Contigo todos os dias são Natal, meu amor, minha querida filha.

Todos os dias são dias de ler histórias enroscadas debaixo de mantas quentinhas.

Todos os dias são dias de ter a família à volta, de saborear esses pequenos grandes momentos.

São dias de preparar uma surpresa ou um presente, mesmo que esse presente seja apenas isso: estar lá.

São dias de acreditar, de ter esperança, fé e desejar coisas boas, o melhor.

São dias de nos lembrarmos de quem nos quer bem.

São dias de escrever um postal com um desenho teu – só porque sim… ou melhor, por que não?

São dias de construir coisas juntas, como a árvore de Natal ou um castelo feito de Legos.

São dias de fazer bolachas para oferecer – e de conseguir o acto heróico de te impedir de chegar ao calor do forno.

São dias de avaliar onde errámos, onde podemos melhorar, de fazer um esforço para ter uma vida tão equilibrada quanto possível.

São dias de esquecer um bocadinho o relógio.

São dias de te ensinar que o pouco basta, que não precisamos de acumular coisas para sermos felizes.

São dias para estarmos agradecidos, para te darmos esse exemplo.

Todos os dias são Natal porque o que vivemos no Natal devia ser vivido todos os dias.

E temos conseguido.

Feliz Natal, meu amor.

Um beijo,

Mãe.

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Hoje no jardim fui interpelada por uma senhora com alguma idade. Perguntava-me se eram gémeas. Demorei alguns segundos a perceber o que me dizia. Olhei em volta e reparei que uns passos à frente da minha filha estava outro bebé, outra menina. Este bebé era fisicamente completamente diferente da minha filha, para além de que não estávamos juntas e isso era, para bom observador, evidente. E entendi o que aquela senhora queria. Respondi-lhe. Falei-lhe de que muitas vezes nos encontramos por ali mas não somos da mesma família e que ela, a senhora, também era uma cara reconhecida. Os seus olhos brilharam. Provavelmente foi a primeira vez neste dia que alguém lhe dirigiu a palavra. Era isso que ela procurava, sentir que estava ali, sentir o reconhecimento de outra pessoa, ter uma conversa, por mais breve que fosse, com ela. Falámos mais um pouco e depois despedi-me. A minha filha fez o mesmo. Sente muita simpatia por pessoas mais velhas e tem o hábito de as cumprimentar pelo caminho, quando vamos pela rua. E sei como isso as deixa contentes. Precisamente por isso: deixam de se sentir invisíveis.

Na Índia as crianças são ensinadas desde pequenas a tocar os pés dos mais velhos como sinal de respeito pela sua idade e maturidade, e também pelo longo caminho que já percorreram. De certa forma, os mais novos agradecem a dedicação dos mais velhos e os sacrifícios que estes foram fazendo ao longo da vida para que as gerações seguintes pudessem viver dignamente. Sinto que entre nós ainda há muito pouco respeito pelos mais velhos. Muitos são deixados ao abandono pelas famílias, vivem vidas de miséria, solidão e ainda há demasiadas pessoas a sofrer maus tratos.

Nada disto aconteceria se as nossas crianças vissem nos mais velhos alguém “sagrado”. Jamais ousaria levantar a voz aos meus avós, responder-lhes ou reclamar de algo que tivessem feito. Nem aos meus avós nem aos avós de alguém, em que circunstância for. E isso vem da educação. A educação é 90% das vezes a resposta.

Nós, pais, temos o dever de ensinar as regras básicas da cidadania. Se tivermos pessoas mais velhas na família ou círculo próximo, a lição pode ser dada pelo exemplo. Para quem não tem há sempre uma situação ou outra em que nos cruzamos com alguém de idade.

Sei que há pessoas que ficaram amargas (muitas já o seriam em novas), outras sentem que a idade é posto e maltratam também elas os mais novos. A educação funciona em todos os sentidos.

Não nos esqueçamos que somos os velhos de amanhã. E serão as nossas crianças a lidar connosco.

Com amor, paciência e tolerância tudo se consegue.

