A mãe é…

Mãe cuida, mãe canta, mãe sonha, mãe faz planos, mãe ajuda.

Ouve, corre, apanha do chão, arruma na prateleira, cozinha, aprende.

Mãe chora, partilha, dorme pouco e sorri muito.

Preocupa-se, lê alto, pensa baixo, explica vezes sem fim.

Mãe pergunta, pesquisa, lê para si, faz acontecer.

Faz malabarismos, ginástica literal e metafórica, toma notas, esquece-se, atrasa-se, chega antes da hora.

colo, partilha a comida do prato, dá a provar, prova antes de dar.

Beija, abraça, cura com beijinhos, relembra vezes sem conta os momentos mais marcantes, repreende, dá espaço, dá trela, dá a mão.

Mãe acredita, finge que acredita, mãe confia.

Brinca, tira pedras do caminho, facas da mão, afasta do fogo e das escadas altas, protege no elevador e nas escadas rolantes.

Ensina, impressiona-se, ilude-se, mima.

Mãe é montanha, é mar, é terra.

É avião, submarino, é torre de controlo.

Motorista, passageiro, comandante.

É galinha, elefante, leoa, é touro.

Mãe é formiga, é cigarra, é canguru.

Mãe repete, aconselha, fotografa e pede mais.

Mãe é luz, é esperança, saudade, é caminho.

É fuga, abrigo, enciclopédia.

Mãe questiona, desafia, desafia-se.

Mãe supera.

Mãe.

Mãe é feita de mundo.

Agradece a sorte que tens

Agradece a sorte que tens por teres os teus filhos perto de ti.

Agradece essa sorte mesmo que, por circunstâncias da vida, não os tenhas perto tanto quanto gostarias.

Agradece a sorte que tens por o teu filho ter saúde, mesmo que esta não seja perfeita.

Agradece por o teu filho comer bem e se comer mal agradece o facto de teres comida para lhe oferecer.

Agradece a sorte que tens por o teu filho ser educado, mesmo que algumas vezes não percebas de onde tirou aquele comportamento que faz duvidar se não foi criado por selvagens.

Agradece o facto de teres oportunidade de ver o teu filho crescer, mesmo que à distância.

Agradece a sorte de o teu filho dormir bem, seja em que escala for.

Agradece a sorte de teres o teu filho a cantar em voz alta vezes sem conta nas alturas menos apropriadas, mesmo que isso signifique que não consegues ouvir a notícia que passa nesse momento na rádio – não vai ter essa leveza de espírito para sempre.

Agradece o facto de o teu filho te chamar repetidamente, mesmo que com isso deixes queimar um pouco o jantar – em breve não será a ti que vai chamar quando precisar de alguma coisa.

Agradece o facto de o teu filho perguntar infinitas vezes pela avó, pelo tio, pela prima, pelo periquito.

Agradece o facto de o teu filho te lembrar o pai algumas vezes e, de outras, te fazer a ti parecida com a tua própria mãe.

Agradece a sorte de receber beijinhos e abraços sem os pedires e de ainda poderes fazer o mesmo sem ser enxotada.

Agradece o facto de o teu filho existir, Deus sabe quantas pessoas vivem com a dor de não poder dizer e viver o mesmo.

Agradece a sorte que tens. Ponto.

Aceita e agradece a tua vida.

Muda o que está ao teu alcance, mas nunca deixes de ser uma boa mãe porque achas que tens falta de sorte.

Afinal… Já te deste conta da sorte que tens?

 

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O teu filho ama-te.

Quando te vê no teu pior a perder a paciência com ele, o teu filho ama-te.

Se lhe dizes que faça algo e ele decide simplesmente ignorar-te.

Quando exige de ti o que achas impossível dar.

Se chega a casa e murmura um “olá” e se vai fechar no quarto, ele ama-te.

Quando repete vezes sem conta que não entendes, que nunca compreenderias.

Se percebes que não te conta toda a verdade.

Mesmo quando vês que procura outros portos de abrigo, ele ama-te.

Se se esquece de enviar a mensagem quando chega ao pé dos amigos à noite.

Se não agradece teres-lhe arranjado as calças preferidas que achava estarem arruinadas para sempre.

Se cada vez sabes mais dele através das redes sociais do que conversando à mesa ao jantar.

Mesmo que faça o contrário do que sempre te prometeu que faria.

Quando te conhece todos os defeitos e, ainda assim, te ama.

