Onde está a mãe?

Apesar de viverem uma vida despreocupada (pelo menos é a minha esperança relativamente à grande maioria), as crianças também têm as suas inquietações.

Não me refiro ao “por que é que à noite não há sol?” ou ao “como é que os aviões voam se não batem as asas”, falo de inquietações que lhes tocam perto do coração.

No caso da minha filha de três anos e meio tenho vindo a reparar que se vê um vídeo com baleias se apressa de imediato a designar a mãe, o pai e os filhos. O mesmo nas ilustrações de um qualquer livro em que as personagens não são as principais. Está a começar a formar o verdadeiro sentido da palavra “família” e da sua importância e aí é que começa o “drama”.

Quando a levámos ao cinema para ver o filme “Coco” eu estava à espera de perguntas, das mais difíceis. Afinal, o personagem principal é uma criança de uns oito anos que entra sem querer no mundo dos mortos e circula por entre caveiras e ossos. Quando a vi inclinar-se para mim pensei “é agora”. Mas a pergunta dela surpreendeu-me, como aliás acontece muitas vezes. O que ela queria saber era “onde é que está a mãe”. Com as caveiras podia ela bem, o que estava a deixá-la desconfortável era por que é que aquele miúdo estava “sozinho”.

Compreendo-a perfeitamente. A mãe (o pai, claro) significam uma segurança, um porto de abrigo, uma garantia de que aconteça o que acontecer pelo menos está ali alguém para lhes dar a mão.

E nos filmes da Disney a situação é dramática, vejamos:

Bela e o Monstro: A Mãe morreu, nem se fala nela.

Branca de Neve: A Mãe morreu e por isso existe lugar para a maléfica madrasta.

Bambi: A Mãe morre durante a história.

À procura de Nemo: A Mãe morreu.

Cinderela: A Mãe morreu (e fiz a “asneira” de ver a versão não animada com a minha filha, onde se vê a mãe a definhar, doente, antes de morrer”).

Frozen: Mãe e pai morrem no início do filme deixando as irmãs sozinhas no mundo.

Pequena Sereia: A Mãe morreu.

Podia continuar por algum tempo, mas acho que já todos tínhamos percebido esta dinâmica. Uma dinâmica que me transtorna um pouco, apesar de ter crescido com estas histórias, porque elas moldam um pouco a forma como vemos o mundo.

Na maior parte dos casos acontece que o pai, viúvo, está tão desolado por ter perdido a mulher que procura de imediato uma figura materna que tome conta da filha (como se ele não fosse capaz disso mesmo e isso não se esperasse dele), normalmente errando de forma dramática, deixando entrar dentro de casa uma mulher terrível. Depois a filha só poderá ser salva por um outro homem, o seu príncipe encantado, que será a sua salvação daquele mundo onde o pai a deixou.

São filmes de outra época, mas são filmes intemporais e por isso é importante que elas (as nossas filhas, sobrinhas, afilhadas, enteadas) saibam coisas importantes, como por exemplo:

-A felicidade depende delas, e não de um homem que pode ou não aparecer mais tarde ou mais cedo no seu caminho;

– As madrastas não são más, acredito eu até que as de má estirpe são hoje a excepção

– As raparigas são capazes de lutar por si mesmas e devem fazê-lo e não esperar que alguém venha resolver todos os seus problemas.

Sei que os filmes mais recentes acentuam uma mudança no paradigma (Frozen é brilhante e realista, põe a força no amor entre as irmãs, o obstáculo é aliás criado por um amor à primeira vista que no mundo real nunca teria dado certo e como se vem a confirmar o príncipe aqui não interessa a ninguém, é interesseiro e mau carácter, não tem coração. E são as personagens femininas, com a ajuda de dois amigos verdadeiros, que vão à luta, enfrentando os seus problemas) e é importante que as nossas crianças recebam a mensagem, não apenas as raparigas mas os rapazes também.

O mundo que os espera tem desafios sem fim e gosto de acreditar que estou a preparar a minha filha para os enfrentar por si, sabendo pedir ajuda quando precisa e não por causa do seu género nem por se sentir incapaz por esse mesmo motivo.

Quanto à ausência das mães, sei melhor que ninguém (afinal é com isso que trabalho) que sem conflito não há história e que os filmes de eternas princesas darão lugar a outros (Brave, Divertidamente, UP- Altamente, etc) em que o foco não está na perda de um dos familiares.

Até esses serem a maioria cabe-me tentar tranquilizar a minha filha garantindo que não pretendo ir a lugar algum.

E que muitas das aventuras desta vida acontecem longe dos pais (por mais que isso nos possa custar).

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As Crianças não são pombos correio

Há, e todos sabemos, situações familiares muito complicadas.

Há situações em que o diálogo é quase inexistente, outras em que a comunicação é feita através de acusações, gritos, ofensas.

Há pessoas que estão constantemente, por causa disso, a usar os filhos/netos/afilhados/sobrinhos, como mensageiros.

