O ano lectivo 2017/2018 começou oficialmente dia 12 de Setembro.

Passou mais de um mês e há ainda crianças sem professores a várias disciplinas, há crianças sem educadores nas salas, há crianças que ainda não podem ir à escola. São crianças sem escola.

Falo de um caso que me é próximo, no pré-escolar, crianças de cinco anos que não podem ser recebidas na escola porque a educadora tem vindo a apresentar baixas quinzenais que são actualizadas umas a seguir às outras. E a escola não tem capacidade para criar uma alternativa, uma forma de as crianças serem recebidas e acolhidas numa outra sala, sob pena de sobrecarregar os restantes alunos, cujas salas tudo funciona como deveria.

A minha sobrinha, que é de quem falo, tem a possibilidade de ser recebida no espaço onde faz o ATL e é aí que tem passado os seus dias: com educadoras, a fazer as actividades que faria na escola (pública, mas cujo serviço público deixa a desejar), com amigos do ano passado, num espaço a que chama casa. O preço? É pago pelos pais, no caso monetariamente.

Mas e quem não tem esta alternativa? Quem, em seu devido direito, tem como ATL o “oferecido” (paga-se por ele…) pela escola? Onde estão estas crianças? Com quem são deixadas? Por que motivo ninguém faz nada que mude esta situação?

Numa época em que os horários de trabalho são muito pouco “family oriented”, em que os avós trabalham até cada vez mais tarde, as crianças têm na escola a sua segunda casa. E esta segunda casa deveria ser tão capaz de as receber como a primeira.

Este caso acontece na escola pública, em que a burocracia impede que haja substituições imediata de educadores e auxiliares, em que quem fica penalizado é indubitavelmente a criança. E entristece-me pensar no stress que estas têm de ultrapassar quando tudo deveria estar nos conformes. Porque os pais têm de cumprir prazos, regras, entregar mil e setecentos documentos para os seus filhos poderem frequentar a escola pública, para terem uma vaga/colocação. O mínimo que se exige é que em troca as crianças possam frequentar a escola. Os impostos que pagamos deveriam garantir isso (e a escola pública deveria ser gratuita desde a creche – eu disse creche, essa figura que não existe na rede pública…), os milhares de professores sem colocação, os educadores de infância que não têm vagas (não que não existam, mas que a burocracia impede que sejam por eles preenchidos) deveriam ter oportunidade de trabalhar e as crianças têm o direito à educação.

Este direito é básico e em Portugal, em pleno 2017, ainda não é cumprido completamente.

Tenho uma grande admiração pelo trabalho desenvolvido na escola pública, sei das dificuldades, sei das condições. Sei dos profissionais competentes que existem, dos alunos bem formados, da importância da formação. Sei também que o caso da minha sobrinha, felizmente, não é regra. Que há escolas em que isto não acontece nem nunca aconteceu, em que tudo corre como é suposto desde sempre. É como em tudo, há casos e casos, mas acho importante falar-se das excepções.

Porque nas excepções estão também as crianças que serão o nosso futuro. E todas deveriam ter as mesmas oportunidades.

Lutemos por isso.

É do futuro das nossas crianças que falamos.

Do nosso país.

Da nossa herança.

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Mudança de escola

A casa é a primeira escola e os pais são os primeiros professores

Família e a escola. Espaço de relação e de afetos

O silêncio de uma casa sem filhos

Mariana,

Foste hoje para a escola depois de um mês em que estivemos juntas praticamente vinte e quatro sobre vinte e quatro horas por dia.

Primeiro as férias no Algarve, depois o regresso a casa e a procura de uma escola substituta para aquela com a qual não nos identificámos e que não queríamos que frequentasses.

Hoje, depois de te deixar na escola, regressei a casa e encontrei silêncio. Não sabia que me ia aperceber dele, mas habituei-me aos nossos barulhos.

À televisão sintonizada nos desenhos animados (só ao pequeno-almoço, depois disso só está ligada para ouvirmos música), às tuas conversas com os bonecos, aos ruídos que fazias quando deixavas cair uma caixa, quando pousavas mal a bicicleta, quando rias a ouvir uma história, a tua atenção e perguntas pertinentes quando fazíamos actvidades-a-fingir-que-estamos-na-escola, ou simplesmente quando subias para a cadeira para me ajudar a cortar os legumes para a sopa.

Não estou habituada a este silêncio e fez-me confusão.

Sem ti há pouca vida cá em casa, é como se a música estivesse no pause à espera que regressasses para podermos saltar para o sofá e dançar.

Foram dias cansativos, para as duas. Foram dias atípicos, mas uma mãe habitua-se a ter os filhos debaixo da asa.

Hoje está a sobrar-me tempo para o trabalho e estou a demorar três vezes mais a fazê-lo.

E depois, é este silêncio.

