te festinhas no cabelo quando estás a adormecer junto a mim.

Ver-te mergulhar sozinha na piscina e procurares-me com os teus olhinhos quando emerges para veres as minhas palmas.

Mostrar-te a diferença entre ser bom e ser mau, aproveitar todos os momentos para livrar os nossos dias das maldades gratuitas, mesmo que isso signifique não pisar um carreiro de formigas.

Partilhar contigo e ver-te a partilhar com os outros.

Deixar-te correr na areia e ouvir-te pedir para continuares no mar, que tanto adoras.

Ler-te histórias antes de dormir. Todos os dias a mesma, por mais ou menos um mês e meio (já sabemos que é assim…).

Dar contigo os bons dias ao sol diariamente, mesmo que ele esteja escondido atrás das nuvens.

Ouvir-te dizer que gostas de mim antes de dormir, como se fosse o nosso mantra.

Olhar em frente e ter esperança no futuro porque ele é feito de crianças como tu: livres, boas, cultas, educadas que darão o seu melhor para que outras crianças que não tiveram a mesma sorte, os mesmos direitos e privilégios sintam que vale a pena viver neste mundo.

Feliz dia da criança, meu amor.

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Como con(viver) com o terrorismo

Vivemos em tempos de mudança.

Desde sempre me lembro de haver aquelas notícias que os meus pais evitavam que espreitássemos na televisão quando éramos crianças. Infelizmente desde sempre me lembro de haver cenários de guerra, espalhados um pouco pelo mundo, com as respectivas imagens de violência que naturalmente lhe estão associadas.

Hoje em dia mudaram-se os homens mas há muitas guerras que se mantém. Todos os dias nos chegam relatos de ataques suicidas, de bombas, de explosões, seja no Iraque, na Síria, no Médio Oriente. Lamentamos as mortes, consternamo-nos com o facto de serem uma presença diária na nossa existência, rezamos baixinho pelas famílias que perderam os seus, pelas tantas vidas que vivem tudo isto de perto sem lhe poder escapar e… continuamos a cortar os legumes para a sopa, esperamos pela música que vem a seguir na rádio, abraçamos um pouco mais os nossos filhos.

Desde 2011 que convivemos mais de perto com outro tipo de guerra, o terrorismo. E lamentavelmente ele tem vindo a ganhar terreno e a chegar mais perto, a deixar-nos a pensar duas vezes “e se”. Quantos de nós não conhecem alguém que esteve perto do inúmeros ataques que se têm vindo a desenrolar ao longo dos últimos anos, meses, semanas? Quantos de nós não pensaram que foi por uma questão meramente de calendário que não foram atingidos?

Hoje acordei com as notícias do ataque em Manchester. Mais uma vez, aqui tão perto. E as circunstâncias enojam-me porque consigo imaginar as famílias que estavam a sair do recinto do concerto, as crianças cujo sonho de ver o seu ídolo acabava de ser realizado. Tenho amigas cujas filhas ansiavam pelo concerto de Junho, em Lisboa, da mesma artista. Concerto esse que não vai acontecer. Ontem, numa noite que deveria ser de celebração centenas de famílias ficaram dilaceradas, perderam os seus. Hoje as minhas amigas terão de explicar às filhas menores por que motivo não vai haver concerto. Por que motivo a raiva de uns colide com a vontade de paz de outros.

Há dois meses, estava eu num concerto no Meo Arena e pensei para mim mesma: “se acontece alguma coisa é impossível sairmos daqui”. Conheço pessoas que viajam de avião quase semanalmente e tento afastar do pensamento as probabilidades de acontecer alguma coisa, porque estas já não são tão ridículas como há uns anos.

É exactamente assim que funciona o terrorismo. Espalhando medo, terror. Pondo-nos a olhar por cima do ombro, a evitar algumas coisas que faríamos com a maior das naturalidades. Fazendo-nos andar de metro correndo um risco enorme, obrigando à colocação de pilares de cimento nas comemorações do centenário de Fátima, para evitar um ataque através de camiões.

