Os clássicos Disney e a mensagem para as nossas miúdas

Recentemente a actriz britânica Keira Knightely veio a público dizer que a sua filha de três anos está proibida de ver alguns clássicos da Disney, como a Cinderela, pela mensagem que passam, de que a mulher deve esperar que um homem venha salvá-la dos seus problemas.

Percebo o que ela quer dizer, é claro, mas acredito que esses filmes têm muito valor e são uma boa porta de entrada para a abordagem de vários tópicos e que podem ajudar a espalhar uma mensagem de igualdade de género, nem que seja pelo exemplo: viste o que ela fez e devia ter feito em vez disso?

Sou da opinião que o maior problema desses filmes é passar a ideia de um felizes para sempre, que bem sabemos não é assim tão plausível quanto isso. Porque a vida é feita de ciclos e depois de alguns obstáculos haverá outros e é isso que nos leva para a frente, nos fortalece ou nos machuca, faz de nós aquilo que somos. Nos ensina a valorizar a felicidade pelo que ela é, o que sentimos no momento – e isso deve ser mais valorizado do que a busca por uma felicidade inatingível que estará lá para sempre.

Ainda assim, aqui vai a forma como encaro os clássicos e como me ajudaram a conversar com a minha filha:

– A Branca de Neve e os Sete Anões: 

A vaidade é algo que tem o seu lugar mas se torna perigoso se se tornar uma obsessão. 

Se alguém vier ter contigo e te disser que alguém a mandou fazer-te mal, chama ajuda e não fujas. Não te escondas. Fala com alguém e conta o que aconteceu.

Nunca, mas nunca aceites coisas de estranhos.

Se alguém te disser “és tão bela, anda daí no meu cavalo em direcção ao horizonte” faz o favor de lhe perguntar primeiro o nome e de o conhecer antes de tomares qualquer decisão.

– A Bela e o Monstro:

A importância dos livros, porque ler é uma das maiores armas que uma mulher pode ter. Quando Gaston diz que não é certo para uma mulher ler porque pode ficar com certas ideias, não há nada mais certeiro que esse argumento para falar sobre a importância da cultura, da educação. Até mesmo da forma e do papel que a mulher teve na sociedade antes dos nossos tempos. De como as coisas mudaram. De como somos sortudas.

Não devemos ter vergonha de sermos diferentes, mesmo que isso faça os outros cochicharem sobre nós. Muitas vezes o problema está na pessoa que julga e não em ti.

A Bela era super especial por não querar casar com o rapaz mais bonito da aldeia só porque ele queria: ela não queria e isso basta. É importante saber dizer “não” mesmo quando há pressão para dizer “sim”.

Devemos sempre proteger os nossos pais, defendê-los e acreditar neles.

Devemos tentar conhecer as pessoas para lá da sua aparência – da boa (o caso do Gaston) e da má (o caso do monstro) e aí decidir se queremos que façam parte da nossa vida.

– Cinderela:

O nosso lado bom deve sempre prevalecer.

A maneira como os outros nos tratam não deve fazer com que nos tornemos maus como eles, nunca.

Devemos ser amigos dos animais.

Cantar pela manhã ajuda a começar o dia. ?

Se te disserem que não consegues fazer alguma coisa e acreditares que consegues, tenta até ao fim (se for bom para ti, se for bom para os outros e não faltar ao respeito a ninguém).

Se estiveres num sítio onde não te sintas bem nem feliz é legítimo que te vás embora. Talvez assim não vás àquela festa nem conheças o príncipe, mas o teu caminho pode passar bem longe daí.

– Pequena Sereia:

Nunca, mas nunca, abdiques da tua voz, seja qual for o teu objectivo, mesmo que ele pareça nobre e maior que tudo. A tua voz é a tua maneira de te fazeres ouvir e de continuares a ter um lugar neste mundo.

Aceita as tuas características, mas se sentires que elas te limitam não deixes de sonhar com um futuro em que é possível ultrapassá-las (sem nunca trocares esse sonho pela tua voz, mais uma vez).

Há coisas que manteremos sempre para nós. Há coisas que devemos contar aos nossos pais e falar com eles mesmo que tenhamos opiniões divergentes sobre os assuntos – esta partilha, esta comunicação pode evitar que nos metamos numa grande alhada.

Não é errado querer coisas diferentes. Mas sê cautelosa. E rodeia-te das pessoas certas. Sempre.

