São várias as características que nos distinguem dos animais. Diz-se que somos seres racionais porque pensamos, conseguimos comunicar de uma forma única utilizando a fala, somos capazes de ter consciência do que já passou e de adequar o nosso comportamento mediante situações que ainda nem sequer aconteceram. Somos capazes de realizar operações complexas, construir os instrumentos mais espantosos e mudar o mundo consoante as nossas necessidades. Entre muitas outras coisas.

No entanto, na minha opinião, a competência mais importante que possuímos é a capacidade para controlar o nosso próprio comportamento. Esta capacidade é muito importante, não tanto pelo que escolhemos fazer, mas principalmente pela inibição de comportamentos que escolhemos não ter.

Como animais, nascemos com reflexos e impulsos biológicos os quais, durante os primeiros anos de vida, não conseguimos inibir. Um bebé que tem fome chora, uma criança enraivecida agride, uma criança com sede pede água. São impulsos internos que não conseguem inibir. Por isso agem impulsivamente. Trata-se de comportamentos definidos biologicamente e ainda não controlados conscientemente.

Uma das tarefas da educação passa por treinar o adiamento e a inibição de muitos destes comportamentos. Desde que nasce, o bebé vai aprendendo a controlar o impulso de dormir, a adiar o impulso de fome ou sede e a inibir impulsos agressivos. Tudo isto faz parte da educação que lhe damos. E leva muitos anos a adquirir. É esta aprendizagem que lhe vai permitir, mais tarde, esperar até à hora da refeição para comer, inibir a vontade de ir brincar para pôr a mesa para jantar ou adiar a vontade de ir passear com os amigos para poder estudar para um exame.

A criança que escolhe não olhar para o que se passa na rua para terminar o trabalho que está a fazer; o jovem que escolhe não mergulhar num sítio perigoso apesar do calor que sente; o adulto que escolhe não agredir apesar da raiva que o fazem sentir são exemplos de comportamentos inteligentes, treinados durante anos e resultado desta capacidade fantástica que é a inibição de impulsos. Escolher não fazer também se aprende.

Na minha prática clínica constato que muitas das crianças que tenho acompanhado têm sérias dificuldades no treino desta competência e, por esta razão, opto por fazer este treino com todas elas. A capacidade de inibição de impulsos é, provavelmente, das competências mais importantes, mais abrangentes e mais determinantes para o sucesso da sua vida futura.

Kátia A. Santos, Psicóloga Clínica, para Up To Kids®
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Ter um irmão é um acontecimento que muda radicalmente a vida de qualquer criança. E embora muitas crianças queiram ter um, a verdade é que há crianças que não o querem e outras que nunca pensaram sequer nesse assunto. Os pais têm um papel importante na forma como preparam o seu filho ou filha para a chegada de um irmão mas devem estar à espera de reacções que, por vezes, não parecem as melhores.

A notícia

Se a criança já pedia um irmão, é natural que os pais se sintam ansiosos por dar-lhe a notícia na esperança de ver a sua reacção. Mas pode ser sensato esperar um pouco. O tempo é um conceito abstracto e bastante difícil de compreender pelas crianças. Para elas o tempo obedece a regras estranhas e é difícil de contabilizar (passa muito depressa nos momentos divertidos e muito devagar nos momentos aborrecidos). Poderá ser melhor para a criança que lhe diga o mais tarde possível, quando já houver uma barriga (mesmo que pequena) ou uma foto de ecografia.

Deverá escolher um momento calmo, sem interrupções nem pressas e, de preferência, com todos os membros da família nuclear presentes. Depois de dar a notícia deverá disponibilizar- se para as perguntas que a criança tenha, e que podem ser tão diferentes como querer saber como é que o bebé está na barriga até onde vai ser a cama do bebé. Prepare-se para responder de forma simples sem medo de dizer que ainda não pensou em (ou não sabe) tudo, mas disponibilizar-se para pensarem ou descobrirem juntos.

Conforme vai vendo a barriga crescer e vai dando a novidade a familiares, amigos e outras pessoas, é normal que lhe vão surgindo algumas dúvidas e que vá querendo saber mais: sobre a gravidez, sobre os bebés, sobre ter um irmão, etc. Se ele não demonstrar qualquer curiosidade, poderá ler-lhe um dos variados livros para crianças sobre este assunto ou até levá-lo a uma consulta ou ecografia. Ajuda a que ele se sinta envolvido, pense no assunto e mostra que os pais estão disponíveis para falar sobre isso. Respeite o seu ritmo e não o obrigue a falar. Espere pela iniciativa dele.

