{"id":6606,"date":"2015-04-05T23:23:33","date_gmt":"2015-04-05T23:23:33","guid":{"rendered":"http:\/\/uptolisbonkids.com\/?p=6606"},"modified":"2015-04-05T23:23:33","modified_gmt":"2015-04-05T23:23:33","slug":"o-silencio-de-um-coracao-que-nao-bate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=6606","title":{"rendered":"O sil\u00eancio de um cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o bate"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias uma leitora pediu-me que escrevesse sobre o seguinte tema: \u00a0\u201c<strong><em>Sexo depois de um aborto<\/em><\/strong>\u201d.<br \/>\nAinda estive uns dias a pensar se conseguia escrever sobre este assunto que considero ser um assunto menos consensual do que \u201c<em>Sexo depois da maternidade<\/em>\u201d. \u00c9 um assunto pessoal, intimo, delicado e com alguma complexidade sentimental.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 beb\u00e9, n\u00e3o h\u00e1 amamenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 pontos, n\u00e3o h\u00e1 todo um novo mundo que preenche a mulher que se torna m\u00e3e. H\u00e1 sil\u00eancio, l\u00e1grimas, tristeza, raiva, frustra\u00e7\u00e3o, revolta, um vazio, um sentimento de perda, senti-me diminu\u00edda, culpada, senti que falhei enquanto mulher, olhava para as m\u00e3es, para as gr\u00e1vidas e questionava porqu\u00ea eu? Porqu\u00ea comigo? Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o me conhece,\u00a0infelizmente, tenho legitimidade para escrever sobre o tema.<br \/>\nAntes da minha primeira filha sofri dois abortos retidos. Foram os maiores socos no est\u00f4mago que levei na vida. Lembro-me bem o que senti, o sil\u00eancio de um cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o bate, a expectativa frustrada, o vazio no peito, na cabe\u00e7a, no ventre, entre n\u00f3s os dois que olh\u00e1vamos um para o outro sem saber o que dizer, os olhos dele que olhavam para mim com pena, a firmeza dele em proteger-me e engolir o seu pr\u00f3prio sofrimento, o abra\u00e7o dele que naqueles momentos me abrigavam em pleno, e ainda assim sentia-me sozinha e achava que nem ele nem ningu\u00e9m compreendia o que eu estava a sentir.<\/p>\n<p>Da primeira vez tive medo, muito medo. O meu corpo n\u00e3o expelia aquele feto que teimava em continuar dentro de mim como que: <em>n\u00e3o quero sair deste que \u00e9 o meu lugar<\/em>! O que me obrigou a ter que entrar num bloco\u00a0 de partos, eu de um lado com os olhos cheios de l\u00e1grimas de medo e tristeza, do outro lado uma m\u00e3e com os olhos cheios de l\u00e1grimas de alegria com um filho nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Na segunda vez, as mesmas personagens, o mesmo gui\u00e3o, o filme repetia-se, desta vez sabia bem ao que ia, j\u00e1 n\u00e3o tinha medo s\u00f3 tristeza e uma certeza moment\u00e2nea: N\u00e3o queria voltar a engravidar, n\u00e3o queria mais aquilo que me fazia mal e me estava a destruir por dentro.<\/p>\n<p>O facto de ter sido submetida a duas curetagens obrigava-nos a uma abstin\u00eancia sexual de tr\u00eas meses. Tr\u00eas meses que eu contava religiosamente para come\u00e7armos outra vez a tentar.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia medos nem receios, retomar a minha vida sexual era natural e quase necess\u00e1rio, eu queria mesmo engravidar e sabia que rem\u00e1vamos os dois na mesma direc\u00e7\u00e3o, nunca tive dificuldade na entrega, nunca senti que o meu corpo tivesse sido dilacerado, assumi que a natureza sabia o que fazia e deixei as coisas flu\u00edrem com naturalidade e assim foi assim das duas vezes.<\/p>\n<p>Mesmo com poucas semanas de gravidez perder um bebe \u00e9 devastador. Tudo necessita de sarar: o corpo, o esp\u00edrito, a cabe\u00e7a, at\u00e9 o casal em si precisa de recuperar-se emocionalmente e arrumar ideias. Usei sempre o tempo a meu favor para conseguir um novo come\u00e7o, nunca desisti do que queria, os abortos em nada abalaram a minha vida sexual, ap\u00f3s cada perda estive sempre pronta e preparada para engravidar outra vez.<\/p>\n<p>Mas nem sempre \u00e9 assim. H\u00e1 mulheres com medos e receios que sentem realmente que o seu corpo foi dilacerado, torturado, flagelado, rasgado, maltratado. H\u00e1 mulheres que n\u00e3o se entregam, que n\u00e3o se julgam \u00e0 altura, e se culpam pelo que aconteceu. Sentimento de impot\u00eancia que leva ao isolamento e ao sil\u00eancio, a exaust\u00e3o psicol\u00f3gica e as perdas de sangue apoderam-se de n\u00f3s, o que poder\u00e1 ser causador de n\u00e3o se estar preparada para retomar a vida sexual. H\u00e1 quem n\u00e3o esteja pronta a engravidar de novo vivendo com um eterno medo e receio de que tudo possa voltar a acontecer. H\u00e1 quem n\u00e3o consiga ver solu\u00e7\u00e3o numa nova gravidez.<\/p>\n<p>Para mim o truque foi nunca desistir, seguir sempre em frente e lutar por aquilo que queria \u2013 um filho \u2013 e sexo era a palavra de ordem para o conseguir ter.<\/p>\n<p><em>Por Vanessa Muchagata, originalmente postado em Cr\u00f3nicas de Uma Gr\u00e1vida acamada,<br \/>\nadaptado por Up To Lisbon Kids\u00ae<\/em> <em>Todos os direitos reservados<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias uma leitora pediu-me que escrevesse sobre o seguinte tema: \u00a0\u201cSexo depois de um aborto\u201d. Ainda estive uns dias a pensar se conseguia escrever sobre este assunto que considero ser um assunto menos consensual do que \u201cSexo depois da maternidade\u201d. \u00c9 um assunto pessoal, intimo, delicado e com alguma complexidade sentimental. 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