“Não basta ensinar os nossos filhos a reciclar, é necessário educar para a consciencialização ambiental. Educar para o ‘não consumismo’, para o desapego”

Reciclar e amar o planeta para que os nossos filhos vejam os filhos dos seus filhos crescerem

Serão poucos os que ainda não viram as imagens devastadoras do lixo que assola lugares anteriormente paradisíacos. Uma camada de plástico a boiar no oceano onde antes nadavam pessoas, que conviviam com as espécies animais.

Essas espécies animais têm a sua sobrevivência em risco, assim como a saúde do ser humano está em causa. Já para não falar na sustentabilidade de um planeta que o Homem teima em fingir que vai estar cá para sempre, nos seus termos e condições.

A minha geração foi aprendendo o que é isto de separar os lixos e devo dizer que as praias algarvias onde faço a maioria das minhas férias têm um areal limpo e com poucos vestígios da passagem humana. Há uns bons anos uma marca de telecomunicações associou-se à iniciativa e começou inclusivamente a distribuir uns cones para onde as pessoas poderiam depositar os restos dos seus cigarros e os frequentadores da praia tiveram uma resposta positiva.

Há já uma grande consciencialização deste problema e as pessoas, estando atentas, tomam medidas.

Existem as que não poluem porque terão uma utilização imediata do espaço e “Deus me livre de ter de andar a saltitar por cima de embalagens de iogurtes para ir molhar o pé” e as que levam isto a sério, todos os dias, em todas as suas acções.

Há uns meses, a propósito do Carnaval, relatei uma história sobre um colega da minha filha que ficou chocado quando lhe dissemos que poderia lançar as serpentinas para o ar (porque depois ficariam no chão). Sei que esta nova geração tem conhecimentos, noções, ensinamentos e ferramentos e terá mais cuidado do que as gerações que vieram antes dela. Mas também será esta geração a enfrentar a consequência de dezenas e dezenas de anos de uma cultura de acabar de comer o bolo e mandar o guardanapo para o chão, de depositar os cotonetes na sanita, e por aí fora.

Estou num misto de esperança e receio.

Porque usamos hoje em dia mil vezes mais plástico do que usávamos quando eu era criança. Fiz o exercício de olhar em volta e a conta é simples. Embalagens de champô, toalhitas, cremes, pasta de dentes, escova de dentes, tupperwares, palhinhas, embalagens de sumo (mais o pacote das palhinhas e as palhinhas em si), garrafas de água que levamos para o trabalho ou para o ginásio, sacos para fazer gelo, para congelar, para o lixo, para as sandes, papel aderente, pacotes de bolachas, escovas do cabelo, baldes da praia, mochila da escola, vaso das plantas, livros de plástico, brinquedos de plástico… ufa, plástico por todo o lado.

Há marcas que estão a eliminar o plástico das lojas, lentamente (li algures que o Lidl, por exemplo, vai deixar de vender tudo o que seja artigo de plástico descartável, a Starbucks, nos EUA, vai deixar de ter palhinhas de plástico – apesar de a maioria das suas embalagens ainda ser deste material) e há uma maior consciência nos nossos actos do dia a dia. A maior parte de nós deixou de comprar sacos nos supermercados, levando consigo sacos reutilizáveis e contam-se pelos dedos as pessoas que conheço que não fazem a separação dos lixos.

Todo este discurso sobre coisas que todos nós sabemos serva apenas para lembrar que há sempre mais alguma coisa que podemos fazer, algum cuidado que podemos ter:

  • substituir a loiça de plástico dos miúdos por loiça de bambu reciclado;
  • escovas de dentes de materiais biodegradáveis;
  • redução da utilização dos sacos nas compras, levando inclusivamente de casa os sacos transparentes para transportar a fruta e legumes.

Estes são apenas alguns exemplos.

Orgulho-me de ter uma filha a quem pergunto onde vai o quê e ela saber dirigir-se ao caixote do lixo com separadores e colocar no separador com a cor certa.

Orgulho-me de lhe falar das tartarugas, muitas delas com os corpos deformados para sempre porque alguém deixou as argolas das latas de cerveja na praia e o mar as levou para si. Das gaivotas que morrem intoxicadas por comerem tampas de plástico, de lhe contar estas histórias e ver nela incompreensão, empatia.

Todos sentimos os dias de calor terríveis que passámos em Portugal. Todos estamos a acompanhar o flagelo dos incêndios (sim, não é de hoje, mas as consequências alastram-se por anos), os efeitos nefastos do aquecimento global.

Temos de fazer a nossa parte, por mais pequena que seja.

Daqui a umas semanas terei o aniversário da minha filha e já estou preocupada com a loiça descartável que vou pôr na mesa. Há talheres de “madeira” à venda no supermercado e irei tentar que se sobreponham aos de plástico que sobraram dos anos anteriores. Porque sobram sempre.

Compramos demais, gastamos demais, consumimos demais.