O teu filho ama-te pelo simples facto de saber que, haja o que houver, estarás sempre lá. Mesmo que falhe, que não esteja sempre no seu melhor, mesmo que não estejas tu sempre no teu melhor. Têm a relação mais sagrada do mundo e essa relação tem fases. Fases de proximidade, fases em que mal conseguem comunicar, fases em que comunicam como ninguém mesmo em silêncio. O vosso amor pede calma, pede paciência, tem de existir sem pressas. Mesmo quando não acontece como deveria, acabará por voltar aos eixos. Mas não durmas à sombra da bananeira – esta relação sagrada só resistirá se deres, se a regares, se a acarinhares e se a respeitares pelas suas características.

Vai valer a pena.

Por isso, nos momentos em que sentires que podia ser diferente, lembra-te do mais importante: ele ama-te. Incondicionalmente. (E foste tu quem primeiro o ensinou a amar, podes ficar descansada).

Adaptação na escola

Querida mãe (e ou pai) cujo filho está a fazer a adaptação na escola:

Prepara (e prepara-te) esta nova etapa sem medos (o que não é o mesmo que dizer que não tenhas receios).

Tenta perceber todas as mudanças para que quando o teu filho for confrontado com elas possas saber do que se trata e explicar-lhe o porquê de as coisas serem como são.

É natural que percas algumas horas de sono por causa das novas actividades, dos novos cuidadores, da nova carga de trabalhos que o teu filho vai ter, da alimentação e por aí fora. Permite-te ter as tuas dúvidas mas tenta resolvê-las a todas com tranquilidade.

A adaptação dos nossos filhos a uma nova realidade é também uma adaptação dos pais a essa mesma situação. Se fizeres a tua parte, isso irá facilitar a parte que cabe aos teus filhos.

Dito isto, há uma lista de coisas que deves tentar não esquecer:

– O teu filho é fantástico (e tem nele a capacidade de “enfrentar” o mundo, ou não foste tu quem lhe deu todas essas ferramentas?).

– O teu filho vai ter de se habituar às novas rotinas.

– Vai ter de conhecer as pessoas para ter a possibilidade de criar empatia com elas. Não esperes que goste de toda a gente (quando nem tu, que és adulto, o fazes).

– Dá-lhe tempo.

– Ouve-o.

– Tranquiliza-o.

– Aprende o que ele está a aprender para se sentir acompanhado.

– Desdramatiza. Não adianta chorarem juntos, isso vai acrescentar uma carga dramática emotiva negativa a uma mudança: que ao longo da vida acontecerá múltiplas vezes e que deve desde já ser vista como a oportunidade de algo novo e melhor.

– Participa.

– Não desvalorizes os sentimentos do teu filho: se está a partilhar o que sente aprecia esse momento.

– Está atenta aos sinais, sejam eles positivos ou negativos.

Acima de tudo, respira fundo. Daqui a uns meses vai parecer que as peças estiveram sempre tão bem encaixadas que vais sentir que este início aconteceu numa outra vida: ou pelo menos é este o meu desejo e o meu voto de que tudo corra bem.

Afinal, mudar é evoluir e ser mãe (pai) é crescermos com os nossos filhos.

Este é só mais um degrau e cabe-nos a nós subi-lo da forma mais natural possível.

 

 

imagem@Tu Chique, Coleção Outono/Inverno 2016®

Nunca deixes de brincar!

Brinca sempre como se o tempo não contasse.

Brinca aos bombeiros, aos médicos, aos astronautas.

Brinca a coisas para as quais ainda não inventaram nomes.

Agradece quando tens amigos para partilhar as brincadeiras, mas aprende que brincar sozinho também tem as suas riquezas.

Aceita que nem sempre as tuas brincadeiras vão ter graça.

Brinca para divertires a tua irmã mais nova.

Brinca quando a tua mãe teve um dia menos bom.

Brinca para esquecer que o teste te correu mal.

Brinca para fingires que o facto do “tal” ainda não ter dito nada não tem assim tanta importância.

Brinca aos cozinheiros, às cantoras, aos cientistas.

Brinca para perceberes quem és, a liberdade que tens.

Brinca para não te sentires tão ansiosa num momento mais chato.

Brinca com o cabelo enquanto os teus pensamentos te levam para longe.

Brinca imaginando que tens um palco sob os pés quando a tua música favorita passa na rádio.

Não brinques com os sentimentos dos outros.

Brinca com as ironias da vida.

Brinca com a sorte que tens, ou com o azar que às vezes te bate à porta.

Brinca na areia até a vergonha te impedir de o fazer. (até passarem alguns anos e não te importares mais com isso).

Brinca só quando isso não incomoda os outros porque as brincadeiras só valem a pena se todos estiverem divertidos.

Brinca com as características que te afastam da tua avó, com aquelas que vos fazem parecer da mesma geração.

