{"id":4921,"date":"2014-12-09T22:31:53","date_gmt":"2014-12-09T22:31:53","guid":{"rendered":"http:\/\/uptolisbonkids.com\/?p=4921"},"modified":"2014-12-09T22:31:53","modified_gmt":"2014-12-09T22:31:53","slug":"licenca-de-maternidade-mais-que-um-direito-uma-atitude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=4921","title":{"rendered":"Licen\u00e7a de Maternidade &#8211; Mais que um direito, uma atitude."},"content":{"rendered":"<p><em>Entre 1913 e 1915, a Am\u00e9rica seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres-m\u00e3es eram encaradas nos seus locais de trabalho.\u00a0Uma professora de Nova Iorque, Bridget Peixotto, despedida por estar gr\u00e1vida, foi acusada, condenada e demitida pelas autoridades, com base na \u201cneglig\u00eancia do dever de ir trabalhar, com o prop\u00f3sito de dar \u00e0 luz\u201d. A hist\u00f3ria e o exemplo singular de Bridget Peixotto, foi o que me inspirou a escrever este texto, porque metaforicamente tamb\u00e9m eu me condenei, e demiti do meu papel de m\u00e3e, <strong>ao ir trabalhar ainda a minha pequena beb\u00e9 n\u00e3o tinha feito dois meses<\/strong>.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O adiamento da maternidade de mulheres em idade f\u00e9rtil por motivos profissionais, e a licen\u00e7a parental, vulgo, maternidade\/paternidade, ocupam os lugares cimeiros no ranking da desola\u00e7\u00e3o em que se tornou a procria\u00e7\u00e3o em Portugal.<\/p>\n<p>Estamos numa era em que a maternidade \u00e9 assumida como uma esp\u00e9cie de presente comprado muito antes do tempo. Embrulhe-se. N\u00e3o \u00e9 para usar agora.<\/p>\n<p><strong>A licen\u00e7a de maternidade \u00e9, em primeira inst\u00e2ncia, o motivo pelo qual as mulheres adiam a maternidade<\/strong>, e \u00e9 estranho que 150 dias &#8211; uma gota de \u00e1gua num mar de longos e fatigantes anos que dedicamos \u00e0 atividade profissional &#8211; possam ser na maioria dos casos a raz\u00e3o basilar para adiar a experi\u00eancia de ter um filho.<\/p>\n<p>Erradicava-se esta <em>peste negra<\/em> de 150 dias de abstin\u00eancia profissional e era ver as entidades empregadoras a respirarem de al\u00edvio.<\/p>\n<p>O tom ir\u00f3nico que imprimi \u00e0 frase anterior \u00e9 isso mesmo, ir\u00f3nico, porque a irradica\u00e7\u00e3o e\/ou a diminui\u00e7\u00e3o do tempo de licen\u00e7a de maternidade, \u00e9 um erro e uma fal\u00e1cia patronal, fria e calculista.<\/p>\n<p>\u00c9 absolutamente prim\u00e1rio considerar que cinco meses de licen\u00e7a \u00e9 mais do que suficiente para uma m\u00e3e &#8216;encaminhar&#8217; o seu pequeno beb\u00e9, para preparar o seu regresso ao trabalho, preparar-se para a separa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria do seu filho pequenino, e \u00e9 muito pouco, arrisco-me a dizer insignificante, sobretudo (ou por exemplo) para uma m\u00e3e que necessita de aceitar, preparar e encarar\u00a0 a vida de um filho com problemas de sa\u00fade, tantas vezes sem respostas imediatas na sociedade, que as fazem perder os empregos por faltas mais do que justificadas ao trabalho, para correr atr\u00e1s das solu\u00e7\u00f5es para os problemas dos seus filhos.<\/p>\n<p><strong>Cinco meses s\u00e3o pouco.<\/strong><\/p>\n<p>Cinco meses s\u00e3o pouco, para acalmar o sistema hormonal ou alguma depress\u00e3o p\u00f3s-parto mais acentuada, s\u00e3o pouco para aceitar que a partir daquele momento o tempo m\u00e3e-filho ficar\u00e1 irremediavelmente reduzido a duas ou tr\u00eas horas di\u00e1rias, repartidas entre jantares e banhos, trabalhos de casa e higiene do lar, trabalho acumulado no escrit\u00f3rio, amamenta\u00e7\u00e3o, dietas e desporto, consultas e vacinas, e toda uma infinidade de tarefas que as m\u00e3es-trabalhadoras t\u00eam de assumir simultaneamente.<\/p>\n<p>Cinco meses s\u00e3o pouco para uma m\u00e3e se recompor de uma gravidez imensa e cansativa, tantas vezes problem\u00e1tica e cheia de d\u00favidas, e s\u00e3o pouco para entregar um filho que esteve dentro de si durante tanto tempo, \u00e0s m\u00e3os de educadoras, amas, e institui\u00e7\u00f5es, que nunca viram, que n\u00e3o sabem o que s\u00e3o, como funcionam, e que nunca ser\u00e3o as melhores ou suficientemente boas para lhes entregarem o cora\u00e7\u00e3o, e um filho.<\/p>\n<p>Quando a minha filha nasceu, quase que entre uma semana de trabalho e outra, vivia assoberbada com uma empresa que n\u00e3o me trouxe nada de bom ou de novo. Tirou-me sim um tempo precioso que nunca mais vou ter, de curtir o meu beb\u00e9 descansada, sem correrias, sem reuni\u00f5es, sem telefones a tocar e sem gente a entrar e a sair.