Sou apaixonada pelos clássicos da Disney e as interpretações que fiz deles tem mudado à medida que eu também mudo. E é por isso que não privo a minha filha de os ver, porque acho que a magia que transportam é essencial para os sonhos. E porque não sou antiprincesas, sou apenas da opinião de que nem todas deveremos ser princesas e não está escrito que todas queiramos o mesmo, vemos juntas. E conversamos.

Muito sobre como as coisas eram naquela altura, como são hoje.

O que mudou e o que ainda tem de mudar. Porque estes filmes são, acima de tudo, parábolas e se formos literais muitas vezes corremos o risco de perder o mais importante na mensagem.

A minha filha é uma princesa guerreira e tenho muito orgulho nisso.

O pai Natal é imortal

Nesta época de Natal tenho tido conversas incríveis com a minha filha sobre o universo do cristianismo e o universo pagão, que andam tantas vezes de mãos dadas.
No outro dia perguntava-me afinal o que é que Jesus fazia. E eu expliquei o melhor que consegui, que falava sobre as coisas, punhas as pessoas a pensar sobre os assuntos, dava exemplos e ensinava as pessoas sobre as coisas importantes na vida: a bondade, a partilha, etc.

E ela olhou para mim “e as pessoas ouviam?”.

E eu disse que sim porque ele falava de coisas que as pessoas não estavam habituadas a ouvir. E isso ajudava-as a tornarem-se melhores. E ela contou-me que tinha sido como Jesus, nesse dia na escola. Que tinha ensinado tal a um amigo, partilhado aquilo com outro e que o primo tinha aprendido Y e por isso continuavam a fazer como Jesus. E ali eu tive a verdadeira essência do cristianismo à minha frente. Deixei essa liberdade poética acontecer. Mais tarde teremos outras conversas, se ela as quiser ter.

Depois veio perguntar-me onde andava o São José. E eu expliquei que já não estava entre nós. Porquê, mãe? Porque já morreu. Morreu porquê? Porque já era velhinho. Já tinha vivido muito e tinha tido uma vida boa, por isso
aconteceu como acontece a toda a gente. Morreu e foi para o céu. A toda a gente não, mãe.
Olhei-a.

O Pai Natal não morre. O pai Natal é imortal.

E eu sorri e disse que não, sem grandes explicações. E o pai disse que era o pai Natal e o Duncan Mcleod dos Imortais, mas dei-lhe uma pisadela debaixo da mesa e ele mordeu os lábios a rir.

Noutra altura, no jardim de nossa casa onde há um presépio de luzes com formas em tamanho real, a minha filha perguntou por que é que São José tinha um cajado. Se era velhinho. E eu expliquei que não, que tinham feito uma caminhada muito grande, ele a pé e Nossa Senhora em cima de um burro e o cajado ajudava na caminhada. Ela ponderou e disse que podiam ter ido os dois
em cima do burro ou Maria podia ter trocado de vez em quando com ele. Disse que o burro não aguentava com duas pessoas e Maria precisava mais da boleia porque estava grávida e quase em fim de tempo. E que ela trocou algumas vezes com José para esticar as pernas e caminhar e ele descansar um pouco. Ela gostou da resposta.

Para ela as coisas são simples mesmo quando são complicadas. E desejo que o espírito do Natal se mantenha assim na vida dela.
Como o Pai Natal. Imortal.
Boas Festas para todos!

A educação e inclusão na vida dos nossos filhos

Hoje falava com uma pessoa amiga, mãe, que me dizia, de lágrimas nos olhos, que sentia que o seu filho era tratado de maneira diferente por não ser português.

Eu, habituada às nossas conversas num outro tom, estaquei. Olhei-a, como se fosse a primeira vez e eu própria senti as lágrimas a molharem-me os olhos.
Quis dizer que era impressão sua, que não podia ser assim, mas à medida que ela ia falando fui percebendo que, estando no mesmo sítio a fazer as mesmas coisas, pura e simplesmente, não me tinha apercebido. E eu sou atenta, preocupada.

Mas não vi.

Ela disse-me que é porque não tenho esse preconceito, porque ajo com ela, com o filho, com toda a gente, da mesma forma e, por isso, nem sequer pus em causa que pudesse ser de outra forma. E está certa.
Sabem aquele momento nos filmes em que a mulher percebe finalmente que o marido a trai e depois começa a ligar todos os pontos e percebe que esteve sempre à sua frente? Foi assim que me senti, a reviver todos os momentos e a dar-lhe razão. E com o coração partido por, no meu lugar de privilégio, nunca ter notado.

