Andamos a adiar. Depois das nossas resoluções de final de ano começarem a ficar difusas, depois daquela segunda-feira* a que chamaram a mais triste do ano, depois dos erros do passado voltarem, começamos a adiar.

E sofremos. E sofrem os nossos filhos, os nossos companheiros e as nossas famílias.

Há que implementar as resoluções!

E alguns amigos até nos relembram:

“Olha que estás mais gordinho.”

“Olha que ainda não trocaste de carro.”

“Olha que os teus putos não param quietos.”

Já quase ninguém se lembra das promessas batizadas com espumante e passas. E você ? Já se esqueceu dos objetivos para alcançar em 2017? Falou em melhorar a forma física. E também pensou em mais tempo de qualidade com os filhos. Também eu. Espero sair mais vezes do sofá. Espero interromper mais vezes as gravações automáticas. E espero ir ao quarto dos meus filhos brincar mais e melhores vezes! Temos de parar de adiar!

Em forma de lista, lá vão meia dúzia de mandamentos para o mês de Fevereiro que está quase aí a chegar. Não adiemos mais! Há que implementar as resoluções!

1. Mais perguntas, menos lamurias.
Porque é que adiei o fim de semana em família? Porque é que estou triste? Porque não invento uma brincadeira? E não vou só fazer perguntas a mim próprio. Eu vou tentar coloca-las também aos meus filhos. Tentar coloca-los a pensar. Se conseguir, estou a dar-lhes uma ferramenta excecional para o futuro, ao mesmo tempo que o ajudo no presente.

2. Mais tomar as rédeas, menos desculpas.
Falta tempo? O tempo é sempre o mesmo.
Sabemos que passa de forma diferente de acordo com as situações. É a nossa perceção que o muda. Então, da próxima vez que estiver a sentir o sol de inverno na cara naquele jardim que frequentamos em família, vou fechar os olhos uns segundos para tentar congelar aquele momento dentro de mim. E vou convidar os miúdos a fazer o mesmo. Eles vão achar piada (ou talvez não) mas no futuro vão recordar com saudades momentos daqueles.

3. Mais explorar, menos GPS.
É uma grande invenção, mas nem sempre a melhor rota, a mais rápida, vai trazer aventuras. E nós precisamos de aventuras! Numa das viagens de rotina à casa dos sogros, leve a família por um caminho diferente. Partam mais cedo e permitam-se explorar um novo troço. Até podem parar o carro duas ruas mais abaixo do habitual e descobrir algo novo no caminho. Há sempre algo novo à espera de ser explorado.

4. Mais escutar, menos ouvir.
Há uns anos as pessoas davam pouca atenção às conversas das crianças . Hoje há educadores capazes de repetir esses padrões sem se aperceberem. Quando escutamos uma pessoa, tudo muda. Claro que estragava a história, mas se a mãe da capuchinho tivesse escutado ativamente quando a filha respondeu à indicação de não se desviar do caminho, podia ter evitado a tragédia. Vamos escutar mais os nossos filhos. E, já agora, os nossos companheiros. Vamos escutar os sinais e não apenas as palavras.

5. Mais aceitação, menos manipulação.
É importante recomeçarmos o exercício que nos relembra: Os nossos filhos têm a sua personalidade. Não são, nem devem, ser cópias de ninguém.

6. Mais ação para ser melhor pai.
Há aqueles momentos em que os miúdos parecem não fazer nada do que pedimos. Ser Pai não é fácil. O tempo parece sempre a fugir, as teorias psicológicas parecem ser demasiadas, a relação com a Escola e com as Professoras nem sempre é perfeita. E todos queremos o melhor para os nossos filhos. Infelizmente, nem sempre passamos do desejar ao praticar. Praticar é, por exemplo, comprar um livro sobre um tema que nos preocupe. E começarmos a pensar: Será que estou a fazer bem? Será que estou a ajudar o meu Filho a crescer de forma a conquistar o Mundo? Ou será que alimento as inseguranças dele? Independentemente das dificuldades, do comportamento, das notas, da “educação” ou falta dela, das críticas dos Avós e das exigências da Escola, independentemente de tudo, há a vontade de sermos melhores como Pais. Tem vontade de melhorar? Há que implementar as resoluções!

 

Não fiques à espera que as coisas aconteçam!