Brinca por nunca te esqueceres de nada ou por nunca te lembrares de coisa alguma.

Brinca aos super heróis.

Brinca a alta velocidade e aproveita e dá mais uma volta na montanha russa.

Brinca com calma e vê as nuvens no céu a arrastarem-se para longe.

Brinca quando chegar a altura de sentires saudades por não brincares há demasiado tempo.

Acima de tudo, querida filha: Nunca, mas nunca, deixes de brincar. A vida é demasiado séria para te levares sempre a sério.

 

imagem@weheartit

Um dia ensino-te…

Um dia ensino-te a importância de saber perdoar;
A assumir as tuas responsabilidades;
A pensares nos outros e não só em ti.

Um dia ensino-te que nem todo o friozinho na barriga é amor;
Que há pessoas que nunca irás esquecer, independentemente de a vida vos afastar irremediavelmente;
A rir das tuas fragilidades.

Um dia ensino-te que nem todo o ciúme é saudável;
Que a confiança se constrói pouco a pouco mas que se pode acabar num ápice;
Que por te terem magoado uma vez não significa que todas as outras pessoas o façam.

Um dia ensino-te a aproveitar os abraços que dás a quem amas;
A valorizar os raros momentos em que podes fazer exactamente aquilo que queres;
A não olhares apenas para o teu umbigo.

Um dia ensino-te que nem toda a mentira tem perna curta;

Que nem toda a verdade tem de ser dita;
Que ganhas muito mais se pensares antes de falar.

Um dia ensino-te que não tens de gostar de toda a gente, mas a todos deves respeito;
A aceitar que nem toda a gente goste de ti;
A não transformar esse facto na luz orientadora do teu caminho.

Um dia ensino-te que há amigos que se amam como a irmãos;
Que há viagens que não se repetem;
Oportunidades que não voltam.

Um dia ensino-te que há certezas que viram dúvidas;
Que não há problema em mudares de opinião;
Que não deves envergonhar-te por não pensares como a maioria.

Um dia ensino-te que a curiosidade é um dom;

Que a felicidade é, basicamente, estarmos aqui e agora;
Que o único responsável por te fazer feliz és TU!

Um dia ensino-te que mesmo quando tudo parece estar a correr-te mal o mundo não está contra ti – apenas te cabe olhar esse mundo com outros olhos para que consigas encontrar um novo rumo;
A não julgar pelas aparências, a não teres preconceitos;
Que nunca saberás tudo sobre toda a gente.

Um dia ensino-te que te vais desiludir com as pessoas mais insuspeitas – e isso faz parte;
Que o amor é uma dádiva e serás uma sortuda se o conseguires ver à tua volta;
Que todas as histórias têm duas versões e deves procurar que a tua seja a mais fidedigna.
Que não deves esperar dos outros exactamente aquilo que dás, sob pena de viveres numa insatisfação permanente.

Ensino-te que há memórias que te irão acompanhar para sempre, por isso procura construir mais momentos bons que maus;
Que por mais que olhes para trás não podes mudar o passado – aceita-o.
Que és a dona das tuas conquistas e dos teus erros.

Um dia ensino-te a valorizares as tuas melhores características e a não chamares a atenção dos outros para os teus defeitos.
Um dia ensino-te que o dinheiro não é tudo;
Que um verdadeiro amigo às vezes é tudo o que precisas;
Que a vida é demasiado curta para culpares os outros por algo que nunca conseguiriam fazer (ou agir) de outra forma.

Um dia ensino-te a amar os livros;
A não responderes a tudo o que te dizem – tantas vezes o melhor é deixar passar e não dar importância;
A ser boa, a não esquecer as tuas origens, a tua família.

Um dia ensino-te a não usares o poder como arma;
A amares-te;
A amares o que a vida tem de bom.

Ensino-te a aceitares todas as tuas cicatrizes;

A procurar o equilíbrio;
A não maltratar os outros, a tratá-los sempre com educação e, aos que precisam, com compaixão.

Um dia ensino-te a saltar mesmo quando sentes medo (para que possas sentir que és quem és e estás onde estás pelo que fizeste mais do que pelo que deixaste de fazer);
A filtrar tudo o que é negativo.
A não te ires abaixo quando estás “sozinha” nas tuas convicções.

Um dia ensino-te a teres orgulho em ti e nos teus.
Que é normal questionares-te.
Que podes tudo, basta trabalhares para isso.

Sei que só serei responsável por te ensinar uma pequenina parte destas lições. A vida encarregar-se-á do restante mas, mesmo assim meu amor, nunca te esqueças que os teus dias são o que fazes com eles, os problemas têm a proporção que lhes dás, que uma atitude positiva é meio caminho andado para seguires em frente.