“O teu pai não é capaz de fazer isto bem feito”.

“Que mania que a tua mãe tem de mandar X ou Y”.

“Diz à tua mãe que isto ou aquilo”.

Todos os exemplos dados aqui em cima são errados. São de evitar ao máximo. Põem uma carga em cima das crianças que não lhes pertence.

Nenhum miúdo, tenha que idade tiver, deve ouvir comentários menos positivos em relação aos progenitores, por mais verdade que possa haver no que for dito (e isto vale a comentários feitos em relação a avós, tios, etc).

Nenhum miúdo deve sentir que tem uma mensagem a passar à mãe/pai quando regressa de um fim de semana com o outro progenitor.

Nenhuma criança deve sequer preocupar-se com assuntos de adultos, seja o assunto divergências em relação à educação, a como é passado o tempo, aos horários praticados, à roupa que é enviada ou o estado em que regressa, à situação amorosa dos pais (seja a nova seja a antiga: reconciliação entre os pais, impossibilidade de estarem juntos sem se aborrecerem, etc), aos problemas financeiros (contribuições ou falta delas).

As crianças devem ser crianças.

E se existe uma situação em que os pais ou não estão juntos ou não conseguem entender-se isso já coloca nas crianças um peso que preferencialmente todos os envolvidos gostariam que não acontecesse. Não é justo fazer as crianças levantar os olhos dos brinquedos, do seu mundo de fantasia e afectos para os ver a observar os pais com olhos analíticos, com vozes a ressoar na sua cabeça. Não é saudável, não é justo, simplesmente não se faz – seja qual for o recado.

Bem sei que muitas vezes até nem há maldade, os adultos envolvem as crianças nos seus pensamentos, arrastam-nos achando até que podem ser eles o catalisador de uma mudança positiva. Se forem, que seja por presença indirecta e não por estarem no meio do campo de batalha com  a bandeirinha branca na mão, a ser incessantemente agitada.

Se a mãe quer dizer alguma coisa ao pai, fale com ele.

Se a avó quer dizer alguma coisa à mãe, fale com ela.

Se o pai quer dizer alguma coisa ao sogro, fale com ele.

Se o avô tem alguma coisa a dizer, fale com o filho ou a filha.

De adulto para adulto.

Nos casos mais difíceis, em que simplesmente é impossível comunicar, procure-se ajuda de um intermediário, um assistente social, por exemplo.

Nunca as crianças.

Sempre o adulto.

Deixemos as nossas crianças viverem a sua infância sendo livres, leves e apenas tendo como preocupação os que as rodeiam naquilo que é realmente importante.

Mesmo que estejamos cheios de boas intenções.

Os adultos somos nós.

Façamos um esforço.

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Quando fores mãe vais ver o mundo com outros olhos.

Vais dormir menos e pior.

Vais ouvir conselhos desnecessários e uns poucos que realmente ajudam.

Vais perder minutos do teu dia à espera de atravessar a ruas porque se ensinaste que só se pode passar quando o sinal está verde, então é isso que fazes.

Vais ter novamente cinco anos, fazer coreografias de músicas, rir como se ninguém estivesse a ver.

Vais fazer planos e perceber que às vezes o melhor é não fazer planos.

Vais cozinhar mais sopas do que as imaginavas possíveis.

Vais gabar a imaginação da tua mãe, que conseguiu sempre fazer comida diferente para pôr na mesa.

Vais desejar ser tão boa como ela (se tiveres um bom exemplo) e trabalhar para chegar lá perto (ou para seres completamente diferente, se não tiveres tido a sorte de ter uma boa mãe).

Vais sentir o peso da gravidade, não só no corpo mas porque os teus filhos invariavelmente, quando te dão a mão, têm tendência para puxar os braços (o que é que lhes dá?? ?)

Vais mudar demasiadas fraldas e bater palmas quando essa fase chega ao fim.

Vais cantar para acalmar o teu filho, por mais desafinada que seja a tua voz.

Vais dormir com sentimento de culpa mais noites do que gostarias.

Vais sentir-te a pessoa mais afortunada do planeta por que ter um filho maravilhoso.

Vais rir-te sozinha quando te lembrares das saídas que os teus filhos têm.

Vais lembrar-te de quando eras miúda e de como as coisas mudaram tanto.

Vais ter medo.

Vais ter coragem.

Vais estar muitas vezes sozinha (metafórica e literalmente).

Vais estar a maior parte do teu tempo em casa acompanhada.

Vais ser chamada milhões de vezes por dia. Assim que parares para descansar dois minutos. Assim que entrares na casa de banho. Assim que pousares o livro e apagares a luz para dormir. Assim que puseres a série no play.

Vais ensinar a andar, a correr, a levantar depois de cair.

Vais ajudar a subir ao escorrega e a descer sem medos.

Vais limpar ranhos, feridas, lágrimas.