Haverá uma altura em que não haverá o que consumir mais. Espero que essa altura esteja muito longe e que a consigamos afastar no tempo por muitos e longos anos.

Por nós. Por eles. Pelo planeta, porque só temos um.

#Savetheplanet

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Respira, Marta, tu consegues manter a calma.

“Mas, mãe, eles disseram que a minha mochila não é de menina”. Eu ouvi, filha, simplesmente não queria acreditar porque sinceramente há dias em que simplesmente não há paciência. Mas tem de haver. Porque “eles” são crianças. Porque a minha filha é criança e porque é agora que se determina em grande parte o adulto que ela vai ser, assim como os seus pares.

Em relação aos filhos dos outros não há muito que possa fazer, mas é minha missão como mãe orientar a minha filha e por isso respiro fundo.

Contextualizando: a mochila em causa tem quatro cores, amarelo, laranja, vermelho e  azul claro. Tem o desenho do Pateta, Pato Donald, a Margarida, o Mickey e a Minnie sorridentes. Foi escolhida precisamente por não ser apenas cor de rosa com a Minnie, a Elsa ou a Ana, a Doutora Brinquedos ou qualquer uma das figuras associadas normalmente a raparigas. E teve esta reacção, o que é mais que justo, ainda que para mim um pouco inacreditável.

Quando comprei esta mochila para a praia tive em mente os seguintes critérios: cabe tudo o que é preciso lá dentro e não é pouco (protector, água, muda de roupa, saco das cuecas, toalha), a minha filha consegue aguentar com o seu peso nas costas e o desenho.

O desenho está em último, mas é importante, daí eu ter-me dado ao trabalho. Porquê?

Porque tento educar a minha filha liberta de preconceitos sociais para que ela possa descobrir por si quem é e do que gosta, sem que os pais a condicionem mais do que o inevitável.

Se lhe tivesse levado uma mochila da Elsa era capaz de dormir inclusivamente agarrada a ela, de tanto que ia adorar. Mas tento que ela abra os horizontes, porque se tem tantas outras coisas da Ela pode perfeitamente ter algumas menos cor de rosa, cheias de outras cores vivas com bonecos de que gosta.

Perguntei-lhe se gostava da mochila. Ela adorou e preparámos juntas tudo para o primeiro dia de praia. Note-se que este incidente aconteceu a três dias do final da praia com a escola, o que me faz lembrar os noticiários em férias em que muitas vezes passam notícias que não são propriamente notícias, mas à falta de melhor…

Depois deste episódio voltei a perguntar se ela gostava da mochila e ela disse-me que sim. E eu disse que era isso que importava.

Depois quis saber por que é que ela achava que os amigos tinham dito aquilo e ela disse que é porque tem aqueles bonecos e não é cor de rosa. E eu expliquei que as crianças, ela e os amigos, podem gostar dos bonecos que quiserem. SE o amigo X gostar de vestir cor de rosa, então que vista. Se gostar da Elsa ou de bonecas, então que goste e possa brincar com elas. Se a Y gostar de carros, bolas e super heróis então que brinque com eles.

Esta é a tua mochila e quando olho para ela penso sempre que vai contigo para a praia e guarda lá dentro as tuas coisas. E é tão gira, precisamente por causa destes bonecos e destas cores. E tu disseste-me que gostavas dela, por isso ainda bem. Quando olho para ela não vejo uma mochila de menino nem de menina, vejo a TUA mochila. Entendeste, filha?”.

Ela concordou com a cabeça e quando lhe perguntei de que era aquela mochila, ela respondeu “da Mariana”. Abracei-a e disse-lhe que às vezes as pessoas pensam de maneira diferente de nós e devemos ouvi-las para percebermos se achamos o mesmo ou não. Mas que não há mal em pensarmos de forma diferente mas não devemos mudar com medo do que os outros vão achar de nós.

É muito para absorver numa idade especialmente difícil.

Quis também dizer-lhe que nunca devia deixar que ninguém lhe dissesse que não pode ter, gostar ou ser uma coisa só porque é menina.

Vai demorar a interiorizar, mas este discurso tem de existir. Tem de fazer parte. As crianças têm de se sentir livres para gostar de coisas tão simples como uma mochila, caramba. Que futuro nos espera se estiverem sempre à espera de agradar a toda a gente?

Serão infelizes e inseguros.

Bem sei o impacto que os pares e o seu discurso têm nesta fase em que estão a formar os gostos e as personalidades.

Temos de acompanhar e intrometer-nos no essencial apenas.

É complicado, mas é para isso que aqui estamos. Para também gerirmos estas pequenas crises, para que venham a transformar-se em grandes crises.

É um processo de aprendizagem para pais e filhos e em cada casa se defenderá aquilo em que se acredita.

Pela nossa vamos trabalhando para criar uma criança com empatia, confiança qb, espaço para falar sobre os seus medos e expectativas, gostos e (o mais importante) uma opinião própria.

Temos tempo e amor para lá chegar. Do resto o tempo cuida.

