{"id":8211,"date":"2015-04-14T21:03:02","date_gmt":"2015-04-14T21:03:02","guid":{"rendered":"http:\/\/uptolisbonkids.com\/?p=6724"},"modified":"2015-04-14T21:03:02","modified_gmt":"2015-04-14T21:03:02","slug":"nao-quero-ser-mae-de-uma-bully-nem-de-uma-vitima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=8211","title":{"rendered":"N\u00e3o quero ser m\u00e3e de uma bully, nem de uma vitima"},"content":{"rendered":"<p>Quando era mais pequena sofri de bullying de uma suposta <em>amiguinha<\/em> &#8211; filha de umas das grandes amigas da minha m\u00e3e. Na altura chamava-se mesmo &#8216;l<em>evar porrada&#8217;<\/em> de &#8216;amigos&#8217;, e toda a gente sabia. A minha m\u00e3e dizia-me muitas vezes &#8216;<em>tens que te defender, filha!&#8217;<\/em> e \u00e1s vezes <em>&#8216;n\u00e3o me chateies mais com isto! Porque \u00e9 que n\u00e3o lhe d\u00e1s tamb\u00e9m?&#8217;<\/em>\u00a0A amizade entre as duas m\u00e3es, ficava muitas vezes tremida, zangavam-se porque uma dizia para a outra fazer com que filha n\u00e3o usasse tantas vezes as botas ortop\u00e9dicas nos pontap\u00e9s com que atingia a amiga, leia-se a mim. A m\u00e3e da &#8216;bully&#8217; dizia &#8216;<em>a tua filha em vez de fugir a chorar para fazer queixinhas, tem que se defender. Quanto mais mostra medo mais a minha lhe bate!&#8217;<\/em>.\u00a0Nunca me defendi, nem eu, nem as dezenas de outras crian\u00e7as que a tentaram confrontar ou fugir do seu radar, mas que n\u00e3o escaparam das suas potentes botas ortop\u00e9dicas, nem as dos seus amigos que pertenciam \u00e0 sua mini gangue. Lembro-me de s\u00f3 estar feliz que nem uma cobarde das vezes que, ainda foram algumas gra\u00e7as a Deus, em que ca\u00eda nas suas boas gra\u00e7as e, n\u00e3o era eu o alvo. Afinal as nossas m\u00e3es eram amigas! (Ironia)\u00a0Lembro-me de um dia, apresentar-lhe uma amiga, e j\u00e1 nem sei\u00a0bem porqu\u00ea, do nada, espetou-lhe um murro certeiro e quase cinematogr\u00e1fico no est\u00f4mago. Percebi a mensagem, fiquei zangada, mas cantei baixinho. Sobrevivi, cresci e n\u00e3o, n\u00e3o estou traumatizada. Mas podia estar.<\/p>\n<div>Bastantes anos mais tarde, quando me tornei m\u00e3e, decidi que iria fazer de tudo para, acima de tudo, a minha filha sentir que poderia contar comigo como m\u00e3e, amiga e que a iria proteger ou dar-lhe &#8216;armas&#8217; para se defender. N\u00e3o queria, contudo, ser uma m\u00e3e hist\u00e9rica daquelas que \u00e0 menor coisa corre \u00e0 escola e leva tudo \u00e0 frente.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando a minha filha estava no primeiro ano do ensino b\u00e1sico, numa linda tarde de sol, estacionei o carro do lado de fora da escola. \u00cda busca-la para leva-la ao Ballet. Quando paro o carro viro a cabe\u00e7a na direc\u00e7\u00e3o da escola e vejo-a, linda, com as suas amigas. O cen\u00e1rio era perfeito, quase que tirei uma foto. Continuei a observar aquilo que parecia um momento id\u00edlico entre crian\u00e7as. De repente, e enquanto saio do carro, reparo que uma das quatro mi\u00fadas est\u00e1 encostada \u00e0 parede, nervosa a chorar. N\u00e3o \u00e9 a minha filha a vitima, \u00e9 uma outra menina. A minha filha n\u00e3o \u00e9 a principal instigadora, mas est\u00e1 do lado a sorrir, de quem est\u00e1 a colocar a outra menina nervosa e chorosa. Estou em choque! A minha filha \u00e9 uma bully!! Grito para dentro de mim, e fiquei para morrer!<\/div>\n<div>Enquanto a menina alvo dos ataques verbais de uma, e da complac\u00eancia de outras duas, foge para longe, eu sigo-as \u00a0do lado de fora da escola enquanto seguem recreio fora como se nada tivesse acontecido. Sentam-se e come\u00e7am a desenhar. De repente chamo pelo seu nome, sorri-me mas eu n\u00e3o estou a sorrir. V\u00eam ao meu encontro, pergunto-lhe directamente &#8216;<em>porque estava aquela menina a chorar e porque \u00e9 que saiu de perto de voc\u00eas?