Passadas as festividades de Natal este é o “feriado” mais aguardado pelas nossas crianças. Afinal, a vida são dois dias e o Carnaval são três.

Lembro-me de ser pequenina e ficar maravilhada com os fatos que a minha mãe me fazia para usar no desfile da escola: na altura não havia tantas opções para compra e, convenhamos, eram bastante caras. Vivia aqueles momentos como se fosse um sonho, podia ser a bailarina mais aplaudida, a dama antiga mais elegante e andar vestida assim durante um dia inteiro (logo eu, que sempre adorei usar os sapatos de salto alto da minha avó quando os meus pés não enchiam nem um terço do sapato, ou adorava mergulhar nas pinturas dela com a minha prima e usar aqueles batons de cores vivas sempre que tinha oportunidade…).

Durante a adolescência passei a odiar os Carnaval, pelo que ele significava (não, não foi a redução das férias de uma semana para três dias ?): bombinhas de mau cheiro, balões de água mandados com toda a força contra as minhas costas ou peito, de maneira a que até perdia o ar. Porque o Carnaval não era nada daquilo e, convenhamos, eu levava a mal.

Depois de ser mãe voltei a deliciar-me com os disfarces, com as possibilidades infinitas que existem hoje em dia. A verdade é que muitos miúdos usam já os fatos dos seus super heróis, princesas ou piratas preferidos sem ser em dias especialmente designados para tal, mas o Carnaval continua a ser aquele momento em que podem ser aquilo que sonharem. Fatos mais ou menos elaborados, mais ou menos caros, o que importa é o sorriso no rosto dos miúdos. São as purpurinas nas bochechas, os tutus nos rabos de fralda, aquele disfarce de girafa ou de capuchinho vermelho.

As mães de meninas “sofrem” um pouco mais com a pirosice, é verdade, mas também têm mais oferta. E um dia (ou três) não são dias.

O importante é darmos asas às nossas crianças para voarem. Se quiserem voar, porque também há casos de miúdos que não ligam ou não gostam mesmo desta tradição.

Respeitar, não impor, combinar dentro do razoável. E isso é válido para o Carnaval como para o resto do ano.

Cá por casa o fato (que vai ser o mesmo do ano anterior, trazido pela avó paterna especialmente de Espanha) foi conversado atempadamente para gerir alguma contrariedade com tempo, mas não foi preciso. A única coisa que a minha filha pediu foi para pintar as unhas, coisa que nunca lhe é autorizada nos restantes dias. Vai acontecer (a mãe “chata” já comprou um verniz próprio para crianças, à base de água) e isso sim tem sido para ela motivo de verdadeira antecipação.

Porque, sejamos sinceros, muitas vezes a exigência dos nossos filhos é criada pelos adultos à sua volta. Queremos corresponder, queremos que eles se sintam incluídos, queremos que eles sejam felizes. E na maior parte dos momentos esquecemos o mais importante: eles não precisam de muito para o ser.

Dêem uma coroa de cartolina com purpurinas coladas, uma camisola do clube do coração ou uma espada feita em esferovite a uma criança e ela tratará de construir o mundo perfeito à sua volta.

Eles têm dentro deles a maior das qualidades, os seus sonhos não têm limites, assim como a sua imaginação.

Que nestes dias possam ser ainda mais felizes dando largas ao mundo de fantasia onde ainda podem viver.

Este assunto tem sido muito falado, há movimentos e campanhas, passeatas e discursos de celebridades, mas na nossa vida do dia a dia há ainda demasiados momentos em que dizemos que “Sim” para poupar os sentimentos dos outros, quando tantas vezes o que queríamos dizer era um rotundo “não!”.

É uma questão de educação, muitas das vezes não queremos ser desagradáveis, e acumulamos uma série de situações que não pedimos mas com as quais temos de lidar.

Está na hora de mudar a mentalidade, está na hora de ensinar as nossas crianças a dizerem que não. A aprenderem a ouvir um não. Sobrevive-se em ambos os casos e há alturas que um não pode inclusivamente salvar vidas.

Há uns dias no metro testemunhei a seguinte situação: Ela, de cerca de 35 anos, entra acompanhada por ele, de cerca de 40. Vejo pela sua linguagem corporal que fica satisfeita quando vê que há apenas um lugar disponível. Pode sentar-se sozinha. Vêm a conversar desde a plataforma. Ela fica sentada no lugar exactamente à frente do qual estou de pé e ele está ao meu lado, também de pé. A conversa decorre mais ou menos assim:

Ele: Estavas mesmo com vontade de sentar.

Ela: Estou cansada. Acordo muito cedo e deito-me tarde, por causa das crianças.

Ele: Mas porquê? Se moras perto…

Ela: Já não moro ali.

Ele: Onde moras?

Ela hesita e olha para fora da janela e murmura:

Ela: Longe, noutro sítio.

Ele: Noutro sítio? (Sorri) Pois, mas onde?

Ela: Longe.

Ele: Mas longe é o quê, Porto?

Ela suspira e percebe que vai ter de dizer alguma coisa.

Ela: Perto de Loures.