Vais sacudir poeira, desvalorizar nódoas, autorizar brincadeiras nas poças.

Vais medir a temperatura, dar beijinhos na testa, dar colo.

Vais ralhar e apontar o dedo.

Vais mandar arrumar, mas também vais brincar.

Vais sorrir e em alguns dias esses sorrisos serão o que te salva.

Vais dar a mão. Vais receber a mão dos teus filhos na tua mesmo quando não a pedes.

Vais ser abraçada. Vais receber carinhos. Vais ser amada.

Vais amar como nunca amaste antes.

Vais defender as tuas crias do mundo.

Vais aprender a vê-las de forma imparcial e a reconhecer as suas falhas.

Vais fazer o que estiver ao teu alcance para as falhas serem recuperadas.

Vais falhar.

Vais cair.

Vais ter arrependimentos.

Vais perder a paciência.

Vais ter vontade de virar costas e ir embora.

Vais ficar.

Porque é disso que as mães são feitas.

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Crianças sem empatia

Desde que me tornei mãe há uma série de coisas que mexem muito comigo mas tudo o que diga respeito a crianças e maus tratos deixa-me de rastos.

Os maus tratos de que hoje falo não são de pai para filho, mas sim de filho para pai. Este tipo de comportamento existe e parece longe de estar erradicado.

Há, como em todo o tipo de relações, vários géneros de maus tratos, vários níveis, nenhum porém que não seja grave a meu ver.

Ontem estava no metro e entraram comigo uma senhora com os seus 40 anos e a filha adolescente, talvez de uns treze. Tinham muito bom aspecto (digo isto já porque há um preconceito, que muitas vezes também cruza a minha sensibilidade, em relação ao tipo de pessoas que está envolvida em algumas situações). Por defeito profissional estou atenta ao comportamento de quem me rodeia, gosto de “absorver” a forma como as pessoas lidam umas com as outras, o modo como o amor ou a rejeição se manifestam nas várias idades, entre pessoas diferentes, etc. Levantando os olhos do meu livro reparei que tanto a mãe como a filha estavam ambas focadas nos telemóveis. A mãe estava nas redes sociais, a filha a jogar. A primeira “chapada” que recebi aconteceu quando a filha, possivelmente ao falhar o objectivo do jogo, lançou um impropério cabeludo, daqueles palavrões que nunca a minha mãe disse ou me ouviria dizer nem que passasse uma eternidade. O meu olhar voltou-se para a mãe, que agiu como se nada se tivesse passado. Pensei que não tivesse ouvido. Fiquei a matutar e quando ambas se levantaram para sair na sua estação algo me escapou, algo que a rapariga disse à mãe e a que esta não respondeu. Recebeu como sentença:

“Para além de atrasada és surda”.

Estremeci. Fiquei paralisada no meu lugar, incrédula, à espera da reacção da mãe e não minto quando digo que esperava uma resposta do mesmo calibre. Mas não foi isso que aconteceu. A mãe demorou pelo menos trinta segundos a responder, sendo que a filha voltou a repetir a mesma frase, já numa impaciência tal que parecia que queria que toda a gente à volta dela concordasse. Por fim a mãe lá disse, num tom suave e discreto, sem qualquer sinal de estar a controlar os nervos:

-“ Vê lá se controlas a má educação, está bem? Ainda são cinco da tarde”.

E saíram.

Caramba, aquela miúda tratou a mãe abaixo de cão e ainda lhe passaram a mão pelo pêlo. Duas coisas me ocuparam de imediato o pensamento: quando é que a vida daquelas duas pessoas tinha chegado ao ponto em que era ok a filha chamar nomes à mãe? E teria havido um comportamento semelhante em que a filha se espelhasse? Se tivesse de apostar diria que sim, que a postura da mãe é passiva, que eventualmente nem nunca lhe chamou nomes ou a maltratou mas aposto que houve outra alguém (o pai, quem sabe) que terá passado a vida toda daquela miúda a rebaixar a mãe e a dirigir-lhe ofensas sempre que não correspondia ao que esperavam dela. Ou talvez nem tivesse sido assim, quem sabe? Às vezes as relações de abuso começam por a vítima mostrar uma fragilidade e o abusador aproveitar para a controlar. Mas aqui falamos de uma miúda e mexeu comigo.

São estes os filhos que quando os pais, já idosos, vão parar aos hospitais os abandonam à sua mercê? São estes os filhos que roubam os pais? São estes os filhos que maltratam fisicamente os pais, como tantas vezes vemos nas notícias, seja por violência física, seja por os deixarem à fome?

Como é que uma pessoa que não respeita a mãe (ou o pai, ou ambos) pode respeitar seja quem for na sua vida adulta? E falo de relações em que os pais merecem respeito, que também existem pais que de pais só detém o título.