Já liguei a música, abri a janela para deixar os barulhos da rua entrarem, para me esquecer que posso estar aqui sem me preocupar com a hora da sesta ou com um almoço que complemente o jantar.

É bom estarmos de volta aos nossos devidos lugares e sei que vamos entrar nessa rotina bem depressa (já entrámos, de manhã estava já tudo oleado para tomarmos o nosso pequeno-almoço sentadas, com calma para depois sairmos sem pressas), mas sinto falta do movimento, da correria, de estares a perguntar “e depois, o que vamos fazer?”, que é agora a pergunta de eleição.

Sei que vou almoçar. E depois? Vou continuar a trabalhar. E depois? Paro para comer mais qualquer coisa. E depois? Depois trabalho mais um pouco até serem horas de te ir abraçar.

E aí a música, mesmo que em forma de barulhos que não se complementam harmoniosamente, vai voltar.

E dançarei contigo.

Em cima do sofá, no chão, no jardim, no elevador.

Até que a música seja silêncio outra vez e eu anseie por ela.

Seremos parceiras de dança, mesmo que a música passe a ser apenas um murmúrio: nunca te deixarei esquecer que até sem música somos capazes de dançar.

Para sempre, meu amor.

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Os filhos da alienação parental

Os Filhos do quarto

Ensina aos teus filhos o que mais ninguém lhes vai ensinar.

 

 

Acredito que, no fundo, todos os pais dignos dessa designação amam os seus filhos.

Alguns serão melhores que outros nesta tarefa hercúlea de educar, nutrir e encaminhar uma criança, assim como outros serão melhor nas demonstrações de afecto.

Tenho vindo a testemunhar, quer no parque, quer nas escolas, quer nos transportes, onde consigo ser testemunha involuntária, que muitos pais têm a dificuldade de transmitir amor.

Falam, chamam à atenção, encaminham e orientam mas muitas vezes falta-lhes tacto. Falta-lhes carinho. Falta-lhes ter a correspondência do que dizem na forma como o dizem. Tantas vezes oiço pais chamarem nomes carinhosos como se chamassem o táxi, palavras vãs não de sentido mas de emoção.

Ao escrever estas linhas penso naquela geração que cresceu habituada a dizer “amo-te” como se fosse pontuação de uma frase. O amor, essa coisa tão complexa e impossível de descrever, passou a estar na boca do mundo mas de amor tinha pouco. Há muitas pessoas que cresceram a ouvir que eram amadas sem nunca o terem sido.

Daí talvez esta passagem de testemunho, em que as crianças poderão recordar uma infância em que as expressões carinhosas não são tabu e estavam muito presentes, mas no fundo fica um vazio.

E um vazio num ser humano em crescimento dá espaço a ser preenchido por bem ou por mal.

Não sou profissional e a minha observação é de mãe, muitas vezes eu própria falharei na arte de transmitir amor, principalmente quando estou exasperada a ralhar, em que a paciência já ultrapassou os seus limites e há só a vontade que o choro cesse, porque a pedagogia está a perder a batalha.

Não sou perfeita e sei que todos amamos de forma diferente. Recebemos, percepcionamos, transmitimos esta coisa do amor como sabemos e podemos, como conseguimos. Muitas vezes é uma herança, de outras uma descoberta.

Gostaria de, no futuro, ver mais amor nos olhos dos pais do que nas suas bocas: ou pelo menos que estivesse tudo ao mesmo nível. É um bocadinho como a humildade, de pouco adianta uma pessoa apresentar-se dizendo que é muito humilde, essa humildade já se perdeu algures no caminho.

Amo a minha filha como posso.

Digo-lhe que a amo e tento que este amor esteja presente nas nossas brincadeiras, nas nossas rotinas e até nas nossas zangas.

Porque isto de ser pai ou mãe (biológico ou não) não pode ser dissociado de amar.

O amor pode salvar uma criança de um futuro mais negro.

O amor pode tudo.

Amemos mais.

Demonstremos mais.

Sejamos todos melhores.

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Amor de mãe

Os pais precisam de mostrar o amor pelas mães através de acções

#Para lerem quando crescerem; O que é o amor?

Todos nós, pais, somos diferentes. Se, como seres humanos, não podíamos ser mais complexos, seria de esperar que nesta coisa da maternidade/paternidade fosse igual.

Por esse motivo tento ao máximo não julgar. O que funciona dentro de uma casa não é obrigatoriamente melhor do que o que se faz na outra. Sei disto e sei também que muitos de nós tomamos decisões e depois, mais tarde, olhamos para trás e pensamos que tínhamos muitas certezas na altura, mas se fosse hoje faríamos diferente.

No outro dia no parque encontrei uma senhora que tem quatro filhos e que costumamos encontrar várias vezes durante a semana. Os mais velhos têm nove e sete anos, os mais novos três e seis meses. São idades muito diferentes e não imagino o caos que muitas vezes deve acontecer dentro de casa.