E tudo isto é tão triste, porque significa que mesmo nós dizendo que não temos medo, temos. E temos de educar os nossos filhos para uma realidade em que a guerra se faz de outra forma, com recurso a outros meios, em cidades e países em paz.

Temos de lhes ensinar a tolerância, o respeito, temos de os educar a conviver com a triste e dura realidade de que apesar de sermos bons haverá sempre quem seja mau e nos deseje mal simplesmente porque pensamos de forma diferente.

Há uns anos ponderava se faria sentido trazer filhos a um mundo cada vez pior, mas aí não venceu o terrorismo.

Porque o mundo pode lidar com novos desafios, mas é infinitamente melhor do que quando os meus bisavós cá estavam. E porquê? Porque o ser humano também faz e é capaz de fazer coisas fantásticas.

De amar ao próximo de uma forma que choca exactamente esses terroristas que se mantém à distância e enviam os outros em seu nome para se sacrificarem.

Somos mais e melhores.

Temos medo, sim, mas isso não nos fragiliza. Ajuda-nos a pensar em novas ferramentas. Ajuda-nos a pensar em como poderemos chegar ao dia em que o poder que importa é o do amor.

Um dia chegaremos lá.

Até lá, ensinemos as nossas crianças que o medo faz parte. A violência existe. Mas existe também o amor. A união. A fé num mundo melhor.

Diria que neste campo as contas estão saldadas.

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I HAVE A DREAM, Sérvia 2015

Crianças chegam sozinhas à Europa

Quero dar-te colo…

À menina que ontem chorava no parque infantil: quero dar-te colo.

Quero que as lágrimas que choras sejam substituídas por sorrisos, porque o teu sorriso é maior do que as palavras que a tua mãe te diz.

Sim, eu oiço-a. Oiço-a a apressar-te, a dizer para não estares outra vez a subir o escorrega porque nunca consegues subir sozinha. Para não seres parva. Para largares a bola do menino. Que lá estás tu a correr.

Quando cheguei ao pé do escorrega e te vi olhar as escadas como se do Everest se tratasse, estendi-te a mão. Os teus olhos piscaram como se não percebesses. Vem, tenta subir, disse-te. Ajudei-te a subir duas vezes e à terceira fizeste-o sozinha. Olhaste em volta à procura da tua mãe e ela estava de costas, mais preocupada com o pó que se tinha acumulado nos sapatos do que com as tuas conquistas. Fiz-te uma festinha e tive a sensação que não devias receber nenhuma há muito tempo.

Gostava que a tua mãe visse como o encorajamento te fez vencer uma etapa em apenas meia hora. Em como o peso das palavras positivas te fez chegar longe quando o das palavras negativas te fazia agarrar as escadas com força e perder a coragem.

Gostava que ela soubesse que devia ser a pessoa mais importante para ti. Eu sei que é, mas não está a cumprir com o seu papel.

Daqui a uns anos vais virar-lhe costas porque ela não te apoia, nunca te apoiou. Eu sei que é mais fácil ser mãe de meninos bem comportados, de meninos que sabem sempre as respostas certas, que conseguem sempre as coisas à primeira. Sei também que esses meninos quase não existem. E tu não devias querer ser como eles.

És única e tens os teus desafios. Mereces ter tempo para ultrapassá-los. Para falhar. Para chegar mais longe, seja qual for esse longe, porque cada um tem os seus limites. Mereces ter alguém que te estenda a mão.

Gostava que fosses abraçada todos os dias e te dissessem como gostam de ti.

Porque a tua mãe gosta de ti, só não foi ensinada a gostar. Talvez a mãe dela fosse assim, como ela é. Mas promete-me que vais pegar em tudo isto e ser diferente com os teus filhos. Que não vais poupar abraços, que vais esforçar-te por ter uma palavra boa a dizer. Promete-me!

Queria dar-te colo. Queria sussurrar todos os dias ao teu ouvido que vais chegar longe.

Talvez não chegues porque te está sempre a ser dito que não consegues. Ou talvez, precisamente por causa disso, te esforces para provar que a tua mãe está enganada.