A pressão para ter filhos existe e temos de falar sobre isso

Durante o nosso crescimento existem vários marcos, etapas que é esperado que alcancemos, ainda que sejamos todos tão diferentes uns dos outros.

Crescemos a ouvir a pergunta da praxe “como é que vai a escola”, sejamos bons ou maus alunos. Perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes só por curiosidade, tantas vezes sem haver um interesse grande no assunto, porque raras vezes essa pergunta é seguida de um “e porquê?”. Depois vem “que área vais seguir” e mais tarde o “qual o curso que vais tirar”, como se não houvesse vida para quem não quer tirar um curso ou simplesmente não faça a mais pálida ideia do que vai fazer dali a uns meses, ainda que seja das decisões mais marcantes da sua vida.

“Já tens namorados” ou “Quando arranjas um namorado?”. Se formos rapazes há tendência para se ouvir um “és muito novo para namorar tão a sério”, se formos raparigas infelizmente começam a vislumbrar-se perguntas sobre /vestidos de noiva. E depois sobre filhos. O primeiro. Se já tivermos feito check nessa caixinha, sobre o segundo e por aí fora, porque as pessoas nunca se dão por satisfeitas.

E as pessoas que nos fazem estas perguntas tão íntimas sobre a nossa vida são de um espectro vastíssimo que vai desde a nossa avó à senhora que sobe connosco no elevador uma vez por ano.

Entendo que exista curiosidade, carinho, preocupação, expectativas. Entendo mas acho que na maior parte dos casos devemos parar para pensar antes de perguntar porque não fazemos a menor ideia do que se passa do outro lado – mesmo quando são pessoas de família às vezes estão às escuras porque há coisas difíceis de partilhar, de tão íntimas e sofridas que são.

Falo-vos de um casal amigo que estava junto desde a escola secundária, casados há três anos. À volta estava toda a gente a começar a ter o primeiro filho. Lembro-me como se fosse ontem, estava eu grávida da Mariana, num jantar de aniversário de um amigo em comum e foram três pessoas que lhes perguntaram sobre quando iam eles ter filhos. A resposta foi a educada, “estamos a trabalhar nisso”. Meses mais tardes separaram-se e viemos a saber que estavam a tentar há três anos sem sucesso. Que essa luta diária trouxe para dentro de casa um stress, desilusão e culpa tão grande que o amor acabou por não ser suficiente. No caso deles havia uma razão médica para a gravidez não acontecer.

Noutro casal amigo, em vias de separação, era constante a pergunta de quando viria o segundo filho. Ninguém sonhava que estavam a atravessar uma crise e que por isso o segundo filho estava longe do horizonte.

Noutro ainda o facto de o pai querer mais um filho e a mãe não sentir que era esse o caminho também não transparecia, mas a pressão externa pouco ajudou.

E depois há simplesmente as pessoas que não querem ter filhos.

As que não querem pensar nisso para já.

As que querem mas não podem. Porque financeiramente não seria viável ou porque as suas vidas não lhes permitem ter a família que gostariam.

É por isso que nunca faço esta pergunta aos meus amigos, mesmo aos mais próximos. Porque eu posso conhecê-los bem mas não sei tudo, nem é suposto saber. Como amigos devo criar um ambiente de confiança e tocar no assunto, eventualmente falando da minha própria experiência, e deixar espaço para que se a outra pessoa quiser falar o possa fazer. Sem pressões.

Fazemo-lo com boas intenções mas há momentos em que uma simples pergunta pode provocar uma tempestade. Dentro da pessoa, dentro da sua casa.

E que temos nós a ver com o desejo de uma pessoa ter filhos, se casa ou não casa, se descasa, se compra carro ou vai a pé? Se for apenas companheirismo e preocupação, então que a façamos chegar em forma de amor e não de interrogatório.

Empatia. Pormo-nos no lugar do outro. Lembrar-nos de quando nos fizeram perguntas que preferíamos não ter tido de responder.

Ser amigos, filhos, pais, sogros, padrinhos, sem pressões.

Só amor.

Pode parecer difícil mas é mais fácil do que parece.

Às vezes basta estar presente

A felicidade da minha filha de quase quatro anos é algo “fácil” de alcançar. Basta a perspetiva de uma ida à praia, de um passeio de barco, de irmos visitar a bisavó, de iniciarmos a leitura de um livro novo antes de deitar, de contar os dias para os quatro anos para poder ter um passe para usar no metro…

Tento que a felicidade lhe surja devido aos sentimentos que tem quando está a fazer alguma coisa ou na presença de alguém.

Tento que valorize os abraços tanto quanto uma ida ao teatro.

Tento que goste de estar com as pessoas, mesmo que não haja grandes planos de saída de casa.

Gosto que venha brincar comigo para a cozinha quando preparo o jantar e, para isso, venha carregada com a artilharia de brinquedos para ficarmos bem rodeadas as duas enquanto conversamos.

Gosto que fique feliz quando me digo orgulhosa de uma sua conquista.