Quis dizer que entendia, que compreendia, mas na verdade não é possível nenhuma dessas coisas sem sentir na pele. Não sei o que é sentir que tratam os nossos filhos como alguém menos digno de carinho, afecto ou consideração apenas porque a sua origem é diferente. Magoou-me enquanto portuguesa, feriu-me enquanto mãe. Não aceito uma coisa destas, não acho legítimo nem justo. E sei que está em todo o lado, em várias situações no dia a dia.

No caso destas pessoas ambos os filhos nasceram em Portugal e são, na verdade, portugueses, apesar de os pais serem emigrantes. E estes filhos ainda não pequeninos para, na maioria das vezes, perceber a diferença de tratamento mas os pais sentem. E vivem isso diariamente.

E sofrem a angústia do futuro dos filhos.

Eu tento falar com a minha de diversidade, e andando ela numa escola multicultural com um aclamado projecto de inclusão e integração de várias comunidades, sei que lida diariamente com a diferença, de tal forma que para ela não é assim tanta diferença do que para outros meninos que partilhem o seu espaço só com crianças de origem semelhante. Isto para dizer que no outro dia, já não consigo precisar a propósito de quê, lhe disse mais uma vez a minha célebre frase “somos todos diferentes”. E ela revidou, “mas a minha educadora diz que nós somos todos iguais”.

Parei.

É a mesma abordagem para a mesma temática e para a minha filha aquilo parecia que estávamos cada uma a dizer uma coisa. E por isso expliquei que isso queria dizer a mesma coisa. Somos todos diferentes e devemos aceitar as diferenças com respeito e somos todos iguais, temos direito às mesmas coisas e os mesmos deveres.

Ela percebeu.

Vivemos num tempo em que ainda se dizem coisas terríveis como “volta para a tua terra”. Mas as pessoas esquecem que no seu ADN têm as mais variadas origens. Que os seus antepassados e até gerações mais recentes, andaram pelo mundo, vieram e foram de e para os sítios mais distantes no planeta. Por isso já começa a ser um bocadinho absurdo mandarmos as pessoas seja para
onde for em vez de tentar fazer como que sejam bem-vindas, incluídas e contribuam todas para o bem comum.

Não sei se a minha filha vai viver sempre em Portugal ou se haverá um dia em que a estrangeira será ela. Mas desejo-lhe o mesmo que desejo para os filhos dos outros: muito amor, respeito, paz e oportunidades de mostrar o que vale e o que é apesar de onde vem.

Da próxima vez que qualquer um de nós estiver em contacto com alguém diferente, seja essa diferença qual for, pensemos um pouco antes de agir.

Às vezes, só essa pausa já pode mudar tudo.

Porque se pararmos muitas vezes somos a melhor versão de nós mesmos.
Como se espera que os nossos filhos também sejam.

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O dia em que desenhei um coração para falar de amor

Continuas a testar limites, meu amor.

É assim que vais encontrando as balizas da tua acção, é assim que percebes até onde podes ir – até onde te deixo ir.

Às vezes com graça, outras só com muita lata, vais dando mais um passo, só para ver o que acontece.
E algumas vezes o que acontece é seres chamada à atenção, porque a situação assim o exige.

Digo-te sempre que o que mais quero é que sejas feliz e é verdade.

Mas também é verdade que quero que sejas bem formada, que tenhas valores, que respeites os outros e te respeites e isso só vai acontecer se cresceres para ser uma pessoa boa, decente. E é por isso que aqui estou, a chamar-te à atenção, a ralhar-te.

Por vezes percebes de imediato a asneira e ainda não olhei para ti e já estás a pedir desculpas. De outras precisas de uma longa conversa. E há ainda as outras em que tenho de subir de tom.

Tento ser sempre justa como foram comigo e se a minha argumentação é legítima tenho de enfrentar as consequências e muitas delas passam por ver-te a ficar desiludida ou triste. Sou tua amiga mas, acima de tudo, sou tua mãe. E não ponho esse papel em pausa só para te poupar a frustração.

E acontece também achares que por não estar a sorrir, fazer cara séria e colocar os pontos nos is, possa gostar menos de ti.

Foi por isso que desenhei um coração.

Grande, como eu. Onde cabem tantas coisas e tantas pessoas. Onde o teu lugar é cativo. Para que entendas, precisamente, que o teu lugar é cativo.

