Querido pai,

Sei que nunca sonhaste ter filhos, não fizeste planos nesse sentido e hoje, tantos anos depois, tens três. Deixa-me dizer-te que para quem não ambicionava tal coisa, fizeste-a bem.

O mano e eu chegámos e mudámos a tua vida. Não me lembro dessa fase, mas sinto que a vivo um bocadinho através das fotografias que vejo, das histórias que me contam.

Lembro-me vagamente da conversa que tivemos e em que explicaste que ias viver para outra casa. Na altura não o entendi, hoje aperta-me o coração entendê-lo mas tranquiliza-me saber que correu tudo bem. Que a mãe e tu fizeram um trabalho incrível em tentar que a nossa vida (minha e do mano) continuasse o máximo possível como a conhecíamos. Hoje, essa foi a vida que vivemos e mal nos lembramos de quando éramos os quatro debaixo do mesmo tecto.

Pouco importa, porque sei que a vida é assim mesmo. Tomam-se decisões, a vida avança, faz-se o melhor que se pode.

E eu sou quem sou porque vivi tudo isso, porque cresci rodeada de amor, porque, ao contrário de tantas crianças, nunca fui infeliz por ter os pais separados.

Vi-te desenrascar-te na cozinha para que o mano e eu tivéssemos as melhores refeições, as mais saudáveis e completas. Vi-te ajudar-nos nos trabalhos de casa sem os fazeres por nós. Vi-te organizares os fins-de-semana para que fizéssemos sempre qualquer coisa juntos, já que era “o nosso tempo”. Vi-te levar-nos às compras e explicar-nos o que valiam, o que custavam. Vi-te passares as tuas férias repleto de actividades que eram boas e divertidas para nós sem nunca te queixares. Nunca. Vi-te ser um bom filho e, sem saberes, a incutir-nos esses valores de respeito para com os avós. Vi-te ser um bom irmão mais velho para os teus irmãos, a ajudar sempre, a estar presente e a não deixar transparecer a dor quando a vida te roubou a oportunidade de continuares a fazê-lo para sempre. Vi-te voltar a ser pai sem que isso te fizesse descurar os filhos que já cá estavam. Vi-te ensinar a mana a comer, a falar, andar, a brincar. Vi-te protegê-la e cuidares dela, mais perto do que fizeste connosco, mas com o mesmo amor. Vi-te preocupares-te comigo e com o mano, com o nosso futuro. Vi-te ficares feliz com as nossas conquistas, com as nossas escolhas. Vi-te ajudares como podias sempre que as coisas não corriam como planeado. Vi-te sonhar os teus netos. Vi esse dia chegar uma e outra vez. Vi-te ser avô, um avô tão brincalhão e divertido como sempre foste como pai. Tão sério e correcto nas alturas certas. Tão babado que nos deixa, ao mano e a mim, babados também.

É por tudo isto que não tenho pudor nenhum em dizer que sou filha de pais separados. Tive um pai mais presente (tenho) do que muitas pessoas têm a sorte de ter, mesmo com os pais juntos.

Tenho um pai que me conhece, que não precisa de muito para saber o que se passa comigo – seja bom ou mau.

Tenho um pai como todas as crianças, independentemente do casamento dos seus pais, deveriam ter. Tenho a sorte de ter um pai. Ponto.

 

Querido pai da minha filha:

A nossa Mariana já começa a saber a sorte que tem por te ter como pai. Quer fazer as coisas em conjunto, em família. Sabe-lhe bem ter-nos aos dois presentes sempre que possível. Gosta de nos dar a mão, uma a cada um, enquanto andamos na rua. Porque é isto que nos espera: um caminho em que o ideal é caminharmos lado a lado – a três, enquanto não formos mais.

Ambos vimos de casamentos que terminaram, ambos tivemos de aprender a gerir as saudades, as expectativas. Ambos queremos que a Mariana nunca tenha de o fazer (por mais positiva que tenha sido a nossa experiência).

Sei que ela vê aquilo que eu vejo:

Um pai que, acima de tudo, é todo amor.

Um pai que a conhece e sabe como brincar com ela.

Que ensina, mas é flexível.

Que canta mesmo sem conseguir acertar nas melodias.