Talvez sejas tu quem tem de a ensinar a gostar. A manifestar o amor.

Eu acredito em ti.

Acredito que por trás desses olhos tristes vai haver uma grande pessoa.

Queria dar-te colo, mas não vou estar por perto para to dar.

Por isso, minha querida, sempre que ouvires coisas que te fazem duvidar de ti mesma, canta. Canta baixinho a tua música preferida e deixa que ela te leve…

Tu és capaz.

Acredita.

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Eu fiquei contigo ao colo

Colo

Cá em casa# Damos Colo

 

Fazia eu uma pesquisa para o trabalho quando me deparei com a página de uma celebridade estrangeira e os meus olhos foram parar à secção dos comentários.

Diga-se de passagem que não é uma celebridade consensual mas perdi a conta às vezes que li a mensagem: “Kill yourself!”.

Atrás de um monitor, anonimamente, todos são valentes, todos dizem o que querem e o que não devem. A maior parte das pessoas que escreveu aquelas linhas provavelmente não pesou o significado da sugestão. Afinal, estão a dizer a uma pessoa, um ser humano de carne e osso, que o mundo seria melhor sem ela. Que se se matasse era um favor que faria à humanidade. Por mais que tente, não compreendo. Li vários artigos, ao longo do tempo, sobre o suicídio de adolescentes. E existem miúdos que já se sentem pouco merecedores do ar que respiram e que muitas vezes são alvo de críticas duríssimas nas suas redes sociais, pelos seus pares, por outros que lhes desejam que se olhem ao espelho, que não saiam de casa, que lhes desejam a morte. Quero acreditar que não o desejam verdadeiramente, mas formulam esse pensamento. E há quem esteja fragilizado a ponto de ponderar: e se? E há quem o concretize.

Gostava que a minha filha, a quem tento educar com os valores de solidariedade, compaixão, bondade, nunca venha a dizer nada parecido a ninguém. Eu sei que há aquela fase parva que (quase) todos os miúdos vivem e que mais tarde os faz terem dificuldade em reconhecer-se. Sei que todos cometemos erros. Que já todos dissemos coisas de que nos arrependemos. Mas a regra nas redes sociais devia ser: diz apenas aquilo que serias capaz de dizer cara a cara

Talvez vivêssemos num mundo melhor.

Lá porque somos livres de ter uma opinião isso não significa que tudo o que pensamos deva ser dito em voz alta.

Às vezes bastava colocarmo-nos no lugar do outro.

Por isso sou contra todo o tipo de bullying.

O que é praticado diariamente por pais que insistem em chamar preguiçosos, burros, estúpidos ou gordos aos filhos.

Ao que se vive em alguns casais, com trocas de palavras feias, que deitam abaixo em vez de ajudar a caminhar em conjunto.

Ao que acontece no local de trabalho, em que as pessoas falam do que não sabem ou fingem saber só para que o colega não tenha uma oportunidade que merece.

Ao que está enraizado em todos os portugueses: que se acham no dever de formular a sua opinião quando ninguém a pede. Sobre tudo. Sobre todos.

O mundo precisa de menos ódios de estimação.

De menos rancor.

De menos críticas destrutivas.

O mundo precisa de mais amor.

É tão simples.

Basta amar.

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Minha Filha, és livre.

Meu amor,

Nasceste num país em crise, mas em paz.

Vivemos em democracia e isso significa que tudo (ou praticamente tudo) aquilo que dás por adquirido foi uma conquista.

A tua liberdade foi uma conquista e devias valorizar as pequenas coisas, honrar os privilégios que te foram concedidos sem que para isso tenhas precisado de mexer um dedo.

Sê grata, porque és livre para ter a tua opinião.

És livre de sair do país sem precisares da autorização do teu marido ou do teu pai.

De conversar com os teus amigos na rua, em grupos grandes, sem serem olhados com desconfiança.

De votar. De votar em quem quiseres. De não votar.

De usar calças, saias, maquilhagem.

De amares quem tu quiseres.

De pensares e dizeres em voz alta o que pensas.