Também poderá acontecer, especialmente se já tiver uma menina, que ela de repente passe a brincar com os bebés mesmo que já não o fizesse há muito tempo. Mesmo que tenha um menino, e se ele ainda aceitar bem (normalmente se tiver menos de 6 anos, deverá aceitar) arranje-lhe um bebé e alguns adereços (biberon, prato e colher, fralda, etc.). Se a sua família é muito conservadora e não quiser dar-lho explicitamente (embora ache que pode fazê-lo sem problemas), diga-lhe que “é de uma menina”, que só está “a guardá-lo” e que pode brincar e tomar conta dele à vontade. Este tipo de brincadeiras é muito bom para que as crianças se identifiquem com o papel dos cuidadores, facilitando a aquisição do papel de “irmão mais velho” que lhe vai ser exigido por todos depois do nascimento do bebé.

Procure manter as suas rotinas o mais regulares possível mas prepare-se para algumas regressões, principalmente se ainda é muito pequeno ou se fez algumas aquisições recentemente (como o controlo dos esfíncteres, deixar a chupeta ou adormecer sozinho).

Tente o mais possível não reagir negativamente e aproveite para mostrar e dizer-lhe sempre que gosta muito dele e que isso não vai mudar nunca.

Preparar o nascimento

Se a criança perguntar poderá explicar-lhe que, para nascer o bebé, a mãe terá de passar alguns dias no hospital e só depois trazer o bebé para casa.

Mais perto da data, e quando já souber como vão ser as coisas, deve explicar-lhe onde e com quem vai ficar e como vão acontecer as coisas. Ela deverá obviamente ser levada a visitar a mãe e o bebé no hospital para que se sinta envolvida em tudo. Prepare-se para alguma reacção mais inesperada, como querer deitar-se ao seu colo ou pedir-lhe que brinque com ela nos momentos mais inoportunos.

Procure ter muita paciência, explique-lhe tudo com muita calma. Se puder, aproveite para focar a sua atenção nela e deixe que outra pessoa pegue no bebé, pelo menos enquanto ela estiver presente.

Um bebé em casa

Dependendo da idade da criança, ela poderá sempre ser envolvida nos cuidados ao bebé. Pode escolher um conjunto para o bebé vestir, trazer uma fralda ou contar uma história para o bebé (mesmo que não saiba ler). Em último caso, pode mudar a fralda ao seu bebé enquanto a mãe muda a do mano. Todas estas actividades com o bebé fazem com que a criança se sinta envolvida e valorizada. Mas pode também acontecer que ela não queira participar e, nesse caso, não a obrigue nem comente negativamente.

Mais importante é que a criança sinta que pode expressar as suas emoções livremente sem se sentir obrigada a corresponder ao que os adultos esperam dela. Mesmo que haja alguma reacção mais negativa, não censure, tente não se irritar, procure compreender (“sei que te sentes aborrecido porque não posso brincar contigo”), aceitar e reforçar sempre o seu amor (com um abraço, um beijinho ou outro miminho). Todas as semanas, pelo menos, pai e mãe deverão reservar um pouquinho de cada um para ela. Pode ser só ler um livro, jogar um jogo ou ir até ao parque. Mas deverá ser só vosso, sem o bebé por perto. Desta forma, mais dificilmente ela sentirá que o bebé é uma ameaça ao amor e atenção dos pais.

Mais tarde

Embora as rotinas possam mudar logo que o bebé vem para casa, a verdadeira mudança para a criança mais velha acontece só decorrido sensivelmente um ano. Durante o primeiro ano, ela ainda é a criança da casa e o bebé não ameaçou realmente o seu espaço.

Quando o bebé começa a andar, a falar e a querer brincar com os brinquedos da criança mais velha é que esta vai sentir realmente a intrusão deste num espaço que, até aí, era só seu. Vai ser obrigada a partilhar brinquedos e brincadeiras. Vai ser obrigada a partilhar a atenção dos adultos com um bebé que faz gracinhas, diz coisas giras e está a conhecer o mundo. Nesta altura é que ela pode sentir que está em desvantagem e podem surgir o que se chama de “ciúmes do irmão”.