Custa-me muito pensar nas memórias que estão a ser criadas, na falta de empatia que existe, porque aquela miúda não hesitou em magoar a mãe nem se preocupou sequer com o facto de estarem diante de outras pessoas. Quem faz isto de que mais será capaz?

Há todo um tipo de vivências de que estou muito distante, felizmente. Cresci num lar em que o respeito é pedra basilar, em que há amor, compreensão e sempre houve limites. É esse o mundo que estou a tentar recriar para a minha filha mas sei que irá deparar-se com pessoas com um background completamente diferente.

Pergunto-me se miúdos que têm uma relação abusiva com os pais são passivos de serem salvos mais tarde ou mais cedo, seja por força do amor, da convivência, de boas influências.

Quero acreditar que sim.

Gosto de acreditar que o bem triunfa sempre. E que aquela mãe, um dia, será amada como merece.

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Homens com filhos vs Mulheres com filhos

Há uns tempos falava com uma amiga sobre uma pessoa que ambas conhecíamos e que era agora pai. A conclusão a que se chegou, sendo a pessoa em causa um pai carinhoso e extremoso é que era “muito sexy um homem que é bom pai”. E por sexy entenda-se apelativo, as mulheres gostam de ver, de ficar a observar, há algo dentro delas que se desmancha e que lhes transmite uma tranquilidade, algo que as faz pensar que é boa pessoa, sem qualquer sombra de dúvidas, porque afinal, é bom pai.

Pensava eu sobre este assunto e deparei-me com a diferença de julgamento que a sociedade faz em relação as homens e mulheres com filhos no geral e, em particular, quando esses homens e essas mulheres são solteiras (divorciadas, separadas, solteiras de “raiz”).

A verdade é que hoje em dia muito menos casamentos/relações se mantém por causa dos filhos, em comparação com o que acontecia na geração dos nossos pais. É certo que em alguns casos parece a quem está de fora que as pessoas mandam a toalha ao chão com demasiada facilidade, quando antigamente se “lutava”, mas acredito que cada caso é um caso. E as pessoas sentem menos dependência financeira e tomam mais decisões com vista ao seu bem-estar, ao bem-estar e felicidade dos seus filhos, procuram ser verdadeiros consigo e com os outros. E por isso há homens e mulheres relativamente novos que têm filhos.

Tenho uma amiga que tem três filhos, cada um de um pai diferente. Se eu contasse a quantidade de vezes que ouvi comentários depreciativos em relação a essa questão já tinha perdido o fôlego. Não sejamos cínicos, olha-se ainda de “dedo apontado” para estas pessoas, principalmente se forem mulheres. Se teve um filho com cada homem é porque não deve ser coisa boa, quem é que a atura, vai fazer filhos com o primeiro que mete dentro de casa. Se for um homem é porque não encontrou a companheira certa, a pessoa que o fará assentar. Que sabemos nós sobre a vida das pessoas? Quem somos nós para julgar?

Eu também julgo, sou humana, mas acontece-me mais sentir uma certa admiração por estas pessoas. Uma pessoa que quis ir em frente, que acreditou que tinha encontrado a pessoa certa ao ponto de ter um filho com ele, uma pessoa cujo valor é independente das escolhas que faz porque quantas e quantas vezes a vida nos acontece mesmo quando fazemos tudo certo, quando só queremos o nosso bem, o bem dos nossos filhos, um futuro estável?

Se se fala a uma amiga solteira de outro amigo mas avisamos que tem filhos, que passa tempo com eles, que é um pai dedicado, então a amiga pensa: “deve ser maduro”. Pensa “é altruísta”. “Mesmo tendo filhos quero conhecê-lo, pode ser complicado, mas dá-se um jeito, logo se vê”.

Se falamos de uma amiga que tem filhos a um amigo franze logo o cenho. “ As mães são muito complicadas, trazem muita bagagem. De certeza que põe os filhos em primeiro lugar (spoiler alert: se uma mulher que é mãe não puser os filhos à frente de um desconhecido que a quer levar a jantar fora então é caso para ficar de pé atrás, digo eu), não vai ter tempo para mim”.

Ainda que muito do que foi filtrado em ambas as conversas possa ser verdade, no caso dos homens os filhos são um atrativo, no caso das mulheres um obstáculo.

Talvez seja por ser mãe, mas defendo sempre uma mulher que, apesar de ter filhos, quer continuar a ser uma mulher. E se já é absolutamente fantástico uma mulher conseguir ser amiga, inteligente, interessante, culta, boa no seu trabalho, boa mãe, então se essa pessoa decide encontrar espaço para a sua felicidade e a procura então passa de fantástica a épica.

Felizmente ainda há homens que as vêem assim, que decidem arriscar, que apesar do medo que sentem, das inseguranças que todo um passado traz para uma relação, dão um passo em frente.

E há mulheres também que se apaixonam e se dedicam a fazer as coisas funcionar com homens que apesar de serem bons pais têm histórias complicadas com a família e, mesmo assim, não fogem.