Ele: Loures?

Ela: Perto…

Ele continua a fazer perguntas até que a viagem começa a chegar ao fim, para ele.

Ele: Tens aí o teu telemóvel? Tira e escreve o meu número e dá-me o teu.

Ela olha para fora da janela (novamente) e não responde.

Ele: A sério, dá-me o teu número.

Ela, sem olhar para ele, a mexer nervosamente no casaco:

Ela: Para a próxima…

Ele saltita de um pé para outro, incomodado com a resposta.

Ele: Dizes sempre que é para a próxima.

Ela: Não é nada…

Ele: Com esta vez já são seis.

Ela ri-se nervosamente.

Ele: A sério. Da última vez estavas com os miúdos e disseste “para a próxima, agora estou aqui com os miúdos”. E agora não há motivo para não me dares o teu número.

Ela continua a olhar para fora da janela.

Ele: Não me queres dar, é isso?

Silêncio.

Ele: Tudo bem, eu vou respeitar isso. (E pareceu honesto, aparentemente). Tenho todo o tempo do mundo.

Isto fez com que ela sorrisse levemente. Ele despede-se e sai na sua paragem, ela respira de alívio. Olha em volta porque foi uma conversa que provavelmente a deixou constrangida. Eu sorrio-lhe, como que dizendo “corajosa” e ela sorri de volta.

Fui o resto do caminho a pensar que é preciso ser corajosa sim e é uma vergonha que assim seja. Que provavelmente ela conseguiu sempre não lhe dar o número de telemóvel porque se encontram com outras pessoas à volta e ele não vai insistir demasiado, sob risco de alguém intervir na conversa. Mas e se um dia ela vai sozinha pela rua e o encontra? E se disser que não uma sétima vez e ele não estiver tão bem disposto?

A maior parte das mulheres que conheço teria dado o número errado ou, mesmo a contra gosto, o verdadeiro. E isso seria abrir a porta a uma série de situações que não queriam, porque deveriam ter dito “não quero dar-te o meu número”. Mas sejamos sinceras, quantas de nós conseguiriam fazê-lo a uma pessoa que não é um perfeito desconhecido, como parecia ser o caso?

Sentimo-nos acossadas e sem alternativa e acabamos por dar o número. E depois acabamos por responder à mensagem, por educação. E depois podem acontecer um sem número de combinações de coisas, boas ou más, dependendo do interlocutor.

Um homem a quem já foi negado cinco vezes o número de telemóvel, deveria ter recebido a mensagem. E não fazer como este indivíduo que recebe o “não” e diz que tem tempo, porque na sua cabeça vai haver uma altura em que ela vai dizer o sim. Não existe outra possibilidade no seu mundo machista, como a de uma mulher pura e simplesmente não estar interessada, nunca, e para sempre.

É difícil dizer não, mas temos de ensinar as nossas filhas a dizê-lo sem medos. Com educação e respeito, mas a assumirem as suas decisões. E temos de ensinar os nossos filhos que quando uma mulher diz que não, não está a dizer talvez, se continuares a mostrar-te interessado, numa perspetiva romântica de “luta lá por mim e mostra como sou importante”. Ainda que haja casos em que isso é verdade, em que há um flirt, uma espécie de jogo, lamentavelmente pagamos todas por isso.

E isto vale para uma relação amorosa já existente em que o “não” deve ser dito e aceite. Vale para quando o namorado quer pôr o telemóvel a gravar enquanto estão a ter relações, “vá lá, só desta vez, juro que não mostro a ninguém…”. Ou “dá-me a tua password do email e das redes sociais, até parece que não confias em mim”.

Como mãe de uma rapariga há várias questões que me preocupam para o seu futuro. Quer educá-la de forma a ser confiante e segura ao ponto de saber defender os seus pontos de vista. A proteger-se.

Vale também para rapazes, que ao longo do seu caminho, também se deparam com situações em que a sua vontade não é tida em conta ou desvalorizada. Mas, por enquanto, o número de mulheres afectadaa é ainda muito superior.

Aprendamos a respeitar o próximo e não deixemos nunca de ensinar o mesmo.

Por um mundo melhor.

Onde não significa não.

Sempre.

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A cena é habitual nos percursos escola-casa e casa-escola: a minha filha e eu vamos sentadas lado a lado e depois de alguns segundos em silêncio ela pega-me na mão e dá-lhe um beijinho, sem que eu faça ou diga alguma coisa. E depois acrescenta: “gosto de ti”. É uma ternura que me derrete o coração e de quem assiste.

Desta vez estava sentada à nossa frente uma senhora de cerca de 70 anos, que levou a mão ao peito. “A minha filha nunca, nem em adulta, me disse que gostava de mim…”, disse enternecida e algo triste.

Fiquei a pensar no assunto. Será esta geração, a minha, mais expansiva no que toca aos sentimentos? Falaremos mais de amor?

A conclusão a que cheguei é que depende muito das famílias, é certo, mas acredito que sim. Não é preciso recuar muito para perceber que não era habitual esta troca afectiva de palavras em público, havia muito o “não dito”, para o bom e para o mau.