* Esta “teoria” da segunda-feira mais triste tem o seu lado cómico. Alertava para o dinheiro desaparecido nas prendas de Natal. Para o recomeço do trabalho depois das férias. Para as resoluções de final de ano falhadas. E também li algures que alertava para o facto de se aproximar o “dia dos namorados”. De acordo com o artigo, para os solteiros seria um problema. O “dia dos namorados” nunca pode ser um problema! Mas disso falarei no próximo artigo…

 

imagem capa@aqui

Naquela manhã não houve espaço para “ah e tal, não festejo, é só consumismo” muito menos para “ah e tal, eu não sou crente…“.
Naquela manhã, aquele pai sentiu fundo, qual revelação, algo transformador. Sentiu que alguns lugares comuns têm muita razão de existirem. A vida passa a correr. A vida são dois dias. A época natalícia é especial. É verdade!

Por isso, tudo ganhou novo brilho. As luzes na rua, as luzes nos olhos...

As canções já não eram repetidas, o Pai Natal já não era vermelho e branco, a rena já não era patrocinada e o coro de Santo Amaro de Oeiras soou como há muitos anos não soava.

E falava-se do menino.

A partir daí,  essa manhã começou a ser chamada por esse pai de “a tal manhã”.
Na tal manhã, ele foi para um promontório ali para os lados do Guincho e fez uma lista. A lista.
Diz-se que tinha 4 páginas, talvez uma para cada área da vida, ou para cada membro da sua família nuclear. Não se sabe ao certo. Até porque também não é certo o conceito de família nuclear. Enfim, o importante é a circunstância da folha ter sido resgatada.
Naquela folha lia-se uma lista.
12 Presentes que vou dar ao meu filho no Natal
1 – Outra bola
Ele gosta. E esta vai ter truque. Vai ter magia. Terá que ser usada por mim e por ele, num jogo partilhado, pelo menos uma vez por semana. Se não, vai explodir.
2 – Uma máquina fotográfica
Com magia também. Tem que nos tirar uma foto, onde estejamos sujos de terra, pelo menos de 15 dias em 15 dias. Se não, ela explode também.
3 – Uma faca
Porque sou daqueles pais que acha que não se deve criar filhos de forma demasiado “asséptica”. Eles têm de ter noção dos perigos. Pronto, não é um facalhão. É um canivete. E esse canivete tem viagens marcadas para Monsanto. Tantos passeios para fazer com o meu filho…eu, ele e os respetivos canivetes nos bolsos. Não vá aparecer um tigre. 
E se ficarmos mais de um mês sem uma caminhada em Monsanto, já se sabe, acontece magia e o canivete transforma-se numa praga de formigas (só para não repetir o “explodem”).
4 – Um espelho
Esta já a vi na lista dele. Nem preciso explicar. Ele tem pinta, gosta de se vestir bem, de se arranjar, de se pentear, de colocar o seu gel e o perfume próprio para os seus 8 anos. E a minha vertente de psicólogo, claro que é capaz de fazer uma metáfora à volta do espelho e da auto-estima.
E sabemos que gostar de si mesmo é mais de meio caminho para gostar dos outros.
E precisamos tanto de pessoas capazes de gostar dos outros. 
5 – Um telefone Móvel
Dois copos, um fio, cera de vela…
Sabem fazer, certo ? Caso não saibam…fico preocupado. E lá está, excelente metáfora para a comunicação, ao mesmo tempo um hino à reciclagem.
E precisamos tanto de pessoas ocupadas com o ambiente.
6 – Uma rosa 
Para ele dar à mãe. Ao respeitar a mãe, vai respeitar todas as mulheres. Assim espero. Eu junto outra rosa e dou também. Assim ele vê-me a respeitar a mãe (não pela rosa, mas pela atitude diária!) e fica mais capaz de respeitar todas as mulheres da vida dele. E essas rosas têm magia. Não são flores de dentista, como diz o mundano Gladíolo no Rapaz de Bronze. A magia é murcharem. Desta forma lembram-nos que temos uma renovação a fazer. A renovação é diária. No Natal reforçamos essa necessidade. Nascimento. Renascimento. Murchar, renovar…
7 – Um “Sim”
Sim, traz o teu amigo para dormir cá. Sim, podes ir com os avós. Sim, gosto muito de ti. Sim, és sensível. Sim, és muito querido. Sim, vou deixar-te ter vitórias próprias. Sim, tenho orgulho na surpreendente criança, capaz de me deixar a transbordar de orgulho. És tu, meu filho.
8 – Um “Não”
Um não, sem hesitar. Com firmeza. Não, não podes falar assim para a tua irmã. Não falas assim para ninguém. Não podes esquecer a importância dos educadores formais, como os teus professores. E dos outros educadores, como o Senhor Pedro (e o Senhor Mário), por exemplo, capazes de te receber à porta da Escola com um sorriso. Ou da senhora da secretaria de quem não me lembro o nome, mas cuja importância é enorme e o empenho é excelente. 
9 – Umas Cartas (que tu gostas e eu não me lembro do nome)
Há espaço para o fútil, desde que haja espaço para os valores. Porque também não acredito em pais assépticos. 
10 – Roupa nova
Roupa nova daquela mágica. A roupa mágica, quando entra na gaveta, faz a roupa usada (e em bom estado) ser doada. 
11 – Decorar
Vou decorar uma música de Natal, um onze ideal, uma passagem de um livro que me inspire, um Salmo, o nome do tal amigo que está prometido vir cá dormir um dia destes. E depois digo-te filho. Ah, e decoro também o nome das senhoras da secretaria! 
12 – Um x num mapa
E esse x vai marcar o local onde o meu avô me levou a passear, para fazer tempo, enquanto os meus pais enchiam a árvore de Natal com amor. Vai marcar o local onde estão enterrados os nossos mortos. Porque a memória deve ser alimentada. Vai marcar o local onde arranquei o meu primeiro pinheiro. Vai marcar o local onde me ensinaram noções ambientais e onde chorei porque não se arrancam pinheiros. 
Está frio neste promontório. Prometo trazer-te cá. Se calhar até vai ser na tal noite.