Porque se um pai ou uma mãe deixar entrar uma pessoa nova no seu círculo, a deixar chegar perto dos filhos, então é porque também ele/ela fez uma escolha e para o bem de todos espera-se que tenha sido das boas.

Hoje em dia é tramado encontrar alguém bom.

E ser pai ou ser mãe é uma característica, não um defeito.

Oh, se está longe de ser um defeito…

Mas que sei eu? Sou simplesmente uma mãe.

Os nossos filhos não são perfeitos.

Aos nossos olhos os nossos filhos têm mais qualidades do que as que o mundo eventualmente verá neles, mas muitas vezes erramos ao não permitir que o mundo aponte as suas falhas.

O facto de compreendermos que somos humanos, com espaço para crescer, para nos desenvolvermos e desafiarmos é o que nos faz chegar mais longe. É o que nos faz, eventualmente, às vezes mais tarde do que mais cedo, perceber qual o nosso limite.

Existe uma escola preparatória em Lisboa que está a desenvolver um projeto educativo que acho muito interessante. As turmas são divididas em três níveis: baixo, médio e alto. No início do ano é feito um diagnóstico e os alunos são encaminhados para cada uma das subturmas. Estas subturmas são permeáveis, o que significa que um aluno que comece o primeiro período no nível médio pode eventualmente no segundo período estar no nível baixo, ou vice versa. A intenção é que todos acabem o ano no mesmo nível: o alto. Isto permite que os alunos sejam acompanhados de acordo com as suas necessidades de aprendizagem. Há espaço para expor dúvidas, para “atacar” a matéria onde existem mais dificuldades, há o incentivo para que os alunos queiram chegar mais longe.

Naturalmente, isto significa que há mais trabalho para mais professores. Este é um dos maiores problemas que atravessamos no nosso país: turmas sobrelotadas enquanto milhares de professores continuam sem colocação. Aqui há a oportunidade de ter uma mesma turma dividida em turmas mais pequenas, onde mais professores podem actuar.

O maior problema enfrentado? Os pais, naturalmente.

Diziam que havia preconceito com os que estavam no nível mais baixo. Diziam que afectava a auto-estima. Diziam que é pôr rótulos.

Era legítimo que os pais se preocupassem, mas a escola pediu uma oportunidade. Pediu aos pais que compreendessem o que estava em causa, que incentivassem os filhos e os fizessem compreender que, em conjunto com o corpo docente, não havia discriminação. Era tudo por eles. Para poderem ir mais longe. Para poderem aprender mais e melhor. Para se sentirem vistos e ouvidos na sala de aulas.

O resultado? No final do ano havia apenas duas subturmas, dos dois níveis mais elevados. Funcionou porque se acreditou num sistema que tem como prioridade o aluno e não o debitar infindável de um programa feito para não ser cumprido.

As notas subiram, os alunos viram a sua auto-estima aumentar, sentiram-se valorizados e, acima de tudo, encararam as aulas como um desafio. Participaram mais. Deram largas às suas potencialidades. Porque acreditavam que eles podiam chegar mais longe. Trabalharam com esse objetivo e no fim saíram vitoriosos. Havia um incentivo maior do que o resultado: o caminho a ser percorrido.

Acredito que este modelo educativo acabará por se espalhar por mais escolas, mas apenas se os pais assim o permitirem.

Haverá sempre quem não reconheça que os filhos não vão ser os melhores alunos, as melhores pessoas do mundo, os colegas de trabalho mais atenciosos, os companheiros de relação mais fiáveis.

Os nossos filhos são produto de tantas coisas, a maior parte das quais não controlamos.

Por isso, acredito que naquelas em que temos uma palavra a dizer deveremos estar do lado da solução e não do problema. Deixemos os nossos filhos perceberem que podem mais, quando isso é verdade. Que estamos aqui para eles mesmo que não tenham 100% no teste, mesmo que falhem de vez em quando.

Serão adultos mais funcionais e mais sensíveis aos que os rodeiam se perceberem que não se espera deles que sejam máquinas.

Os nossos filhos são humanos e devemos aprender a gostar deles assim.

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Não dizemos bom dia a toda a gente?

Esta foi das últimas perguntas que a minha filha de três anos e meio me fez.

Quis saber por que razão mo perguntava, quando era óbvio para mim que a resposta a tal pergunta era um rotundo “sim”.

– Porque quando entramos no autocarro dizes bom dia ao motorista, mas as outras pessoas não.

Olhei-a. Parei e pensei. Revi as últimas viagens que fiz. E ela tinha razão. A maior parte das pessoas passa pelo motorista e segue em direcção ao seu lugar, como se ele não estivesse ali, como se fosse invisível. Eu fui educada de outra maneira e, por isso, cumprimento toda a gente: é uma questão de educação mas também de cortesia. Os motoristas de autocarro estão a fazer o seu trabalho, dão a cara, mas mesmo assim muitas vezes não são vistos. Ou só são vistos quando têm uma condução que aborrece os passageiros. E estou a falar desta profissão como poderia falar de outras, mas a verdade é que a maior parte das pessoas não quer saber.