Neste dia ela estava sozinha com os quatro, o mais novo a dormir no ovo, os mais velhos a saltarem no escorrega e o segundo mais novo andava a correr e a fazer disparates. A certa altura ouvi alguma comoção e prestei atenção ao que estava a acontecer. A mãe chamava o de três anos para vir ter com ela, naquele tom de “imediatamente, não me obrigues a chamar outra vez”. Sei como é, estamos juntas, adorava que a minha filha viesse só de lhe abrir os olhos como os meus pais me faziam, mas a ela falta-lhe esse chip, ou talvez me falte a mim o chip da autoridade que os meus pais tinham.

Mas o miúdo não só não ia ter com a mãe como recuava com ar de medo. Depois percebi porquê, tinha feito uma asneira grande, tinha mandado pedrinhas (que compõem o chão do parque) à cara da mãe. A mão cedeu em ir ela aproximando-se e chegando a um palmo dele, encheu a mão das pedrinhas e zumba, mandou-lhas à cara. Acompanhado de um “vê lá se gostas que te faça isso. Gostas? Não gostas, pois não? Então não faças!”.

Toda eu estremeci. Repito que tento não julgar, mas eu não o faria. Conheço quem use o método, a outros níveis, mas assim nunca tinha visto.

A verdade é que pode resultar, mas está a formatar aquele miúdo para agir assim. Há algumas crianças no parque que algumas vezes fazem exactamente isso, apanhei já uma miúda adorável que quando via os mais pequenos mandarem pedras ia atrás deles a fazer o mesmo e a dizer o tal “não gostas, pois não?”. Devem ter-lho feito a ela também.

Isto pode preparar os miúdos para o imediato, da próxima vez talvez não façam a mesma coisa, com medo que lhes venham fazer a eles a seguir, mas é o que eu considero um mau princípio.

Quando forem adultos e cometerem um erro não terão, ou não deverão ter, alguém a fazê-los passar pelo lado do outro para compreenderem. Porque não é preciso ser quase atropelado para se ter mais cuidado quando se está a passar de carro na passadeira.

Acredito que devemos ensinar a empatia. Que devemos corrigir os erros. Que devemos mimetizar as atitudes que gostávamos que os nossos filhos tivessem.

Eu sei que há dias de cão, em que o cansaço nos faz cometer erros. Talvez tenha assistido a um desses dias. Espero que sim.

Odiaria ver aquela mãe ser chamada à escola porque o filho anda a pisar os colegas, porque um deles o pisou e agora precisa de ver como é. Ou anda a dar encontrões porque lhe deram a ele. Ou a chamar nomes e dizer palavrões porque foi o receptor dos ditos.

Todos os dias são bons para recuarmos um pouco e pensarmos onde podemos melhorar.

Eu todos os dias tenho uma lista sem fim.

Mas tende a ser menor que a do dia anterior.

Que seja assim para todos nós.

 

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5 passos para a parentalidade positiva

Serão as outras mães melhores do que eu?

O que aprendi sobre as outras mães num pequeno episódio no parque

 

Sabia que este dia eventualmente chegaria.

Nunca pensei que fosse tão depressa, por isso não tinha resposta ensaiada. E ainda bem, porque nisto da maternidade já aprendi que de pouco importa o ensaio geral as coisas no dia da estreia saem sempre ao contrário.

Nunca gostei que levasses bonecos para a escola e consegui evitar até há bastante pouco tempo. Como fazemos um percurso de cerca de dez minutos a pé em que cantamos e conversamos, às vezes gostas de aproveitar a companhia do teu brinquedo preferido.

Cedi, sempre com a condição de chegadas à escola o brinquedo ficar guardado na tua mochila. Encaro a escola como um local comunitário, em que tudo é e deveria ser de todos, que todos terão de respeitar e aceitar partilhar aos poucos.

A partir do momento em que as crianças levam os seus brinquedos para a sala, as coisas são deles, criam momentos de tensão quando os outros também querem brincar e o dono não gosta ou até empresta mas o brinquedo acaba por se estragar ou perder. Acho que são situações evitáveis. A escola tem bonecos mais que suficientes e na maior parte das vezes as crianças estão entretidas com outros tipos de actividades.

Com a minha filha tem havido dias em que tenho de esperar um pouco mais pelo abraço ao boneco preferido, que lhe diga até logo para o depositar na mochila: porque por ela levá-lo-ia consigo. Entendo, dou tempo mas às vezes tenho de ser rígida e lembrar que não levamos brinquedos para a sala da escola.

E foi aí que aconteceu.

A resposta: “mas os outros levam!”. Recuei umas boas dezenas de anos, lembrei-me dos colegas que diziam aos pais que a sua má nota não era assim tão má porque mais de metade da turma se tinha saído mal no teste. E a resposta era invariavelmente: “mas a outra metade da turma não é minha filha”. Foi isso que quis responder, que os outros não são meus filhos, que é lá com eles e com os pais.