Eu próprio não cresci a dizer aos meus avós que gostava deles, por exemplo. E isso não significava que não gostasse, simplesmente não era suposto dizer-se, falar-se desse sentimento… Ainda há um ano sussurrei ao ouvido do meu avô paterno o quanto gostava dele. Foi a primeira vez e infelizmente não consigo ter a certeza se ele me conseguiu ouvir. Disse-o, eventualmente, tarde demais.

Mas também cresci a acreditar que o amor é muito mais que uma palavra, que é nos gestos e atitudes que ele vive e permanece. Quantas vezes vi um “amo-te” na boca de alguém que o dizia sem o sentir? Nunca o quis para mim e para mim é sagrado: se o sinto, digo-o, mas essa aprendizagem veio com o nascimento da minha filha.

Foi ela que me ensinou a viver o amor desta forma de gritar aos quatro ventos como somos sortudos. E ensino-lhe, através do exemplo, a dizer que gosta de mim dizendo-lhe que gosto dela. Vai sempre dormir depois de ouvir que a amo. Nunca a faço dizer, nunca lhe digo que diga a alguém só para deixar essa pessoa feliz. Ela já percebeu que há um momento para o dizer e pessoas a quem o dirigir. Portanto, se somos bafejados com essa sorte, aproveitemos. Se não somos, nada de ficar tristes, todos amamos as pessoas de formas diferentes e expressamos os nossos sentimentos de formas diferentes.

Deixei de esperar pela altura certa para dizer aos que me são importantes, que o são. Acho que a bolha de amor que se cria ao saber que somos gostados ajuda à nossa auto-estima, por exemplo. Ajuda um dia cinzento a receber alguns raios de sol. Ensina que devemos priorizar o positivo em vez do negativo.

Os dias nem sempre são fáceis, mas se alguém, onde quer que esteja, nos fizer chegar a mensagem de que somos importantes para eles, então há coisas que valem a pena. Mesmo num dia mau.

Por isso, sempre que a minha filha me disse “gosto de ti”, eu responderei de volta “eu é que gosto de ti” e estaremos nesta espiral do eu gosto mais até que nos cansemos e haja beijos nas bochechas e um abraço a selar o acordo: gostamos ambas, como haveríamos de não gostar?

Porque o amor é mesmo o melhor do mundo (então na boca dos nossos filhos, torna-se o paraíso…).

Amem muito. E não deixem para amanhã se o puderem dizer hoje.

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Meu amor, tem sido este o mote de maior parte das nossas conversas, de tal modo que quando eu começo a frase “somos todos…” tu acabas por terminá-la por mim, dizendo “diferentes”. Somos todos diferentes!

Estás numa fase em que estás a construir a tua identidade e te apegas ao que te rodeia. às pessoas de quem gostas. Aos colegas (preferidos) da escola. E isso é normal.

Chegas a casa a brincar aos super heróis, resultado da tua interação com os rapazes do teu grupo e a cantar músicas da Elsa e da Ana, consequência da tua ligação  a uma ou duas das tuas referências da escola. Deixo-te ser, dou-te espaço para brincares ao que quiseres, desde que não haja tiros imaginários a serem disparados (e às vezes há) nem “chapadas” (que são, na verdade, espadas :)) a serem brandidas.

É claro que os exemplos não ficam por aqui. Queres fazer o que os outros fazem, porque eles o fazem, queres ter as mesmas experiências, queres sentir que estás a falar de igual para igual quando um assunto vem à baila: “eu também vi, eu também fui, eu também tenho, a minha mãe também diz”, etc. E é aí que eu entro, com a diplomacia possível, para lembrar que não somos, efectivamente, todos iguais, nem temos de ser. Há os colegas que à saída da escola comem gomas (e tu não), há os amigos que levam três brinquedos para a sala da escola (e tu não) e por aí fora.

No Natal a tua prima e tu estavam a comer a sopa e ela disse que não gostava e tu, de imediato, declaraste o mesmo. Claro que quando percebeste que isso significava que a tua prima não ia comer a sopa dela, rectificaste porque querias comer a tua. “Afinal eu gosto”, disseste. E essa é a lição: se vais fazer o mesmo que os outros não sendo fiel a ti, perderás sempre coisas no caminho.

Tens ainda três anos e meio e a procissão vai no adro. Esperam-nos anos de queres os mesmo ténis que X, usar o cabelo como Y, ler o mesmo que W. Terás várias referências ao longo da vida e espero que elas sejam positivas, mas por vezes não serão.

Estarei aqui para te orientar no que me couber fazer e no que não couber a observar e a esperar que depois me digas “lembras-te há uns anos quando eu queria aquelas calças xpto que eram horríveis? E a banda que eu ouvia, como é que era possível???”. Chama-se a isso crescer.

Vais construir a tua individualidade e, para isso, seguirás o teu coração mais vezes que a tua cabeça, dependendo na pessoa que te fores tornando. Terás à tua volta exemplos dos amigos, da família, do que vês na TV, dos autores que lês, das exposições que visitas, dos activistas que te fazem ver o mundo com outros olhos, das bandas que ouves, das escolas que frequentas e amigos que conquistas.

