{"id":8205,"date":"2015-04-09T12:13:21","date_gmt":"2015-04-09T12:13:21","guid":{"rendered":"http:\/\/uptolisbonkids.com\/?p=6667"},"modified":"2015-04-09T12:13:21","modified_gmt":"2015-04-09T12:13:21","slug":"ser-mae-de-uma-menina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=8205","title":{"rendered":"Ser m\u00e3e de uma menina"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/dsc06662.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-6668\" src=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/dsc06662.jpg\" alt=\"DSC06662\" width=\"337\" height=\"450\" \/><\/a>Ser m\u00e3e de uma rapariga \u00e9 mais do que esperar ganchos com borboletas, purpurinas, saias rodadas e personagens da Disney a ocupar o sistema de som do carro.<\/p>\n<p>Ainda que se advogue o contr\u00e1rio, a verdade \u00e9 que os pais t\u00eam tend\u00eancia para educar as raparigas e os rapazes de forma diferente. Pode ser de forma mais ou menos intencional, mas a verdade \u00e9 que a diferen\u00e7a existe: nas tarefas atribu\u00eddas, na postura esperada, mais tarde nas permiss\u00f5es dadas nas sa\u00eddas com os amigos, na toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de namorados. \u00c9 um sem fim de diferen\u00e7as. Os rapazes e as raparigas n\u00e3o s\u00e3o iguais, \u00e9 um facto. E a procura pela igualdade de direitos muitas vezes confunde os deveres de cada um.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 desafios que se colocam diariamente. Quando estamos gr\u00e1vidas e ainda n\u00e3o sabemos o sexo do beb\u00e9 \u00e9 quase imposs\u00edvel comprar roupa. As \u00fanicas cores dispon\u00edveis s\u00e3o azul-beb\u00e9 e cor-de-rosa. S\u00f3 para idades mais avan\u00e7adas come\u00e7am a haver outras cores. H\u00e1 dias em que as pessoas t\u00eam de olhar com muita for\u00e7a para a minha filha para perceberem que \u00e9 uma menina. \u201c<em>\u00c9 uma menina?<\/em>\u201d, perguntam a medo. <em>\u201cAh, pois, a mantinha \u00e9 cor-de-rosa<\/em>\u201d. Porque se n\u00e3o fosse talvez se tornasse imposs\u00edvel perceber. E h\u00e1 ainda uma censura muito grande, pessoas que mordem a l\u00edngua para n\u00e3o criticarem o facto de vestirmos um beb\u00e9 com cor de laranja, ou por estar sempre de cal\u00e7as quando \u00e9 uma rapariga. As cr\u00edticas v\u00e3o existir sempre. E as crian\u00e7as, ainda mais ou menos alheias \u00e0s cr\u00edticas dos adultos, v\u00e3o ser criticadas pelos seus pares. Sempre foi assim, sempre ser\u00e1. Se n\u00e3o for por usarem \u00f3culos \u00e9 por serem baixinhos, altos, gordinhos, terem sardas, serem ruivos, terem voz fininha, n\u00e3o usarem t\u00e9nis de marca. Todos pass\u00e1mos por isso, mas a sociedade evoluiu de tal forma que a press\u00e3o em cima das raparigas \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>Esta gera\u00e7\u00e3o preocupa-se com celulite (onde \u00e9 que eu com onze anos sabia sequer o que era celulite?), maquilhagem (essa coisa long\u00ednqua que existia apenas na casa da minha av\u00f3 materna e que us\u00e1vamos para brincar), roupas e mais roupas (por mais que quis\u00e9ssemos as roupas n\u00e3o eram t\u00e3o acess\u00edveis quanto s\u00e3o hoje).<\/p>\n<p>As raparigas perguntam-se se s\u00e3o suficientemente bonitas, magras, se se vestem t\u00e3o na moda quanto precisam para serem gostadas. Vejo isso \u00e0 minha volta todos os dias. Algumas perguntam em voz alta, as restantes procuram em sil\u00eancio, com inseguran\u00e7as crescentes e muitas vezes alimentadas em casa, pelos pais, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem que passam para os outros.<\/p>\n<p>H\u00e1 mi\u00fadas de onze anos a maquilhar-se como adultas em dia de festa \u2013 para irem para a escola. Na televis\u00e3o, nas revistas, nos filmes, a rapariga ideal \u00e9 a rapariga sem defeitos f\u00edsicos, \u00e9 magra, sem borbulhas, est\u00e1 sempre a sorrir e com um cabelo impec\u00e1vel.<\/p>\n<p>[youtube https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Ei6JvK0W60I]<\/p>\n<p>Todas n\u00f3s, mulheres, crescemos com esse ideal mais ou menos implementado \u2013 tanto \u00e9 que s\u00e3o as mulheres as maiores cr\u00edticas umas das outras: \u201c<em>j\u00e1 viste bem como aquela se deixou engordar depois do segundo filho?