{"id":7328,"date":"2015-05-16T19:15:35","date_gmt":"2015-05-16T19:15:35","guid":{"rendered":"http:\/\/uptolisbonkids.com\/?p=7328"},"modified":"2015-05-16T19:15:35","modified_gmt":"2015-05-16T19:15:35","slug":"quando-o-nosso-amor-se-torna-um-fardo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=7328","title":{"rendered":"Quando o nosso amor se torna um fardo"},"content":{"rendered":"<p>O Roberto tem cerca de dezassete anos e joga futebol.<\/p>\n<p>O seu pai, como tantos outros, est\u00e1 presente nos jogos e acredito que em todos os treinos tamb\u00e9m. Como tantos outros pais quer que o Roberto singre, que d\u00ea mais, que mostre o que vale. Acredito que ame o Roberto, que veja nele impossibilidades infinitas e sinta que est\u00e1 a incentiv\u00e1-lo a chegar mais longe.<\/p>\n<p>Mas, de fora, o que vejo \u00e9 um pai que se posicionou junto \u00e0 linha lateral e dali n\u00e3o sai. Grita a plenos pulm\u00f5es a cada jogada. Insulta o \u00e1rbitro, insulta os jogadores que fazem falta sobre o filho, insulta os jogadores que n\u00e3o passam a bola ao filho, insulta o Roberto, dirige-lhe palavras que acredita serem de incentivo (ainda que a maior parte delas lhe aponte os erros que est\u00e1 a cometer). Quando um outro jogador falha um golo certo, solta um palavr\u00e3o mas apressa-se a dizer em voz alta \u201c<em>for\u00e7a, Miguel, para a pr\u00f3xima marcas<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O Roberto n\u00e3o tem a sorte de ouvir esse tipo de palavras. Acredito que o pai do Roberto tenha querido jogar \u00e0 bola quando era mi\u00fado. Pode ter inclusivamente jogado, chegado aos escal\u00f5es principais, sonhado chegar mais longe. Mas n\u00e3o chegou, porque n\u00e3o o reconhe\u00e7o como sendo um jogador de antigamente.<\/p>\n<p>O Roberto, provavelmente ainda a aprender a andar, apaixonou-se por uma bola de futebol, como tantos outros mi\u00fados. O pai nunca mais o deixou deixar de gostar da bola. Isto digo eu, que n\u00e3o estava l\u00e1 para ver, mas posso imaginar. Ou pode ter sido o Roberto que sempre gostou de jogar e pediu ao pai para jogar futebol a s\u00e9rio. Seja qual for o cen\u00e1rio, o pai est\u00e1 ao lado dele.<\/p>\n<p>Imagino tamb\u00e9m o Roberto nos intervalos das aulas a chutar \u00e0 baliza e o pai chatear-se com ele por se poder magoar a s\u00e9rio a jogar \u00e0 bola com uma cambada de amadores. Ou se prefere passar os intervalos a ouvir m\u00fasica com os amigos e a falar de mi\u00fadas, imagino o pai a dar-lhe na cabe\u00e7a porque tem de se concentrar, de se focar. O pai do Roberto quer que ele seja o pr\u00f3ximo Cristiano Ronaldo. Mas a Dolores n\u00e3o passou todo o seu tempo livre a gritar aos ouvidos do petiz que ele era uma n\u00f3doa, que tinha de correr mais, que n\u00e3o se estava a esfor\u00e7ar o suficiente \u2013 principalmente porque o Ronaldo n\u00e3o fazia nenhuma destas coisas.<\/p>\n<p>Provavelmente o Roberto nem gosta de jogar \u00e0 bola. E se gosta, a press\u00e3o que sente deve come\u00e7ar a tirar-lhe o prazer de estar dentro de campo. H\u00e1 mi\u00fados que funcionam bem com press\u00e3o, mas deste tipo parece-me contraproducente. Durante muitos anos acompanhei amigos que jogavam em clubes de h\u00f3quei em patins, campeonatos de nata\u00e7\u00e3o, mais tarde futsal com o namorado e estes pais existem aos magotes. Amea\u00e7am o \u00e1rbitro porque deixou escapar uma falta sobre o seu filho, instigam os treinadores a tirar os seus filhos do banco, durante os jogos gritam e pressionam.