Um dia ensino-te a voar – com um mapa desenhado nas costas com a ponta dos meus dedos, para que possas regressar sempre.

A mãe deseja-te a melhor e mais rica das viagens.

 

imagem@weheartit

Aos olhos de uma criança todas as montanhas são alcançáveis.
Outras crianças são potenciais amigos: seja qual for a sua forma de vestir, de falar, a cor da sua pele.
Todas as poças servem de piscina.
A chuva é motivo para abrir o chapéu de chuva preferido.
A areia é a desculpa ideal para fazer castelos, pontes e túneis, croquetes humanos, para se enterrarem apenas com as cabeças de fora.
Um beijinho e um mimo curam qualquer das feridas.
As nuvens formam figuras que ajudam a contar uma história.
Todos os dias são uma folha em branco.
A sua comida preferida é razão de festa.
Um embrulho é o suficiente para as deixar entretidas: nem que seja a rasgá-lo durante alguns minutos.
As promessas dos pais valem ouro.
Os gestos dos adultos ensinam-lhes como devem agir.
Uma gargalhada é o melhor remédio para uma queda.
Quando toca no rádio do carro a sua canção preferida é altura de dançar – e todos os que estiverem por perto são obrigados a fazê-lo.
Uma bola é o equivalente a duas viagens na montanha russa, três algodões doces e um saco de pipocas.
As regras foram criadas para serem postas à prova.
Uma história às vezes conta como a volta ao mundo em trinta minutos.
Os mais velhos são como iguais, igualmente sedentos de atenção e carinho, capazes de lhes dar o mundo como a mais ninguém.
Não há incapacidades totais, sonhos impossíveis, inimigos cruéis.
Há um mundo à espera de ser descoberto, pessoas capazes de as fazerem felizes, brincadeiras infinitas, um sorriso para cada ocasião.

Falta-nos, por vezes, olhar o mundo assim.

Que nunca deixemos adormecer a criança que há dentro de nós, que consigamos fazer as nossas crianças manter um pouco desta sua pureza de espírito.

Estás prestes a completar dois anos.

Corres, falas, compreendes o que te dizem, respondes com graça e adoras brincar.

Sei do privilégio que é ter-te comigo todos os segundos que temos disponíveis só para estarmos uma com a outra. Sei do privilégio que é seres saudável e fazeres todos os disparates que fazes – aprendi a estar agradecida por eles.

Não sabes, mas muitos anos antes de acreditar que um dia seria mãe, escolhi o teu nome. Sonhei-te em segredo, desejei-te quando conheci o teu pai, ainda era eu – mesmo que não o sentisse – quase uma criança.

Estás comigo há muito mais do que estes dois anos. Estarás, se Deus quiser, muitos mais.

Tenho-te tatuada no corpo numa tatuagem que só poucos conhecemos (e a que achas tanta graça!), mas a tua presença na minha vida está-me estampada no rosto: nas olheiras que não passam, nas linhas que ficam mais carregadas, nos cabelos brancos que cessaram de aparecer (um dos teus milagres). Também no corpo deixaste marcas: levaste-me os quilos que tinha a mais e que não faziam falta nenhuma, deixaste-me os braços mais “musculados” de tanto te pegar e brincar contigo, os pés meio número acima desde a gravidez.

Fizeste-me ter saudades infinitas dos meus avós que já não estão cá para te conhecerem, fizeste-me enternecer com as brincadeiras que tens com os que ainda andam por cá.

Fazes-me agradecer por ter o teu pai ao meu lado – sempre, para sempre.

Sorrio muito mais desde que te tenho. Sonho por mim, mas mais por nós. Desejo coisas boas, tento apagar as coisas más que, bem vistas as coisas, não servem para nada.

Vibro contigo a cada nova palavra (e adoro a forma como dizes “pêssego”, “queijo”, “avó Fernanda”, “queres!”, “posso?” e por aí fora).

Emociono-me ao ver-te com a tua tia materna, uma reprodução quase exacta do amor que senti por ela quando era bebé e brinquei, cuidei, ensinei: como ela faz contigo (tão pacientemente).

Deixo-te voar nas brincadeiras no parque, na praia, na piscina, ajudo-te a alcançar novos patamares, a venceres pequenos medos.

Vejo-te cair e sacudir as mãos e os joelhos como te ensinei: e pedires beijinho para passar se te tiveres magoado.

Delicio-me com a forma como cuidas das bonecas (e preocupo-me quando as deixas dentro do alguidar com água de barriga para baixo).