 

Sei que há pais capazes de melhorar. Acredito, porque confio nos estudos e porque já vi com os meus próprios olhos. Há pais capazes de aprender. Chama-se a isto mudança. Evolução. Não é fácil, não é rápido, também traz dor, mas é possível. Certo?

Um passo em direção a essa evolução é a reflexão. Felizmente há muitos pais capazes de refletir sobre as suas práticas:

Porque educo assim?
Onde aprendi?
Quem imito?
O que me fez ser o pai que sou ?

No entanto, também há pessoas incapazes de olhar para si próprias e de fazerem auto avaliação. Se no campo profissional isso pode custar um despedimento, quando educamos alguém isso pode significar educar para a infelicidade. Esta capacidade de nos vermos ao espelho é fundamental.

Quem consegue fazer uma lista das suas características como pai? Quantos conseguem fazer uma lista dos defeitos que têm enquanto educadores? Quem tem essa coragem?

Sou fã de quem conhece pelo menos alguns dos seus defeitos. E não me venham com a conversa de que o defeito é “ser teimoso”. Todos sabemos que isto é uma resposta pronta e uma espécie de qualidade.

Parece fácil culpar os outros, descobrir-lhes defeitos e apontar culpas. É fácil fazer a lista dos defeitos dos outros pais. A começar pelos vizinhos de cima, passando pelo nosso cunhado e acabando no casal que vimos no café. E é fácil listar os defeitos dos nossos filhos. Para isso há pais a fazer fila.

Os pais podem concentrar-se em três palavras para educar, ainda, melhor.

A primeira: Reflexão.
Pode refletir sozinho ou com base na análise de alguém. Peça a um amigo de confiança, àquele amigo sincero e capaz de dizer verdades para listar alguns defeitos que lhe deteta. Podemos ter aqui uma boa base para exercitar a humildade. Sei que parece simples, mas também sei que nem sempre fazemos o que é simples. Como lavar as mãos depois de ir à casa de banho, por exemplo.

Se está a ler este texto é porque deseja melhorar. Já ouviu muitas birras. Já tentou várias estratégias. Já apartou muitas discussões. Então pode precisar de um empurrão para mudar alguma coisa. Tenho esperança de poder ser esse empurrão com este artigo.

Depois de refletir, depois de analisar passe para a próxima palavra:  Ação.
O que pode fazer para aplicar mudanças positivas? Que estratégias pode implementar? Que teorias deseja colocar em prática? Com passos pequenos vai conseguir. Uma mudança aqui, outra ali, um avanço hoje, um recuo amanhã.

Por fim: Persistência.
Sem ela, nada feito. Tem que ser constante na sua prática parental. E vai sê-lo. Desde que se empenhe e não desista à primeira dificuldade.

Os seus filhos merecem esse esforço. E, mais do que isso, precisam. As escolas estão a viver dificuldades, há desmotivação, falta de pessoal entre outros problemas.  O clima que vivemos não é bom. São crises, prisões, guerras…e eles absorvem. Como esponjas. Como não os queremos colocar numa redoma, como não é assim que se resolvem problemas, temos que ser cada vez melhores!

E acabar com as desculpas como “ninguém é perfeito!”. Isso toda a gente sabe. O que é determinante é sabermos quais os defeitos presentes na nossa forma de educar e quais queremos melhorar.