Que usa os truques certos nas alturas exactas.

Que tem uma cumplicidade como vemos poucas.

Que a inclui e não a trata como tontinha, que sabe que ela compreende tudo, dentro das suas capacidades.

Que a vê como uma extensão sua: com os sonhos ainda a desabrochar, com um sentido de humor apurado, com uma perspicácia incrível.

Que é um companheiro perfeito.

Está a ser uma viagem e tanto. Graças aos meus pais (ao meu e ao da minha filha) sou uma pessoa melhor. Uma mãe melhor. Uma filha melhor.

Sou, toda eu gratidão.

Obrigada, meus amores.

 

P.S. – Sei que nos processos de separação nem sempre os adultos agem como devem. Por incapacidade, por indiferença, por mágoa. O essencial, na minha experiência, é parar para pensar: se fosse connosco como gostaríamos que as coisas acontecessem? Pode fazer toda a diferença. Se se está a separar e tem filhos, procure ouvi-los. Se ainda não são capazes de se exprimir, procure compreendê-los. Procure não lhes “roubar” mais do que aquilo que inevitavelmente terá de acontecer. Se é filho, procure compreender os seus pais. Faça-se ouvir: sem exigências, sem julgamentos, sem os deixar com peso na consciência. O diálogo é a chave. E na ausência de palavras, deixemos o amor falar mais alto.

A magia do desfralde

Todas as etapas de crescimento de um filho são importantes. Algumas são divertidas, outras cansativas e há ainda as que nos assustam.

Para mim, como mãe de primeira viagem, houve sempre dois momentos na minha cabeça que temi: a introdução de alimentos sólidos e o desfralde. Conheci de perto a angústia de se ter um filho que não come e pedia a todos os santinhos que no meu caso não fosse assim. Não foi, a Mariana sempre comeu bem e quando isso não acontece é sintoma de que algo se passa. Antes assim.

E, sem darmos bem por isso, aos vinte e dois meses da Mariana, começámos o desfralde. Pode ainda ser cedo, mas como ela mostrou bastante autonomia neste campo, decidimos, em parceria com as educadoras, experimentar. Se correr bem, maravilhoso. Se não correr tão bem há tempo. É assim que se pretende que esta fase corra: sem pressões, sem ralhetes quando não corre bem, apenas com toda a paciência do mundo.

Começámos há duas semanas e meia.

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Pedir um intervalo ao tempo

Ela foi mãe tarde, mas sempre sonhou com esse dia.

Leu todos os livros, preparou-se para tudo o que aí vinha e levou o marido a fazer o mesmo. Acreditava que se soubesse tudo, não haveria razões para não ser uma boa mãe.

O primeiro filho nasceu e depressa percebeu que faltavam vários capítulos aos livros que tinha lido. Ela poderia escrever praticamente uma colectânea com as coisas que tinha aprendido – aprendido que não sabia.

Deixou-se levar ao sabor do vento, seguindo o seu instinto, dando o melhor de si. O marido, vendo que afinal as coisas não eram como lhe tinham dito, foi-se afastando aos poucos – ao ponto de ser quase um estranho para o filho, para a mulher. Ela continuava a sua luta, queria dar o melhor ao filho, mesmo que isso significasse apenas estar lá. Mas a preocupação constante com aquilo que lhe parecia escapar fez com que se esquecesse do mais importante – conhecer o seu primogénito. Falar com ele, mesmo quando ele mal respondia. Não que não lhe falasse, mas não ouvia a resposta que vinha do outro lado. Foi fazendo as vontades todas, para que não faltasse nada à criança. Esta, sem outra opção, acabou por ficar mimada. De fora, viam-se alguns comportamentos a corrigir, mas apenas isso. Para ela, que estava dentro da bolha, parecia começar a tornar-se insustentável. Afinal, estava sozinha – apesar de acompanhada – com uma criança a que não sabia o que fazer. Depois de muitas noites em claro percebeu a solução: dar-lhe um irmão. Isso abriria os horizontes do primeiro filho, ajudá-lo-ia a partilhar, a perceber que as coisas não são sempre como ele quer (apesar de serem assim porque a mãe se esforçou sempre nesse sentido).

