{"id":4558,"date":"2014-11-11T22:48:53","date_gmt":"2014-11-11T22:48:53","guid":{"rendered":"http:\/\/uptolisbonkids.com\/?p=4558"},"modified":"2014-11-11T22:48:53","modified_gmt":"2014-11-11T22:48:53","slug":"filhos-unicos-a-queda-de-um-mito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=4558","title":{"rendered":"Filhos \u00danicos &#8211; A queda de um mito"},"content":{"rendered":"<h2>Filhos \u00danicos &#8211; A queda de um mito<\/h2>\n<div>\u00c0s vezes, quando estou sozinha, penso em mim pr\u00f3pria.<\/div>\n<div>O exerc\u00edcio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 novo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sou filha \u00fanica e passei todas as fases do meu crescimento fazendo perguntas a mim mesma.<\/div>\n<div>Todo o esquema da minha vida era gizado na minha cabe\u00e7a. Mesmo \u00e0s perguntas mais dif\u00edceis tive sempre de <strong>encontrar respostas, encontrar solu\u00e7\u00f5es<\/strong>, e sem ajuda ou interfer\u00eancia de irm\u00e3os, havendo concord\u00e2ncia comigo mesma, avan\u00e7ava.<br \/>\nE \u00e0s vezes, tantas vezes, de forma errada.<br \/>\nPrecisava apenas de ter vontade pr\u00f3pria. Auto-estima.<\/div>\n<div>N\u00e3o tinha barreiras, fronteiras, jogos de poder.<\/div>\n<div>Este \u00e9 o <strong>segredo dos filhos \u00fanicos<\/strong>.<br \/>\nPrecisamos estar dos dois lados da mesa para fazer um jogo. Temos de adivinhar o que o outro vai fazer para fazer a melhor jogada.<\/div>\n<div>O outro, que nunca existe, \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de consci\u00eancia. Acabamos sempre por fazer o que queremos, porque apesar de inventarmos outro algu\u00e9m, esse algu\u00e9m nunca nos faz grande frente, e a inf\u00e2ncia, pr\u00f3diga na inoc\u00eancia, em nada v\u00ea mal e tudo nos parece faz\u00edvel, mesmo a pior estupidez.<\/div>\n<div>Isto de fazermos o que queremos, <strong>n\u00e3o \u00e9 ser mimado, \u00e9<\/strong> <strong>n\u00e3o ter oposi\u00e7\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o coisas totalmente diferentes. Trata-se de uma necessidade, ou seja, \u00e9 uma falta, e n\u00e3o um ganho.<\/div>\n<div>As pessoas quando sabem que sou filha \u00fanica, dizem-me logo que <strong>sou mimada<\/strong>, assim, sem pensar. Tamb\u00e9m dizem que as magras n\u00e3o comem e que as gordas comem demais. <strong>\u00c9 um estigma<\/strong>. Uma n\u00f3doa daquelas muito tesas que nunca saem na totalidade.Ora porque raio serei eu mais mimada do que as pessoas que t\u00eam irm\u00e3os?<\/div>\n<div><em>&#8216;Porque tinhas tudo para ti, os mimos todos.&#8217;<\/em><\/div>\n<div>N\u00e3o. <strong>Os mimos n\u00e3o se repartem e n\u00e3o se gastam<\/strong>.<br \/>\nAt\u00e9 parece que uma m\u00e3e quando acorda, tem uma dose limitada de mimos para os dois irm\u00e3os. Se um se atrasa mais a acordar, quando chega \u00e0 cozinha, a m\u00e3e j\u00e1 gastou a dose toda com o mais madrugador.<\/div>\n<div><strong>Que coisa rid\u00edcula<\/strong>. Perguntem \u00e0s m\u00e3es, que elas logo vos respondem. Gostam dos filhos com uma dose de amor igual. Elas sabem muito bem explicar que, o que difere de filho para filho n\u00e3o \u00e9 a dose de amor que lhes dedicam, \u00e9 antes uma esp\u00e9cie de combina\u00e7\u00e3o astrol\u00f3gica. Entendem-se melhor com o Manuel porque o Manuel \u00e9 aqu\u00e1rio. O Pedro \u00e9 escorpi\u00e3o, e \u00e9 mais arisco. Gosta igualmente dele, mas discutem mais vezes.