{"id":7300,"date":"2015-05-14T19:25:31","date_gmt":"2015-05-14T19:25:31","guid":{"rendered":"http:\/\/uptolisbonkids.com\/?p=7300"},"modified":"2015-05-14T19:25:31","modified_gmt":"2015-05-14T19:25:31","slug":"os-3-grandes-erros-da-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=7300","title":{"rendered":"Os 3 Grandes Erros da Escola"},"content":{"rendered":"<p>Sou m\u00e3e de uma menina de quase 3 anos, que ainda s\u00f3 frequenta a\u00a0creche. No entanto, hoje a minha preocupa\u00e7\u00e3o com o sistema escolar\u00a0ultrapassa j\u00e1 a dimens\u00e3o profissional, sendo tamb\u00e9m uma preocupa\u00e7\u00e3o\u00a0de m\u00e3e.\u00a0 Porqu\u00ea t\u00e3o \u201ccedo\u201d? Primeiro, porque sei que uma estrutura como\u00a0o sistema escolar, leva tempo a mudar. Segundo, porque a escola dos dias de hoje espelha a forma como as sociedades olham para as suas crian\u00e7as,\u00a0para o seu presente e para o seu futuro. \u00a0Espelham acima de tudo, a forma\u00a0como n\u00f3s, adultos, \u201cvivemos\u201d a inf\u00e2ncia dos nossos filhos. Preocupam-me\u00a0essencialmente tr\u00eas erros fundamentais, numa perspectiva que, embora\u00a0com alguns sinais de transforma\u00e7\u00e3o, ainda est\u00e1 muito enraizada.<\/p>\n<p><strong>\u00a01. Conceber as crian\u00e7as como todas iguais ou ter de format\u00e1-las<\/strong><\/p>\n<p>Um dos aspectos que tem vindo a ser cada vez mais criticado no sistema\u00a0escolar actual, passa pela dificuldade em acompanhar e acolher a\u00a0individualidade dos alunos. Com o ritmo, metas e as estrat\u00e9gias\u00a0pedag\u00f3gicas adoptadas, a diferen\u00e7a nas crian\u00e7as rapidamente se\u00a0transforma numa limita\u00e7\u00e3o. A escola organiza-se de forma padronizada,\u00a0com uma estrutura r\u00edgida e pouca margem para adapta\u00e7\u00f5es e ajustes em\u00a0sala de aula. Favorece essencialmente a repeti\u00e7\u00e3o e a imita\u00e7\u00e3o, ambos\u00a0sin\u00f3nimos de pouco envolvimento. \u00a0Estamos assim a ensinar \u00e0s nossas\u00a0crian\u00e7as que o bom, \u00e9 ser e fazer igual. Viver normalizado. Ser um aluno\u00a0de sucesso, fecha-se em limites r\u00edgidos de como agir.<\/p>\n<p>Com pouca margem para compreender a realidade emocional e afectiva\u00a0das crian\u00e7as, n\u00e3o existem condi\u00e7\u00f5es para gerir os seus ritmos pessoais e\u00a0investir na sua motiva\u00e7\u00e3o. A criatividade e os gostos e\/ou talentos\u00a0pessoais dos alunos passam para segundo plano. Quem n\u00e3o se adapta, fica\u00a0naturalmente integrado no grupo dos alunos sem ou com pouco sucesso\u00a0escolar que, aqui entre n\u00f3s, felizmente tem vindo a crescer. Talvez seja\u00a0sinal de que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o f\u00e1cil formatar as crian\u00e7as de hoje. Talvez\u00a0tenham mais for\u00e7a para resistir&#8230;<\/p>\n<p><strong>2. Viver o presente da crian\u00e7a focados no seu futuro<\/strong><\/p>\n<p>O segundo erro que mais me assusta na escola \u00e9 a forma como esta olha\u00a0para a crian\u00e7a e a sua inf\u00e2ncia. A forma como v\u00ea as suas experi\u00eancias e\u00a0viv\u00eancias presentes. Na realidade, integrar uma crian\u00e7a na escola, \u00e9\u00a0iniciar-lhe um treino intensivo para que um dia possa ser o homem ou a\u00a0mulher que ainda n\u00e3o \u00e9. A crian\u00e7a \u00e9 vista como um projecto inacabado.