Respirei fundo e expliquei-lhe que na nossa casa são aquelas as regras. Assim ela não perde nem estraga os brinquedos na escola e brinca com todos sem se aborrecer nem fazer birras porque seria evidente que dificilmente ficaria a ver enquanto os outros queriam brincar horas sem fim com os seus bonecos. Ali todos têm de partilhar, tudo é de todos.

Ela resmungou mas aceitou, não tinha outro remédio.

Eu senti-me velha.

Foi apenas o primeiro de muitos embates que aí vêm.

E sei que serão uma infinidade deles, porque faço questão de evitar uma série de coisas que para alguns pais são corriqueiras – os doces diariamente, os tablets constantemente no colo, os gelados cheios de chocolate a toda a hora e a lista não tem fim.

Um dia em que o pai foi buscá-la à escola e a levou directamente ao consultório médico para uma vacina coincidiu com um dia de festa de uma colega. Na mochila havia um chupa-chupa miniatura e o pai achou que ela até merecia o mimo por se ter portado tão bem (e a Mariana nunca na vida comeu rebuçados ou sugos, ou chupas, foi mesmo uma estreia para ela e sim, com quase três anos?).

Ainda hoje, quando estamos a falar de comida e se lembra do chupa-chupa de laranja da festa da Leonor, diz “o meu pai deixa”. Tivesse eu outro tipo de relação com o pai e seria motivo para discórdia e discussão. Felizmente somos uma frente unida e entendo o que ela quer dizer, mas corrijo. O que não significa que sempre que vai ter uma vacina ela não pergunte: depois vou comer um chupa?

Não vai, mas não é preciso atormentá-la com isso. Daqui a uns anos vai encher-se de porcarias se quiser, mas acredito que a educação alimentar e as bases que lhe estamos a dar a farão tomar melhores decisões no que toca a alimentação.

Mas estou a preparar-me para nos próximos tempos ter de enfrentar as suas questões.

É tranquilo, daqui a cinquenta anos acho que já me safei delas!

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O que muda em três anos de vida

Nunca mais serás a mesma

Ama os teus filhos todos os dias

Meu amor, dentro de poucos dias farás três anos.

Parece pouco, mas olhando para trás é difícil imaginar como era a vida antes de ti.

Estes três anos foram repletos de aprendizagens, de mudanças, de adaptação.

Hoje já dormes a noite toda, mas demorou a chegares aqui. Usas fralda apenas para dormir e da chucha (que só usaste para dormir) nem sinal.

Apreendes o mundo à tua volta de uma forma que por vezes me surpreende, és capaz de fazer conversas e fazer as perguntas acertadas no momento propício.

Já me sabes pedir “só mais um bocadinho”, acompanhando com o gesto dos dedos quando é hora de ir para o banho, já sabes chamar a atenção quando alguém faz uma coisa que te ensinou a não fazer: como cantar à mesa.

Aprendeste a andar e és segura nos teus passos, nas tuas descobertas. No outro dia seguiste com o olhar o tronco de uma árvore e ficaste espantada por ver que acabava tão lá em cima. “Vai até ao tecto, mãe!”. Corrigi, dizendo que ia quase até ao céu e mostrei-te que as árvores, como as pessoas, existem de todos os tamanhos. E que o que importa é a sua beleza, o que as torna únicas. “E as formigas que lá dormem”, acrescentaste. És assim, vais começando a deixar-me sem palavras.

Percebes as diferenças entre ti e os que te rodeiam e aceitas os outros como são.

És refilona, chorona, coisa que até aos quase seis meses de idade não foste. Talvez tenha coincidido com o facto de entrares para a creche. Não te condeno por isso, eu própria preferia que as coisas fossem de outra forma, mas a entrada no infantário deu-te ferramentas e vivências que eu não conseguiria proporcionar-te. O amor, esse, não deixou de estar sempre presente.

Por falar nele às vezes falas comigo e chamas-me de “meu amor”, como te chamei e chamo tantas vezes.

Brincas com as tuas bonecas com menos paciência do que gostaria: ralhando, dizendo para pararem de falar, um ai ai ai ai constante – mais uma vez uma vivência que ganhaste na escola, que vês fazerem e por isso repetes – e que eu não me canso de tentar mudar.

Será uma aprendizagem lenta mas que irás adquirir, a de não fazeres aos outros aquilo que não gostas que te façam a ti. Pergunto: “gostas quando ralham contigo para dormires? Não, pois não? Então fala baixinho, conta histórias, faz carinhos. Estás em casa, és a mãe, podes fazer tudo. Escolhe fazer o melhor, meu amor”. Olhas-me com os teus olhos grandes e sei que alguma coisa fica lá.