Imagino como será ter um emprego destes, em que se vê centenas e centenas de pessoas que só falam connosco para pedir um bilhete ou para perguntar se o percurso passa pelo sítio X. Para a minha filha é estranho e fico orgulhosa que assim seja. Cumprimenta os vizinhos no elevador (com mais ou menos vergonha), o segurança do metro, a senhora que se senta ao lado dela durante a viagem, o empregado no restaurante, a menina na caixa do supermercado, o porteiro da escola. Para ela todos são iguais, todos são pessoas, todos merecem ser tratados como tal.

Acho que à medida que vamos crescendo vamos perdendo algumas qualidades. Uma delas é a forma pura como olhamos o mundo. Acrescentamos algum cinismo e muita pressa às nossas rotinas, deixamos de prestar atenção ao que realmente importa, só olhamos para o outro quando faz algo que nos incomoda, deixamos os elogios para amanhã.

Acredito que esta geração tem os dados viciados em muitas coisas, terá dificuldades que nós não sonhamos, outras que eventualmente terão sido criadas por nós, mas sinto também que é uma geração mais “humana”. Que vê o mundo com olhos de ver. Que tem tanta informação que não se cala sem obter uma resposta satisfatória.

Espero sinceramente que as novas gerações sejam capazes de acertar onde errámos, que tenha mais bondade que ambição, seja menos céptica e mais sonhadora, menos dependente e mais audaz. Levante mais os olhos do umbigo, viva mais em comunidade e olhe o outro não como competição mas como alguém a quem pode dar a mão para chegarem, ambos, mais longe.

Já dizia aquela frase “Se queres chegar rápido, vai sozinho. Se queres chegar longe, vai acompanhado”.

E, às vezes, tudo começa com um “bom dia”.

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Carta a um bebé que vai crescer sem a mãe.

Querida Maria,

Não me conheces mas tenho ouvido falar muito de ti.

Os teus avós e o teu pai têm feito os possíveis para que o teu início de vida seja o mais normal possível, dadas as circunstâncias. Mas o que já deves desconfiar é que não é natural que o ritmo do coração que ouves quando estás a tentar dormir, e às vezes não consegues, não seja o mesmo que te carregou durante nove meses. É no colo da tua avó que adormeces e te acalmas, comes, começas a sentir o mundo à tua volta e não no da tua mãe.

Não tens noção da diferença e ainda bem que assim é, porque partiria o coração da tua mãe saber que lhe sentes mais falta ainda do que o que é biologicamente esperado.

Nasceste há três semanas, um pouco antes do tempo previsto, porque a tua mãe não aguentou mais as dores. Nunca tinha sido mãe e diziam-lhe que a hora tinha chegado. Mas no fundo, ela sabia, sempre soube, que alguma coisa estava errada.

Meses antes de nasceres sentia dores fortes nos ossos, e queixou-se aos médicos, que desvalorizaram dizendo que eram apenas os ossos a alargar.

As pontadas nas costas eram de tal ordem que foram feitos exames e a tua mãe teve de fazer hemodiálise porque um dos rins estava a falhar. Era normal, disseram, acontece em muitas gravidezes. Impotente, a tua mãe aguentou, que poderia ela fazer? O que tinha a seu favor era apenas o instinto e ela não sabia que o seu instinto podia tudo.

Mais para o fim do tempo ela começou a perder as forças. O teu pai, desesperado, levou-a ao hospital e pediu ajuda. Não podia ser normal, aquilo não eram apenas contrações. No bloco operatório foi feita uma cesariana de urgência e a felicidade de te trazerem ao mundo foi manchada pelo choque pelo do que os médicos encontraram. Infelizmente havia tumores nos ovários, a tua mãe tinha um cancro que estava espalhado por todo o corpo. Sem forças, abriu apenas os olhos para te ver pela primeira vez. E te ouvir chorar. Esse facto tranquilizou-a e deixou-a lutar por si, definitivamente. Mas o tempo tinha passado e a situação era crítica e a tua mãe teve várias paragens cardiorrespiratórias.

Foste para a incubadora até teres autorização para ires embora, o que aconteceu mas a tua mãe ficou. Está medicada para aguentar as dores até que a sua hora chegue, porque agora não há nada que possam fazer por ela a não ser esperar.

O teu pai divide o tempo entre ti e a cabeceira da tua mãe, que lhe custa abandonar, porque não a quer deixar sozinha, porque não sabe quando será a última vez que lhe pode segurar na mão e segredar-lhe ao ouvido que estás bem, que ficas bem, que vai cuidar de ti como ela cuidaria.