<\/div>\n<div>Se eu for escorpi\u00e3o, mesmo sendo filha \u00fanica, a minha m\u00e3e n\u00e3o me d\u00e1 o mimo todo a mim. D\u00e1 algum ao gato que nasceu em setembro, n\u00e3o faz perguntas e n\u00e3o tira m\u00e1s notas.<\/div>\n<div>Por outro lado, se fizer asneira, as palmadas s\u00e3o todas minhas, e se uma m\u00e3e se cansa a bater em tr\u00eas filhos, e mesmo assim ficam todos doridos, imaginem a m\u00e3e que larga a f\u00faria toda no mesmo rabo. <strong>O que tem isto de mimoso?<\/strong><\/div>\n<div>A quest\u00e3o de sermos ego\u00edstas \u00e9 outra que tal. <strong>Nunca fui ego\u00edsta<\/strong>, ali\u00e1s a minha dose de ego\u00edsmo \u00e9 muito menor do que a dose de ego\u00edsmo que sempre vi nos irm\u00e3os pequenos. Fervia grande discuss\u00e3o sempre que queriam alguma coisa. Brinquedos comuns davam sempre confus\u00e3o. Como tinham de se impor para ganhar a posse do brinquedo, que era &#8216;dos dois&#8217; tornavam-se mais ego\u00edstas e possessivos.<br \/>\n<strong>O mesmo com essa coisa do amor da m\u00e3e. A m\u00e3e \u00e9 minha. O pai \u00e9 meu.<\/strong> Alguns irm\u00e3os lutam at\u00e9 ao fim da vida por essa aten\u00e7\u00e3o, e ami\u00fade desenvolvem sentimentos de culpa por n\u00e3o granjearem mais amor, do que o irm\u00e3o que nasceu depois, ou antes. Depois amenizam-se com esse sentimento, mas ele permanece latente.<\/div>\n<div>Como podem constatar, a teoria est\u00e1 totalmente ao contr\u00e1rio.<\/div>\n<div>Os filhos \u00fanicos n\u00e3o passam por estas fric\u00e7\u00f5es de disputar amor e bens materiais. S\u00e3o mais calmos e<strong> n\u00e3o d\u00e3o tanta import\u00e2ncia ao ter<\/strong>.<\/div>\n<div>Ao dar, ao emprestar, os filhos \u00fanicos n\u00e3o tem o sentido de posse t\u00e3o apurado, al\u00e9m daquele que \u00e9 natural em todas as crian\u00e7as numa certa fase. Normalmente a fase em que os outros teimam em &#8216;dar irm\u00e3ozinhos&#8217; aos filhos \u00fanicos. Outra press\u00e3o social que os filhos \u00fanicos de costas muito largas assumem sem culpa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O senso comum desgasta-me.<br \/>\nNo outro dia, por uma quest\u00e3o puramente astrol\u00f3gica, n\u00e3o quis pedir um trabalho a uma colega. Preferi faz\u00ea-lo sozinha, ainda que tenha demorado mais tempo. Claro! N\u00e3o sei trabalhar em equipa. Sou filha \u00fanica.<\/div>\n<div>Toda a gente sabe que os filhos \u00fanicos desta vida, vivem cada um em seu planeta, cada um em sua empresa, cada um em sua casa.<br \/>\nN\u00e3o se juntam com ningu\u00e9m.<br \/>\nOs filhos \u00fanicos s\u00e3o todos ermitas.<br \/>\nOs filhos \u00fanicos t\u00eam todos o mesmo nome: O Principezinho.<br \/>\nMais uma teoria contraproducente.<\/div>\n<div>Os filhos \u00fanicos est\u00e3o habituados a pensar duas vezes sobre o mesmo problema.<br \/>\nL\u00e1 em cima, no jogo de mesa, precisaram fintar-se a eles pr\u00f3prios. N\u00e3o \u00e9 por isso uma quest\u00e3o de mimo, simplesmente n\u00e3o tinham ningu\u00e9m a quem contrapor a sua ideia, logo, a puls\u00e3o \u00e9 para resolverem por si s\u00f3, as quest\u00f5es.<\/div>\n<div>H\u00e1 muito quem diga que os filhos \u00fanicos passeiam pela savana de nariz muito empinado.