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Querida filha,

O pai, no Natal passado, disse-me que não queria receber nenhum presente porque o que ele mais queria já tinha acontecido – tu. Como o compreendo… Mesmo assim, faço um esforço para pedir as coisas que mais gostava. Aqui estão elas:

– Queria evitar todas as tuas lágrimas, das mais sentidas às mais caprichosas.

– Poder entender tudo o que me dizes nesse dialecto atabalhoado – que me vai directo ao coração mas que o cérebro tem dificuldade em descodificar.

– Ter a capacidade de guardar esse teu cheirinho, que é só teu, para que nunca deixe de te pertencer.

– Apagar as más noites, não por não dormir bem, mas por sentir que às vezes o teu descanso precisava de ser maior.

– Explicar melhor por que é que não deves fazer certas coisas para eliminar o olhar frustrado que me fazes. Às vezes sinto que precisas de compreender para obedecer e nem sempre consigo ajudar-te.

– Sabes aquele sorriso que fazes quando me vês entrar na sala? Se receber meio milhão deles pelo Natal não os irei trocar por nada que esteja numa loja.

– Conseguir acalmar-te quando tens medo, mesmo quando eu partilho desse medo terrível só por te ver assim, tão aflita.

– Lembrar-me de mais músicas, para não estar sempre a cantar-te as mesmas sete com as suas versões alternativas (ainda que não pareças desagradada com elas).

– Continuar a dar bom dia ao sol assim que acordas, mesmo que os dias se tornem mais agitados e o tempo mais curto.

– Não esquecer que o dinheiro ajuda, mas não é garantia de felicidade – e tantas vezes só atrapalha.

– Gravar nesta memória que já teve melhores fases a forma doce e despretensiosa como dizes “mamã” (sem vergonhas nem segundas intenções, só amor e orgulho pela conquista de ser uma das poucas palavras que dominas).

Por fim, agradecer pelo que tenho. É um pedido e um dever, uma lembrança que devo a mim mesma. Há dias mais compridos, noites que passam num ápice, problemas que não parecem ter resolução. Mas também existimos nós e somos uma equipa de três, que em diversos dias ganha elementos e parece mais um batalhão, que funciona de uma maneira que tanto me orgulha… Por isso, se naqueles momentos em que vês aquilo em que deixámos de prestar atenção encontrares o Pai Natal ou o menino Jesus, diz-Lhes que não se preocupem connosco. Estamos tão bem servidos que se melhorar só estraga.

Um beijo, mãe.

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As mães existem em todos os tamanhos, formas e feitios. Há para todos os gostos e têm um segredo que não é assim tão secreto: têm super poderes.

O de conseguir funcionar com apenas três horas de sono (interrompido) e muito melhor que pessoas que dormiram oito horas seguidinhas.

O de imaginar mil cenários ainda antes de atender o telefone quando lhes ligam da escola dos miúdos.

O de ter colo suficiente para um, dois, três ou mais filhos – e em simultâneo.

O super poder de estabelecer uma conversa inteira num diálogo onde a resposta é feita apenas de monossílabos (tanto com filhos de um ano como com filhos adolescentes).

O de cheirar uma mentira à distância, mesmo de costas e numa divisão diferente.

O de curar uma ferida com um beijinho.

O de inventar as histórias mais mirabolantes para distrair os filhos.

O de se derreter com um sorriso de um filho ao acordar, sem que este tenha de dizer uma única palavra.

O de sentirem culpa por alguma característica negativa que os filhos possam ter ou demonstrar (o tão conhecido “onde foi que eu errei”, quando toda a gente sabe que na maior parte dessas vezes pouco haveria a fazer).

O de conseguir fugir a uma resposta difícil sem perder a pose.

O super poder de ouvir o que o marido lhe está a contar ao mesmo tempo que o filho mais novo chora porque não sabe onde meteu o boneco preferido e o mais velho reclama porque não acredita que a mãe pôs as calças preferidas para lavar (outra vez!).

O de não esquecer qual o amigo de que eles falaram ontem, o de que falaram há um mês e aquele de que falaram uma vez há três anos.

O de preparar mimos (mesmo quando quem deveria estar a ser mimada era ela…).

O de identificar o choro das suas crias entre centenas, mesmo a uma distância de cinco quilómetros. E o mesmo se verifica com o riso.