Quando me vê chegar à escola. Quando vê que o lanche é maçã, que era mesmo o que lhe estava a apetecer.

Quando consegue subir sozinha para o baloiço e baloiçar sem ajuda, ainda que não consiga chegar ao chão e me vê aplaudir e ficar feliz também.

Tento que se lembre que acordar de manhã junto a quem gosta dela, a abraça e a beija é suficiente.

Que entenda que nada lhe falta e, por isso, é sortuda.

Que é bom conversar, verbalizar o que sente, mas que não quero que se preocupe com o que não tem de se preocupar: para ser adulta estou cá eu.

Orgulho-me de a ver feliz a correr na relva, a subir às árvores, a comer um pedaço de pão. A encontrar um amigo no jardim e a fazer conversa. A oferecer os seus brinquedos e a combinar brincadeiras sem ser preciso incentivar.

A lembrar-se da prima quando lhe dou algo do Frozen e me pergunta se não posso comprar igual para ela, porque ela gosta mesmo muito da Elsa.

Que as pessoas que nos encontram no caminho para a escola sorriam ao vê-la cantar, alegre, logo pela manhã e lhe digam que esperam que ela continue bem disposta e feliz.

Porque ela é.

Com as pequenas e com as grandes coisas.

Espero continuar a ter um papel activo para que não se esqueça da importância das primeiras e a aprender a relativizar as segundas.

A felicidade está no que fazemos com o que temos, o que somos, o que a vida nos dá.

Às vezes bastava que nos lembrássemos de dar a mão a quem está ao nosso lado.

Porque tantas, tantas vezes, a felicidade é apenas estar lá.

A tolerância zero que separa pais e filhos

Nos últimos dias têm-nos chegados inúmeras imagens, reportagens e relatos sobre o que se passa na fronteira do México com os Estados Unidos da América. E o que se passa é que, devido à nova política de tolerância zero, todos os imigrantes ilegais apanhados a atravessar a fronteira sem documentos ou em raids de fiscalização, e que se façam acompanhar dos filhos menores, serão levados para responderem por um crime federal. E os seus filhos serão também eles levados, em fila indiana, para tendas no deserto (onde no exterior se fazem sentir mais de 38º) ou para gaiolas de arame, sem saberem o paradeiro dos pais. Sem saberem se voltarão a vê-los. Sem saberem onde estão ou o que está a acontecer, na maioria dos casos.

Nestes campos de retenção onde as crianças aguardam um veredicto chegaram, desde Abril, mais de duas mil crianças. Antes desta política da administração Trump, o que acontecia era a deportação (dos pais e dos filhos) para os países de origem se não houvesse registo de reincidência.

A minha preocupação aqui não é política, a minha preocupação é de mãe.

E ao ver crianças de dois anos a chamarem pelos pais, pelas mães, a chorarem em desconsolo e desespero, não consigo aceitar que isto aconteça. E muito menos no tão chamado país das oportunidades. No país que encabeça a lista dos mais desenvolvidos. No país que é feito de tantas culturas, de pessoas com as mais variadas origens.

Estas crianças estão a chegar da Guatemala, das Honduras, do México, de El Salvador. Estas crianças falam, na sua maioria, espanhol. Nunca ouviram falar inglês.

E estão longe dos pais.

Não imagino o que será ter de tomar a decisão de deixar tudo para trás e arriscar. Para poder procurar um futuro melhor para os meus filhos, para lhes proporcionar paz, segurança, educação. Para sobreviver. Estas pessoas fogem da guerra, da violência armada, da fome, da pobreza extrema, da instabilidade política, da perseguição religiosa. Estas pessoas só querem poder ser pessoas, viver uma vida digna. E muitas arriscam, levando os filhos consigo.

E tantas vezes não conseguem chegar mais longe.

Bem sei que a chegada de milhares de pessoas às fronteiras levanta problemas. Nós por cá, pela europa, temos sido confrontados com a situação dos refugiados e muito se tem falado, discutido, criticado e as soluções a que se tem chegado parecem insuficientes. A mim pouco me importa a política, a mim importa-me o lado humano.

Importa-me que se separem os pais dos filhos.

Houve inclusivamente pais a tirarem a própria vida porque não concebiam a ideia de viver sem os filhos. Porque o que acontece quando forem condenados ao tal crime federal? É tudo tão complexo e injusto e nós somos apenas humanos. Cometemos erros.

“Mas os pais são criminosos!”. Aos olhos da lei até pode ser, mas então precisamos procurar soluções para que não seja preciso cometer um crime para se procurar uma vida melhor (e aqui o crime em causa é andar dias a fio sob um sol abrasador, carregando apenas os filhos, a roupa do corpo e uma esperança cega de que vai valer tudo a pena, muitas vezes pagando por documentos que nunca chegam a existir, tantas vezes extorquidos ao máximo…).

Estamos em 2018 e não é razoável que eu tenha de mudar de canal porque a minha filha percebe que algo se passa e pergunta onde está o pai daquela menina que está a chorar.