Acabarás por perceber que sermos diferentes uns dos outros é o que nos torna únicos e que se alguém te afastar por seres quem és é porque certamente não merecia a tua companhia. Mas não te esqueças que teres o direito de seres quem és não te autoriza a esquecer como te deves relacionar com os outros e o respeito que lhes deves.

Lembro-me muitas vezes de uma frase que li algures: “In a world where you can be anything, chose to be kind” / “Num mundo onde podes ser o que quiseres, escolhe ser gentil”. Se essa máxima se aplicar à tua vida, então todos os pequenos “eus” que fazem parte de ti já valerão a pena.

Somos todos diferentes e ainda bem. É isso que vai garantir que as diferenças que não são aceitáveis (de tratamento, de pagamento com base no género, de conduta social, etc) serão excluídas aos poucos.

Porque tudo muda.

Tudo, menos o meu amor por ti. Esse nunca será diferente.

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Não desisto de ti!

Avisaram que os três anos seriam mais complicados do que os dois.

Com o meu pensamento positivo recebi os três anos de braços abertos, fosses tu a excepção ou a regra, meu amor.

E, meu amor, confirma-se que os teus três anos não estão a ser “fáceis”, que há um desafio constante, uma procura do teu lugar no mundo, uma falta de controlo das emoções, uma frustração muito presentes nos teus dias.

Todos os dias têm sido uma lição. Há momentos em que saio da sala e vou chorar baixinho para a cozinha para me acalmar, momentos em que não sei qual a resposta certa para tantas dúvidas. Sigo o meu instinto, sigo o meu coração, eles raramente me deixam ficar mal.

Acima de tudo, continuo do teu lado como se as tuas palavras e as tuas atitudes não me ferissem por dentro e, muitas vezes ferem.

Tens APENAS três anos. É o mantra que repito para mim mesma, quando levantas a mão ou dizes algo que não deves. É com esse mantra no fundo do pensamento que tento ensinar-te a diferença entre o bem e o mal, como devemos tratar os outros, principalmente, os que nos são mais queridos.

Sei que até ao cinco anos está provado que há uma incapacidade de gerir alguns sentimentos, alguma frustração e tento acompanhar-te nisso sem fazer cara feia, mas por vezes não consigo. Por vezes preciso que entendas que todas as tuas atitudes têm uma consequência e que essa consequência muitas vezes se manifesta na relação que os outros terão contigo. Explico, tento não levantar a voz, tento que te encontres no meio do caos. Tento e por vezes falho. E sei que faço o melhor que consigo.

Há quem diga que sou demasiado branda, que deveria pespegar-te duas palmadonas à primeira coisa errada, mas eu sou tua mãe. E isso significa que te conheço como ninguém. E que sei diferenciar falta de educação de desafio, personalidade de birra. Se fosse seguir a corrente da palmada no rabo estarias negra e na mesma. Na mesma sei que não pois o teu porto de abrigo, aquele que deveria indicar-te o caminho seria para ti a figura que ao primeiro erro te castiga em vez de te ensinar.

Tenho o meu jeito de fazer as coisas e não acho que seja melhor ou pior do que os dos outros pais. Acho que é o que faz com que consigamos seguir em frente tendo uma relação que se baseia no amor e não no medo (da palmada, do castigo, do grito). Depois dos momentos mais complicados passarem conseguimos conversar sobre eles, entender as lições. E irei fazê-lo mesmo que o coração se aperte cá dentro porque estás a fazer algo que eu nunca fiz e que desejo que nunca tivesses feito, como levantar a mão a um avô. Não olho para o lado, não finjo que não acontece, deixo que os envolvidos resolvam o conflito e no fim acrescento o que acredito que falta, se faltar alguma coisa.

Lembro-me agora de uma viagem de metro que fizemos no mês passado. Estava alguma gente e estavas a portar-te lindamente, o que é a regra. Um senhor que estava junto a nós meteu-se contigo e, apesar do teu comportamento exemplar, disse: “vais ser má e eu vou estar cá para ver”. Se me dissessem que isto  ia acontecer teria sido a primeira a dar certezas de como reagiria. Reagi dizendo “ela vai ser o que for e EU vou estar cá para ver”, sempre com um sorriso no rosto. Mais tarde interroguei-me sobre o que teria visto o senhor para fazer uma afirmação tão séria. E por que motivo não me tinha abalado o uso do adjectivo “má”. Acredito que é por saber, bem cá no fundo, que não é algo que eu controle. Serás, efectivamente, o que fores e há uma hipótese de o senhor vir a ter razão. E se fores uma miúda má, uma adulta má, serei a primeira pisar os teus calcanhares durante todo o teu caminho para te mostrar que não tem de ser assim. Que te conheço o suficiente para saber que há mais bondade dentro do teu coração do que muitas pessoas têm a oportunidade de sentir na ponta dos dedos. És intrinsecamente boa e amo-te por isso. Como te amaria se não o fosses, porque sou tua mãe. E como tua mãe não desisto de ti.