O de tolerar e suportar horas, dias, meses e anos a fio a ouvir uma cadência perfeita de “maímmm, maímmm, ó maímmm!”.

O de conseguir decifrar o humor de um filho apenas por um rosnar – e perceber de imediato se têm fome, sono, estão apaixonados ou simplesmente estão “naquela fase”.

O super poder de esticar as vinte e quatro horas do dia, fazer este mundo e o outro e ainda sentir que têm tudo para fazer.

As mães têm, acima de tudo, o super poder de achar que não são nada poderosas. Que quem era super eram as suas mães. Super preparadas, super pacientes, super carinhosas, super constantes e coerentes, super mães.

Todas somos super, cada uma à sua maneira.

Mesmo sem capa vamos criando a geração de amanhã. Um dia de cada vez.

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Nota: Muitos destes super poderes podem ser encontrados nos pais, mas hoje é das mães que importa falar.

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Filha:

Cresce devagarinho, leva o teu tempo.

Faz as tuas asneiras, reclama quando as coisas não te correm de feição, tenta colocar o triângulo na devida forma quantas vezes tiveres capacidade, até conseguires.

Não sabes mas a sociedade é feita de exigências. Espera-se que uma menina aja de certa forma, que um rapaz tenha determinadas atitudes. Sim, é verdade, estamos quase em 2020 mas a tua geração tem ainda um longo caminho pela frente. Depois, na escola, quando estiveres quase a entrar para a primária nem imaginas quais são os objectivos que deves cumprir.

Serás uma criança com deveres de gente grande. E a partir daí é uma bola de neve.

Na tua profissão, se tiveres sorte, poderás encontrar pessoas que são razoáveis, mas ainda existe muito a mentalidade dos pequenos poderes, das pessoas que pisam porque podem, das que não respeitam quem está abaixo de si porque se o fizerem perdem a força (tirânica) que os alimenta.

Mas nem tudo é mau, apesar de eu ter pintado um cenário um pouquinho escuro. Em abono da verdade, só queria com isto pedir-te que sejas criança enquanto és criança.

Que brinques tanto que te esqueças que, a brincar, também estás a aprender.

Tens tempo para reconhecer as cores, para saberes quanto é dois mais dois, para aprenderes a ler.

Para tudo há um tempo e o teu tempo é o de pedir colo e tê-lo. De ouvir histórias ao pé do ouvido. De cheirar as flores nos canteiros, de dançar sem qualquer vergonha quando o pai põe a tua música preferida a tocar. De cumprimentar as pessoas que não conheces quando passas por elas na rua. De reparar como as árvores são altas e as formigas parecem pontinhos que se movem. De apontar para o ouvido e depois para o céu quando identificas um avião a aproximar-se. De pedir para ficar um bocadinho mais dentro do mar. De chapinhares dentro da banheira na hora do banho. De ficares triste quando partes o teu boneco preferido. De pedir pão quando nos vês a comê-lo. De não esconderes a alegria que sentes quando reencontras alguém que já não vias há alguns dias.

Aos poucos (seria bom que não, mas é natural que sim…) irás moldar-te a ser menos espontânea, a seres mais discreta, a teres mais noção de quem está à tua volta e dos julgamentos que te dirigem.

Por isso, repito: não tenhas pressa.

Cresce ao teu ritmo, a ver o mundo com os teus olhos.

Este tempo é teu e nada nem ninguém te pode roubá-lo. Estamos aqui para garantir isso mesmo.

Vive como até agora, na tua inocência.

És feliz. Que isso se perpetue para sempre.

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Que exemplo somos?

Há dias difíceis. Dias em que mal temos paciência para nós, mas é importante lembrar que estamos a construir mundo, o mundo das nossas crianças. O mundo em que se vão formar, em que estão a ganhar raízes para serem gente, em que estão a aprender a relacionar-se com os outros e, acima de tudo, consigo mesmos.

Eu própria sou uma mãe que às vezes tenho de respirar fundo, lembrar-me que a minha filha é um bebé, que não compreende tudo e que estou a aprender com ela mas, principalmente, estou a ensiná-la. E é isso que me faz tentar ser melhor, agir melhor, ter mais paciência, agir segundo a velha máxima de tratar os outros como gostaria que me tratassem e, mais importante ainda, tratar a minha filha como gostaria que os outros a tratassem.