Admiro a tua memória afectiva e orgulho-me das pessoas que te rodeiam.

Foram dois anos para mim, para ti foi toda a tua vida. Espero que estejas a gostar dela – faço por isso.

Vou continuar aqui quando precisares e quando já não for tão precisa assim. Por enquanto ajudar-te-ei a deixar as fraldas, a limpar as lágrimas do teu rosto, a não esqueceres a tua história preferida, a cantar animadamente, a brincar da forma mais disparatada possível, a ser feliz só porque sim – como devia ser sempre.

Lembras-te do que te segredei na maternidade quando o sol brilhava forte lá fora mas estávamos fresquinhas no quarto?

Pois bem, nunca deixarei de o repetir, meu amor.

 

P.S. – Amo-te.

Cheguei à creche para ir buscar a minha filha e ela segurou-me a cara entre as mãos, feliz como nunca, e disse com os olhos cheios de amor: “olá mamã, olá mãe”.

Estava feliz por me ver, como eu me sinto feliz só por saber que ela dorme no quarto ao lado depois de um dia agitado, cheio de brincadeiras.

Não há como explicar este amor. Desconfio até que deveria ser criada uma nova palavra para o definir, porque “amor” já é tão cheio de tantas coisas, tantas coisas que nada têm a ver com o que vivemos e sentimos por um filho. É um mundo à parte. Um compartimento fechado que se estende aos demais, quantas vezes erradamente se lhes sobrepõe, mas que não se mistura.

A minha filha, agora um papagaio autêntico, decidiu que é mais divertido chamar-me pelo nome do que tratar-me por mãe. Acho graça, mas corrijo, porque Marta sou para toda a gente: quem me quer bem, quem não me conhece, quem só comigo falou uma vez.

Mãe sou só dela. Para ela.

É com ela que partilho as minhas gargalhadas mais genuínas, algumas esquecidas desde a infância.

É com ela que canto a toda a hora, desde que nasceu, mesmo quando lhe quero explicar algo.

É para ela que tento ser um ser humano melhor.

É nela que tento aplicar o que me ensinaram, que tento não repetir os erros que vejo à minha volta, que me esforço por melhorar os meus.

Partilhamos a inicial dos nossos nomes, a nossa casa, o amor pelo pai, momentos de ternura e algumas chamadas de atenção.

Foi por ela que, grávida como um pinguim, me levantava da cama ao sábado de manhã para fazer a ginástica pré parto – quando só queria dormir mais um bocadinho (já sabendo que era melhor fazê-lo na altura que guardar para depois).

É por ela que hoje madrugo ao sábado de manhã para entrar na piscina com ela, para a ver aprender a mergulhar, para a ver destacar-se pela sua audácia, pela sua curiosidade de engolir o mundo.

É ela que me faz comer bem, cozinhar melhor, ter atenção a todas as minhas escolhas.

É com ela que converso de igual para igual porque sei que alguma coisa ficará lá dentro.

Foi para ela que inventei as minhas melhores histórias.

Ela não sabe, mas é a tal.

E até pode gastar-me o nome, mas nunca gastará o que significa aquela pequena palavra de três letras apenas.

Por mais que me chame, nunca deixarei de vir.

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Sinais de que uma mãe precisa de férias

Quando coloca a chave do correio na do elevador.

Se dá por ela a fazer o risco nos olhos com um lápis da Caran D’Ache.

Aplica-se a fazer a mochila da natação dos miúdos e, mesmo assim, se esquece dos chinelos, da touca e do fato de banho.

Troca o nome dos filhos constantemente.

Adormece a meio de uma frase.

Usa os óculos de sol como disfarce para adormecer de olhos abertos.

Quando coloca protector solar no boneco preferido da filha e segundos depois percebe que esta a olha com estranheza.

Já só se consegue lembrar de uma canção para entreter os miúdos.

Responde “ok, mas sentados no chão” quando é desafiada para uma partida de futebol.

Adora que os filhos queiram apenas andar de baloiço vezes sem conta, durante toda a estadia no parque, sem precisarem de ser empurrados.

Se a box ameaça apagar os mil e trezentos episódios de séries que tem para ver.

Quando acumula livros que começou a ler, estrategicamente empilhados na mesa-de-cabeceira.

Faz riscos na parede a contar os dias para as férias, qual condenada.

Cria mentalmente cerca de sete listas do que é preciso levar, comprar, deixar feito, pagar, não esquecer mesmo quando sair de casa para os merecidos dias de descanso.

Personaliza atempadamente a mensagem automática de resposta do email do trabalho.

Se acenou com a cabeça em mais de três frases então é crónico: precisa de férias!

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