Temos hoje de ter cuidado com o que se diz ao pé de ti, porque tudo registas e de nada te esqueces. Bastou a bisavó ter dito uma vez que não podia jogar contigo à bola porque era “velha” (e o que eu ralhei com ela por chamar nomes, principalmente a ela mesma…) para a partir daí nunca mais te esqueceres e associares esse adjectivo à bisavó. Começaste já a perdê-lo, com muita insistência minha. Quando falamos e mencionamos o teu nome ficas de antenas no ar: ”estão a falar de mim?”.

És autónoma e independente, mas muitas vezes não gostas de prescindir da companhia.

És uma péssima ajudante na cozinha porque comes metade dos ingredientes do jantar.

Ajudas-me a preparar o pequeno-almoço, o que te ajuda a valorizá-lo quando o comes.

Levantas sempre o teu prato e és tu quem o leva para a cozinha. Ajudas a pôr a mesa.

Já não gostas de comer de babete, mas a sopa na maior parte das vezes ainda o pede.

Muitas vezes pedes “quero ir dormir”. Mas sempre depois de uma história ou de uma música de embalar cantada ao ouvido.

Há três anos mal nos conhecíamos, apesar da ligação que sempre tivemos.

O pai saía de casa para o trabalho e eu trazia-te para a nossa cama e ficávamos a namorar até ser hora de levantar e irmos sentir o mundo, os seus cheiros, as suas cores e barulhos. Para que fizesses parte dele, para que eu não deixasse de fazer.

Parece que foi ontem e na realidade foi. Porque és capaz de todas estas coisas mas, no fundo ainda és um bebé. Que precisa de apoio, protecção, muita orientação. Tolerância e paciência.

Corremos o risco de exigir demais de ti por seres tão desperta e despachada mas tento sempre lembrar-me que ainda me cabes no colo.

E lá caberás mesmo quando já não couberes. Porque o meu colo será sempre teu.

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De repente cresceste

Quando cresceres

Carta à minha filha de seis anos

 

«Estas criancinhas vão ser adultos insuportáveis», disse a senhora no seu melhor fato de domingo, com uma expressão de “nojo” no rosto, enquanto rematava para outra amiga, igual menos no tom do tecido do fato, com quem segundos antes falava sobre a missa de onde acabavam de sair.

A criancinha, no caso, era a minha. E estava entretida com um brinquedo para cães, daqueles que se apertam e chiam. É chato, eu sei. Eu própria estava a chamar-lhe à atenção pela terceira vez para que parasse, coisa que se não acontecesse me faria tomar medidas. Mas tenho de ter a tolerância de pensar que tenho comigo uma criança de quase três anos que no supermercado não tem muito com que se entreter e se vê um brinquedo, brinca. Porque é criança.

Fiquei, na altura, bastante sentida com a afirmação da senhora. Não sou pessoa de responder, odeio tudo o que é confrontos e conflitos, mas se ela não tivesse acelerado o passo, como cobardemente fez, teria certamente ouvido a minha resposta, que me fugiu dos lábios num tom bastante mais baixo do que ela merecia: “insuportável como a senhora?”.

Como disse há umas linhas a senhora tinha acabado de sair da missa. Era toda ela elegância e educação. Pois de pouco adianta ir à missa se cá fora não se tem em consideração os outros, se lança a primeira pedra e se julga só porque sente superior. Que deselegante foi aquela afirmação. Que pouco “bem”. Que desrespeitosa. Jamais a teria dito a um adulto.

Tentei imaginar os filhos da dita senhora, todos a andarem em passo acertado uns com os outros, as golas cheias de goma e sem um único vinco, crianças que ficam caladas e de costas direitas independentemente do contexto, crianças que são mini adultos. Em suma, pequenos robots.

Mas depois percebi que não era certamente esse o caso. Eu própria fui uma criança bem-comportada e no meu vestido de roda subia à árvore da igreja e fazia arranhões nos joelhos e surrava os sapatos. Também eu corria pela rua, rindo alto. Também eu era criança.

A senhora ter-se-á provavelmente esquecido de que os seus filhos foram um dia crianças. Que os netos e bisnetos falam, comunicam como sabem, muitas vezes têm comportamentos que nós, os adultos, gostaríamos que fossem outros. Quem sabe se nunca foi ao supermercado com os filhos porque os deixava com a criada em casa. Se nunca foi a um restaurante para os meninos não falarem entre si e “incomodarem” quem está à volta.

Também eu gosto de sossego e silêncio. Também eu às vezes sou confrontada com crianças que se portam pior do que o desejável e quantas vezes esse comportamento é alheio à vontade e, pasme-se, educação que os pais lhes dão. Sou tolerante, acho que é preciso termos calma e não julgarmos as pessoas. Não julgo, não gosto de ser julgada.