Não temos de ser sempre exemplos perfeitos porque erramos, somos humanos e isso dota-nos de uma falibilidade com que também aprendemos. Mas podemos sempre tentar mais.

No outro dia, na sala de espera para entrar para a consulta de pediatria, estava um casal com um bebé de cerca de um ano. O bebé estava no carrinho e todas as outras crianças da sala estavam no chão, a explorar o espaço, a brincar na área preparada exactamente para isso com material lúdico para os miúdos. O bebé, encantado com aquela agitação, pedia à sua maneira para descer do carrinho. Esticava os braços a pedir que o tirassem dali. A certa altura, começou a choramingar. A mãe, visivelmente enfadada, acabou por o tirar do carrinho, olhou-o nos olhos ainda ao colo e disse-lhe, altiva: Estou a tirar-te daqui porque quero e não porque estás para aí a choramingar.

Já muito se falou de os pais, principalmente as mães, se julgarem muito. Tento não o fazer, mas naquela situação custou-me. Senti que aquela criança deve ser educada naquela base, que apesar de não saber comunicar de outra forma, lhe vão dando permissão para umas coisas e não outras porque querem e não porque isso a deixa feliz (à criança). Pensei que provavelmente até pode ser um bebé que chora muito (não parecia, mas nunca sabemos o que se passa nas vidas dos outros…), que os pais pudessem ter tido uma noite difícil, que estivessem cansados. O seu comportamento é desculpável mas não posso dizer que seja – para MIM – o ideal. Tive vontade de me aproximar e dizer que dava um olhinho enquanto ele brincava com a minha filha, para eles ficarem descansados, mas sei que isso não seria bem aceite.

Há uma semana, no parque onde costumo levar a minha filha ao final da tarde, estava uma rapariga mais velha, com os seus sete anos, a correr contente e feliz, de um lado para o outro. A mãe estava fora do recinto do parque, ao telemóvel, irritada. Dizia-lhe para andar e não correr, para não subir ao escorrega, que tinha os sapatos cheios de pó (inevitável quando o chão é feito de pedrinhas), que estava corada, a transpirar e se ia constipar, que mania que ela tinha de andar sentada no chão. Pensei imediatamente que a miúda estava a fazer tudo o que era suposto: a brincar com os equipamentos, não estava a aborrecer ninguém, estava tão feliz e divertida e tudo isto a brincar sozinha. E mesmo assim a mãe não estava satisfeita. Como já disse, há dias em que não temos cabeça, não estamos disponíveis. Temos direito a esses dias. Mas se sabemos que é assim, então é uma questão de optar por os levar para casa e os deixar brincar com coisas que não necessitem de companhia e acompanhamento. Mais fácil dizer que fazer? Provavelmente. Provavelmente também, aquela mãe mesmo tendo um dia mau – que era visível que estava a ter – preferiu levar a filha ao parque, já que não tinha culpa do seu mau dia. Mas depois não conseguiu relaxar, não se deixou levar pela energia positiva dela. Pena.

Estes são dois exemplos daquilo que vejo e me deixa a pensar. Como será que a minha relação com a minha filha é vista por quem está de fora? Mais importante, como é vista por ela?

Tento, mesmo com todos os meus defeitos, que as coisas boas sejam sempre em número superior às coisas más, que a mensagem que passa seja a mais positiva possível.

Às vezes não consigo. Fica a nota mental para que seja a excepção.

Podemos sempre ser melhores pais.

Os nossos filhos agradecem.

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Acredita, não és má mãe.

Não és má mãe porque impões uma hora de ir para a cama.

Porque não concordas que, na escola, o teu filho passe o tempo diante de uma televisão a ver desenhos animados horas a fio.

Porque, na maior parte dos dias, não consegues chegar a horas de brincar com ele tanto tempo quanto gostarias.

Porque não lhe compras todos os bonecos que te pede no centro comercial.

Porque fazes questão que coma sopa em todas as refeições.

Não és má mãe quando a paciência se esgota e tens de respirar fundo cinco vezes antes de voltar a falar.