Continuarei a mostrar-te o caminho, mesmo que te desvies dele.

Chamar-te-ei à atenção, mesmo que teimes em não me ouvir.

Amar-te-ei sempre, para que haja nem que seja uma dúvida dentro de ti: para quê ser má quando o mundo é tão melhor quando somos bons?

Não te preocupes, traga o amanhã o que trouxer, eu estou aqui.

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O que eu quero para 2018

Chegando a esta época que aquece os corações todos nós fazemos votos, para nós e para os que nos são mais queridos.

Mas a verdade é que passamos um ano inteiro à espera dele e pufff, o Natal passa mais depressa que aquelas férias com que andamos a sonhar meses a fio.

Por isso, este ano, os meus votos serão alargados a todo o ano – o que está a terminar e o que se avizinha:

Menos coisas e mais tempo para estarmos uns com os outros.

Menos julgamento e mais capacidade de olharmos em volta e colocarmo-nos na pele de quem nos rodeia.

Mais elogios que vêm do fundo do coração, menos tendência para adiarmos para amanhã algo que pode fazer alguém feliz.

Ensinar aos miúdos que apesar de serem bombardeados com anúncios de bonecada, o mais importante é que saibam brincar entre si e até sozinhos, que nunca se cansem de explorar e se desafiar, que nenhum mal vem ao mundo por não ter o boneco A ou a princesa X e que o que as histórias têm de bom é o que aprendemos com elas.

Menos culpa, seja imputada a nós seja para nos livrarmos de alguma responsabilidade.

Não esperar dos outros mais do que aquilo que são capazes de dar e sermos agradecidos pelo seu esforço.

Valorizar o que vale realmente a pena e deixar o acessório ter, o seu pequeno, espaço no nosso dia-a-dia.

Dar sem esperar receber.

Abraçar sempre e nunca deixar para depois aquele “amo-te” que devia fazer parte de todos os dias.

Corrigir sem humilhar, agradecer as críticas construtivas que nos chegam de todos os lados se estivermos abertos para as ouvir.

Fechar os olhos e respirar fundo quando é preciso, dizer uma palavra ou outra mais dura quando os momentos assim o pedem e nunca, mas nunca, pedir desculpa apenas para terminar uma discussão – ou seja dizer o que se sente e sentir o que se diz.

Abrandar a correria, as pressas e ficar mais.

Agradecer mais.

Pedir menos.

Ser mais felizes com quem somos e com o que temos. Apesar do que temos.

Olhar para o futuro como aquilo que ele é: um manancial de coisas boas prontas a acontece.

Que venha o novo ano.

Estamos prontos.

imagem@wetransfer

Sempre que o tempo assim o permite (ou seja, quando não chove) vou com a minha filha ao parque.

Nas últimas semanas tenho reparado numa tendência: somos as únicas ou há apenas mais uma criança por lá. O frio afasta os pais das actividades ao ar livre ao final do dia.

Tem andado frio, é verdade, mas não consigo deixar de pensar no bem que faz aos miúdos andarem a correr, a brincar, a divertir-se na rua. Há muitas escolas onde chegando o final do Outono as crianças deixam de ir para o recreio. Haverá milhares delas que deixam simplesmente de brincar na “rua” aos dias de semana. E está provado que lhes faz bem e, acima de tudo, falta.

Ao escrever estas linhas lembrei-me de uma publicidade recente que alegava que os prisioneiros encarcerados nas prisões passavam mais tempo fora de quatro paredes do que a média das nossas crianças, ou seja uma hora.

Cabe aos pais proporcionar este tempo, mesmo quando ele existe na escola, que é o que acontece com a minha filha. Se não chove saem para o recreio de manhã e à tarde e sei que para muitos é o único momento em que estão a correr e a sentir o vento na cara.

Alega-se que nesta época se tem de proteger as crianças, que há um aumento das complicações ao nível respiratório, mas acredito que manter as crianças num ambiente fechado durante vinte e quatro horas por dia é prejudicial para elas. E se o é no Verão, no Inverno ainda mais. Está frio, veste-se mais um casaco, um gorro e umas luvas, coloca-se creme hidratante no rosto para proteger. Porque as defesas se criam em condições “adversas”. Tem de haver contacto com o frio, tem de haver contacto com outras crianças quando está frio.

kids

Sei que há crianças com maior propensão para problemas respiratórios nos meses frios e cabe aos pais conhecer os filhos e fazer o que é melhor para eles. Mas a maior parte dos miúdos beneficiaria de um final de dia, mesmo que seja só de vez em quando, quando as rotinas apertadas o permitem, lá fora, a subir ao escorrega, a andar de baloiço, jogar à bola ou à apanhada. Quando é isso ou deixar as crianças a respirar um ar que só circula dentro de casa, que é sempre o mesmo (por causa do ar condicionado, ou que tem menor qualidade por causa dos aquecedores) então eu opto por brincar na rua. Em contacto com os germes, os micróbios, a ganhar defesas. A ficar constipada, muitas vezes, é certo… Mas quanto a isso não há muito que se possa fazer, é a “fruta da época” e cá em casa a minha filha constipa-se mais porque se destapa toda durante a noite do que pelo ar frio que respira quando chega da escola.