De estudares, de teres direito à tua educação.

De ter acesso a todos os livros que são escritos no mundo, de veres os filmes que existem sem partes censuradas.

De desejar ter um emprego, seja ele qual for e lutares por isso.

De ganhar e gerir o teu próprio dinheiro.

De casar. De terminar um casamento. De voltar a casar. De não casar de todo.

De fazeres ouvir a tua voz.

De pedir ajuda.

De praticar todos os tipos de desporto.

De denunciar injustiças.

De desejar um mundo melhor e lutar por ele.

De sonhar.

De concretizar.

De continuar a conquistar, aos poucos, vitória atrás de vitória.

Apenas te peço que não esqueças uma das mais valiosas lições: a tua liberdade termina onde começa a dos outros.

E que bom é ser livre!

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É urgente falar das lembranças das festas de aniversário das crianças

Bem sei que “urgente” pode ser algo excessivo, mas tem vindo a ser uma preocupação constante e crescente.

Na sala da creche da minha filha, que tem dois anos e oito meses, há mais dezoito crianças. Há semanas em que um dos amigos faz anos, já houve outras em que festejaram dois aniversários no espaço de três dias.

São dias diferentes e apesar das minhas preocupações com a alimentação o mais saudável possível, sei que estes dias existem e sou tolerante para o facto de haver bolo e sumos. A escola pede para serem bolos caseiros em vez dos de compra e há pais que têm essa preocupação. Muitos outros não têm.

Mas não é dos bolos, que são o centro da festa, que vou aqui falar.

É das lembranças que desde que me lembro, ainda criança, passou a ser moda oferecer. Um miminho para que os colegas e amigos possa recordar a festa que partilharam.

A ideia devia ser esta, mas não é, porque a maior parte das crianças (ou melhor, os pais das crianças) o que partilha são gomas, rebuçados, chupas e chocolates.

Entendo que é uma coisa que todos ou praticamente todos os miúdos gostam, e que acham que é dia de festa e por isso não faz mal. Entendo, mas não concordo e sou obrigada a lidar com esta situação mais vezes do que gostaria.

Nos primeiros dois aniversários desta creche fui agradavelmente surpreendida por lembranças didáticas. Uns fantoches de dedo e umas bolas saltitonas. Tão simples quanto isso.

Aplaudi, achei que é algo que fica, com que eles podem brincar, que os vai fazer recordar a dita festa em vez de engolirem em três tempos as cinco doses de açúcar que deviam consumir nos próximos dois meses.

Mas depois vieram as outras festas. Chocolates miniatura. Gomas açucaradas, gomas brilhantes, chupa chupas ácidos e por aí fora.

Podem chamar-me má mãe mas a Mariana nunca comeu nenhum deles. Minto, uma vez dei-lhe um rebuçado porque os amigos estavam todos a ver o que estava dentro do saco da Patrulha Pata e achei que podia ceder, mesmo sem ser preciso ela ficar triste.

A questão económica é óbvia, sai mais baratos comprar dois ou três pacotes de guloseimas no supermercado e dividir pelos saquinhos e nunca mais pensar nisso. Respeito. Mas custa-me. Porque vai contra os meus princípios, acho preferível não se dar nada (porque não tem de se dar!), a dar algo que não lhes faz bem.

Há lembranças que se podem fazer em casa, coisas mais ou menos criativas, mas não há tempo, não há pachorra, e afinal qual é o mal das crianças comerem um doce?

Gosto de dizer que não imponho o meu estilo de vida aos filhos dos outros e, por isso, também gosto que não imponham o estilo de vida dos deles aos meus, mas na verdade isso é impossível. Porque está presente em todas as nossas escolhas, no modo como orientamos as nossas crianças.

E é por isso que nos dias em que sei que vai haver aniversário levo de casa coisas que sei que a Mariana gosta de comer, porque ela é uma comilona, e antes de a ir buscar à sala tiro do saco as guloseimas que lá estão e substituo com as coisas que ela gosta (sim, também gostaria e muito de comer as batatas fritas de pacote!) para que quando ela abre o saco poder dizer: posso, mãe? E eu responder que pode, sim, à vontade. Sem dramas, sem ter de explicar que aquilo são doces e fazem mal, é só hoje e por aí fora.