Mas a tua mãe ainda não quer ir embora, acredito eu porque precisa de te sentir mais uma vez, mesmo que isso não seja possível pelo perigo que existe para ti ao entrares naquela ala do hospital. Está em suspenso e por mais cansada que esteja acredita num milagre, o milagre de acordar e poder ver-te crescer.

Mas o milagre que ela pede és tu, minha querida. Conseguiste crescer saudável apesar de tudo, nasceste e estás fora de perigo.

Infelizmente a tua mãe não tem todo o tempo do mundo e chegará o dia em que ela já não vai estar cá, muitíssimo mais cedo para ti do que para qualquer um dos amigos que terás na escola.

E tu, minha querida Maria, tens a sorte de ter a família do teu pai por perto, já que a da tua mãe não consegue viajar para Portugal para conhecer a neta nem para se despedir da filha. E todos farão os impossíveis para que cresças feliz e saudável e desta vez o destino há-de estar do seu lado.

Estás aqui também para lembrar a todas as mães, mesmo aquelas que ainda têm os seus pequenos bebés na barriga, que o seu instinto raramente está errado. Que devem lutar até terem uma resposta satisfatória. Que se não as ouvem num médico, deverão bater a todas as portas até que sejam ouvidas.

Não sabemos o que podia ter sido diferente caso o cancro da tua mãe tivesse sido diagnosticado mais cedo. Nunca saberemos. Mas sabemos que a tua mãe sabia que algo estava errado e podia ter lutado mais, se a tivessem deixado.

Por isso, a maior herança que terás dela é essa força, essa garra. É a lembrança de que mesmo medicada, afastada do mundo e de tudo o que acontece fora das quatro paredes do quatro onde ela ouve as malditas máquinas apitarem todos os dias, o seu coração bate fora do seu peito.

E assim será para sempre.

Que faças com esse coração sempre o bem, querida Maria, porque nem todos nós somos fruto de um milagre – mas graças a ti deixaremos de tomar tudo como garantido.

Prometo.

Vamos falar sobre os trabalhos de casa?

Vamos, mas não em frente aos miúdos, por favor.

Este é um tema recorrente e pouco consensual e, por esse motivo, é bastante falado nas reuniões escolares e fora delas, entre os pais.

No outro dia estava na companhia de duas mães de rapazes que frequentam o terceiro ano e que se cruzaram, com os respectivos filhos, à entrada do colégio.

– Então, hoje há trabalhos de casa?

– Há e não são poucos. Uma seca, aquilo nunca mais acaba, estou com os exercícios pelos cabelos.

Este diálogo aconteceu entre as duas mães. Com os filhos ao lado. Filhos esses que mais tarde iriam pegar nos ditos exercícios, sentarem-se à secretária e fazê-los.

Entendo a frustração das ditas mães e sei que nem sequer pensaram no que lhes estava a sair da boca naquele momento, mas como se podem motivas as crianças a fazer uma tarefa que muitas vezes não é divertida, quando ouvem os seus pais queixarem-se dela? Aquele tipo de comentários legitima que os próprios alunos sintam que os trabalhos de casa não só não servem para nada como é uma chatice terem de os fazer. E mesmo que essa seja a verdade absoluta para os pais, considero uma irresponsabilidade estarem a passar este tipo de mensagem aos filhos.

Não que as crianças não devam ser ouvidas quanto a este assunto. Eles são o objecto em discussão, não nos enganemos, mas existe uma diferença entre ouvir e condicionar a opinião. Numa conversa sobre o que sentem sobre os trabalhos de casa, a sua utilidade, os resultados que deles retiram, as palavras como “chatice” e “seca” não deviam ser proferidas.

Como antiga aluna e mãe tenho a minha opinião sobre os trabalhos de casa: nem todos os alunos precisam deles e a acontecer não devem ser em quantidade que faça com que as crianças passem o dia inteiro a estudar, mesmo quando chegam a casa depois de saírem da escola, onde deveriam passar o seu tempo com os pais a serem crianças e a estreitarem as suas relações. E esta minha opinião nunca me fará olhar para o caderno da minha filha com expressão de aborrecimento e nem ela ouvirá da minha boca “mas tu não precisas destes exercícios todos…” ou “o que é que a professora estava a pensar em mandar estes trabalhos todos para as férias”. O que irei fazer (digo eu, que quando a batata quente nos cai no colo é que sabemos como agiremos, mas quero acreditar que seguirei as linhas orientadoras das minhas atitudes até agora) será motivas a minha filha. Ajudá-la a tirar as dúvidas e tentar que os momentos em que tem de se sentar em casa a fazer os trabalhos de casa não sejam um suplício mas sim algo que tem de ser feito e tem a sua utilidade e por isso mais vale fazer tudo e o mais depressa possível para ter o seu tempo livre.

Se não concordar com o método escolhido pelos professores, há um lugar para discutir o assunto: a escola. E com os professores. Fazendo-lhes chegar a minha opinião e dando as minhas sugestões e aceitando ou não a sua forma de trabalhar.