Desenhei o meu coração e preenchi-o. Mostrei-te onde estava o meu amor por ti. E depois desenhei um coração mais pequeno, igualmente cheio.

E expliquei que diminuiu de tamanho por estar triste angustiado. Como às vezes te digo que o meu coração está deste tamanho (mostrando o espaço entre o indicador e o polegar como exemplo) para que percebas como estou triste quando acontece algo que gostávamos que fosse de outra forma.

E disse-te que o meu amor por ti está lá dentro do meu coração e esse não diminui, não encolhe, preenche-o por completo, faças tu o que fizeres. Mas que coração de mãe não é de ferro e por isso não é duro: para o bem e para o mal.

Percebeste.

Quando te deitei há algumas noites disseste-me que o teu coração estava assim e mostraste os dois braços abertos. Querias dizer que foi um dia bom.

Que gostavas quando eu te cantava ao ouvido ao deitar, quando te fazia miminhos ao dizer boa noite.
E eu respondi que o meu também. Que são muitos mais os dias em que o meu coração mal cabe no peito do que aqueles em que está a precisar de aumentar de tamanho.

Falo-te de amor da melhor maneira que consigo, toscamente por vezes.

Porque o amor, mais do que ser falado ou explicado é para ser vivido.
E tento, dou o meu melhor, para que esteja em todos os gestos da nossa interação.

O coração de mãe não é de ferro, mas o seu amor é para sempre.

 

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Pedir desculpas aos filhos: sim ou não?

Tenho verificado que, para muitos pais, o pedido de desculpas – quando é devido por eles – fica por dizer.

Há quem defenda que por uma questão de separação de águas e demarcação da hierarquia, os pais não devam pedir desculpas.

No meu caso tenho feito um trabalho que começa no que considero ser mais importante – o fomento da empatia.

Sei que como em todas as regras, estas têm de ser implementadas sem dar grande destaque à excepção, para que a dita regra não seja constantemente minada antes de ser apreendida. E, por isso, ensinamos os nossos filhos a pedirem desculpa sempre que se faz ou diz algo que não se devia ter dito ou feito.

O resultado é, muitas vezes, a criança acabar por pedir desculpa como um automatismo de resolução de um conflito, esteja ou não arrependida do que acabou de fazer. E por isso, para mim, é um pedido de desculpas vazio e que tenho relutância em aceitar (vindo de crianças mas tantas vezes de adultos…).

Por este motivo tento que quando a minha filha pede desculpas o sinta. Se ponha no lugar do outro. Mostre arrependimento, sem dramas. Ajustando naturalmente à cabeça e aos comportamentos de uma criança de quatro anos.

Assim sendo, e acreditando eu na educação através do exemplo, acho importante – se não mesmo essencial – que os pais encontrem em si a humildade suficiente para pedir desculpas no momento que assim o exige.

Isto não deforma negativamente a maneira como a criança olha o adulto, fortalece os laços de confiança e segurança.

Porque se vê no adulto de referência alguém que faz o que ensina (e não o “faz o que digo, não faças o que eu faço”) reconhece os erros e mostra vontade de, de forma saudável, revisitar o que aconteceu – para conversar sobre os motivos, para que não volte a acontecer, pelo menos da mesma forma.

Acredito que se assim não for então a relação que as nossas crianças vão estabelecer com as figuras de autoridade e com aqueles que estarão acima ou abaixo deles na hierarquia no trabalho, por exemplo, estará desde logo condicionada. Queremos todos que se transformem em adultos/trabalhadores/amigos/colegas/pais/pessoas capazes de pedir desculpas. E todos já sentimos como é importante que situações de injustiça sejam sanadas. Que ter um chefe que sabe reconhecer que devia ter seguido outro caminho, pode mudar a forma como encaramos as nossas relações com os outros.

Na minha sala tenho uma daquelas tábuas com frases que ditam as regras da casa. Duas delas são “sê agradecido, pede desculpas”

Por aqui as regras são como o amor. São universais.

E valem para todos.

A depressão dos que nos rodeiam.

Não tenho nem ligo a redes sociais, fruto de sentir que o impacto muitas vezes era negativo e algo que trazia poucas coisas significativas à minha vida.

Ainda assim e por questões profissionais giro uma conta ligada ao livro que editei no ano passado. Por este motivo “sigo” e sou “seguida” por pessoas um pouco por todo o mundo e tenho acesso a alguma realidades que me são muito importantes para o domínio da escrita e para a forma como falo sobre a realidade e as emoções.