A forma como os pais reagem pode fazer uma diferença muito grande na forma como as crianças ultrapassam esta situação e aprendem a definir o seu lugar na família, sem se sentirem ameaçadas ou postas em causa pelo irmão.

Todas as crianças são diferentes e fazer comparações entre elas ou manifestar preferências, ainda que meramente descritivas ou positivas, podem levar a criança a sentir que os pais gostariam que ela fosse de outra forma. Evite-as ao máximo.

Na interacção entre os irmãos, defina os comportamentos que não são aceitáveis nunca (bater, morder, chamar nomes, humilhar, etc.), ajude-os a identificar as emoções que causam um no outro (e as próprias) e valorize os comportamentos que causam emoções positivas. Em caso de conflito, tente o mais possível não se envolver e deixá-los resolver sozinhos as questões. Interfira apenas em caso de agressão (física ou psicológica), não se exalte, evite acusações, converse calmamente com os dois, envolva-os na resolução da situação e, em caso de dúvida, não tome o partido de nenhum deles mas reforce a sua confiança em que, numa situação futura, saberão resolver a situação sozinhos.

Mantenha o mais possível os tempos únicos e de qualidade com cada um dos seus filhos, proponha-lhes tarefas em conjunto, reforce positivamente aquilo que cada um faz bem e ajude-os a conhecerem-se cada vez melhor. Reforce diariamente o amor incondicional que sente por cada um deles.

 

“Mas também sou a mãe que desatou a chorar a primeira vez que o deixou de férias em casa da avó. Que dança e canta com eles como se ninguém estivesse a ver. Que lhes diz todas as noites que os adora.”

Eu sou a mãe que o pôs na creche com 3 meses.

Sou a mãe que esperava 10 segundos antes de ir a correr ver o que queriam.

A que fingia que não via quando ele caía no parque.

A que ignorava o menino que se metia com ele.

A que nunca pôs mais de 4 canais na única TV de casa.

A que não permite que o computador e o tablet sejam usados nos seus quartos.

Sou a mãe que nega prendas fora do Natal, aniversário ou dia da criança.

A que acha que a fada dos dentes só dá prenda nos 2 primeiros dentes.

A que só lhes dá doces no fim de semana e nas festas.

A que faz comidas que não gostaram antes para que se habituem aos sabores.

A que não os obriga a comer.

A que já a deixou ficar sem jantar e não lhe deu mais nada para comer até à manhã seguinte.

Sou a mãe que não carrega as mochilas deles.

A que lhes dá sacos de compras para levarem para casa.

A que não o leva à escola mesmo que esteja em casa.

A que não lhe dá beijos à porta da escola.

A que não lhe ajeita a camisola na rua.

Eu sou a mãe que não lhes faz as camas.

Que não arruma os seus quartos. Que não dobra as roupas deles nem as arruma nos armários.

Que não põe a mesa para o jantar. Que não leva o lixo à rua, mesmo que seja depois do jantar.

Sou a mãe que não pergunta se têm TPC.

Que não sabe quando têm testes.

Que não vê os TPC depois de feitos.

Que não sabe todas as notas de todos os testes.

Que o obrigou a ir às aulas extraordinárias por ter tido má nota no exame apesar de ter passado à disciplina.

Sou a mãe que insiste para que passem noites fora de casa desde bebés.

Que não telefona quando vão de férias com os avós ou para o campo de férias.

E que fica feliz muitas vezes em que não estão por perto.

Mas também sou a mãe que desatou a chorar a primeira vez que o deixou de férias em casa da avó.

Que lhes faz bolas de sabão para que rebentem.

Que lhe dá um beijo de “Boa noite” à força mesmo que ele não queira.

Que a põe a sorrir em 99% das vezes em que amua.

Que os vai buscar mais cedo à escola sempre que pode.

Que ficou com o coração nas mãos os 10 minutos que ele levou a chegar da primeira vez que andou sozinho na rua.

Que brinca com eles sem se preocupar com mais nada.

Que dança e canta com eles como se ninguém estivesse a ver.

Que lhes diz todas as noites que os adora.

E que se sente feliz por vê-los crescer independentes.

 

Compreender a morte é um processo que se vai desenvolvendo ao longo do crescimento da criança. À medida que a criança se vai deparando com ela, vai construindo uma ideia do que é, do que acontece, do que se sente e do que se pode fazer para ultrapassar esses sentimentos.