Quando chegas a casa e não sabes como vais arranjar energia para fazer tudo aquilo que te espera.

Quando às vezes te lembras do tempo sem filhos e sentes alguma nostalgia.

Se te questionas.

Quando vais em frente mesmo quando não tens a certeza.

Porque defendes aquilo em que acreditas.

Quando toda a gente te diz que precisas de ter calma, relaxar.

Quando tens dúvidas.

Quando não tens todas as respostas.

Porque os teus filhos deixaram de te contar tudo e os amigos deles sabem mais da sua vida que tu.

Quando tens medo.

Quando não sabes que caminho seguir.

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CARTA ÀS MÃES MAIS QUE PERFEITAS

Não és má mãe porque os teus filhos fazem coisas que nunca imaginaste.

Se o teu filho tem piores notas do que deveria (nem ele é mau filho por isso).

Quando ninguém compreende as tuas opções.

Porque insistes que os miúdos têm de ter rotinas.

Porque deixas crescer a pilha de roupa para passar a ferro.

Quando decides que precisas de um tempo para ti.

Quando o teu cérebro está tão cansado que só ouves trinta por cento do que o teu filho te diz mas fazes um esforço para reter tudo.

Não és perfeita.

És mãe e esse é o maior, melhor e mais duro trabalho do mundo.

Vais ter dias óptimos e vais ter dias terríveis. E vais ter dias que se repetem com poucas mudanças. Aproveita-os porque os miúdos crescem num tiro e tu também não estás a ficar mais nova.

E isso significa que tens sempre oportunidade de melhorar, de mudar.

Nunca serás aquilo que sempre imaginaste mas acredita que és tudo aquilo de que os teus filhos precisam. Com todas essas “falhas”. Eles amam-te como és.

E não há nada tão bom neste mundo.

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É caminhando que se faz o caminho. Essa é uma lição que devíamos aprender com os nossos filhos.

Primeiro nascem e, apesar da exigência do acto de cuidar deles, pouco fazem.

Permitem-se aprender a respirar fora da barriga, a ouvir as vozes sem filtros, a distinguir o dia da noite (ou nem tão bem, muitas vezes), a chorar quando estão cansados, com a fralda suja ou com fome. Depois aprendem a segurar a cabeça, a sentar-se, a segurar as coisas, a sorrir. Gatinham, fazem as primeiras brincadeiras interactivas, riem e seguem o seu caminho. Conquista atrás de conquista.

Com mais ou menos paciência, vamos acompanhando esta evolução e aprendendo muitas vezes como é preciso ter calma, como com o tempo eles vão mamando melhor, comendo melhor, dormindo melhor, fazendo-se entender melhor.

Somos capazes de ter uma paciência da China com os nossos filhos e esquecemo-nos de a ter connosco. Nós, apesar de há muito não sermos bebés, também estamos a crescer. Continuamos a fazê-lo, dia após dia. São ainda muitas as lições que temos pela frente, muitas as ocasiões em que compreendemos a falta que nos faz quem nos guie.

Damos as mãos aos nossos filhos e esquecemo-nos de olhar para dentro e tentar perceber aquilo de que precisamos.

Temos de estar em equilíbrio para sermos bons pais. Temos de reconhecer as nossas falhas, os campos em que temos de melhorar e isso abrange muito mais que a maternidade/paternidade.

O desafio é de crescer com os nossos filhos e não apenas vê-los crescer. Só assim eles poderão contar connosco no futuro, ver-nos como um bom exemplo.

Somos humanos, apesar de muitos serem super heróis sem capa – mas até os super heróis têm as suas fraquezas. E as fraquezas não são necessariamente defeitos, mas sim características que deviam servir para nos fazerem seguir em frente. Aprender com o passado, fazer planos realistas para o futuro, sermos melhores em tudo o que nos propomos.

Um dia de cada vez.

Afinal, os nossos filhos estão a ver-nos. E um dia serão eles a estar no nosso lugar.

Temos a obrigação de deixar um bom legado. E com amor e paciência tudo se consegue – chegaremos lá.

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Escrevo-te hoje para que não esqueças aquilo de que tento lembrar-te dia após dia.

És mais bonita do que consegues ver ou acreditar.