Ultimamente tenho vindo a aperceber-me que existem várias pessoas (a faixa etária encontra-se entre os 19 e os 30 anos) que lutam diariamente com doenças como a depressão.  São pessoas que usam estas redes sociais. Muitas vezes sob o anonimato de contas com uma vertente profissional, para veicular o que sentem e o que lhes passa pela cabeça. E tenho vindo a entrar em contacto com a maior parte delas.

Só esta semana e recorrendo aos stories, por terem uma duração inferior a vinte e quatro horas – o que faz com que o que é partilhado desapareça depois desse tempo – vi pedidos de ajuda camuflados, jovens a falar sobre o desespero que sentem em estarem vivos, o julgamento e pressão que sofrem quando se abrem sobre a doença que têm, a falarem sobre a possibilidade de se suicidarem.

Como mãe (e como ser humano) sou incapaz de seguir a minha vida sem estender a minha mão (virtual, é certo). Porque as redes sociais servem também para isto.

Para que as pessoas sintam que não estão sozinhas, por mais abandonadas e isoladas que se sintam.

Esta geração é muitas vezes julgada por se considerar que não há motivos para tamanha tristeza, porque é uma geração privilegiada, que tem muito mais do que a que os seus pais alguma vez sonhou ter. O pensamento é basicamente “tens uma vida tão boa, por que é que hás-de estar tão triste?”. Li algures que para alguém que está a sofrer de depressão este tipo de comentário é como perguntar a um asmático “se há oxigénio por todo o lado por que raio não consegues respirar em condições?”.

Fala-se também de a depressão ser uma doença de “gente rica”. Que os pobres não têm tempo para ficar a deprimir e isso é algo injusto para os dois lados do expectro. Simplesmente há quem tenha maior possibilidade de pedir ajuda e quem tenha de encontrar formas de funcionar mesmo quando está apenas em piloto automático.

As pessoas que falaram em suicídio mostraram reservas pelos que ficam como sendo um dos maiores motivos para não seguirem em frente. O que em si é de um peso enorme também.

Às vezes vou no metro e dou por mim a pensar que não sabemos realmente nada uns sobre os outros. Só sabemos o que as pessoas partilham, o que escolhem partilhar.

Porque por trás de uma pessoa sorridente, constantemente bem disposta pode estar alguém a passar por uma batalha interna imensa.

E por isso considero que devemos ser sempre gentis, em todas as circunstâncias.

Há famílias que perderam entes queridos e que vivem com a culpa de não ter conseguido antecipar, evitar o que aconteceu. Muitas vezes não há pistas.

Mas muitas vezes elas estão lá.

Temos, algumas vezes sem maldade, a tendência de desvalorizar os sentimentos dos outros. Inclusivamente por querermos que ultrapassem o que estão a sentir.

Acredito que temos de abrir os braços. Fazer chegar às pessoas que nos rodeiam a ideia que são importantes mesmo que não se sintam assim. Que têm um lugar neste mundo, mesmo que o caminho pareça turvo e haja pouca expectativa ou ausência de sonhos. Temos de deixar as pessoas chorar (é tempo de deixar de lado o constrangimento e dizer que faz parte). Temos de aceitar que não vemos todos o mundo da mesma forma, não sentimos a dor da mesma maneira, não temos todos as mesmas ferramentas para lidar com os problemas.

E temos de perceber que muitas vezes não existe “a” razão. Simplesmente a pessoa sente o que sente e ponto final. E isso não deve ser desvalorizado nem relegado para segundo plano porque “devias ver o que é ter problemas a sério”.

Como humanos temos a sorte de ter vindo a desenvolver uma série de competências sociais que nos permitem viver em comunidade. O que nos falta aprender é olhar em volta e perceber como somos todos tão diferentes. Todos capazes de sentir coisas tão profundas que nos fazem pôr em causa a nossa existência.

Como mãe espero que a minha filha seja sempre feliz.

Que encontre sempre formas de ver o copo meio cheio e não meio vazio. Que saiba que pode estar triste, sentar-se ao meu lado e simplesmente estar em silêncio se não quiser falar. Que estou ali para a ouvir se me escolher como receptora das suas verdades. Que mesmo que um dia se sinta desesperada saiba que estou aqui. E que farei o meu melhor para a compreender, mesmo que ela própria possa não conseguir fazê-lo.

A todos os que estão a passar um mau bocado: vai passar, às vezes só é preciso continuar a remar.