Crianças que vivem fora das grandes cidades, em ambientes mais rurais, onde os animais ainda são criados para comer, onde toda a gente tem um cão ou um gato, onde as pessoas de várias idades vivem em comunidade e é costume assistir aos funerais de desconhecidos (ou menos conhecidos) e onde é comum visitar-se o cemitério para cuidar das campas e renovar as flores, mais facilmente poderão ter uma ideia da morte como parte integrante do ciclo de vida.

Também as crianças que tenham contacto com animais (cães, ratos, coelhos, tartarugas, etc.) poderão ter mais noção do ciclo de vida. Observam os animais nascer, crescer, reproduzir-se, ficar doentes, e eventualmente morrer. E se o animal de estimação do seu filho morrer, não vá a correr comprar outro para que ele não repare! Aproveite para lhe explicar que ele morreu (não fuja das palavras), deixe-o lidar com a dor à sua maneira, deixe-o despedir-se dele, recordá-lo e decidir o ritual de despedida que quer fazer (com a devida orientação e aconselhamento, claro).

As crianças de meios urbanos, tipicamente, não costumam ter muito contacto com a morte. Muitas nunca visitaram um cemitério nem assistiram a um funeral, mesmo de um desconhecido. Muitas não têm animais. Até que um dia acontece.

As crianças apercebem-se quando alguém morre, quer por perceberem a tristeza nos que as rodeiam, quer porque sentem a falta da pessoa que morreu.

Antes dos 2 anos não têm ainda capacidade para compreender o conceito de morte mas podem revelar-se medos e alterações nas suas rotinas. Muito carinho, muita compreensão e paciência bastarão para que ultrapasse a situação.

Dos 2 aos 5 anos já percebe o que é a separação e abandono embora tenha dificuldade em compreender a morte como processo irreversível. Pode manifestar comportamentos regressivos (voltar a pedir a chucha, que lhe dêem a comida à boca, fazer xixi na cama, etc.). Deverá explicar-lhe a situação com linguagem adaptada à sua idade, de forma muito simples e explicando que é irreversível (as vezes que forem precisas).

A partir dos 6 anos, sensivelmente, a criança já consegue perceber o conceito de morte, da sua irreversibilidade mas dificilmente a encara como algo universal, ou seja, que se pode aplicar também à mãe, ao pai, aos irmãos e a ela mesma. Nestas idades, a conversa com a criança já vai para além disso mesmo e convém ter em atenção várias questões.

Convém tentar perceber primeiro o que é que a criança já sabe sobre a morte e que ideias já tem. No caso de alguém que já estava doente poderá já ter sido abordada essa ideia com a criança ou ela ter ouvido alguma conversa. Se foi totalmente inesperado, convém perceber o que ela sabe para integrar a conversa no modo como ela já elabora o tema. Ninguém melhor que os pais para tentar perceber isto.

De uma forma calma, verdadeira e honesta, o tema deve ser apresentado da forma mais simples possível. Morreu porque estava doente, porque teve um acidente (sem pormenores!), porque estava velhinho, etc. E quando se morre parece que se adormece mas nunca mais se vai acordar. Deixa-se de respirar. Ponto. Não invente histórias de pessoas que passam a ser estrelinhas, ou que dormiu, ou que viajou, nada disso. Ele poderá integrá-las depois como forma de lidar melhor com a ausência mas deixe-o ser ele a adoptar a história que lhe fizer sentido.

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E depois disto deve-se deixar ser a criança a elaborar a informação que acabou de receber e a fazer as suas próprias perguntas. Não se deve explicar mais nada que eles não perguntem porque essa informação não vai ser integrada. O que ele estiver preparado para perceber, ele vai perguntar. Responda de forma sincera e simples ao que ele quiser saber mais.

Não faz mal nenhum se a mãe chorar, se o pai chorar, se ele chorar. Todos gostavam muito da pessoa em questão e é normal que fiquem tristes. Também é normal que outras pessoas da família ou amigos próximos estejam mais tristes agora. E que se lhe apetecer chorar, é importante que saiba que pode fazê-lo, sem recriminações nem “não chores”.

Depois da primeira conversa, fique muito atenta(o) a sinais de culpabilização. Se acontecer reforce a razão da morte (porque estava velhinho, porque estava doente…) e assegure-o que não foi nada que ele tivesse feito ou que pudesse ter feito diferente.