As crianças ficam mais impacientes se fizerem um percurso casa, escola, escola, casa. E aos pais, sejamos sinceros, também faz falta estarem na rua, a verem os filhos ganharem asas, brincarem e serem felizes.

A sopa pode esperar.

A roupa pode esperar.

A casa pode esperar.

O tempo, como o coração dos pais, é elástico quando damos prioridade aos momentos que são impossíveis de recuperar.

A vida anda agitada, o tempo dá para pouco. Mas o pouco que temos devemos transformá-lo em muito.

Cabe-nos a nós.

Estamos em novembro e num dos jardins mais conhecidos de Lisboa há ainda jovens universitários de capa e mão em riste a ordenar que outros, de penicos na cabeça, mergulhem no lago.

Estamos em 2017 e não consigo que a frase que acabei de escrever faça sentido.

Percebo que para muitos as praxes sejam um ritual de passagem, uma passagem de testemunho, a iniciação num percurso, uma bênção que garante que todos se conhecem, todos passaram pelo mesmo.

Percebo isso, mas acho que não é o único caminho.

A minha faculdade era anti-praxes e levava esta máxima muito a sério.

No primeiro dia foi-nos dito que havia actividades de recepção ao caloiro mas ninguém era obrigado a ir e não haveria “represálias” para quem não fossem. E isso fez com quem muitos participassem, como eu, para ver de que se tratava.

Fomos até à redacção de um conhecido jornal e, da rua, cantámos a pedir que nos dessem emprego (porque éramos do curso de ciências da comunicação). Dali seguimos para um jardim onde fomos emparelhados com os nossos padrinhos para os próximos 4 anos. Foram dois dias em que os laços foram estabelecidos, os contactos feitos. Depois daí quem queria sair saía, quem não queria sair com os padrinhos não saía, mas não andámos meio ano a passar vergonhas na rua.

A minha filha já viu jovens aos latos, farinha e ovos na cabeça, a fazer o pino numa corrida que obviamente nunca mais vai terminar e perguntou-me do que se tratava. E como explicar uma coisa que para mim não faz qualquer sentido? Que aqueles enfermeiros tenham de andar a tresandar a ovos podres para se sentirem integrados não fará deles melhores profissionais eu sei, mas como explicar a uma criança de três anos? Fui pela resposta simples: estão a fazer o que acham que têm de fazer para se sentirem integrados. Quando me arregalou os olhos e perguntou “o quê, mãe?”, reformulei e disse que estavam a brincar. Deixei a conversa das praxes para outras núpcias.

Porque na realidade me custa que os miúdos de dezoito anos, que acabaram de entrar na maioridade, a quem dizemos que são capazes de fazer as suas escolhas, que são responsáveis pelo caminho que escolhem sejam acolhidos e tratados como se bebés grandes se tratassem. Muitos deles começam a sua viagem universitária nas praxes, fazem coisas com as quais não se sentem confortáveis, bebem mais do que seria desejável e só começam a focar-se no curso nos rimeiros exames, tarde demais.

Sim, eu sei que para muitas pessoas as praxes são memórias de tempos divertidos, importantes no estabelecimento de laços. Sim, eu sei que muitos que praxaram nunca puseram ninguém em situações desconfortáveis. Sim, eu sei que muitos praxados não beberam mais por isso, nem se desleixaram das aulas como consequência. Estou a generalizar porque sei que, no geral, em 2017 não faz sentido que as praxes existam como as vejo na rua.

Trata-se de humilhar, de rebaixar.

“Caloiro não tem fome” é uma frase que ouvi demasiadas vezes.

Nem sequer vou falar da tragédia que aconteceu há alguns anos, acho que não vale a pena – porque aí havia um extremismo para o qual não encontro ainda palavras.

O que acho essencial é dar as ferramentas para que os nosso filhos saibam que não têm de, aos dezoito anos, quando a sua personalidade já está num pico de formação, fazer o que os outros lhes dizem com medo de não ser aceites.

E temos de dar as ferramentas aos nossos filhos para que se se encontrarem do outro lado sejam capazes de ser razoáveis, gentis.

Aceito as praxes inclusivas, se quem delas fizer parte estiver lá voluntariamente (em consciência e sem medo!).

Porque o percurso universitário devia ter muito pouco a ver com quem consegue humilhar mais e quem consegue manter o sorriso depois de uma grande humilhação.

 

imagem@arquivo da TVI24

Desde muito nova sonhaste em ter filhos. Filhos, no plural, porque imaginavas o teu colo cheio, o teu coração a transbordar de amor.

Quis a vida que assim fosse e tiveste três. Amaste-os a todos de igual forma, tiveste para os três os mesmos sonhos.

Hoje falamos do mais novo, aquele que tem os primeiros passos e as primeiras conquistas mais presentes na tua memória, por uma questão de proximidade temporal.

Lembras-te daquele dia em que o tinhas no colo e a casa estava estranhamente silenciosa e ele te sorriu? Disseste-lhe que a rapariga que ficasse com aquele sorriso seria a mais sortuda deste mundo.