A todos os outros que remam sem se aperceberem do esforço que isso requer. Olhemos em volta, ajudemos a remar quem precisa.

 

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Carta a um jovem universitário

Estás a começar uma etapa importante da tua vida.

Já ouviste dizer que é determinante, que vai mudar tudo e por isso sentes algum peso sobre os ombros.

O peso dos teus sonhos, o peso da responsabilidade, o peso de não teres a certeza na maior parte das vezes… Eu sei e quero que saibas que não estás sozinho.

Que o curso que escolheste pode definir o teu percurso, mas não é uma marca a ferro na tua pele que possa determinar de forma definitiva o que vais fazer com esse futuro.

Acredita que, se te permitires, vais fazer uns quantos bons amigos. A ilusão talvez seja de que vão ser dezenas, mas no fim, como em tudo na vida, só ficam os que importam.

Acima de tudo vais conhecer-te melhor. Vais ser confrontado com situações que são inéditas para ti e aprender com as respostas que vais dar a cada um dos desafios.

Vais sentir-te no topo do mundo e, em alguns momentos, sentir-te muito só.

Vais questionar as tuas escolhas. Afinal para que servem aquelas cadeiras teóricas cuja bibliografia em três línguas não te dizem absolutamente coisa nenhuma.

Vais pensar desistir. Vais pensar em levar até ao fim só porque é isso que esperam de ti.

Lembra-te que, acima de tudo, o que se espera de ti é que cresças. E isso significa pores os teus problemas em perspectiva. Pores as tuas relações na balança, os teus sonhos sob escrutínio (teu!!!), as tuas decisões na almofada à espera de uma resposta quando o sol nascer.

Deixaste para trás anos de ensino pensados para todos de igual forma e é-te dada a oportunidade, ainda que de forma algo generalista, de te encontrares nas páginas dos livros que lês, dos trabalhos que te são atribuídos, no convívio nas apresentações de grupo, nas aulas práticas e nas horas de estágio. Na partilha de apontamentos e truques, experiências sobre os professores e aquelas cadeiras que parece que nunca vais conseguir fazer.

E claro, fora dos anfiteatros, nas jantaradas, saídas, directas. Nas novas amizades, nas novas paixões, nas desilusões.

Espera-se de ti que cresças no meio desse turbilhão e, acredita, é possível.

Também é possível que te percas pelo caminho, que cometas um ou outro erro, que faças asneiras, que digas coisas que não devias ter dito, que bebas mais do que seria desejável. Seres confrontado com avanços indesejados, com substâncias que não te interessam, com pessoas que não te dizem coisa alguma. O importante é o que vais fazer depois de tudo isto acontecer. Saber pedir desculpas, tomar um banho de água gelada, nunca pegar no carro depois de beber nem com quem tenha bebido. Saber dizer não e fazer a tua voz ser ouvida.

Os anos que agora estás a começar são importantes. Irás olhar para trás, por cima do ombro, e lembrar-te deles. Faz os possíveis para que as memórias desses tempos sejam positivas, que te deixem um sorriso.

E lembra-te, esses anos não são iguais para ninguém. Não te sintas pressionado a viver o mesmo que os outros, mesmo que os outros sejam as pessoas mais importantes para ti.

Tenta descobrir quem és sem nunca desrespeitares os outros.

Sem nunca te desrespeitares a ti.

Estuda. Por mais difícil que seja.

Dedica-te, por menos perspectivas de futuro que existam.

Esses anos vão passar a voar. Aprende a deixa-te levar e a não remar contra a maré.

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Como elogiar os nossos filhos

O elogio, sentido e verdadeiro, está na base da construção de uma auto-estima sólida e duradoura.

Como as primeiras testemunhas das pequenas conquistas dos nossos filhos, é da nossa boca que ouvem os incentivos que mais importam.

Uma criança que cresce sentindo que os seus actos importam será um adulto mais consciente não só das suas capacidades, mas também do mundo que o rodeia: mais aberto a sentir-se como parte de um todo, uma parte importante e construtiva.

Sou adepta do elogio, mas acredito que nem todo o elogio é benéfico e é por isso que devemos pensar antes de o proferir.

Por exemplo, dizer constantemente aos nossos filhos como são inteligentes pode passar-lhes a sensação de que isso lhes basta. De que como são inteligentes não terão de se dar ao trabalho de fazer certas coisas porque já têm como dado adquirido essa característica intelectual. No caso acho mais responsável elogiar o esforço, o trabalho e perseverança que a criança teve para alcançar o objectivo.