<\/em>&#8216; A minha filha estava encarnada que nem um tomate e perdera o piu, uma das outras fazia-se de sonsa e perguntava &#8216;<em>qual menina?&#8217;<\/em>. Virei-me de novo para a minha filha e disse &#8216;<em>Pega nas tuas coisas temos que falar! N\u00e3o vais ao Ballet hoje!&#8217;<\/em><\/div>\n<div>Na volta para casa de carro, fiquei um bom tempo calada. No carro n\u00e3o havia a habitual m\u00fasica, nem os nossos desafinan\u00e7os musicais. Estava triste e um pouco desapontada, mas apesar de tudo queria que confiasse o suficiente em mim e me contasse a verdade. Que admitisse e percebesse que o que fizera estava errado.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Antes de come\u00e7ar a falar viajei no tempo: lembrei-me de uma vez, quando\u00a0eu e os meus colegas no ATL eramos vitimas de bullying psicol\u00f3gico e, um a um por cobardia abandonava o barco para se colocar do lado da bully e dos seus comparsas. At\u00e9 que fiquei eu e uma outra colega, que resist\u00edamos estoicamente. No final o medo tomou de novo conta de mim, e a\u00ed eu tamb\u00e9m abandonei o barco. Deixando a \u00fanica verdadeira hero\u00edna do todo ATL sozinha. N\u00e3o a insultei depois, nem a atacamos claro, apenas a deixamos sentir que era fraca e estava s\u00f3. &#8216;Apenas&#8217;.<\/div>\n<div>Nunca esqueci este epis\u00f3dio. Em que a cobardia levara o melhor de mim. Mais uma vez fora cobarde, mas a verdade \u00e9 que cada vez que me lembrava de levantar a <em>garimpa<\/em> a coisa corria mal para mim. Ainda uns meses antes, tivera a brilhante ideia de insultar a bully do alto do meu pr\u00e9dio &#8216;<em>aqui n\u00e3o me apanhas!<\/em>&#8216; a ela e ao seu tem\u00edvel grupo. A coisa parecia esquecida, at\u00e9 que uns dias depois, algu\u00e9m me chamou do port\u00e3o da escola&#8230; cerca de dez mi\u00fados e mi\u00fadas levantaram-se do lado de fora. N\u00e3o haviam esquecido a minha ousadia, e aquilo saiu-me caro.<\/div>\n<div>Mais uma vez sobrevivi. O mais estranho que possa parecer, e n\u00e3o sofro do s\u00edndroma de Estocolmo, mas lembro-me destas situa\u00e7\u00f5es com algum sentido de humor. Mas n\u00e3o do momento em que por cobardia, tra\u00ed uma coleguinha e aliei-me aos bullys.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Parei o carro, virei-me para tr\u00e1s e contei-lhe tudo. Disse-lhe que \u00e9 horr\u00edvel passar pelo que eu passei, mas que nunca devemos por cobardia aliarmo-nos a quem comete atos de bullying. Que apesar de tudo lembro-me mais do mal que fiz sendo cobarde, do que das vezes em que levei pontap\u00e9s. Que n\u00e3o devemos ficar quietas perante a injusti\u00e7a, mas muito menos cria-las. Ficou de castigo duas semanas, teve que pedir desculpa e por sua iniciativa disse \u00e0s outras amigas &#8216; <em>sou vossa amiga, mas n\u00e3o vou concordar em fazer algu\u00e9m chorar<\/em>.&#8217;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu na altura falei com as outras duas m\u00e3es, que pelo seus discursos acharam exagerado a minha reac\u00e7\u00e3o. Com sorrisos de soslaio diziam<em> &#8216;j\u00e1 passou, agora vai negar tudo&#8217;<\/em>. N\u00e3o as critico, \u00e9 bem mais f\u00e1cil aceitar que s\u00e3o coisas de crian\u00e7as. E sim, talvez eu tenha exagerado um pouco. Mas n\u00e3o \u00e9 de pequenino, que se torce o pepino? N\u00e3o podia negar o que havia observado. Claro que tendo em conta que a minha filha \u00e9\u00a0uma aluna exemplar, que os\u00a0professores fazem quest\u00e3o de elevar o facto de ter respeito pelo outro, \u00a0ter no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a e de ser muito equilibrada, esta hist\u00f3ria deixou-me um bocado na d\u00favida&#8230; E sim d\u00favidei! Mas n\u00e3o me arrependo. Amo a minha filha, mas \u00e9 um ser humano que erra, e ainda vai errar muito. Mas como plena encarregada de educa\u00e7\u00e3o e m\u00e3e \u00e9 o meu papel charmar-lhe a aten\u00e7\u00e3o na devida altura. Ningu\u00e9m quer ser m\u00e3e de um \u00a0potencial bully.