Evito a situação enquanto consigo controlá-la e quando chegar a altura de ser a Mariana a soprar as velas as lembranças do seu aniversário serão isso mesmo: lembranças.

Quanto ao açúcar em doses extra, não serei eu a patrociná-lo.

Eles vão ter tanto tempo para comer todas as porcarias do mundo, com os pais longe e algum dinheiro na carteira. Todos o fizemos e sobrevivemos. Só espero que esta educação alimentar faça a minha filha fazer melhores escolhas do que eu fiz. E se não fizer, pelo menos os seus erros serão feitos na altura certa e não quando ainda nem sequer tem a dentição completa.

(Tinha um amigo que me dizia: Mas, Marta! Nós também comíamos porcarias! E os bolos com campos de futebol? Aquilo deviam ser só corantes! Está certo, tem toda a razão. Mas passaram-se quantos anos? Por que motivo devemos agir da mesma forma se há mais informação? Se estamos mais informados? Para além de que não havia festas de anos todas as semanas. Não havia tantos refrigerantes disponíveis, gomas à mão de semear, era tudo efectivamente quando o rei fazia anos. E o rei só fazia anos uma vez no ano :D.

Pais mais tradicionais, nada temam.

A Mariana é feliz, garanto-vos.

Porque a felicidade não está no tamanho da tablete de chocolate que ela come. Mas sim em quem está ao lado dela a partilhá-la.

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Meu amor,

É mesmo como dizem, a viagem de finalistas é daquelas coisas que só vivemos uma vez na vida. Quer dizer, depende de quantas etapas irás terminar, mas em cada uma delas será único.

Tens dezassete anos e sabes tudo. Eu sei, também já tive a tua idade e acredita que sei o que é sentir isso e não perceber que as pessoas à minha voltam não o entendam…

Mesmo assim, e mesmo sabendo que tens a cabeça e o coração no lugar certo, não posso deixar de te escrever esta carta, nem que seja para que ela fique guardada no fundo da tua memória e te ajude a tomar as melhores decisões para ti, nos momentos mais cruciais.

Nunca, em tempo algum, saltar de uma varanda para outra será uma boa ideia. A sério, pode parecer super divertido, mas pode acabar mal e para quê estragar a festa?

Vais conhecer gente nova e, com sorte, interessante. Aproveita para te divertires, para dançares muito e dormires pouco (recuperas quando voltares), mas não vás atrás de tudo o que fazem. Eu sei, eu sei, não és dessas, mas às vezes quando estamos todos juntos pensamos “e por que não?”. E tantas vezes não há um motivo que pareça verdadeiramente válido para nos deter. Que o motivo seja a razão a falar mais alto, pode ser?

Às tantas vai achar que tão depressa não haverá tanto álcool à disposição como ali. Talvez seja verdade, mas aqui fica um segredo: ele não se esgota se bateres todos os records do mundo. Não precisas de provar nada a ninguém, nem de beber até cair, ou beber de manhã à noite, ao ponto de não saberes quem és e o que estás a fazer. Isto sem ter de bater na tecla de nem sequer teres idade legal para te servirem álcool, mas já nem vou por aí.

Mesmo que o teu príncipe encantado surja numa nuvem de fumo, com os músculos do peito a espreitarem debaixo da t-shirt molhada… bem, provavelmente não será o teu príncipe encantado, por isso não tomes nenhuma decisão precipitada. E, aconteça o que acontecer, lembra-te de todas as precauções que deves tomar. Sempre, sem excepção, porque o que acontece em Punta Umbria não fica necessariamente em Punta Umbria.

Depois, de vires alguém, seja teu amigo ou não, fazer alguma coisa que o ponha em risco a ele ou aos outros… eu sei que pode ser chato, mas pede ajuda.

Sei que vai correr tudo bem e que vais criar memórias que vão ficar para sempre.