<br \/>\nImporta o que ela um dia vai ser, como se n\u00e3o fosse j\u00e1 uma pessoa inteira.\u00a0Retiramos-lhe, assim, o que ela tem de mais precioso na vida, \u00a0o \u201cagora\u201d. \u00c0\u00a0semelhan\u00e7a do burro que caminha atr\u00e1s de uma cenoura que nunca ir\u00e1\u00a0alcan\u00e7ar, tamb\u00e9m n\u00f3s adultos fazemos o mesmo. Sacrificamos\u00a0constantemente o nosso presente em nome de algo que n\u00e3o existe, e que\u00a0h\u00e1 de vir (se tudo correr bem). Fazer isto \u00e0s nossas crian\u00e7as \u00e9 ainda mais\u00a0cruel. \u00c9 de alguma forma, retirar-lhes parte da sua inf\u00e2ncia.\u00a0Acresce a esta \u201cvis\u00e3o\u201d a l\u00f3gica de que a crian\u00e7a tem que rentabilizar e\u00a0\u201cretribuir\u201d \u00e0 sociedade o investimento que \u00e9 feito sobre si. Da\u00ed a\u00a0necessidade de rapidamente a tornar eficaz e produtiva, o que de resto se\u00a0reflecte nas avalia\u00e7\u00f5es a que come\u00e7a desde logo a ser sujeita e de acordo\u00a0com as quais passa desde logo a ser valorizada e classificada. Recaem\u00a0sobre os nossos filhos o peso das expectativas e a ang\u00fastia do poss\u00edvel\u00a0fracasso. Da parte da crian\u00e7a, a resist\u00eancia a essa integra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e\u00a0\u201ccobran\u00e7a\u201d precoce, traduz-se muitas vezes em comportamentos de\u00a0desajuste, agressividade e rejei\u00e7\u00e3o das regras &#8220;dos adultos&#8221;.<\/p>\n<p><strong>\u00a03. Acreditar que o sucesso escolar \u00e9 preditivo de sucesso no futuro<\/strong><\/p>\n<p>Este terceiro erro atribuo-o essencialmente a n\u00f3s, pais. A passividade\u00a0com que por vezes aceitamos a forma de vida na qual estamos integrados,\u00a0leva-nos a assumir, para n\u00f3s mesmos, medos, ang\u00fastias e cren\u00e7as que a\u00a0experi\u00eancia, a ci\u00eancia, ou a simples observa\u00e7\u00e3o da realidade nos\u00a0provaram estar erradas. Sucesso escolar n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de felicidade.<\/p>\n<p>Sucesso escolar n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de sucesso na vida adulta. Podemos, sim,\u00a0considerar que eventualmente trar\u00e1 melhores oportunidades de trabalho,\u00a0de remunera\u00e7\u00e3o, de carreira promissora. No entanto, \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil encontrar\u00a0pessoas com carreiras brilhantes mas que escondem depress\u00f5es, tristeza\u00a0e insatisfa\u00e7\u00e3o com as suas vidas, quanto \u00e9 f\u00e1cil encontrar pessoas com\u00a0trabalhos simples, um or\u00e7amento apertado, mas que vivem o seu dia-a-dia com alegria, carinho e plenitude.<br \/>\nQuando n\u00f3s, pais, passamos a acreditar que o sucesso dos nossos filhos se\u00a0traduz em boas notas, esquecendo que o sucesso est\u00e1 em aprender\u00a0(porque os nossos filhos est\u00e3o suficientemente saud\u00e1veis e felizes para o\u00a0fazerem), validamos as avalia\u00e7\u00f5es e passamos a atribuir aos nossos filhos\u00a0um valor em n\u00fameros. Valor esse que nos chega da escola. Sa\u00edmos do\u00a0registo saud\u00e1vel do \u201caprender pode ser bom e saboroso\u201d para o \u201cter boas\u00a0notas \u00e9 importante para o futuro\u201d. Para termos melhores alunos, \u00e9 no\u00a0gosto pela aprendizagem que devemos focar-nos, e n\u00e3o tanto na avalia\u00e7\u00e3o\u00a0dos resultados. O que acontece actualmente \u00e9 que o desejo natural de\u00a0aprender \u00e9 &#8220;sufocado&#8221;, por um sistema desadequado, competitivo e\u00a0excessivamente exigente. E as nossas crian\u00e7as entram rapidamente numa\u00a0corrida desenfreada mas sem rumo, como se de ratinhos numa rodinha se\u00a0tratassem. Como se isso fosse, um dia, faz\u00ea-las feliz.