É normal que haja alterações de rotinas (sono, alimentação, etc.) nos dias seguintes e que continue a fazer perguntas à medida que for pensando mais sobre isso. Não force nada, mantenha-se disponível para o acarinhar, para conversar e vá respondendo e lidando com as suas inseguranças, sempre com calma e sinceridade. Vá partilhando os seus sentimentos com ele (tristeza, saudades, lembranças, etc.) para que ele também se sinta à vontade para partilhar os dele. Tudo o que vier cá para fora não fica lá dentro.

Se ele se confrontar com a sua própria morte (ou a da mãe, do pai, ou a de outra pessoa próxima) garanta-lhe que ninguém vai morrer tão cedo, que são saudáveis, que têm cuidados e que não é comum que aconteça (não lhe diga isto se não for verdade!). Se for uma criança cheia de argumentos poderá ser necessário reforçar que se alimentam bem, que vão ao médico, que fazem exercício até que ele se sinta mais confortado.

Se a criança já tiver mais de 8 anos, ofereça-lhe a possibilidade de participar no ritual de despedida (funeral, cremação). Parece muito forte mas é sempre pior o que ele poderá ficar a imaginar. Se ele quiser ir, explique-lhe muito bem primeiro tudo o que vai acontecer. Prepare-o para a eventualidade de haver um caixão aberto, pessoas a gritar e a chorar, pessoas a rir ou desinteressadas, muitas ou poucas flores, carros pretos, crematórios, cemitérios, etc. Tudo o que ele já estiver à espera vai causar-lhe menos impressão.

Se optou por não ir (ele ou os pais) e ele perguntar para onde foi o corpo, e como foi, responda-lhe a tudo de forma clara. Se houver uma campa, ofereça-se para o levar lá. Diga-lhe que pode fazer um desenho ou uma carta de despedida (por exemplo) e irem lá oferecer (só se ele quiser!). Assegure-o que pode lá voltar sempre que isso o fizer sentir melhor, pode levar uma carta, um desenho ou falar, não faz mal.

Avise ainda as pessoas que lhe são próximas (a professora, educadora, amigos próximos, etc.) para que possam enquadrar alguns comportamentos ou conversas que surjam noutros contextos que não a sua casa.

Para terminar, tenha em mente que o luto é um processo. Leva tempo e é normal que tenha, inicialmente, uma fase de choque/crise, seguida de uma fase de desorganização e, finalmente uma fase de organização. Parece-nos óbvio que as crianças não estejam preparadas para lidar com a morte porém, ao privá-las disso, estamos não só a ignorar a importância dos seus sentimentos, como também a privá-las de se desenvolverem emocionalmente, criando estratégias e capacidades psicológicas para lidar com a dor e o sofrimento, integrando a morte como um acontecimento natural da vida, passível de ser ultrapassado.

Se, no entanto, achar que alguma coisa não está a correr bem ao longo deste processo, procure ajuda especializada.

imagem capa@Doutissima

Circula pela internet e redes sociais um texto sobre a Ritalina® que, para além de não fundamentado e de autoria indefinida, coloca bastantes preocupações e questões sobre o diagnóstico, decisão de medicação e intervenção no caso de crianças com suspeita de Perturbação de Hiperactividade com Déficit de Atenção.
Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) da Organização Mundial de Saúde, os transtornos hipercinéticos caracterizam-se por “falta de perseverança nas atividades que exigem um envolvimento cognitivo, e uma tendência a passar de uma atividade a outra sem acabar nenhuma, associadas a uma actividade global desorganizada, descoordenada e excessiva.”

As crianças hipercinéticas são frequentemente imprudentes e impulsivas, sujeitas a acidentes e incorrem em problemas disciplinares mais por infrações não premeditadas de regras do que por desafio deliberado. Suas relações com os adultos são frequentemente marcadas por uma ausência de inibição social, com falta de cautela e reserva normais. São impopulares com as outras crianças e podem se tornar isoladas socialmente.
Independentemente de ser ou não uma síndrome “inventada” por Leon Eisenberg ou de existir sobre-diagnóstico, a verdade é que há muitas crianças e famílias que sofrem com as consequências directas e indirectas desta perturbação e esse sofrimento é bem real.

Estas crianças têm uma actividade que vai para além da irrequietude normal da sua idade podendo chegar ao cúmulo de não conseguirem sequer fixar o olhar durante alguns segundos. Não conseguem controlar os impulsos, quer originados internamente (por emoções fortes como raiva, fúria, injustiça, etc.) quer originados externamente (orientando a sua atenção para qualquer pequeno estímulo distractor).