Ela guardou numa parte recôndita da sua alma o facto de se sentir perdida e sozinha mesmo tendo uma pessoa ao seu lado. E segundo filho veio. Para ajudar o mais velho, repetia vezes sem conta.

Mas o mais velho, já capaz de tomar conta de si, viu a sua realidade mudar do dia para a noite. O segundo filho passou a ser o centro de tudo: da atenção, dos cuidados, do amor. Como nunca tinha sido ouvido, o mais velho não falou. Faltou-lhe a coragem e a voz. Foi crescendo e aprendendo, à sua própria conta, o seu novo lugar naquela casa. Deixou de ser mimado, naturalmente, o mimado agora era outro. Passou a ser um espectador dentro da sua própria casa. Não podia fazer isto e aquilo por causa do mais novo, se este lhe batia ou estragava os brinquedos nunca era repreendido – e o mais novo tornou-se o dono da casa.

O cansaço fazia-a lembrar-se que estava sozinha, mas a quantidade de coisas que os filhos (mesmo que o mais velho se limitasse a seguir a onda) exigiam deixavam-na sem tempo para perceber o que estava a acontecer debaixo do seu tecto.

Passaram-se vários anos e, apesar das suas boas intenções, o amor não bastou. Não bastou no início, para que o marido percebesse que ela precisava de ajuda para conseguir dar conta do recado; não bastou para que um filho ainda a ser educado fosse compreendido com a importância que tinha e tem; não bastou para que o mais novo tivesse uma educação melhor, com erros a serem corrigidos.

O amor não bastou.

E a ela, hoje, sobra-lhe cansaço. Luta diariamente sem perceber que lá atrás podia e devia ter parado para pensar. Ainda hoje pensa tão depressa que não respira. Toma as decisões com o coração e sofre com elas.

Esta mãe tem dois filhos. O mais velho perdido sem saber o seu lugar. O mais novo por achar que todos os lugares são seus.

Tem uma luta pela frente. Mas a primeira que devia travar era consigo mesma. Parar. Ouvir. Chorar. Descansar. Criar uma estratégia. Acima de tudo mudar. Mas a mudança assusta, principalmente quando nos sentimos (e estamos) sozinhos.

Esta mãe podíamos ser nós.

Como ela, temos também muito a corrigir, a pensar. Como ela, damos o nosso melhor. Como ela, às vezes merecíamos ter uns segundos para parar.

Mas o tempo não pára, a vida segue e temos de ser.

Mães, mulheres, educadoras, amantes, amigas, trabalhadoras. Animadas, interessantes, interessadas, informadas, cultas, divertidas e de bem com a vida.

Que a história desta mãe nos lembre que não faz mal não saber tudo. Que é bom pedir ajuda.

Que é sempre tempo de mudar.

Para melhor.

Pelo bem dos nossos filhos.

Para nosso bem.

 

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Os filhos são a melhor coisa do mundo.

Os filhos dão um trabalho que só quem os tem entende.

Às vezes só querem (e precisam de) atenção.

Os pais fazem o melhor que podem, na maior parte dos dias. Nos outros sabem que têm direito a uma excepção de vez em quando.

Os pais fingem que não vêem um disparate ocasional porque os filhos já estão a fazer outra coisa em segundos e dar importância ao que aconteceu não mudaria nada.

Os pais escolhem que guerras comprar, para bem da sua sanidade mental.

Noutras alturas o mínimo deslize espoleta uma guerra civil.

Os filhos, muitas vezes culpa dos pais, acham que estes nasceram para os servir.

Os pais, ainda mais vezes, acham que nasceram para servir todas as necessidades dos filhos. Mesmo que as necessidades sejam um bolo cheio de creme na pastelaria depois de terem lanchado na escola – porque “coitadinho, é só um bolo e se posso por que não hei de lho dar?”.

Há pais para quem os filhos são uma verdadeira bênção.

Há pais que de pais têm apenas o título.

Há pais que deveriam receber prémios pelos esforços continuados que fazem.

Há pais cujos esforços são tão bem disfarçados que os filhos nunca os vêem.

Há filhos que gostavam de ter outro tipo de pais.

Há filhos para quem os pais são simplesmente o melhor do mundo.

Há filhos que são pais dos seus pais.