<\/p>\n<p><strong>Cortei a mim pr\u00f3pria a possibilidade da amamenta\u00e7\u00e3o<\/strong>, porque era imposs\u00edvel amamentar uma crian\u00e7a com um escrit\u00f3rio para gerir, mesmo com a ajuda de bombas el\u00e9tricas que me sugavam os nervos, a paci\u00eancia e \u00e0s vezes algum leite, e por mais que eu me conven\u00e7a, agora, tentando escamotear aquilo que teima em vir \u00e0 tona, que o tempo que roubei a n\u00f3s duas pouca diferen\u00e7a fez ou faz na nossa vida,\u00a0 a verdade \u00e9 que eu troquei por ansiedade e alguma imaturidade um tempo essencial, \u00fanico, um tempo que se quer mon\u00f3tono, repetitivo e calmo, como \u00e9 o dos primeiros meses de vida de um beb\u00e9, por uma coisa banal, como \u00e9 (na verdade) um emprego, apesar das dificuldades que todos sentimos atualmente.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\">ARTIGO RELACIONADO | <\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000080;\"><a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/saude-e-bem-estar\/licenca-de-maternidade-ate-aos-6m\/\">LICEN\u00c7A DE MATERNIDADE AT\u00c9 AOS 6 MESES?<\/a><\/span><\/h5>\n<p><strong>Aquilo que dei \u00e0 minha filha foi tudo menos uma rotina<\/strong>, e isso de certeza que ter\u00e1 influ\u00eancia na sua personalidade. Quando ela precisava de mim toda para ela, eu decidi dividi-la com a minha empresa, com os meus clientes e com os meus problemas laborais.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o entendi que isso seria afinal o que iria fazer para o resto da minha vida<\/strong>, e quando a deixei pela primeira vez na creche, t\u00e3o pequenina e t\u00e3o fr\u00e1gil, antecipei, muito por culpa do medo de perder o emprego ou assoberbar colegas com o meu trabalho, a entrada da minha filha na institui\u00e7\u00e3o que mais presente estar\u00e1 na vida dela at\u00e9 \u00e0 idade adulta. A escola.<\/p>\n<p>Um beb\u00e9 de meses n\u00e3o precisa de uma escola. <strong>Um beb\u00e9 de meses precisa da m\u00e3e.<\/strong><\/p>\n<p>Na Europa, especialmente nos pa\u00edses mais desenvolvidos, a licen\u00e7a maternal tende a alargar-se, prova de que h\u00e1 uma efetiva necessidade da companhia e apoio da m\u00e3e nos primeiros meses do beb\u00e9, e at\u00e9 nos primeiros anos de vida.<\/p>\n<p>Em Portugal o que vejo \u00e9 uma regress\u00e3o, que embora n\u00e3o se verifique na lei, est\u00e1 latente e impl\u00edcita na sociedade. Todos os dias vejo erros, revejo-me em novos casos de persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s jovens mulheres, impulsionadas pela ideia (e realidade) de crise e desemprego, por mentes de empregadores mesquinhos e antiquados, m\u00e3es que atrasam a sua maternidade,\u00a0 mulheres que se anulam sistematicamente, ora congelando \u00f3vulos, ora matando os sonhos de mulher, e encurtam a licen\u00e7a de maternidade para uns rid\u00edculos dois ou tr\u00eas meses, para correrem para os bra\u00e7os das empresas e do trabalho. Aos poucos (e julgo que conscientemente e em sofrimento) vamos negligenciando este tempo ao qual temos direito, e vamos-mos aproximando de um tempo antigo, um tempo que a Brigett Peixotto fez quest\u00e3o de erradicar.<\/p>\n<p>Muitas foram as m\u00e3es que naquela altura me disseram uma frase que n\u00e3o esque\u00e7o:<\/p>\n<p><em>\u2018Aproveita bem que eles s\u00e3o pequeninos pouco tempo. Passa a correr.\u2019<\/em><\/p>\n<p><strong>E passou.<\/strong><\/p>\n<p>Desde 1913 at\u00e9 aos dias de hoje, muitas foram as mulheres que puderam usufruir da sua licen\u00e7a maternal para acompanhar os seus filhos nos primeiros meses de vida.\u00a0Bridget Peixotto faleceu a 10 de abril de 1972, em Nova Iorque, aos 92 anos de idade, deixando um legado invej\u00e1vel.<\/p>\n<p>No obitu\u00e1rio que lhe dedicou o New York Times, afirmava ser ela a \u201crespons\u00e1vel pela institucionaliza\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a de parto por todo o pa\u00eds\u201d e pelo mundo: <em>\u201cO seu caso permitiu que milh\u00f5es de mulheres pudessem tirar uma licen\u00e7a para dar \u00e0 luz. A decis\u00e3o motivou tamb\u00e9m altera\u00e7\u00f5es no sistema do setor privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica gr\u00e1vida e depois de dar \u00e0 luz.\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre 1913 e 1915, a Am\u00e9rica seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres-m\u00e3es eram encaradas nos seus locais de trabalho.\u00a0Uma professora de Nova Iorque, Bridget Peixotto, despedida por estar gr\u00e1vida, foi acusada, condenada e demitida pelas autoridades, com base na \u201cneglig\u00eancia do dever de ir trabalhar, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":4930,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11,9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4921"}],"collection":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4921"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4921\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}