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quando no dia seguinte passei a pente fino toda a quest\u00e3o, tanto auxiliares como a professora, asseguraram-me de que sou m\u00e3e de facto de uma crian\u00e7a exemplar e que todos os dias aconteciam coisas do g\u00e9nero e que &#8216;calhava a todas, sem excep\u00e7\u00e3o!&#8217;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>De facto, calha a todos sem excep\u00e7\u00e3o. A uns mais que outros. Admiro a minha filha, e \u00e0s vezes temo estar a criar algu\u00e9m com excesso de empatia e compaix\u00e3o. Quando ao conversarmos sobre os problemas entre as amigas lhe digo &#8216;<em>sabes se calhar essa menina faz isso porque ela tem imensos problemas e \u00e9 insegura<\/em>.&#8217; ou &#8216;<em>j\u00e1 pensaste que talvez ela esteja somente a chamar a aten\u00e7\u00e3o?<\/em>&#8216;<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No entanto tamb\u00e9m me apercebi, porque isto da maternidade \u00e9 uma aprendizagem cont\u00ednua, que n\u00f3s, adultos tamb\u00e9m n\u00e3o gostamos de todas as pessoas que passam pela nossa vida. Que tamb\u00e9m n\u00e3o aturamos tudo o que nos \u00e9 atirado para cima. Ent\u00e3o porque \u00e9 que for\u00e7amos esses padr\u00f5es que nem n\u00f3s cumprimos, aos nossos filhos? Na verdade a escola \u00e9 mesmo um teste para a vida adulta e em sociedade. Um mar de experi\u00eancias umas boas, outras menos boas, mas \u00e9 com as menos boas que aprendemos mais. Que aprendemos quem somos de verdade, ao aprendermos a reagir perante certas situa\u00e7\u00f5es menos positivas. Que acima de tudo, devemos seguir o que \u00e9 certo e nos deixa mais felizes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Apesar de na escola ter in\u00fameros exemplos que n\u00f3s pais educamos os filhos de formas diferentes, n\u00e3o vou deixar de fazer o que acho certo. Mesmo que seja remar contra a mar\u00e9. \u00c0s\u00a0vezes questiono-me como poderei encontrar o equil\u00edbrio. N\u00e3o quero ser m\u00e3e de uma bully, mas tamb\u00e9m n\u00e3o quero ser m\u00e3e de uma vitima. Quero ser m\u00e3e da minha filha, segura, justa e feliz. \u00c9 ent\u00e3o nestas alturas que a minha filha Francisca me surpreende, com a sua desenvoltura. Eu m\u00e3e mostro-lhe o caminho, ela pega no skate e por vezes caindo, vai tamb\u00e9m fazendo brilharetes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por S\u00f3nia Pereira de Figueiredo,<br \/>\npara UpTo Lisbon Kids\u00ae<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Todos os direitos reservados<\/div>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><em>\u00a0imagem capa @<span class=\"irc_ho\" dir=\"ltr\">motherhoodthetruth.com<\/span><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando era mais pequena sofri de bullying de uma suposta amiguinha &#8211; filha de umas das grandes amigas da minha m\u00e3e. Na altura chamava-se mesmo &#8216;levar porrada&#8217; de &#8216;amigos&#8217;, e toda a gente sabia. A minha m\u00e3e dizia-me muitas vezes &#8216;tens que te defender, filha!&#8217; e \u00e1s vezes &#8216;n\u00e3o me chateies mais com isto! 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