Os dias são todos diferentes, mesmo quando parecem sempre iguais.

Uma brincadeira conforta os mais pequenos e ajuda os mais velhos a ultrapassarem um dia pior.

Às vezes basta um sorriso.

Basta um abraço.

Basta saber que os filhos estão em casa à espera.

A convivência é uma estrada de dois sentidos. Dar e receber. Muitas vezes esta troca é escassa. Tantas outras vezes é repleta de bons momentos. A aprendizagem de se ser pai não vem em nenhum dos livros, nem mesmo nos mais afamados – porque é uma experiência única.

Não há pais perfeitos, como não há também filhos ideais.

 

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É muito difícil para uma pessoa assumir preconceitos em contextos sociais.

Esta é a regra.

A excepção? Quando há filhos envolvidos na questão.

O preconceito de que hoje escrevo supreendeu-me, em pleno ano de 2016 mas talvez ele esteja tão presente exactamente pelo ano que vivemos.

Na creche da minha filha uma das educadoras está de saída. Diligentemente estão a ser feitos todos os esforços para que seja substituída por uma pessoa igualmente capaz, competente, sensível com as crianças, justa e com perfil.

Têm sido vários os candidatos que nos têm chegado a nós, pais, sob a forma de carta de apresentação, uma vez que os candidatos seleccionados estão à experiência na sala dos nossos bebés.

Até aqui tudo tranquilo. Foram recebidos três emails de três candidatas e foram raras as pessoas que responderam a essa comunicação. Até que a situação mudou. Em vez de educadoras, era um educador. De longe o que tinha mais experiência com crianças, um currículo mais completo, com pós-graduações e mestrados com os mais variados temas ligados à infância.

Fui buscar a minha filha à escola e perguntei como estava a correr e tive a notícia. Tiveram de desistir desse educador, tal a avalanche de emails contra, telefonemas de pais, conversas em que encarregados de educação mostravam a sua apreensão. Fiquei estupefacta.

Uma das mães foi bastante directa e, pedindo desculpa, confessou o medo que sentia por ter um homem a cuidar da filha. Por causa das notícias que se ouvem ultimamente. Porque não é comum haver homens educadores. Porque…

Enfim, deixei de ouvir. Pensei naquele homem que estudou, se dedicou, se mostrou competente e se viu privado de uma oportunidade de emprego por causa do seu género. E de um estigma, na verdade.

Quantas vezes criticamos quando acontece com uma mulher? Quando é contratada apenas por ser mulher, quando não é contratada, apesar de ser a mais competente dos candidatos, porque pretende ter filhos, porque é mulher e as mulheres ainda são vistas como seres inferiores?

A verdade é que o contrário acontece também.

Tive vontade de perguntar àqueles pais para fazerem uma viagem no tempo: se o seu filho chegasse a casa de rastos depois de ser recusado num emprego em que tinha tudo para se dar bem, para ser competente. Como se sentiriam se percebessem o preconceito? Sentir-se-iam injustiçados e teriam vontade de cruzar sete mares em defesa do filho, porque o conhecem, porque sabem que é mais do que o seu género, porque acreditam na justiça, porque sabem que todos deviam ter as mesmas oportunidades. No entanto, com o filho de outro alguém não foram capazes de olhar mais longe.

Pensar no bem estar dos filhos? Claro, sou a primeira a defendê-lo. Usar do poder que temos enquanto pais para pressionar uma instituição de educação a seguir um caminho com base no medo acho errado. E deixei bem clara a minha opinião.

Infelizmente a maldade não tem sexo. Infelizmente a maldade existe em todo lado, inclusivamente onde os nossos filhos deveriam estar em segurança. Infelizmente, na maior parte das vezes, não conseguimos antecipar os problemas deste tipo. Mas é por isso que existem equipas multidisciplinares nas escolas. Para que quando há algo que não acontece como deveria, esse facto ser detectado. E sejamos sinceros, quantas notícias ouvimos sobre amas a maltratarem crianças? Educadoras nas escolas a abusarem do seu poder para castigar miúdos inocentes e dependentes? Façamos então o exercício de nos lembrarmos da última vez que, numa creche, houve um caso semelhante com um homem. A minha memória não registou nenhuma.