E por isso abraço-a. E repito-lhe como somos sortudas. E tento explicar que lá fora há quem tenha vidas diferentes, caminhos diferentes, pessoas a cometerem actos de loucura, de amor, de coragem, para tentarem ter aquilo que damos como garantido.

Abraço-a tanto quanto posso e prometo que se algum dia chegar a nossa vez de tomar decisões, tentarei tomar a melhor. Para que nunca tenhamos de viver separadas quando o natural é andarmos mão na mão.

Haverá sempre alguma coisa que se possa fazer.

Em relação que se passa nos EUA, ao que se passa em Itália e na Grécia, em Espanha. Por todo o mundo.

Informem-se, se acharem que é importante ajudar.

Mas, acima de tudo, abracem os vossos filhos.

Porque num destino paralelo, a esta mesma hora, do outro lado do oceano há quem tenha os seus filhos arrancados dos braços, sem piedade. Quem sabe se para sempre.

Sesta? Sim, por favor!

As sestas são, para a grande maioria das crianças portuguesas com mais de três anos, um luxo.

As crianças que frequentam estabelecimentos públicos de ensino no pré-escolar não dormem sestas e isso sempre foi um dos pontos que mais me preocupava relativamente à minha filha.

No início do ano letivo que agora está perto do fim, a minha filha com três anos acabadinhos de fazer, conseguiu entrar para uma escola pública. Na reunião de início de ano com os pais e a direção da escola o pai dirigiu-se à coordenadora para perguntar como funcionavam as sestas, uma vez que a Mariana ainda tinha necessidade de fazer repouso. Como já sabíamos não haveria sestas. Mas na sua resposta, a coordenadora acrescentou: “mas sabemos que há crianças que precisam de descansar, por isso damos-lhes umas mantas e ele enroscam-se e encostam-se a um canto para dormirem, se conseguirem”. Pois. Eu sei. Estamos a falar de crianças e a imagem é de uns pobres miúdos a caírem de sono, com birra e exaustos a caírem contra as paredes porque não aguentam estar em pé.

Que pai gosta de ouvir esta resposta? Que pai, preocupado com as necessidades do seu filho ficaria tranquilo com este tipo de oferta da comunidade escolar.

A Mariana acabou por não ingressar na escola, por este e outros motivos, para nós igualmente relevantes mas não deixo de pensar neste assunto.

Ela está neste momento numa escola que faz o repouso depois do almoço, repouso esse que lhe é essencial.

Sei que todas as crianças são diferentes, nem todas precisam de dormir, nem sequer de dormir a mesma quantidade de tempo.

Na escola da minha filha as sestas vão de encontro a este facto: há crianças que dormem pouco ou quase nada e que se levantam e vão brincar, outras que precisam de dormir quase hora e meia para acordarem com energia renovada. Há espaço para todos.

Mas também isso termina este ano. Quando falo sobre esse assunto, seja na escola, seja com outros pais, refere-se o facto de estarem a caminhar para a escola primária, onde não se dorme a sesta.

Respiro fundo. A escola primária, para uma criança com três anos, está à distância de outros três anos. São três anos em que para se adaptarem a uma realidade que está no fundo do túnel faz com que sejam obrigados a descansar menos do que podem e deveriam.

“Ah, mas há escolas sem condições para deitar as crianças, há turmas heterogéneas, com crianças dos três aos cinco anos e não dá”. Aqui, como em tudo, o essencial é haver vontade. Os catres onde as crianças dormem não são caros e é um investimento que fica de uns anos para os outros, há com certeza espaço para os colocar nas salas.

E se há crianças que não dormem, então podem ser encaminhadas para outras atividades.

Há também quem diga que por causa do tempo letivo que se exige às educadoras que passem com as crianças, seria impraticável. Fico boquiaberta. Porque acredito (e sou apenas uma mãe a falar do pouco que sabe) – que poderia ter de haver um ajuste no planeamento dos dias, até porque com cinco anos o repouso não precisaria de ser longo, apenas o suficiente para as crianças descansarem – estas mesmas crianças estariam mais despertas e abertas a assimilar informação do que estando cansadas.

O sono é determinante para o desenvolvimento cognitivo e essencial para a sociabilização das crianças.

A Sociedade Portuguesa de Pediatria defende que, a curto prazo, a privação do sono na criança passa por distúrbios na modulação do humor e dos afetos, a perturbação da função neuro-cognitiva, alteração do comportamento e alteração motora.

Como já referi, sei que há crianças que não têm necessidade de descansar, têm pilhas intermináveis e é um tormento para os pais conseguirem que elas durmam uma sesta.

No caso da minha filha, mesmo com o repouso depois do almoço, em que em dias quase dorme a hora e meia, acontece adormecer no caminho para casa. Há dias em que chego à escola (e vou busca-la cedo) e ela está animada e a correr, mas assim que quebra noto o cansaço (também porque as noites têm sido complicadas, estamos numa fase em que precisa de um pouco mais para adormecer e isso rouba-lhe minutos preciosos de sono, mesmo fazendo eu um esforço para que ela se deite mais cedo para precisamente ela dormir tudo o que precisa).