Devemos exaltar a sua coragem quando têm de ultrapassar um obstáculo.

Elogiar a forma como ficam bem vestidos, mas deixar claro que não é a forma como estão vestidos que faz deles pessoas mais ou menos bonitas.

Incentivar a empatia, elogiar a amabilidade para com o próximo.

Promover a partilha e dirigir sempre uma palavra de apreço quando essa partilha acontece sem intervenção externa.

Evitar expressões como “sabes tudo” porque naturalmente, apesar das nossas boas intenções, está longe de ser verdade e pode passar-lhes uma sensação de superioridade em relação aos outros que não é saudável.

Elogiar a dedicação que aplicam a uma tarefa, mesmo que os objectivos não sejam alcançados – na vida importa muito mais sermos humanos que máquinas, que competem entre si e acabam por se perder no caminho, esquecendo-se que na maior parte das vezes o mais importante é aproveitar a viagem.

Este é um trabalho em construção que faço diariamente com a minha filha.

Dou por mim a pensar antes de falar e, algumas vezes, depois de já o ter feito, tentando analisar o impacto que as minhas palavras possam ter nela.

Porque as eles lhes escapa pouco. Ainda ontem me dizia “mãe, aquele senhor tem sapatos de salto alto, são sapatos de menina”. E eu, atenta às questões de género e à importância da liberdade de expressão, respondi ”vou-te contar um segredo: os rapazes podem usar os sapatos que quiserem e as meninas também podem usar os sapatos que quiserem. O importante é estarem confortáveis com quem são e serem felizes”. Respondeu-me ela “Ai é? Então por que é que de manhã não me deixas usar os sapatos que eu quero?”. ?

Eles são atentos, eles ouvem e absorvem, eles imitam-nos, eles aprendem connosco.

Neste crescimento contínuo entre pais e filhos a nossa missão é a de ensinar o melhor que sabemos.

E isso também passa por saber quais as palavras que os servirão melhor no futuro.

Um futuro que todos queremos que seja brilhante. Seja lá o que isso for para cada um de nós.

A minha filha tem fúrias

Faço esta pergunta como mãe e ainda estou à procura de respostas.

A minha filha tem 4 anos, é um amor, carinhosa e preocupada mas também tem fúrias. Há alturas em que passa para o lado de lá da força e nessas alturas vai tudo à frente.

Há uma tendência de os pais ficarem incrédulos porque não foi assim que educaram os filhos. Ou porque simplesmente foram crianças tão diferentes deles.

Cresci a ouvir dizer que nunca tinha feito uma birra e, bem, digamos que não somos minimamente iguais.

Conheço a minha filha como ninguém mas isso não significa que saiba tudo sobre ela ou que consiga perceber tudo o que está a sentir.

Tento, é esse o meu papel, e tento também orientá-la dentro da raiva e fúria que está a sentir, a frustração que transmite no seu comportamento.

Tento que perceba que pode comunicar de outra maneira.

Uma das estratégias que encontrei foi pedir-lhe que me tente explicar o que está a sentir usando palavras. Sei que isto, para quem está fora de si, dá vontade de chutar o balde e mandar o outro para um certo lugar. E às vezes não resulta. Noutras resulta e ela vai verbalizando e eu vou tentando ajudar a falar, a exprimir, a explicar.

Mas há alturas em que nem ela sabe já o que a deixou assim e, por isso, esta estratégia não resulta.

Já fiz este mundo e o outro e tento seguir o meu instinto no momento.

É cansativo, suga-me a alma e muitas vezes acabo derrotada e a chorar por dentro (até que posso chorar para fora), mas procuro fazê-la perceber que não é assim que se resolvem conflitos ou se manifesta tristeza ou raiva. Não deveria ser.

Já li que as crianças só têm maturidade emocional por volta dos 5 anos e estou a contar os dias para lá chegar, para provar a teoria, sabendo à partida como todas as crianças são diferentes e como os timings variam de umas para outras.

Quero que sinta que se pode exprimir. Mas que entenda que nesse processo não pode magoar os outros, verbal ou fisicamente – e não se pode magoar a si.

Este processo de não desistir dela e de não a deixar por sua conta dá-lhe a segurança de sentir que, apesar de às vezes errar, não está sozinha.

Porque não está e canso-me de lho dizer.

Às vezes termina a pedir-me desculpa e a dizer “vamos voltar a ser amigas”.