Porque, como disse, o que existe são pessoas más, sem escrúpulos, sem coração, sem vergonha, pessoas doentes.

As restantes não devem ser castigadas antecipadamente com base numa característica.

Não é pela igualdade que lutamos?

Pois não pode ser só quando dá jeito…

Para haver um mundo melhor temos de mudar muito, olhar mais em volta, pôr o coração ao largo algumas vezes e pensar duas vezes antes de agir.

Para educarmos crianças melhores.

Que sejam justas com os outros. Para que os outros sejam justos com elas.

Pela verdadeira igualdade.

Carta aos pais no parque infantil

Encontrei uma avó no parque, cujo lema era “quando as crianças brincam os adultos não interferem”. Advogava que assim é que as personalidades dos miúdos têm oportunidade de florescer e os pais podem ver, sem se meterem, se os filhos se defendem ou se agridem.

Concordo até certo ponto, porque já passei por situações de todos os tipos no que toca a parque infantis.

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Por isso, caros pais com quem me cruzo:

  1. Se os miúdos estiverem a correr divertidos, não se metam na brincadeira e deixem-nos estar – a não ser que estejam a incomodar alguém.
  2. Estejam atentos porque muitas vezes o vosso filho, com a desculpa de que vocês têm mais interesse no que se passa no telemóvel do que no que ele faz, empurra com força as crianças mais pequenas pelo escorrega abaixo.
  3. Se os vossos filhos chamarem nomes às outras crianças – “És mesmo parva, não é assim que se brinca!”- ou forem desagradáveis com elas -“não brincas connosco, ouviste?!”-, por favor interfiram e corrijam a atitude.
  4. Se a minha filha estiver a colocar pedrinhas no escorrega comigo a dez centímetros é porque eu autorizei e não vale a pena virem ralhar com ela dizendo que não se faz. Faz-se como em todas as brincadeiras: desarruma, arruma, não incomoda os outros e não tem de ser chamada à atenção por alguém que não a mãe. Pensem como gostariam que acontecesse se fosse o vosso filho.
  5. Deixem os miúdos sujar-se, explorarem novas texturas e brincadeiras, observar os outros para, eventualmente, os copiarem, apreciem o facto de eles estarem ali em vez de estarem com um tablet no colo e a atenção completamente focada em algo em que não participam verdadeiramente.
  6. Não comparem o vosso filho com os outros, principalmente em voz tão alta que se oiça no outro extremo da cidade e desmerecendo a vossa criança – porque o outro já se segura sozinho, porque os outros não querem ajuda para subir ou companhia dos pais para brincar.
  7. Acima de tudo estejam lá. De corpo e alma. Não precisam de estar fisicamente no recinto, mas é importante que os vossos (nossos!) filhos sintam que há regras para brincar. Que têm de respeitar o ritmo dos amigos, a vontade dos outros miúdos, o espaço que partilham.

Para que não ajam como se o que fazem não tem consequências.
Para que façam o que foram ali fazer: brincar e ser felizes.

Obrigada,

Uma mãe que está suficientemente perto para amparar as eventuais quedas da filha de vinte e um meses quando sobe ao escorrega sozinha, mas que lhe dá espaço para explorar o parque e conhecer novos amigos – tratando-os bem (quando não o faz ali estou eu, a emendá-la para que tudo continue como deveria ser).

Prioritário é olhar em volta

Enquanto grávida:

– Fui olhada de lado de todas as vezes em que já bastante grávida, na caixa prioritária do supermercado, a funcionária me deu a vez – mesmo sem ter exigido o meu direito de passar à frente e me ter mantido à espera, atrás de pessoas que de prioritário tinham apenas a pressa.

– Vi mulheres que abusaram do seu direito de prioridade dizendo que estavam grávidas (quem sabe se estavam mesmo…) para passarem à frente. Não tinham barriga, não estavam carregadas, simplesmente acharam que se estavam grávidas então não tinham de esperar.

– Ouvi a funcionária da farmácia perguntar se estava grávida (a barriga ainda induzia em erro na altura) e rapidamente uma outra senhora, de alguma idade, insurgir-se dizendona minha altura gravidez não era doença”.