Aquilo que eu defendo é que exista escolha. Que as escolas deem essa possibilidade às crianças. Porque há muitas que precisam. Porque há tantas que não dormem as horas suficientes à noite.

Mais uma vez não defendo que a escola substitua a responsabilidade dos pais, mas que seja um complemento essencial para que muitos miúdos possam crescer saudáveis.

A Academia Americana de Medicina do Sono (American Academy of Sleep Medicine – AASM) divulgou em Junho de 2016 novas recomendações onde estabelece períodos mínimos e máximos adequados a cada faixa etária, tendo sido esta declaração subscrita pela Academia Americana de Pediatria (AAP).

Novas recomendações para as horas diárias de sono:

– Lactentes dos 4 aos 12 meses: 12 a 16 horas por 24 horas (incluindo sestas)

– Crianças de 1 a 2 anos: 11 a 14 horas por 24 horas (incluindo sestas)

– Crianças de 3 a 5 anos: 10 a 13 horas por 24 horas (incluindo sestas)

– Crianças de 6 a 12 anos: 9 a 12 horas sono noturno por 24 horas

– Adolescentes de 13 a 18 anos: 8 a 10 horas sono noturno por 24 horas

Por cá, a Sociedade Portuguesa de Pediatria, no ano passado (2017), recomendou a realização de sestas das crianças no ensino pré-escolar. Alexandra Vasconcelos, médica da secção de pediatria social da SPP disse à Agência Lusa que  a falta da sesta nas crianças com idades a partir dos três anos representa um “grave problema de saúde pública”, acrescentando que “se as creches não fornecessem uma refeição toda a gente se indignava. A falta de uma sesta é igualmente grave”. A recomendação da SPP ressalva que, depois dos quatro anos, nem todas as crianças necessitam de realizar a sesta de forma regular pelo que “a família e a educadora de infância deverão avaliar, em conjunto, a necessidade da sua prática em cada criança”.

E é tão isto aquilo em que acredito.

Escolha.

Trabalho conjunto entre pais e educadores.

As crianças a serem avaliadas como indivíduos e não somente como parte integrante de um grupo.

Um futuro melhor.

Para todos e a começar na infância.

Para que possamos dormir todos descansadamente à noite, com a cabeça pousada na almofada.

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Somos fruto de uma soma, não de divisão

Acredito que todos temos um propósito, que viemos ao mundo – seja por quanto tempo for – para o transformar de alguma forma.

Há quem passe uma vida inteira sem perceber qual o sentido de andar por cá, sem por isso se aperceber que provavelmente está a ensinar a alguém lições valiosas.

Somos a soma do amor que em nós foi depositado, dos planos que foram feitos, mesmo quando não fomos planeados ou “desejados”.

Somos a soma das nossas experiências, das nossas escolhas, das pessoas que tivemos e temos à nossa volta.

Somos para os nossos filhos muitas vezes mais do que os nossos pais foram para nós e, outras tantas, menos.

Ensinamos como sabemos, às vezes sem saber ensinar.

Lamentamos coisas erradas, agarramo-nos a sentimentos e por vezes a coisas. Deixamo-nos ir abaixo, erguemo-nos e caminhamos, mancos ou com energia, conforme a vida e o destino nos deixam.

Cometemos os mesmos erros repetidamente, conseguimos inclusivamente saber antecipadamente que o vamos fazer e gostaríamos de o poder evitar. Noutras alturas evitamos esses erros e sentimos alguma glória nessa conquista, que nos enriquece.

Fraquejamos, rimos, choramos. Muitas vezes sozinhos.

O nosso caminho é solitário, mesmo quando temos uma família grande, quando estamos rodeados de amigos e temos filhos, um, dois ou cinco. Porque o nosso caminho é feito pelas nossas pernas e os “pesos” que carregamos por vezes fazem-nos demorar mais um pouco em alguns lugares, outras vezes permitem-nos ficar onde somos esperados. Mas o nosso caminho só pode ser feito por nós.

Temos a responsabilidade de deixar aos nossos filhos algumas respostas que os nossos pais não nos deram.

Temos a responsabilidade de, à nossa maneira, deixar o mundo diferente do que o encontrámos, preferencialmente melhor.

Temos a responsabilidade mas também temos as recompensas, se as soubermos identificar, se com elas conseguirmos sorrir e agradecer.

Às vezes esquecemo-nos de valorizar as pequenas conquistas do nosso dia a dia.

De agradecer o que de bom temos, mesmo que seja muito pouco. Porque por mínimo que seja, está lá e faz de nós humanos. Faz de nós pais que querem o melhor para os seus filhos e eles só serão seres humanos melhores que nós se lhes mostrarmos o caminho.

Em muitos casos isso não será suficiente.

Haverá filhos que não deixarão os seus pais orgulhosos.