Não imaginas como foi uma boa decisão não fazeres aquelas madeixas no cabelo. O teu é naturalmente bonito e tem uma cor que ainda não conseguiram imitar.

Ouve tudo o que te dizem, mas valoriza só o que vale mesmo a pena. Os comentários negativos e as críticas servem para que vejamos as coisas numa outra perspectiva (nem sempre a mais correcta, mas diferente) e acabemos por reflectir. Mudar está nas tuas mãos. Mas fá-lo apenas por ti, por acreditares que é o melhor ou porque sentes que deves fazê-lo.

Estuda. Procura conhecimento, investiga os assuntos que te despertam mais curiosidade. Em relação àqueles que não gostas tanto não há milagres: estuda!

Ouve o teu coração e deixa-te levar por ele. Não deixes de ouvir o teu cérebro, deixa-o ajudar-te a tomar decisões mas não te impeças de ser feliz por teres medo.

O medo, pois… Faz parte e é bom. Mesmo quando é mau. Aprende a viver  com ele, a ler os sinais e a contornar os que te forem possíveis.

Lê bastante. Conhece novos estilos, novas palavras, novas histórias.

Sublinha as passagens preferidas nos teus livros. Anos mais tarde vais deliciar-te com o que te encantou agora.

Devolve o que te emprestam.

Conhece-te. Respeita-te. Desculpa-te.

Ri tanto que acabes sem saber o que te dói mais, se as bochechas se a barriga.

Rodeia-te de pessoas positivas.

Tens um coração do tamanho do mundo e uma maturidade de fazer inveja a muitos adultos, mas não te esqueças que tens apenas dezasseis anos. Vive-os em pleno.

Muitas vezes complicamos o que é simples, preferimos não ver a verdade e deixamo-nos encantar com a mentira. Escolhemos o caminho mais fácil, cometemos erros que são fáceis de evitar, ultrapassamos os limites que nos impomos. Faz parte. Não deixes que seja a norma, permite que seja a excepção.

Sê feliz. Está nas tuas mãos (e não nas de mais ninguém, é uma lição que não deves esquecer nunca) e é algo que se treina.

Há alturas em que te vais sentir incompreendida. Na verdade, se pensares bem, também serão essas as alturas em que te compreendes pouco. Dá tempo ao tempo, tem calma.

Mantém os teus amigos. Não percas nenhum por uma parvoíce e não andes acompanhada por quem não te faz ou quer bem. Quantidade não é qualidade.

Espera (uns bons anos) para fazer a tatuagem com que sonhas. Vai valer a pena a espera e vais estar mais certa sobre o que queres marcar no teu corpo.

E se ainda faz sentido fazê-lo.

Dança muito. Vais olhar para trás e desejar ter dançado mais quando tinhas mais tempo.

Liga aos teus avós. Diz-lhes que tens saudades deles. Não vão estar cá para sempre.

Ouve o pai e a mãe mesmo quando o pai e a mãe são as últimas pessoas que queres ouvir. Não há mais ninguém no mundo que queira fazer o bem por ti como eles. Aprende com eles. Dá valor aos momentos em família.

Procura menos defeitos nas tuas fotografias. Todos temos características, as câmaras têm tendência para as captar mas, se estiveres disponível para isso, mostram muitas coisas em que não tínhamos reparado.

Dorme mais. Eu sei que parece que a vida não espera e que dormir é desperdiçar horas importantes, mas se estiveres cansada a vida vai passar  mais facilmente por ti.

Não gastes a palavra “amo-te”, é demasiado importante para ser banalizada.

Guarda-a para quem a merecer verdadeiramente – quando essa pessoa estiver diante de ti vais saber.

O que as tuas amigas dizem em relação aos rapazes por quem te apaixonas assim que os conhecem é muitas vezes aquilo de que tendemos a esquecer-nos durante o tempo em que estamos com eles. No final normalmente as nossas amigas têm razão.

Nenhum coração partido dura para sempre.

Vive um dia de cada vez. Sofrer por antecipação nunca resolveu nada.

Sonha muito. Nunca deixes de sonhar. Deixa que os teus sonhos te comandem.

Poupa dinheiro.

Aprende a perdoar.