Resumindo, para educar, ainda, melhor os seus filhos:

  1. – Faça uma lista de defeitos que tem como pai;
  2. – Vá a um Workshop, leia um livro ou imite um pai que faz bem e passe à ação;
  3. – Seja obstinado.

Por Alfredo Leite, Mundo Brilhante
para Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

imagemdecapa@MaisEquilibrio.br

Aprendi que:

1 – Por mais preparado que eu esteja, por mais conhecimento que tenha da psicologia do desenvolvimento, por mais palestras que dê, por mais conferências que frequente, nunca estou preparado para a ver triste. Custa tanto. Peço-lhe para falar, para colocar por palavras os sentimentos. Sugiro um diário para desabafar. Acabo por pedir ajuda à mãe e às avós.

2 – Nem sempre a vou poder proteger. Por mais maturidade que eu tenha, ainda me passou pela cabeça ir à escola dizer ao rapaz que a deixou assim, que é um grande parvo. Não tenho a certeza mas cheguei a dizer algo como “Vê lá se queres que o pai vá lá escola!”. Que vergonha…

3 – Ela vai forçar-me a fazer coisas de que poderei vir a arrepender-me. Como este artigo, por exemplo…tanta confissão…

4 – O tempo passa tão depressa, mas tão depressa. Algumas áreas da vida passam a correr. Nasceu ontem! Hoje já tem onze anos. E ainda por cima, parece que tem mais. Está tão alta! E está mesmo, não são os olhos do pai. Bem, talvez seja um pouco.

5 – Há coisas que ela só fala com a mãe. Mas há sentimentos que só a mim me faz sentir. Como a vergonha de ter os lábios lambuzados com batom, apenas porque lhe fiz a vontade numa brincadeira.

6 – Essas brincadeiras, esses momentos em que a adormeci ao colo com uma música pirosa a tocar, momentos em que a mãe estava tão cansada e com sono e era só no meu colo que ela adormecia, esses momentos passaram a correr. Acho que repeti o ponto quatro…

7- A teoria do psicólogo Satoshi Kanazawa, cujos estudos apontam para o fato de pessoas bonitas terem mais filhas, serve apenas para picarmos os nossos amigos.

8 – Ouvir “Daughters” de John Mayer, tem um significado completamente novo desde que ela nasceu. Como é completamente novo ler “A Fada Oriana”ou contar histórias de princesas quase até fartar. Mas muito antes de nos fartarmos já temos saudades. É o ponto quatro outra vez.

9 – Há outras meninas, cada uma delas com as suas características próprias de meninas. Umas não passam sem o seu boneco, outras fazem filas de bonecos para verem juntos um programa na televisão, outras colocam brincos desde cedo, outras transformam em real o lugar comum que as coloca dentro dos saltos altos da mãe.

10 – Aprendi que as meninas choram. Claro que eu já sabia, mas era um saber com letra minúscula. O mundo está em mudança abruta e constante. Nunca é demais lembrar. A família tem cada vez mais configurações. Havendo amor, entrega, paciência e persistência entre os seus membros, qualquer configuração é legítima. Não há famílias sem problemas, nem perfeitas, nem estáticas. E não há pais que não tenham perguntas sobre o futuro das filhas. Será que o casamento vai fazer parte da sua vida? Terá ela os seus próprios filhos? Irá adotar? E a profissão? Será capaz de descobrir os seus talentos? Esta tristeza de hoje passa amanhã?

Do meu lado tudo farei para estar. Estar. Irei reler este artigo para me ajudar a lembrar do quão é importante estar. Quero ser amigo dela. Não no mau sentido. Não naquele sentido errado. Os pais têm que ser pais. Mas quero que ela saiba que pode contar comigo, que pode desabafar, ir comigo ver o clube do nosso coração e um ou outro concerto. Estarei sempre aqui para receber as colegas dela, para sofrer se ela está triste e para ser lamechas e piroso se tiver de ser.

Tentei escrever para a tristeza desvanecer-se um pouco. Ela já está melhor, desabafou com a mãe. Chorou na escola. E ela é tão linda. Lembrar-me de que o sofrimento faz parte da vida ajuda-me um pouco. Lembrar-me que ela é linda dá-me ainda mais força. Ter confiança no futuro dela rasga-me o sorriso. Escrever ajudou-me.

E agora já posso telefonar a um amigo para brincar com ele sobre aquele estudo. Pais mais bonitos têm filhas. Ao nascer o rapaz perdi um pouco o argumento. Mas vem aí a Maria. Outra menina.

Por Alfredo Leite, Mundo Brilhante
para Up To Lisbon Kids®

imagemdecapa@onekind