Explico-lhe que nunca deixei nem deixarei de ser sua amiga porque ela age de maneira errada comigo. Porque sou sua mãe e estou aqui para a ajudar. Mas faço questão de dizer que para as outras pessoas isto pode não ser válido, porque quero que compreenda que não se pode fazer tudo aos amigos. Há coisas que simplesmente não têm perdão e não podemos esperar que nos aceitem depois de errarmos. Podemos desejá-lo, trabalhar para isso, mas não exigir isso dos outros.

Porque este amor incondicional pertence aos pais. E nós somos os primeiros a terem de ser tratados como tal.

Se desse lado também há dias cinzentos, muita força. Às vezes temos de atravessar a tempestade de mãos dadas para conseguirmos chegar juntos até ao arco-íris.

“Vou educá-la a ter esperança e força, mas a permitir-se ser frágil.
Vou tentar educá-la para que nunca se ponha numa situação de perigo.”

É cultural, foi assim que fomos ensinados e muitas vezes ainda é assim que agimos. O ditado reza “entre marido e mulher ninguém mete a colher”.

Mas os tempos são outros e se temos evoluído em tantas outras áreas porque continuamos a virar a cara em situações de abuso?

Do outro lado do oceano chegaram notícias e imagens chocantes de uma advogada, que foi filmada a ser agredida pelo marido dentro do elevador do prédio e no parque de estacionamento do condomínio enquanto gritava por ajuda. Esta mulher acabou por morrer, vítima de uma queda do quarto andar, do seu apartamento. Correcção, esta mulher acabou por ser assassinada pelo marido quando todos os vizinhos ouviram os seus apelos por ajuda. Ninguém, repito, ninguém, chamou a polícia. Entendo o medo, somos humanos e sentimos na pele o nosso medo, o medo pelos nossos, o nosso desejo de sobrevivência. Muitas pessoas tiveram receio que o marido estivesse armado e não foram até lá. Estiveram para chamar a polícia mas depois os gritos pararam. Pararam porque já era tarde demais.

Estou a relatar esta história a título de exemplo, como poderia contar outras. Todos nós conhecemos algum caso, infelizmente. E os que têm a sorte de não conhecer, leem notícias.

Como mãe de uma rapariga há muitas coisas que me apoquentam em relação ao seu futuro, mais do que se fosse um rapaz – e nisto tenho de ser sincera e crua, porque ainda é muito diferente ser rapaz e rapariga neste mundo.

Vou tentar educá-la para que nunca se ponha numa situação de perigo.

Vou educá-la para identificar uma situação de perigo caso já esteja envolvida nela. Vou educá-la a fazer ouvir a sua voz, apesar do medo – mesmo que para isso tenha de saber contornar situações de confronto e saiba pedir a ajuda a quem de direito na altura certa. Vou educá-la para não virar a cara quando for testemunha da dor de outra pessoa. A falar, mesmo que tenha medo, nem que seja para chamar a polícia. E se quando a polícia chegar ela sentir que “não serviu para nada”, que saiba que serve sempre. Nem que seja para que as pessoas envolvidas saibam que os outros sabem, reparam e vão andar de olho na situação.

Vou educá-la a ter esperança e força, mas a permitir-se ser frágil. Porque todos nós cometemos erros, porque todos nós, numa altura ou outra precisamos de ajuda, porque todos nós já recusámos ajuda quando soubemos que teria sido melhor se tivéssemos aceitado.

A violência transtorna-me e é-me difícil de compreender, mas a passividade do mundo perante a violência é algo que nunca aceitarei.

Não é esse o futuro e o mundo onde quero que os meus filhos cresçam.

Quero que seja um mundo onde se diz “lembras-te de antigamente quando as mulheres morriam às mãos dos companheiros/ex-companheiros/aspirantes a companheiros?”. Quero que sejam coisas de tempos que eles não recordam.

Educar uma criança é a missão dos pais. Estar lá, acompanhar, proteger. Mostrar a realidade e as soluções. E isto serve para os pais das vítimas e dos agressores. Quando há sinais de que algo possa não estar bem devemos ser os primeiros a agir.Para o bem dos nossos filhos e dos que com eles se relacionam.

Devemos ser o exemplo e ajudar quem precisa de ajuda. Se os nossos filhos nos virem a estender a mão, será para eles natural fazer o mesmo na nossa ausência.

Resta-nos ser bons exemplos.

Pedir ajuda.

Dar ajuda.

Ter medo e ir em frente mesmo assim.