Lembrei-me, enquanto escrevia estas linhas, da história do menino autista no restaurante que a empregada queria insistentemente que se comportasse ou todos (pais e irmãos) teriam de sair. Que mundo é este em que não conseguimos dar espaço às pessoas?

Se a senhora em vez de fugir tivesse ficado a fazer as suas compras calmamente teria visto como me baixei ao nível da minha filha e lhe expliquei por que motivo não podia continuar a apertar a galinha de borracha, por mais divertido que estivesse a ser para ela. E ela parou. Para passados alguns minutos estar noutras tropelias, naturais da sua idade e razão pela qual raramente a tenho comigo nas compras sem ser sentada no carrinho – enquanto ainda dá.

Eu tive de ouvir os comentários pouco católicos que essa senhora estava a fazer sobre o que se passou na missa (shame on you, miss!) e depois sobre a minha filha.

Aqui fica uma novidade: crianças sossegadas não são garantia de adultos calmos, tranquilos ou educados.

Muitos dos adultos “insuportáveis” que conheço tiveram mães que apesar das aparências se achavam no direito de dizer em voz alta cobras e lagartos sobre os que estavam à sua volta, legitimando, assim, que os filhos crescessem para fazer exactamente o mesmo.

As crianças que brincam, sobem às árvores e se sujam também sabem comportar-se quando o momento o pede. Também sabem trocar as leggings pelos vestidos de folhos e dar a mão enquanto ouvem o que os adultos dizem.

As crianças, se fizermos bem o nosso trabalho, conseguirão perceber, quando tiverem idade para isso, que há lugar para tudo.

E sendo livres, sendo-lhes permitido serem crianças para aprenderem em que momento ser de uma forma ou outra, serão adultos que mais facilmente expressarão os seus sentimentos e saberão lidar com quem os rodeia.

Espero passar muitas coisas à minha filha.

Espero que ela seja boa com ela e com os outros.

Espero que ela nunca olhe para os filhos de alguém e tenha a cobardia de lhe pôr um rótulo e de lhe dar uma sentença tão triste como já lhe deram a ela.

Logo à minha Mariana, que de insuportável tem pouco.

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Estou a falar com a minha filha, é favor não interromper!

Socorro! Só podem ser “bichinhos carpinteiros”

4 atitudes que enfraquecem o vínculo emocional com os filhos

Estou a falar com a minha filha, é favor não interromper!

As crianças são cativantes. Há crianças impossíveis de “resistir”, com as quais temos vontade de interagir de imediato, seja na sala de espera do pediatra, seja no jardim ao fim do dia.

Mas as crianças são pessoas, não nos esqueçamos. Têm direito ao seu espaço, à sua privacidade. E por que é que falo disto? Porque há sempre alguém que se sente no direito de mexer no cabelo dos nosso filhos, de fazer festinhas infindáveis sem perguntar se o pode fazer, de apertar as bochechas – e tudo isto quando ainda são bebés de colo.

Tenho uma amiga que quando estava grávida passava muito mal com o toque que as pessoas faziam questão de lhe impor. Ora, se uma pessoa está grávida, a barriga é para ser acariciada por todos, certo? Errado! Há mulheres que não gostam e têm direito a ser respeitadas. Eu aprendi a ir perguntando se posso fazer uma festinha, mas só o faço quando existe alguma proximidade entre a grávida e eu – mesmo sabendo que dificilmente a pessoa do outro lado diria “não, desculpa lá mas não vais fazer festinhas nenhumas nesta minha enorme barriga”. Seja como for, pergunto. E a pessoa sente-se consultada, como se importasse. E importa, porque o corpo é dela.

Curiosamente, esta mesma amiga teve um bebé lindo, ruivo de olhos azuis. Um verdadeiro chamariz. Na rua poucas pessoas não paravam para espreitar, falar, mexer. Ora, desculpem-me, mas isto do mexer na criança é igual a mexer-se na barriga. Se não é próximo, não toca. Se é próximo, tenha a sensibilidade de perceber se faz sentido, se é oportuno.

Porque daqui a dezasseis anos nenhuma destas pessoas vai ter a lata de chegar ao pé do miúdo no meio da rua e despentear-lhe o cabelo, dizendo que vai quebrar corações e que tem cá um olho mais lindo…

Se não o fazemos a adultos, porque o fazemos com as crianças?