Tenta coisas novas.

Testa os teus limites.

Diz às pessoas importantes para ti o que elas significam.

Aproveita bem o tempo de escola – vais sentir tantas saudades!

Dá a tua opinião sincera e quando não tiveres nada de bom a acrescentar a uma conversa, aprende a manter o silêncio. Parece cliché mas ajuda a evitar muitas discussões desnecessárias.

Trata toda a gente bem e com respeito.

Gosta de ti.

Em caso de dúvida liga-me. Vou ajudar-te a decidir.

Foi comigo que deste os primeiros passos, naquelas férias em Barcelona. Eras uma bonequinha de bochechas rechonchudas, olhos gigantes e sardas deliciosas. Quando olho para ti hoje, mais de quinze anos depois, é com orgulho que te vejo dar outros primeiros passos. Estava contigo nesse dia e continuo aqui.

Não te esqueças: sê feliz.

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Há irmãos que fazem os pais pensar: onde é que estávamos com a cabeça? Os que deixam os pais sempre a pensar: temos mais um?

Irmãos.

Há os “olha que eu vou dizer à mãe!” e os “é um segredo só nosso!”.

Há os que são tão próximos que parecem siameses e os independentes que preferem outros companheiros de brincadeira.

Há os protectores e os que acham que os irmãos se devem fazer à vida.

Há os que levam os irmãos nas saídas à noite por imposição dos pais e os que fazem parte do grupo desde sempre.

Há os irmãos fascinados com os mais novos e os admiradores máximos dos mais velhos.

Há irmãos que são tão parecidos que parecem feitos por encomenda.

Há os que só sabemos que são irmãos porque chamam pai e mãe às mesmas pessoas.

Há os que só têm um pai ou uma mãe em comum.

Há os que ligam dia sim dia não e os que ligam só no aniversário.

Há os irmãos que compram presentes em conjunto e os que dividem a conta sem saber muito bem o que vão oferecer.

Há os irmãos que morrem de saudades uns dos outros e os que preferiam ter mais oportunidades para sentir saudades.

Há os que se davam bem em pequenos e em grandes mal sabem da vida uns dos outros. Os que cresceram e mal se lembram de se ter dado mal.

Há irmãos que foram pedidos como presentes de Natal e outros que entraram na vida sem aviso.

Há irmãos que falam uma língua própria, para quem a mãe é a mulher mais bonita do mundo e o pai o companheiro mais fixe de sempre.

Há irmãos que dão “calduços” aos amigos quando estes começam a reparar na irmã mais nova.

Há irmãos que não têm oportunidade de crescer juntos.

Há os que vivem juntos e nem se apercebem da bênção que isso significa.

Há irmãos que ajudam e irmãos que culpam os outros por terem partido a jarra favorita da avó.

Há irmãos que fazem os pais pensar: onde é que estávamos com a cabeça? Os que deixam os pais sempre a pensar: temos mais um?

Há os que sentem que os outros é que são os preferidos. Há os que se aproveitam, por achar que são eles os preferidos.

Há irmãos que são tratados como se fossem de cristal enquanto aos mais velhos é dito que têm de ser mais pacientes, mais compreensivos, mais calmos.

Há irmãos que se tratam por manos.

irmãos que vivem em total harmonia.

Há irmãos que são mais que irmãos: são amigos.

Há irmãos que fazem inveja aos filhos únicos. Há os que fazem os filhos únicos sentir que ainda bem que estão sozinhos.

Há irmãos de todos os géneros, como todas as famílias, todas as dinâmicas, todas as vivências.

Eu tenho dois irmãos. Fui irmã mais nova durante treze anos e já me sentia crescida quando passei a ser irmã do meio. Acredito que sem eles seria uma pessoa completamente diferente.

Não sei se a minha filha vai ter irmãos, mas se isso acontecer tudo farei para que se sintam igualmente amados, desejados e capazes. Muitas vezes os pais falham (por não conseguirem fazer melhor, por falta de tempo, de sensibilidade, etc), cedem perante as responsabilidades, tomam más decisões, influenciam o futuro dos filhos.

Ser pai é o “trabalho” mais duro do mundo.

Mas não nos esqueçamos que é também o mais compensador.

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