Faz por isso.

Só depende de ti.

Diverte-te, meu amor.

Espero-te no regresso para trocarmos cromos e para te chatear com comentários que incluem frases como “no meu tempo também fazíamos isso!” 😀

Ah, e tem juízo.

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Carta aos adolescentes.

Carta à minha irmã adolescente

As palavras que te vou tentar dizer, agora que és adolescente

Querida filha:

Ontem zangámo-nos a sério.

Mantive a calma, coisa que nem sempre consigo fazer quando começas a espernear e a gritar à saída da escola, incapaz de ouvires o que te estou a dizer. Tentei acalmar-te, tentei fazer-te ouvir a razão, tentei distrair-te, tentei até ignorar os gritos que davas na esperança que chegando a casa te acalmasses.

Custa muito, deixa-me que te diga, que algumas vezes o simples facto de eu estar ali, a falar contigo, não seja suficiente para te acalmares. Sei que estavas cansada (apesar da boa sesta), porque brincaste muito, e sei que a certa altura entras numa espécie de transe em que não ouves nada, a não ser o que o teu cérebro te grita e que mimetizas reproduzindo esses gritos terríveis que não te assentam nada bem.

Depois de resolvermos o assunto, já em casa e depois de me ter zangado muito a sério, sentei-me no sofá. Sentei-te ao meu colo. Ficaste encostadinha a mim, a ouvir o meu coração, em silêncio, enquanto te limpava as lágrimas.

Perguntei-te se querias ir brincar com as tuas coisas ou ficar ali e quiseste ficar. Ao meu colo. E assim ficámos mais de meia hora, num silêncio em que as tuas lágrimas já limpas puxavam as minhas e eu me esforçava para que não caíssem.

Há dias em que nada resulta, em que me esforço ao máximo por não atribuir culpas – nem a ti, nem a mim – em que só quero que se vire a página para conversarmos. E conversámos, e ficou tudo bem.

Ontem zanguei-me a sério contigo porque sabes que as birras não funcionam e, mesmo assim, de vez em quando insistes em tentar. Porque sabes que não negoceio, que quando já disse que uma coisa tem de ser feita de uma maneira, ela vai ser feita assim – porque, acredita, se te digo que tens de vestir o casaco quando estão oito graus e o sol começa a esconder-se, então é porque é o melhor para ti. Mesmo que não fosse, não está aberto a discussão (já sabes responder quando te pergunto: “Mariana, quem é que manda?”, dizes “o pai e a mãe”), quanto muito está aberto a conversa – e noutras alturas, já começaste a perceber que se conversares e te explicares eu oiço-te. Oiço-te sempre. Só tens dois anos e meio e nem sempre consegues expressar-te. E os gritos custam, mas sei que no fundo não gostas mais deles do que eu. Ninguém prefere estar desconfortável, completamente sem chão e sem controlar o que sente.

Por isso, prometo-te mais uma vez que vou estar sempre aqui. Mesmo que me afastes e mandes embora, que me grites porque não estou a fazer o que gostavas. Irei fazer-te chegar à razão, demore o tempo que demorar. E vai custar não te ter calma sempre, mas a vida já me ensinou há muito tempo que nem tudo é como queremos nem quando queremos. Um dia chegarás lá.

Ontem zangámo-nos a sério, mas fizemos as pazes. Ajudaste-me a fazer “arroz amarelo” para o teu jantar, misturaste o açafrão e sorriste quando viste o branco dar lugar a uma nova cor. Ficaste contente quando acertei nas perguntas que fizeste na hora da história (“boa, mãe!”). Quiseste ajudar-me a lavar os dentes enquanto te ajudava a lavar os teus.

Hoje vai ser um dia bom.

E se não for, vamos encontrar novas estratégias para comunicarmos cada vez melhor.

Porque não gosto de me zangar.

Porque prefiro o teu sorriso e as tuas gargalhadas, os teus dedinhos a apontar o gafanhoto que invariavelmente encontramos no caminho.

Vamos tentar ser melhores? As duas?

Vamos!

E vamos conseguir!