Hoje, ia no metro com a minha filha e tinha o telemóvel na mão. Estava a guardá-lo na mala e ela viu-o. Pediu para segurar. Não deixei. Para mim telemóvel não é brinquedo e ela habitualmente não mexe nele. Ultimamente tenho cedido a deixá-la ver fotografias porque revive momentos que a marcaram, mas sempre comigo a supervisionar. Não tenho jogos, nem nunca tive. Sim, sou esse tipo de mãe, que nunca deu o tablet à filha nem o telemóvel para ela jogar. Mas adiante, ela ficou contrariada e começou a choramingar. Foi caminhando na plataforma, de mão dada comigo, a dizer que queria o pai. Cem vezes seguidas, sabem como é. “Quero o pai, quero o meu pai, o pai, quero o meu pai”. E a minha tolerância é grande mas sei que as pessoas à volta não têm de ser danos colaterais destas “birras”. Cheguei-me a um canto e baixei-me para estar ao nível dos olhos dela enquanto ela continuava com aquela choraminguice e estava a começar a falar com ela para a acalmar quando vejo uma sombra laranja que se aproximou e começou “Ah, que grande birra! Isso é tudo sono, queridinha? Dormiste pouco, foi?”. Interrompeu-me e não gostei. Nem olhei para a senhora, limitei-me a pegar na minha filha ao colo e avancei uns passos para poder, finalmente, falar com ela. Eis que vejo novamente a mancha laranja aproximar-se e desta vez a tocar no braço da minha filha para a ouvir com mais atenção. Mal começou a dizer “sabes uma coisa? Vem aí o homem mau e…”. Não a deixei acabar. Fiz algo que provavelmente deixaria os meus pais um pouco desiludidos, mas simplesmente afastei-me virando costas, sem olhar uma segunda vez para a senhora (nem olhei a primeira, não saberia sequer dizer que idade tinha, apenas que pela voz teria mais de cinquenta anos e, por isso, deveria saber o que estava a fazer). Fui, em marcha, a falar com a minha filha, que se acalmou e me explicou porque estava a chorar, consegui explicar-lhe por que motivo chorar quando é contrariada não ajuda, apesar de perceber que ela não consegue ainda expressar-se muito bem. Fiz ali o meu trabalho de mãe, mas muito a custo.

Não pude deixar de pensar, que a semelhança do rapaz ruivo, se fossem dois amigos de trinta anos a conversar, um deles mais abatido que o outro, a senhora JAMAIS se aproximaria e interferiria na conversa. E ainda bem.

Não tenho nada contra a interacção que naturalmente surge com as crianças, não me interpretem mal, mas se não têm nada de positivo para acrescentar, então dispenso, obrigada.

Houve muitas situações em que pessoas com boa energia se aproximaram e tentaram distrair a minha filha em algum momento, porque gostariam mais de a ver a sorrir do que a chorar. E essas serão sempre bem vindas.

Tenho sempre isto no fundo da minha cabeça quando interajo com os filhos dos outros. Saber diferenciar em que momento é apropriado ficar à distância e quando faz sentido fazer parte.

Acredito que todos juntos somos melhores. E não podemos ser melhores quando estamos rodeados de julgamentos, críticas e intervenções despropositadas.

E é esse o exemplo que devemos passar aos nossos filhos.

Para que o futuro seja bom, para que o mundo esteja cada vez mais povoado por pessoas que só multiplicam o bem.

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O poder do diálogo

Saber ouvir

A importância de saber ouvir os nossos filhos sem interromper

Dizem-me (não toda a gente, mas há quem comente) que a minha filha é muito agarrada a mim, dependente de mim.

Sei que quem olha de fora terá um olhar diferente, mas a verdade é que encaro com naturalidade o facto de ser o adulto de referência (assim como o pai, mas mais eu) da minha filha.

Temos uma ligação muito próxima, as nossas rotinas estão muito bem delineadas e é verdade que passamos muito tempo juntas.

Mas sejamos sinceros, esse muito tempo que alguns apontam é, na verdade, o tempo em que ela não está na escola. A maior parte do dia da minha filha é passado longe de casa, da mãe, da sua ligação mais profunda. É o tempo em que eu deixo de ser apenas mãe para ser Marta, para trabalhar, para me distrair, para fazer as minhas coisas. É o tempo em que ela não é minha filha, é uma criança que estabelece os seus laços com os outros, com o mundo.

Apesar da nossa proximidade, do hábito de irmos juntas ao parque, ao supermercado, de eu contar a história antes de dormir, de dar banho e jantar quando o pai não está, não vejo essa dependência na minha filha. Mesmo nas horas que passamos juntas não estamos exclusivamente uma com a outra nem a participar exclusivamente das actividades uma da outra. Ela brinca, “lê”, canta, dança e pula tantas vezes comigo apenas como espectadora curiosa à distância.

É verdade que não pratico o desapego e admiro quem o faz mas simplesmente não sinto que seja para mim. Há quem antecipe uma semana complicada de trabalho e faça uma mochila aos miúdos, os deixe na casa dos avós e os volte a ver quatro dias depois. Eu prefiro desdobrar-me e continuar a cumprir todas as minhas facetas o melhor que posso, e obviamente muitas são as vezes em que algo fica a faltar. Mas eu não. Eu não falto. Não critico quem o faz, nesta coisa da maternidade acredito (e já acreditava antes de ser mãe) que cada pai é que sabe. Cada família deve fazer aquilo que pode, que a deixa confortável, que funciona para ela.