<\/p>\n<p>H\u00e1 que considerar que no primeiro ciclo, a crian\u00e7a encontra-se numa fase\u00a0de grande desenvolvimento emocional e vive uma s\u00e9rie de conflitos\u00a0intraps\u00edquicos que exigem compreens\u00e3o, aceita\u00e7\u00e3o e valida\u00e7\u00e3o do seu\u00a0\u201csentir\u201d. Contrariamente, a escola p\u00f5e o foco em aprendizagens racionais\u00a0e passa a mensagem de que importante n\u00e3o \u00e9 sentir, nem pensar, mas\u00a0receber do outro o que j\u00e1 est\u00e1 &#8220;colectivamente&#8221; pensado. O que n\u00f3s, pais,\u00a0dever\u00edamos ter como principal preocupa\u00e7\u00e3o seria que os nossos filhos\u00a0ultrapassem estes desafios emocionais com sucesso. \u00a0Isso sim, \u00e9 um bom\u00a0preditivo de uma vida adulta saud\u00e1vel. E uma vida adulta saud\u00e1vel \u00e9\u00a0preditiva de relacionamentos saud\u00e1veis, uma boa auto-estima, uma\u00a0grande vontade de construir e de contribuir positivamente para o pr\u00f3prio\u00a0e para a vida das pessoas \u00e0 sua nossa volta. Pessoalmente, \u00e9 a isto que eu\u00a0chamo sucesso.\u00a0As consci\u00eancias est\u00e3o a mudar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso refletir se as escolas de hoje n\u00e3o continuar\u00e3o a servir um\u00a0prop\u00f3sito de\u00a0ontem, estruturando-se como f\u00e1bricas de\u00a0trabalhadores,\u00a0para uma organiza\u00e7\u00e3o social que entretanto j\u00e1 mudou.\u00a0Este modelo de\u00a0escola foi importante, at\u00e9 fundamental, durante um\u00a0per\u00edodo\u00a0da nossa\u00a0hist\u00f3ria. Entretanto, a estrutura\u00a0social e as\u00a0consci\u00eancias\u00a0continuaram a\u00a0evoluir. N\u00e3o ter\u00e1 chegado a hora da escola fazer o mesmo?<\/p>\n<p>A curiosidade por novos modelos pedag\u00f3gicos tem vindo a crescer. A\u00a0procura de col\u00e9gios seguidores do M\u00e9todo Montessori, da Pedagogia\u00a0Waldorf ou Movimento da Escola Moderna, s\u00e3o alguns exemplos. Uma\u00a0curiosidade crescente, mas ainda com pouca projec\u00e7\u00e3o a n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>No entanto, parece-me que n\u00e3o deixar\u00e1 de marcar a sua posi\u00e7\u00e3o, numa\u00a0altura em que pais e professores se sentem desconfort\u00e1veis com a\u00a0realidade actual. &#8220;A ver vamos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Eu quero acima de tudo, que a minha filha seja feliz, hoje e sempre.<\/p>\n<p>Por Ana Guilhas,\u00a0<em>Psic\u00f3loga Cl\u00ednica<\/em><br \/>\npara Up To Lisbon Kids\u00ae<\/p>\n<p>Todos os direitos reservados<\/p>\n<p>imagem capa@kidshealth.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou m\u00e3e de uma menina de quase 3 anos, que ainda s\u00f3 frequenta a\u00a0creche. No entanto, hoje a minha preocupa\u00e7\u00e3o com o sistema escolar\u00a0ultrapassa j\u00e1 a dimens\u00e3o profissional, sendo tamb\u00e9m uma preocupa\u00e7\u00e3o\u00a0de m\u00e3e.\u00a0 Porqu\u00ea t\u00e3o \u201ccedo\u201d? 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