Haverá filhos que terão caminhos que são um “retrocesso” em comparação com o que foi trilhado pelos pais (e não, não falo de conquistas financeiras, de trabalho, estudos, casas ou número de carros na garagem e carimbos no passaporte).

Haverá filhos que vieram fazer uma viagem diferente da nossa.

Com outro propósito, com outras lições.

Com uma vida aparentemente triste, por vezes.

Mas enquanto mãe, se for esse o meu caso, quero sentir que a vida que trouxe a este mundo tem um significado e o sabe. Que sabe que foi amada e o será para sempre, enquanto viverem as pessoas que cresceram do seu lado.

Que mesmo que o seu percurso não seja tudo aquilo que está escrito nas estrelas ela viveu e não ficou presa às expectativas, aos sonhos alheios, ao que a sociedade esperava que fizesse só para se encaixar no padrão.

No fundo, acho que todos viemos a este mundo com a missão de nos encontrarmos.

E alguns, os mais sortudos de nós, encontram-se uns aos outros no caminho.

E isso já valeu a pena.

Mãe, estás contente?

Os nossos filhos vêem-nos como somos e não como achamos que somos.

Muitas vezes, ao longo da vida, enganamo-nos. Enganamo-nos para continuarmos o nosso caminho sem nos sentirmos tão culpados por aquilo que fazemos e que sabemos que deveríamos fazer de outra maneira.

Ao longo da vida enganamos os outros, voluntária ou involuntariamente, pelo simples facto de aceitarmos a opinião que os outros têm de nós sem a corrigirmos, principalmente quando essa opinião é positiva.

Com os filhos não há nada disso.

Podemos saltitar de pedra em pedra mas eles sabem que não estamos a voar.

Vêem-nos como super heróis por fazermos coisas que a eles ainda são inacessíveis, vêem muitas vezes as nossas qualidades quando duvidamos delas, e muitas vezes apontam os nossos defeitos quando menos esperamos.

“Mãe, por favor, não fiques zangada. Não quero que fiques zangada”.

Esta frase tira-me metade do coração quando a oiço.

E às vezes ela chega para me lembrar que quando chamo a minha filha à atenção ela vê o que eu não vejo, porque estou dentro de mim. Ela vê o cansaço, ela vê alguma impaciência, ela vê alguma tristeza.

Acho que é importante que ela perceba que os seus actos têm consequências, acredito que ela tem de perceber que quando me magoa deve ter à sua frente alguém que demonstra os seus sentimentos sob pena de crescer a achar que a mãe foi sempre um muro de aço perante as coisas menos boas da vida e que demonstrar os nossos sentimentos é uma fraqueza. Não é, pelo contrário.

Mas quando ela me vê naquela culpa e tristeza sinto ainda mais culpa e mais tristeza, essa sina eterna das mães.

Quero que perceba que as coisas não desaparecem segundos depois de acontecerem, mas não quero que tenha receio que eu me zangue. Quero que faça as coisas, tome as suas decisões pelos motivos certos e não com medo de me deixar triste.

Sei, também, que há alguma inevitabilidade em crescermos a não querermos desiludir os nossos pais e que isso faz parte.

E por isso, ao ver-me ao espelho quando me zango, através dela, através da forma como ela me vê, sei de imediato aquilo que tenho de tentar mudar.

E é por isso que o diálogo é tão importante.

E é por isso que a pergunta “estás zangada?” nunca é seguida de um “mas é claro que sim”, um virar de costas e ir embora.

Eu fico. Eu baixo-me para falar com ela a olhá-la nos olhos. Eu explico o que estou a sentir e porquê. Explico o que acho que devia ter acontecido de outra forma, muitas vezes inclusivamente falando do eu EU deveria ter feito de outra forma, porque aqui não há só um culpado.

E depois abraçamo-nos. E ela, sem falhar, pede desculpa se tem de o pedir e jura que não volta a fazer.

Já percebi que uma das coisas que mais desespera a minha filha é sentir que me falhou.

Mas ela não me falha. Simplesmente está a crescer. E crescer custa, dá trabalho e é um percurso recheado de bons e maus momentos.

Seguimos caminhos errados, testamos limites, somos diferentes do que esperamos que sejamos.

E isso não vai mudar, porque hoje, aos trinta e dois anos, continuo a fazer o mesmo que ela aos quase quatro.

E por isso quero que ela sinta que não vou fingir que não vejo quando ela age de forma errada, mas quero que saiba, que sinta, que não tenha  menor dúvida que, principalmente nesses momentos espero por ela para lhe dar a mão e encontrarmos uma maneira de melhorar. As duas.

Ser mãe não é fácil, principalmente porque também nós estamos a seguir o nosso percurso, a evoluir, a mudar, a encontrar novas ferramentas, novas convicções.

Ser mãe não é fácil pelo que se espera de nós, pelo que esperamos de nós.

Mas sabermos que não fazemos esse crescimento sozinhas ajuda.