– As pessoas nos transportes sentam-se nos lugares que são destinados a quem tem prioridade. E não levantam o olhar. Não querem saber. Fingem não ver. Indignam-se se por acaso alguém pede, por nós, que nos cedam o lugar.

 

Enquanto mãe:

– Foram mais as vezes (numa proporção de 90% para 10%) em que subi com o carrinho do bebé em braços nas escadas do metro depois de terem passado por mim homens de barba rija, estudante universitários no auge na força física e tantas outras pessoas que podiam ter ao menos perguntado se precisava de uma “mãozinha”.

[Numa dessas vezes foi uma senhora, tão grávida que receei que tivesse o bebé ali, quem me ofereceu ajuda. (Como é natural declinei).]

– Em todos as superfícies que têm elevadores – e espantem-se, todos têm uma placa a pedir a cedência de prioridade a quem não se pode deslocar pelas escadas – ou estes não funcionam de todo ou simplesmente é impossível apanhar o primeiro elevador porque quem está à espera – e 99% das pessoas escolhe, por mero comodismo, não utilizar as escadas – não só não dá passagem como finge que não vê o monstro que é um carrinho. Com um bebé lá dentro. Que comunica e se faz ouvir.

– Pedi prioridade para uma senhora grávida que estava em pé há bastante tempo na secção do talho de um supermercado (de renome, devo acrescentar) e o funcionário disse-me que se quisesse lhe desse a minha vez, mas que não a passaria à frente de ninguém. Troquei a minha senha com ela. Estava com os pés inchados e visivelmente envergonhada, não tinha pedido a prioridade e estava com uma criança pequena ao pé dela. Fiquei com vergonha alheia pela resposta que recebi.

– Ouvi pessoas discutirem a diferença da prioridade para pessoas acompanhantes de crianças de colo ou com crianças ao colo, achando que umas seriam mais merecedoras que outras.

– Na véspera de Natal fui a correr ao supermercado e levei a minha bebé, tinha-me esquecido de comprar alguma coisa para a noite e esperei na fila de atendimento prioritário. Volto a frisar: esperei. A funcionária da caixa ao lado, ao ver-me com um bebé de, na altura, quatro meses, pediu à colega que me passasse à frente. Esta recusou-se porque “o bebé não está a chorar”. E a senhora à minha frente acrescentou “se queria passar dizia, era preciso fazerem circo disto por si?. Fiquei sentida. Não tinha pedido nada mas senti como um gesto de boa vontade o da funcionária que quis ajudar. E de mau coração o da que se recusou. Numa véspera de Natal. Mal sabia ela que eu recusaria…

Acredito que este direito, como todos os outros, traz uma série de deveres associados. O do respeito, o da verdade, o da necessidade, o do bom senso.

Sei que se estou grávida de sete semanas, de perfeita saúde e vitalidade, não tenho necessidade de passar à frente de ninguém. Mas sei que se estou de pé com um barrigão, se me derem o lugar acho que o mereço. Se a minha filha estiver calma não vou pedir para passar à frente. Mas se ela começar a ficar inquieta irei fazê-lo porque só estou ali com ela porque preciso mesmo e não acho correcto incomodar ninguém, nem deixar a minha filha ficar mais irritadiça por causa dos olhares alheios.

Com esta longa lista quis apenas alertar para um dos, ainda, grandes problemas da nossa sociedade. Gostamos dos direitos, mas só quando nos tocam a nós. Quando temos de fazer alguma coisa pelos outros, a primeira tendência é reclamar. Isso entristece-me mas, como mãe, tudo farei para que a minha filha tenha em mim um exemplo do que fazer numa situação em que alguém precisa. Porque eu, para além de ter estado grávida e de ser mãe, sou um ser humano. E às vezes esquecemo-nos de nos olhar uns aos outros como tal.

Que a máxima “fazer aos outros o que gostava que me fizessem a mim” reine mais vezes.

É só ter bom senso.

(E bom coração, provavelmente…)

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Os direitos das crianças

Às vezes esquecemos que as crianças não são mini adultos. São seres humanos “em construção”, é certo, mas a infância passa rápido e temos tendência a exigir, a demandar, a lembrar os deveres. Hoje é dia de lembrar os direitos – e não só os que estão contemplados na Declaração dos Direitos das Crianças.