Incentivaste-o e deste-lhe sempre a mão. Quando caiu ajudaste-o a levantar-se e prometeste que ia passar depressa. Secaste-lhe as lágrimas e fizeste-lhe cócegas para o fazer rir.

Ensinaste-lhe o que os teus pais te ensinaram a ti, leste-lhe os livros que mais mexeram contigo, levaste-o aos passeios que sentias que lhe dariam um pouco mais de cultura.

Falaste-lhe de história, de religião, da importância da família.

Nas noites de pesadelos garantiste que estavas ali, para sempre. Abraçaste-o e lembraste-o como gostavas dele, como irias gostar até ao fim dos vossos dias.

O menino cresceu.

Começaste a imaginar as namoradas e a ficar nervosa porque, afinal, há coisas que não controlas.

Percebeste, ao fim de um tempo, que as namoradas não iam lá a casa nem se falava muito nelas. Paraste para observar e havia algo que não batia certo, que te deixava um pouco desconcertada, mas não conseguias descortinar o que era – ou talvez fosse o teu mecanismo de defesa a falar mais alto.

Como o teu filho já há muito não te procurava para falar, decidiste ir atrás dele. Sim, pegaste na carteira, no telemóvel, colocaste os óculos de sol e saíste seguindo pelas ruas a rezar baixinho para que não fosse nada, para que nada mudasse.

Viste-o chegar perto de uma pessoa, dar-lhe a mão e um abraço e depois, algo discreto, tão discreto que passaria ao lado de qualquer pessoa menos tu, viste um beijo. O teu filho tinha beijado uma pessoa e era a primeira vez que o vias. E essa pessoa era um rapaz como ele. Tremeste dos pés à cabeça e deste meia volta, não quiseste ver mais. Conto-te agora que não havia mais para ver do que o sorriso de felicidade do teu filho, sentado ao lado da pessoa que o fazia sorrir assim, de orelha a orelha, como só tu anos antes conseguias. Não havia mais nada para ver porque ele era e sempre foi discreto e porque sentia medo. Muito medo, quase tanto medo que se podia comparar com a felicidade que aquele outro rapaz lhe provocava.

Quando chegaste a casa choraste. A maquilhagem que era impecável desceu pelo rosto e manchou a saia branca, uma mancha que nunca mais vai sair, numa saia que nunca mais usarás. Sentaste-te à luz do candeeiro de mesa da sala e pensaste. Pensaste com todo o teu coração e decidiste como poderias enfrentar a situação.

Quando o teu filho chegou a casa chamaste-o e disseste que o tinhas visto – incapaz de nomear o que tinhas visto, é certo, mas ele percebeu de imediato. E o medo que antes lhe vivia debaixo da pele passou para a superfície e olhou-te com os seus olhos grandes à espera do que aí vinha.

Disseste-lhe a frase que jamais esquecerá, mesmo que viva cem anos: ”Tens duas semanas para voltares a ser normal ou podes sair desta casa!”.

Tu, que sempre lhe estendeste a mão, que prometeste que o amarias de igual forma, que nunca lhe virarias as costas, TU falhaste em todas essas promessas quando precisavas de as provar.

O teu filho sabia que não valia a pena tentar explicar-te que nunca se tinha sentido tão normal como quando encontrou alguém que gostava dele daquela forma. Que nunca tinha sido tão feliz, apesar do medo.

Teve a certeza que estava certo quando não te procurou para falar das suas dúvidas e depois da sua certeza. Sentiu um vazio no coração e uma dor tão grande que acreditou que nunca mais ia conseguir voltar a sentir-se alguém.

Aos dezassete anos fez o que querias que fizesse. Dali a duas semanas procurou-te e disse-te que era normal outra vez, que não te preocupasses.

Respiraste de alívio, o teu filho estava de volta.

E assim seguiram e seguem até hoje.

Quero dizer-te que é fácil julgar, mas que todas as palavras que aqui escrevo são da minha perspectiva como mãe e como filha que sou.

Acredito que seja uma grande dor sonhar que os nossos filhos tenham um caminho sem grandes percalços e perceber que a pessoa que são (e que não se muda com ultimatos) lhes reserva alguma amargura. Dor. Julgamento. Constrangimento. Eventualmente alguma violência.

E enquanto escrevo isto percebo que todos os pais querem o mesmo e o mais certo é terem os filhos, seja qual for a sua orientação sexual, a terem no seu percurso essa violência, esse julgamento, essa dor, mas por outros motivos.

Sonhaste em ser avó, mas nunca ninguém te garantiu que o teu filho poderia, quereria ou iria ter filhos – amasse quem ele amasse.

Sonhaste vê-lo entrar na igreja para casar, mas mais uma vez quem sabe se é esse o seu sonho, a sua visão para selar um amor para a vida toda?

O teu filho, lamento dizê-lo, continua a amar pessoas do mesmo sexo.