<\/p>\n<p>Claro que tamb\u00e9m h\u00e1 os outros pais, que no jogo do Roberto iam tentando acalmar o pai dele dizendo \u201c<em>deixem os mi\u00fados trocar a bola sem estarem sempre a gritar para marcarem golo<\/em>\u201d ou \u201c<em>\u00e9 s\u00f3 um jogo de mi\u00fados, vamos ter calma\u201d<\/em>. Mas a verdade \u00e9 que fico sempre a pensar que tipo de adultos ser\u00e3o estes mi\u00fados. Se, face a contrariedades, gritam com os colegas, espelhando a sua frustra\u00e7\u00e3o nos outros. Se, incapazes de chegar mais longe, apontam o dedo aos que est\u00e3o \u00e0 sua volta. E, se sim, se isso n\u00e3o \u00e9 culpa dos pais.<\/p>\n<p><em>Ler tamb\u00e9m <a title=\"O Reflexo Distorcido e o B\u00e1rbaro Lusitano\" href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/cronicas\/o-reflexo-distorcido-e-o-barbaro-lusitano\/\">O reflexo distorcido e o\u00a0b\u00e1rbaro lusitano<\/a><\/em><\/p>\n<p>Como pais queremos o melhor para os nossos filhos. O que \u00e9 o melhor ser\u00e1 sempre relativo. Acreditamos neles, achamos que s\u00e3o capazes de tudo. Mas n\u00e3o s\u00e3o. Ser\u00e3o raros os casos de crian\u00e7as capazes de tocar piano, falar mandarim, serem detentores do record ol\u00edmpico no salto em altura, serem campe\u00f5es nas olimp\u00edadas de matem\u00e1tica \u2013 tudo ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Quando lhes dizemos que podem ser o que quiserem, que basta tentar, talvez dev\u00eassemos dizer que devem tentar sempre antes de desistirem daquilo que querem ser.<\/p>\n<p>\u00c9 diferente, t\u00e3o diferente. Porque, mais tarde ou mais cedo, eles v\u00e3o perceber que n\u00e3o s\u00e3o super her\u00f3is. Que n\u00e3o s\u00e3o capazes de tudo, que s\u00e3o crian\u00e7as cheias de potencialidades, sim, mas que t\u00eam de encontrar o seu caminho. E \u00e9 aqui que devemos estar, a orient\u00e1-los, a ajud\u00e1-los, a deix\u00e1-los tentar mesmo sabendo \u00e0 partida que n\u00e3o v\u00e3o conseguir. Faz parte do crescimento, faz parte da forma como devem ver o mundo. Se h\u00e1 crian\u00e7as que t\u00eam uma auto-estima muito baixa e precisam de incentivo constante? H\u00e1, mas o incentivo deve existir de forma positiva e n\u00e3o encher as crian\u00e7as de uma ansiedade, receio e inseguran\u00e7a extra.<\/p>\n<p>Voltando ao Roberto, espero que ele seja capaz de filtrar a influ\u00eancia que o pai tem nos seus dias. Que tenha a capacidade de perceber que, apesar de tudo, mesmo que n\u00e3o marque, que deixe passar o central, que n\u00e3o consiga chegar \u00e0quela bola, que tem valor. E espero tamb\u00e9m que haja outra dimens\u00e3o na vida dele, que goste de fazer outras coisas para al\u00e9m do futebol, porque se n\u00e3o correr como o pai dele quer ou se ele n\u00e3o conseguir corresponder, ent\u00e3o poder\u00e1 ficar sem ch\u00e3o. E sem sonhos.<\/p>\n<p>E sem sonhos, morre-se um pouco todos os dias.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 isto que queremos para os nossos filhos.<\/p>\n<p>Queremos que vivam. Que acreditem em si, conhecendo as suas limita\u00e7\u00f5es, trabalhando para as minorar. Que percebam que o amor que sentimos por eles n\u00e3o est\u00e1 dependente dos seus sucessos. Que sejam felizes com as pequenas coisas. Mesmo que essas pequenas coisas sejam as brincadeiras que acontecem no balne\u00e1rio depois de uma vit\u00f3ria t\u00e3o desejada (mesmo que n\u00e3o tenham jogado).<\/p>\n<p>Porque, na vida, nem sempre vamos a jogo. E temos de aprender que todos os pap\u00e9is s\u00e3o essenciais, cada um \u00e0 sua maneira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><span style=\"color: #333333;\">imagemcapa@Weheartit.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Roberto tem cerca de dezassete anos e joga futebol. O seu pai, como tantos outros, est\u00e1 presente nos jogos e acredito que em todos os treinos tamb\u00e9m. Como tantos outros pais quer que o Roberto singre, que d\u00ea mais, que mostre o que vale. 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