As crianças têm direito a sonhar.

A serem amadas.

De brincar livremente.

De se expressar.

A terem professores competentes, pacientes, interessados e justos.

De usar a sua imaginação.

De fazer perguntas, por mais estranhas e “descabidas” que possam parecer.

De não compreender tudo.

De errar.

De serem chamados pelo seu nome – e não pelos comuns “feio” ou “mau” quando fazem algo que desagrada aos adultos.

De não serem insultados (este direito complementa o anterior) – é urgente deixar de dizer às crianças coisas que, de tanto ouvirem, se tornarão a sua realidade. “Preguiçoso”, “burro”, “porco”, e por aí fora.

De serem livres.

À identidade de género.

À sua orientação sexual.

À sua individualidade.

De serem respeitadas.

De serem orientadas.

De fazerem amigos com facilidade, com dificuldade, ou de não fazerem amigos de todo.

À curiosidade.

De testar os limites.

De descobrir o mundo ao seu ritmo.

De não serem comparadas a toda a hora.

A boas rotinas de sono, de segurança rodoviária, de alimentação.

De serem ouvidas.

De não carregarem o peso da crise às costas – a informação está em todo o lado, não precisam de ter medo a toda a hora, de se preocupar com a comida que há-de ser posta na mesa, nas contas que há para pagar… mesmo que haja essa dificuldade, que as crianças não sofram em demasia com a antecipação de algo que não podem mudar. Nós, os pais, temos o dever de usar a imaginação, aquela que sempre esteve connosco desde que somos crianças, para evitar sofrimento desnecessário. E isto vale para tudo na vida dos nossos filhos.

A ter um tecto, comida, educação, acesso à saúde.

De não viverem num ambiente hostil.

À liberdade.

À paz.

Acima de tudo, as crianças têm direito a ser crianças.

Nascer, hoje, em Portugal, é muito diferente de nascer em qualquer outro lugar do mundo. Existem países em que as crianças são respeitadas, mas existem também países em que a infância simplesmente não existe. Temos o privilégio, dentro das nossas limitações, de ser um país sem guerra, sem violência extrema. As nossas crianças têm o direito a usufruir daquilo que as torna crianças – também em respeito àquelas que não têm essa oportunidade. Para que se tornem nos adultos que podem vir a mudar o mundo, com pequenos ou grandes gestos. Para que cada vez menos crianças tenham medo do futuro.

Semear hoje para colher amanhã.

 Ser filha, ser mãe

Sou filha.

Sou mãe.

Sinto-me ainda mais filha desde que a minha própria filha nasceu, logo ela que me deu o privilégio de ser mãe.

Ser filha é:

– Dizer ao meu pai que não sei como é que ele aguentou estar longe de nós tantos dias (quando os meus pais se separaram e passámos a ir aos fins de semana para casa do meu pai) e ele dizer que aproveitava bem os sábados e domingos, sem pressas, o tempo todo uns para os outros.

– Pensar na minha mãe e dois minutos depois tê-la a telefonar-me sem eu ter dito nada.

– Saber que ensaie o que ensaiar o meu pai vai sempre perceber se estou bem simplesmente pelo tom da minha voz.

– Ter, na casa da minha mãe, uma escova de dentes para quando lá vou.

– O meu pai enviar uma mensagem à noite a perguntar se está tudo bem (preocupado) porque há dois dias que não nos falamos pelo telemóvel.

– Continuar a fazer hoje, com a minha mãe, os mesmos programas que fazia quando éramos só mãe e filha – em vez de também avó e mãe.

– Sempre que me acontece alguma coisa: boa, má, assim-assim, ligar à minha mãe e ao meu pai de imediato. Sem ordem definida. Porque eles atendem sempre. Vibram com as coisas boas, emocionam-se com as vitórias, encorajam nas derrotas, querem saber de mim.

É sentir que importo para quem mais admiro no mundo.

Ser mãe é:

– Acordar várias vezes por noite quando a minha filha me chama e, mesmo assim, sorrir quando a vejo e dizer tranquilamente “está tudo bem, a mãe está aqui”.