<\/em>\u201d, \u201c<em>A s\u00e9rio, mas ningu\u00e9m lhe diz que aquela roupa \u00e9 simplesmente horr\u00edvel?<\/em>\u201d, \u201c<em>Ui, algu\u00e9m n\u00e3o tem um espelho em casa, aquelas cal\u00e7as a marcar a gordura da cintura<\/em>?\u201d. E tamb\u00e9m h\u00e1 o oposto, claro. \u201c<em>Aquela passa tanto tempo no gin\u00e1sio que j\u00e1 nem deve reconhecer os filhos<\/em>\u201d, <em>\u201cLembras-te da nossa colega? Vi-a no outro dia e estava toda maquilhada, impecavelmente vestida\u2026 Quem \u00e9 que tem tempo para isso?<\/em>\u201d. Se uma mulher \u00e9 descontra\u00edda, \u00e9 porque \u00e9 desleixada, se usa roupa curta \u00e9 porque n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o da idade ou do corpo e \u00e9 oferecida, se se maquilha muito \u00e9 porque quer chamar \u00e0 aten\u00e7\u00e3o, se \u00e9 simp\u00e1tica com os outros \u00e9 porque \u00e9 dada, se \u00e9 antip\u00e1tica \u00e9 porque tem falta de amor na vida.<\/p>\n<p>Como m\u00e3e n\u00e3o quero que a minha filha se sinta inferior a algu\u00e9m por causa do seu sexo. N\u00e3o quero que sofra discrimina\u00e7\u00e3o no trabalho. N\u00e3o quero que seja rebaixada por um namorado que a faz sentir pouco merecedora de ser feliz. N\u00e3o quero que duvide das suas capacidades porque a sociedade diz que o seu sonho \u00e9 \u201ccoisa de homens\u201d. Quero que perceba que foi percorrido um caminho enorme por gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de mulheres. Quero que perceba que \u00e9 uma privilegiada. Que h\u00e1 neste mundo raparigas e mulheres que n\u00e3o podem caminhar de olhar erguido, vestir umas cal\u00e7as de ganga, votar, estudar. N\u00e3o podem dizer em voz alta aquilo em que acreditam, n\u00e3o lhes \u00e9 permitido discordar. H\u00e1 mulheres que passam uma vida inteira condicionada, mulheres cujos sonhos s\u00e3o automaticamente esmagados no momento do seu nascimento, por serem mulheres. Mulheres que s\u00e3o maltratadas, abusadas, feridas. E \u00e9 neste mundo que ela vive. Um mundo onde os problemas das mulheres s\u00e3o vividos \u00e0 escala. No nosso caso podemos considerar-nos sortudos, mas h\u00e1 ainda muitas conquistas a terem de ser feitas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 maneira de preparamos um filho para estes desafios. N\u00e3o h\u00e1, \u00e9 a conclus\u00e3o a que eu chego. Podemos acompanh\u00e1-los, lembr\u00e1-los que o seu valor n\u00e3o est\u00e1 associado \u00e0 forma como se vestem, \u00e0 roupa que usam, \u00e0 \u201cbeleza\u201d que t\u00eam, \u00e0quilo a que acreditam, a quem amam, ao seu g\u00e9nero.<\/p>\n<p>V\u00e3o ter de passar por tudo isso sozinhos. Os rapazes tamb\u00e9m t\u00eam os seus dramas, \u00e9 claro. Mas, por ser mulher, por se esperar de uma mulher uma perfei\u00e7\u00e3o que nunca existir\u00e1, sei que a minha filha tem um caminho pela frente em que ter\u00e1 de perceber que por mais que fa\u00e7a, por mais que lhe exijam, deve lutar por ser fiel a si mesma. Deve acreditar em si e n\u00e3o deixar que nada nem ningu\u00e9m a fa\u00e7a duvidar daquilo que deseja. Porque ser mulher n\u00e3o \u00e9 uma fraqueza, \u00e9 uma caracter\u00edstica. E como todas as caracter\u00edsticas que temos, deve ser respeitada e abra\u00e7ada. S\u00f3 assim continuar\u00e3o a existir no nosso mundo grandes mulheres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por Marta Coelho,<br \/>\npara Up To Lisbon Kids\u00ae<\/p>\n<p>Todos os direitos reservados<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #333333;\">imagem@flickr<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser m\u00e3e de uma rapariga \u00e9 mais do que esperar ganchos com borboletas, purpurinas, saias rodadas e personagens da Disney a ocupar o sistema de som do carro. Ainda que se advogue o contr\u00e1rio, a verdade \u00e9 que os pais t\u00eam tend\u00eancia para educar as raparigas e os rapazes de forma diferente. 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