E eu não estou sozinha porque a tenho a ela, a aprender comigo e a ensinar-me mais do que dezassete anos de escolaridade me ensinaram.

E não, meu amor, não estou zangada. E se estiver, passará.

Porque tudo passa, menos nós.

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“Mãe!” é a palavra mais dita em todo o mundo (aposto)

Eu, que já passei dos trinta, continuo a chamar pela minha mãe quando estou feliz, triste, desanimada, desesperada, sem rumo, quando recebo boas notícias, quando não sei de alguma coisa, quando preciso apenas de falar.

E é por isso mesmo que ainda que seja exasperante compreendo a minha filha, que repete o meu título honorário como se não houvesse amanhã.

Mas, afinal, para que servem as mães?

Dizem que ter filhos é andar com o coração fora do corpo. Por essa linha de raciocínio há um coração que nunca se sente completo, porque o corpo onde ele foi gerado inicialmente tem de viver sem ele, à margem dele.

Daí talvez esta relação próxima que existe com as nossas mães, a nossa com os nossos filhos.

Fomos feitos para sermos inseparáveis mesmo quando temos de seguir caminhos diferentes.

A nossa mãe é a garantia de que nunca estaremos sozinhos, mesmo quando ela já não estiver por perto. É a certeza que por mais que a vida nos derrube, haverá sempre aquela voz, do outro lado do telefone, mesmo à nossa frente, ou em memória, que nos garante que conseguimos dar a volta. Que somos capazes. Que ela vai torcer por nós.

Quem tem, ou teve um dia, uma boa mãe tem uma herança para a vida.

Tem um exemplo, tem um caminho já trilhado para ir tirando notas sobre o que fazer e o que evitar.

Tem um admirador número um, tem alguém que nunca o quis desiludir, mesmo quando não foi capaz de ser melhor.

Uma mãe nasce quando há a vontade de se ter um filho. E a partir daí a luta é conjunta. A corrida é feita de mãos dadas, a primeira vez que há um olhar, um toque, marca o início de um amor já palpável.

O amor entre uma mãe e um filho, por mais que se tenha tentado, é impossível descrever. Ainda está por inventar uma palavra que seja sinónimo da grandiosidade deste sentimento, desta forma de pertença, desta experiência cheia de altos e baixos em que por mais que haja falhas, nunca falha o amor.

Irei chamar a minha mãe sempre, enquanto tiver o privilégio de a ter por perto. E depois irei fazê-lo baixinho (como, confesso, às vezes já faço quando não estou preparada para lhe dizer algumas coisas).

E irei sempre responder ao chamamento da minha filha.

Porque não existe outra maneira de existir.

Afinal, sou mãe.

E mãe é mãe e basta.

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A minha experiência com o sono

Muitas vezes acho que nos fechamos demasiado sobre os nossos próprios problemas e temos alguma dificuldade em olhar em volta. E devíamos fazê-lo, para nosso próprio beneficio, porque assim conseguiríamos relativizar algumas situações.

Há uns tempos uma amiga recém mamã queixava-se que a sua bebé de três meses acordava durante a noite (à meia noite, às três e às seis) e dizia-o como se isso significasse que toda a sua existência fosse super dolorosa. E não deixa de ser, porque aqueles pais acordam duas vezes à noite (para mim as seis já contam como manhã…) e isso significa um descanso interrompido com todas as consequências que daí advém.

E eu fiquei a pensar no meu caso: durante dois anos e meio a minha filha acordou religiosamente todas as noites. Não teve aquela fase do “depois isso passa”, porque deveria ter acontecido ainda com alguns meses. Não, ela chegava a acordar três e quatro vezes já crescidinha. O meu corpo habituou-se, por mais que pudesse custar no dia seguinte – e custava, principalmente depois de voltar a trabalhar. O cérebro teve de se adaptar e eu, enquanto mãe e mulher, aprendi a gerir estas interrupções do sono sem nunca colocar um peso nem culpa na minha filha. Se ela precisava eu estava lá, como estou sempre, como estarei sempre. Mas a minha filha chamava, mamava, voltava à cama e dormia de imediato. E fui sempre agradecida.

Há crianças que não conseguem adormecer cedo.

Há crianças que acordam durante a noite e não voltam a dormir.

Há crianças que dormem tão pouco tempo que chega a ser impressionante como conseguem ser funcionais.

Tive uma colega de trabalho que partilhava a rotina lá de casa, durante três anos (depois perdi o rasto a esta situação) o filho acordava a meio da noite. Tinha já uma escala estabelecida, um dia ia lá ela, no outro o marido. E assim conseguiam ir dormindo, mais ou menos melhor do que se fosse lá sempre o mesmo. E eu lembro-me de pensar, ainda sem filhos, que devia ser muito difícil conseguir estar bem, pensar com clareza, trabalhar com competência, ter sentido de humor e boa disposição, não resmungar a qualquer interação humana. Admirei-a naquele momento, como continuo a admirar, porque ela conseguia fazer tudo isso, não dormindo uma noite seguida há três anos.

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