– Ficar com o coração a bater mais depressa quando vejo a minha filha tentar algo pela primeira vez e dar-lhe espaço para que o faça sozinha.

– Ouvir o dialecto que a Mariana criou para se fazer entender e ser quem mais a percebe, às vezes só com um som.

– Saber que tenha dormido bem, mal, esteja doente, mal disposta, com febre, a arrastar-me pelo chão, terei de dar a volta e recuperar com a melhor energia possível porque há alguém que “depende” de mim.

– Dar por mim a fazer alguma coisa e a cantarolar “sapo sapo sapo, à beira do rio, quando o sapo canta é porque tem frio” em vez de uma qualquer música da rádio.

-É querer ser mais. Melhor. Errar. Aprender. Viver.

– Querer, mesmo quando é ela quem mais me exaspera, um abraço da minha filha.

Fazê-la sentir que importa, que trouxe uma felicidade imensa à nossa casa, que somos tão mais completos pelo simples facto de ela existir.

Ser mãe, ser filha. Duas metades de uma existência tão rica, complexa e importante.

Gosto tanto de ser filha.

Não trocaria ser mãe por nada no mundo.

E assim é que deve ser.

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Querida filha:

Ao longo do teu caminho irás encontrar todo o tipo de pessoas. Se virmos bem as coisas, já o fazes mas sem que te apercebas disso. As pessoas da tua vida.

Pessoas que exteriorizam o que sentem.

Pessoas que amam pelo olhar.

Que falam pelos cotovelos.

Pessoas que são inundadas pelo silêncio.

Que gostam de organização.

Que não se importam com um pouco de caos.

Pessoas que quando lhes dizem “queria uma coisa” respondem “já não quer?”.

Pessoas que se ofendem com a verdade.

Pessoas que vivem com mentiras.

Que têm bondade no peito.

Que não olham em volta.

Pessoas que não comem carne.

Pessoas que comem de tudo.

Que gostam mais dos animais do que de pessoas.

Que não se importam assim tanto com os bichos.

Pessoas que têm vícios.

Pessoas que tentam ser o mais saudáveis possível.

Que são ávidas por conhecimento.

A quem chega a informação do dia a dia.

Pessoas que amam ler e devoram livros.

Pessoas que não ligam a livros e só os lêem por obrigação.

Pessoas que se esquecem de tudo em todo o lado.

Outras que são autênticas agendas ambulantes.

Pessoas que têm a matéria em dia com semanas de antecedência.

Outras que a cinco minutos do teste ainda estão a decorar o quadro com o resumo, que está na página 82.

Pessoas que acreditam no amor.

Pessoas a quem a vida tirou a esperança de amarem para sempre.

Pessoas que perderam tudo menos a sua essência.

Pessoas que têm tudo menos uma boa essência.

Que se dedicam aos outros.

Que se dedicam apenas a si.

Que querem muito ter filhos.

Que são felizes sem prole.

Que face ao desconhecido saltam.

Outras que ponderam, e ponderam e ponderam.

Pessoas que reclamam por não ganharem o Euromilhões, mesmo sem nunca jogarem.

Pessoas que acreditam que excesso de dinheiro não lhes traria felicidade.

Pessoas que tiveram a capacidade de mudar.

Pessoas que são iguais há vinte anos.

Pessoas que têm sempre sete pedras na mão.

Outras que na mão carregam paz.

Pessoas que, sabiamente, são um pouco de tudo acima descrito ou absolutamente nada do que aqui escrevi. Os sábios sabem viver no meio termo.

Poderia continuar eternamente.

Todas as pessoas têm as suas características e num mundo cada vez mais repleto de rótulos, cabe-te a ti perceber que ninguém é só uma coisa.

Podes aprender com toda a gente, nem que seja que não queres ser como alguém. Mas acredita quando te digo que ninguém tem a função de te ensinar seja o que for (com excepção dos professores com que te cruzarás). Esse caminho é teu e não podes esperar dos outros que te tragam respostas (e felicidade). Se procurares o suficiente irás encontrá-las. Se te rodeares das pessoas certas terás respostas antes de formulares as tuas perguntas.

As pessoas que tens à tua volta são a tua maior fonte de riqueza. Bebe dela e viverás (feliz para sempre).