Podem ainda ter bastante dificuldade em entender os comportamentos e atitudes dos outros, facto que vai dificultar em muito a interacção social, a criação de novas relações sociais, a manutenção de relações antigas e o cumprir dos padrões comportamentais socialmente aceites.
O seu comportamento desadequado, a dificuldade em criar relações com os outros, a impulsividade, as explosões emocionais, etc. fazem com que a convivência diária com a criança seja muito exigente e, muitas vezes, toda a comunidade escolar ou a família alargada pode ficar afectada por uma única criança.

Indirectamente surgem outros problemas já que estas crianças podem facilmente começar a ser vistas com desconfiança por colegas, professores, funcionários e até membros da famíla alargada e começam a ser “bode expiatório” de todo o mal que acontece nestes contextos. Em consequência, não raras vezes começam a ser excluídas das actividades que exigem socialização (passeios, visitas, actividades de enriquecimento curricular, cerimónias familiares, às vezes até a sala de aula), simplesmente porque é difícil lidar com elas, com repercussões claras sobre a sua auto-estima e auto-conceito.
É normalmente nesta altura que pais e professores se colocam a questão:

Medicar ou não?
O tratamento farmacológico da hiperactividade faz-se com metilfenidato. O metilfenidato (comercializado em Portugal com os nomes Ritalina LA®, Concerta® e Rubifen®) é um estimulador do sistema nervoso central. Foi sintetizado em 1944, comercializado em 1955 e a partir de 1960 o seu uso em crianças com hiperactividade generalizou-se. A sua actuação faz aumentar a quantidade de dopamina e noradrenalina nos canais de comunicação entre os neurónios (sinapses) recrutados para desempenhar as tarefas, ajudando na concentração da atenção sobre estas.
Como todos os medicamentos, também o metilfenidato tem vários efeitos secundários descritos nomeadamente ao nível cardio e cerebrovascular, entre outros . Embora seja considerado bastante seguro pelo Infarmed para o tratamento de crianças e adolescentes acima dos 6 anos, o ideal seria que não fosse necessário medicar nenhuma criança.
O desenvolvimento saudável de qualquer criança faz-se em relação com os outros, adultos e crianças, que lhe mostram o mundo agindo em conjunto sobre este. Se o seu comportamento já chegou ao ponto de esta ser excluída das actividades da escola ou de outras, ao ponto de passar mais tempo isolada de colegas e amigos, isto só vai fazer com que aumentem os seus sentimentos de revolta e injustiça, diminuir a sua auto-estima dificultando ainda mais a sua relação com os outros e potenciando as situações de descontrolo emocional.

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A medicação pode ser a única forma de se conseguir a reintegração destas crianças na sala de aula, nas actividades da escola e da família, dando uma segunda oportunidade a ela própria e a todos os que a rodeiam. Pode ser a única forma de quebrar o ciclo vicioso criado, minimizando ou anulando os efeitos indirectos do seu comportamento.
Se o comportamento da criança ainda não afectar tão negativamente as actividades diárias, a relação saudável com as outras pessoas e a forma como a criança se vê a si própria, será preferível não medicar.
Com a medicação, a criança fica mais calma, com maior capacidade de concentração, com mais possibilidades de ouvir os outros, de entrar nas conversas e jogos mas, ainda assim, mantém as suas dificuldades na interação social e, na ausência de medicação, o seu comportamento volta ao mesmo. Não fazer mais nada para além de medicar seria deixar ao acaso o desenvolvimento saudável destas crianças.

A medicação vai atenuar os sintomas mas nada faz em relação ao que os provoca. A estruturação cerebral que permitirá à criança aprender a controlar os seus impulsos, a focar a sua atenção (inibindo os estímulos distractores), a promover as suas competências sociais e a conseguir identificar e gerir as suas emoções (nomeadamente a tolerância à frustração) só será possível de forma eficiente através do acompanhamento em consulta de psicologia clínica, com psicoterapia e habilitação neuropsicológica.
É altamente recomendável que, com ou sem medicação, estas crianças possam ser acompanhadas em psicologia clínica para que possam desenvolver-se no sentido de um maior auto-conhecimento, maior reconhecimento e controlo das emoções, melhor inibição de comportamentos indesejados e na promoção de recursos para lidar com o stress.

imagem@Wolfgang Flamisch/Corbis