O teu filho, quando tiver possibilidades de sair da tua casa, provavelmente nunca mais lá entrará por mais de meia hora nem lhe chamará um lar. Porque foi lá que a mãe, o seu porto seguro, mostrou que era exactamente o que ele temia do mundo lá fora. Não o aceitou, nem sequer lhe deu a oportunidade de falar.

Se mãe, ser pai, é amar os nossos filhos incondicionalmente.

Da minha parte tento não criar demasiadas expectativas e ir acompanhando de perto a minha filha.

Porque independentemente de mim ela irá amar. E quem ela amar será algo que só a ela diz respeito.

Ainda há algumas emanas começou a falar do tema “namorados”. Diz que somos namoradas e eu corrijo dizendo que não podemos sê-lo porque somos mãe e filha. Depois fala na tia e eu explico que a situação é a mesma. Fala da educadora e eu tento que perceba que é uma pessoa mais velha, que cuida dela na escola e como tal não podem namorar. Em nenhum momento lhe disse que não podíamos namorar porque somos duas meninas. Porque não é verdade.

Cresci noutro tempo, num tempo não tão distante assim, em que numa mesma conversa a resposta teria sido: os meninos casam com as meninas, as meninas namoram com os meninos. Não cresci habituada a ver duas mulheres de mãos dadas, em demonstrações públicas de carinho, nunca vi enquanto crianças dois rapazes aos beijos na rua. Mas sejamos sinceros, os tempos eram efectivamente outros e as pessoas eram mais comedidas. E passaram-se vinte anos desde que eu fui uma criança.

No outro dia no metro ia ao lado de dois rapazes com vinte e poucos anos, que conversavam. Chegando à paragem de um deles, ele deu um beijo na boca do outro e combinou falarem mais tarde. Acho que foi a primeira vez que não vi pessoas a dizerem que não com a cabeça. Foi algo tão natural, tão simples, que me apanhou de surpresa. Sorri e voltei à minha leitura. Mas a pensar na coragem que é preciso ter para se ser quem é.

E é isso, mãe, que gostava que soubesses sobre o teu filho.

Ele escondeu-se de ti, escondeu-se dos amigos, mas não pôde esconder-se de si mesmo.

Sei que achas que se cassasse e tivesse filhos com uma boa rapariga seria eventualmente feliz e esqueceria aquele deslize que teve quando era novo e estava confuso. Mas as coisas não funcionam assim.

Ele nunca vai casar com uma boa rapariga e sabes bem porquê. Sabes que o teu estômago se vai revirar quando as tuas amigas te perguntarem o porquê, logo ele que é uma jóia de moço. E no fundo tens já a resposta.

Não digo que é fácil, que vai ser fácil.

Aliás, a vossa relação nunca mais voltará a ser boa.

Dificilmente ouvirás da sua boca como gosta de ti. E se fores tu a dizer-lhe ele não vai acreditar.

Lamento que seja assim, porque no fundo, se olhares bem, ele é ainda aquele menino de colo que te sorriu pela primeira vez.

E estavas certa, a pessoa que for capaz de lhe provocar tal sorriso está cheia de sorte.

Porque ele é o teu menino.

Não te esqueças que continuas a ser mãe.

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Não sejas a miúda que vai no metro, ao lado das amigas, mas não tira os olhos do telemóvel.

Não te preocupes mais com a selfie em que pareces mais gira do que com a maneira como falas com a tua mãe.

Não digas que sim ao teu namorado só porque não estás com cabeça para discutir.

Não tires fotos ao jantar no restaurante com uma hastag toda pomposa quando te esqueces de dizer ao teu pai ou a quem quer que tenha feito o jantar em casa que está delicioso.

Não vejas sempre o lado negativo das coisas, nem te vitimizes.

Não sejas demasiado cruel ou exigente contigo, as coisas acontecem quando têm de acontecer e se puderes ajudar a que aconteçam, melhor – se não puderes então não te preocupes.

Não sejas aquela miúda que se esconde atrás do manto da sinceridade para dizer tudo o que pensa (doa a quem doer).

Não faças planos irrealistas, mesmo que tendes a chamar-lhes sonhos.

Não esperes dos outros o que não estás disposta a dar.

Não sejas imodesta, mesmo que sintas que és boa naquilo que fazes.

Não faças coisas só para que os outros reparem e te dêem palmadinhas nas costas.

Não faças vista grossa em situações de injustiça por teres medo de te envolver.

Não escolhas o caminho mais fácil porque parece mais rápido.

Não te menosprezes só porque os outros não vêem as tuas capacidades.

Não tenhas medo de dizer o que pensas, mesmo que isso signifique perderes alguma “popularidade”.

Não concordes com os outros se não estiveres a par do que se trata. Reconhece que não estás por dentro – e se te interessar o tema, investiga.

Não mintas a ti mesma sobre o que sentes.

Não finjas que não estás a ver aquela senhora com bebé ao colo nos transportes ou o senhor que tem dificuldades em manter-se em pé em pleno metro. Levanta-te. Faz a coisa certa.

Não aspires a ser perfeita.

Simplesmente não sejas pior miúda do que podes ser.

Não é tão difícil quanto parece.

Tu consegues.

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