<br \/>\nQue s\u00e3o muito convencidos.<br \/>\nE s\u00e3o.<\/div>\n<div>Precisaram de o ser.<br \/>\nPrecisaram ter uma dose maior para avan\u00e7ar nas brincadeiras.<br \/>\nSe se depararam na inf\u00e2ncia com uma \u00e1rvore muito alta, tiveram de decidir sozinhos se a subiam.<strong> N\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m para empurrar, n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m para amparar a queda<\/strong>, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para ajudar na mentira quando o joelho aparece todo esfolado em casa. <strong>A responsabilidade \u00e9 toda nossa<\/strong>.<br \/>\n<strong>Para sempre<\/strong>.<br \/>\nSubimos ou n\u00e3o?<br \/>\nA solid\u00e3o do filho \u00fanico \u00e9 a <strong>m\u00e3e da auto-estima<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 a m\u00e3e e nem o pai que nos traz pela manh\u00e3 a auto-estima misturada no leite. Somos n\u00f3s que a desenvolvemos sozinhos, e isso \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 positivo, pois pode nascer muito abalada ou cheia de erros.<\/div>\n<div><strong>Ser filho \u00fanico n\u00e3o \u00e9 mesmo nada bom.<\/strong><br \/>\n\u00c9\u00a0um mito que se criou com base em princ\u00edpios materiais, que colocam a t\u00f3nica do filho \u00fanico no ganho material que tem ao n\u00e3o haver mais ningu\u00e9m com quem dividir as possibilidades materiais dos pais. Mas ter um irm\u00e3o, pode ser muito melhor do que ganhar uma voltinha de cinco anos numa universidade particular.<\/div>\n<div>Al\u00e9m disso, estou sozinha com um pai e uma m\u00e3e, que s\u00e3o dois.<\/div>\n<div>N\u00e3o tive mais amor por ser filha \u00fanica, tive talvez mais peso, mais responsabilidade, mais olhos nos meus ombros, mais expetativas centradas em mim.<\/div>\n<div>N\u00e3o passei por intervalos da chuva nas travessuras da inf\u00e2ncia, e n\u00e3o passo pelos intervalos da chuva nos n\u00e3o-sucessos da vida adulta.<\/div>\n<div><strong>Ser filho \u00fanico \u00e9 tudo menos positivo, e quem pensar o contr\u00e1rio est\u00e1 muito errado.\u00a0<\/strong><\/div>\n<div>Tenho muita pena quando vejo a maior parte dos casais impossibilitados de ter mais filhos, e de poderem proporcionar aos seus filhos \u00fanicos a<strong> alegria de ter um ou mais irm\u00e3os<\/strong>, que aprendem e desenvolvem as suas capacidades em conjunto, que n\u00e3o ficam sem respostas \u00e0s quest\u00f5es magnas da inf\u00e2ncia.<\/div>\n<div>O saber comparado \u00e9 um saber muito mais perfeito, mais ponderado, e leva-nos a todos muito mais longe.<br \/>\n<strong>O que pode haver de melhor do que o irm\u00e3o para abra\u00e7ar, para dan\u00e7ar aquela m\u00fasica, lembrar aquela mi\u00fada, ter um olhar e um sorriso c\u00famplice quando a m\u00e3e come\u00e7a com as &#8216;coisas dela&#8217;?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o ser\u00e1 isso o verdadeiro mimo, que eu, como filha \u00fanica nunca vou ter?<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4560 size-full\" src=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/irmc3a3os.jpg\" alt=\"irm\u00e3os\" width=\"349\" height=\"334\" \/><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Filhos \u00danicos &#8211; A queda de um mito \u00c0s vezes, quando estou sozinha, penso em mim pr\u00f3pria. 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