Com o passar do tempo sei que esta proximidade que existe se vai esbater, que a minha filha vai preferir a presença de outros em detrimento da minha e não me dói pensar nisso. Pelo contrário, valorizo todas as etapas sendo o melhor que posso, para que ela possa crescer para ser uma criança que estabelece relações saudáveis com os outros.

Ainda ontem uma vizinha comentava: “ela ainda não fez os três anos? É tão autónoma e independente! Faz tantas coisas com tanta agilidade”. Na escola dizem o mesmo. E eu sei que é assim. Que a minha presença não ensombra a sua autonomia. É claro que quando estou presente ela exige mais coisas de mim, deixando para lá aquele lado desenrascado só para poder ter uma desculpa de me ter mais perto. Entendo, compreendo, não rejeito. Se sentisse que a estava a prejudicar de alguma forma seria a primeira a tentar corrigir o meu comportamento, mas para já não sinto sinceramente que o faça. O amor que tenho por ela não é um amor que sufoca. É um amor como pratico em todas as minhas relações: que está presente mas que dá espaço, liberdade.

Será ela própria a abrir as suas asas e a voar para longe de mim e estarei na primeira fila para a ver voar. Ao longe. Não serei daquelas mães que compram bilhete de viagem para acompanhar de perto.

Dou a liberdade de voar sabendo o caminho de volta.

E estarei aqui, daqui a uns anos, a praticar um desapego saudável.

Para já a nossa história é apenas de amor constante.

Verdade, mentira ou imaginação?

“A mãe disse que vai comprar um mano para pôr na barriga. Depois eu vou pegar nele e brincar, tomar conta!.”

Como foi que disse? Não, a mãe não proferiu tal coisa. E posso garantir isso porque a mãe sou eu e desta boca jamais sairia tal coisa.

Pois é, mas quem assistiu à conversa não o sabe e olhou-me em pânico: que mãe é esta que diz este tipo de coisas à criança? Pois é, sou mãe de uma criança de dois anos, quase três. Como uma imaginação do tamanho do seu coração, ou seja, enorme.

Lembro-me de a minha mãe contar que passei por uma fase destas, mas um pouco mais crescida. Quando ela me perguntava sobre o meu dia dizia coisas como “foi lá um elefante azul à escola e tocou viola” e coisas do género.

Como se já fizéssemos pouco, ainda temos de saber distinguir a verdade da imaginação e, mais importante ainda, da mentira.

Percebi que se desse por uma ferida nova e perguntasse por ela a Mariana demorava uns segundos a dar-me um culpado. Foi o David. Foi o Matias. Foi a Bia. Era sempre alguém, nunca tinha sido ela que tinha caído, tropeçado, ou algo do género. Outro pai qualquer poderia ter começado a fazer contas à vida e ficado preocupado, afinal todos os dias havia alguém a maltratar a minha filha. E havia: ela própria, com a sua energia inesgotável, com a sua vontade de trepar a tudo, de não parar quieta. Claro que há dias em que alguém a arranhou, mordeu, puxou os cabelos, deu um pontapé. Infelizmente uns dias é ela quem recebe, nos outros dá. Tento corrigir o comportamento, explicar que não se faz, ensinar estratégias para quando lhe batem e para quando tem vontade de bater. Mas o cérebro dela ainda está a desenvolver-se e temos de dar um desconto. Eles acabarão por conseguir lidar uns com os outros e com as frustrações comunicando sem força física.

Depois há aquelas que os ingleses chamam de white lies, as mentirinhas sem grande importância e que detecto em meio segundo, quando lhe pergunto se já fez xixi e me responde que sim, mas com cara de malandra. Sei que daqui para a frente só vai piorar. Vamos passar pela fase do “sim, mãe, já lavei os dentes”, “sim, mãe, estive a tarde toda a estudar”, “sim, mãe, desculpa, tinha o telemóvel sem som quando ligaste”, “sim, mãe, almocei na escola e aquele peixe no forno com batatas assadas estava delicioso”, “sim, mãe, sabes que eu não fumo, o cheiro na minha roupa é delas, que estão sempre a fumar, mas eu odeio”.

Ainda só estou preparada para metade delas, mas tenho tempo quando lá chegar.

Preocupa-me, isso sim, quando não conseguimos distinguir a mentira da imaginação e a tomamos como uma verdade. Devemos confiar nos nossos filhos, mas temos acima de tudo de os conhecer. De reconhecer as suas fragilidades, os seus defeitos, o seu modo de lidar com as coisas.

De os ouvir.

De perguntar até percebermos realmente tudo.

De lhes mostrar que nos podem contar sempre a verdade, por menos boa que ela seja.

Esperar que não se habituem à mentira fácil.

Desejar o melhor.

Sempre.

imagem@weheartit

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