É por este motivo que é muito importante que os pais e a escola estejam em sintonia, o que muitas vezes não acontece. Mas o trabalho que ambas as instituições desenvolvem são os mais determinantes nos primeiros anos dos nossos filhos. Deve ser um trabalho conjunto, não deve haver um “nós” e um “eles” e tudo deve ser feito para pensar no bem-estar e evolução dos nossos filhos.

Eles nem sempre vão dominar a matéria. Nem sempre serão os melhores alunos, os mais rápidos, os mais audazes.

Mas a forma como “pintarmos” as suas ferramentas na obtenção de conhecimento será essencial na sua formação enquanto adultos.

Muitas vezes, nas empresas em que vão trabalhar, terão de desenvolver tarefas que não acrescentam muito. Elas fazem parte. E eles, os nossos filhos, são parte de um todo. São parte importante de um todo importante.

Todos importam e devem ser ouvidos, mas não legitimemos os nossos filhos a virarem a cara às suas obrigações porque desabafámos em frente a eles.

É uma chatice ter os miúdos sentados a uma secretária no fim de semana quando poderiam estar a passear com os pais? Claro que sim, mas para muitos deles será nos trabalhos de casa que conseguem desenvolver algumas dificuldades com que se depararam durante a semana. Para muitos pais será esse o momento em que ficam a par do que estão afinal os filhos a estudar. Para outros será efectivamente uma seca, porque fazem os trabalhos com uma perna às costas.

Mas é importante que os nossos filhos entendam as suas obrigações, concordem ou não com elas.

É importante que aprendam e é muito importante que haja espaço para que continuem a ser crianças.

Vamos falar de trabalhos de casa?

Vamos, mas em frente aos miúdos não, por favor.

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Os nossos maiores ensinamentos enquanto pais acontecem silenciosamente, nos gestos que fazemos, na forma como nos comportamos na presença dos outros, no modo como lidamos com uma série de situações com que acabamos por nos deparar diariamente.

É óbvio que os miúdos aprendem também o que lhes dizemos, tantas vezes como se fosse um mantra: “pede por favor”, “como é que se diz?”, “já cumprimentaste y ou x”? porque a repetição também cria o hábito.

Mas a responsabilidade real é a que acontece da primeira forma, porque os nossos filhos crescerão para serem adultos que querem ser iguais aos pais ou que querem ser exactamente o oposto deles.

No desfile de carnaval da escola da minha filha dei-me conta, mais uma vez, que aos miúdos raramente há o que lhes passe ao lado. Uma das mães entregou serpentinas a um colega da minha filha e ensinou-lhe como fazer, como soprar para ver a magia da serpentina acontecer. O rosto dele encheu-se de preocupação e a primeira coisa que fez foi baixar-se para apanhar as serpentinas do chão. “Não podemos mandar papéis para o chão!”, disse. Olhei para a mãe e sorri. Ela baixou-se e tentou explicar-lhe que naquele dia, porque era Carnaval não havia problema. Aliás, era suposto porque era uma brincadeira, mas o filho não ficou confortável, como se aquela excepção à regra fosse confusa. E acaba por ser, porque passamos o ano inteiro a evitar fazer lixo, a apanhar o mais pequeno pedaço de papel para o chão para depois andarmos a mandar ao ar confetis coloridos que deixam as ruas cheias de cor. Resultado: passou o desfile a apanhar as serpentinas do chão. Reparei também que durante a semana a minha filha brincou com as serpentinas que lhe dava, toda feliz da vida, mas antes de virmos embora apanhou todas elas e colocou no lixo sem que eu dissesse uma única palavra. Acho graça e um pouco exagero, mas mantive-me à margem. Se sabem brincar e aproveitam e depois limpam o que fazem, por mim tudo bem.

Estão bem ensinados e certamente não serão daqueles adultos que muitas vezes apanhamos no trânsito a mandar papéis da pastilha elástica pela janela. É o básico “deixa tudo como encontraste”, já que diariamente têm de arrumar os brinquedos e os jogos, os sapatos no sítio e por aí fora.

Este exemplo deixa-me com esperança e aumenta a responsabilidade que sinto. Porque tudo o que faço vai ficar gravado na memória e na retina da minha filha, se não para utilização imediata, para o ser no futuro.

Às vezes a vida não vai ser exactamente como as regras ditam, vai haver obstáculos que obrigam a alguma ginástica, criatividade e é importante que os nossos filhos saibam ser ágeis. Mas têm tempo para treinar essa agilidade.

Primeiro precisam de cimentar os princípios e os valores que serão a base da sua vida. Depois trabalharemos com eles a flexibilidade que a vida exige. Estamos a criar super miúdos!

Há um lugar e um tempo para tudo.

Para já é deixá-los serem crianças, com os nossos ensinamentos a pairarem como numa nuvem por cima deles.

Vai correr tudo bem. Como poderia não correr?

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