{"id":4273,"date":"2014-10-22T16:30:35","date_gmt":"2014-10-22T16:30:35","guid":{"rendered":"http:\/\/uptolisbonkids.com\/?p=4273"},"modified":"2014-10-22T16:30:35","modified_gmt":"2014-10-22T16:30:35","slug":"carta-aos-pais-sobre-a-raiva-dos-filhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=4273","title":{"rendered":"Carta aos pais sobre a raiva dos filhos"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00ab\u00c0s vezes n\u00e3o sabemos como havemos de lidar com a nossa filha&#8230; basta dizermos um &#8220;n\u00e3o&#8221; e come\u00e7a a insultar-nos, aos berros! No outro dia fic\u00e1mos preocupados porque quando lhe dissemos que n\u00e3o podia ver a telenovela e tinha que ir dormir desatou aos pontap\u00e9s e murros nos m\u00f3veis&#8230; ela \u00e9 muito agressiva&#8230;\u00bb<\/em><br \/>\nPai e M\u00e3e, tr\u00eas coisas que eu vos quero dizer sobre os meus acessos de raiva:<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que voc\u00eas possam pensar, aqueles momentos em que eu me enervo e grito convosco, em que eu me passo e vos chamo nomes, ou em que eu come\u00e7o aos murros e pontap\u00e9s quando voc\u00eas n\u00e3o me d\u00e3o qualquer coisa que eu queria muito naquele momento, n\u00e3o s\u00e3o culpa vossa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o culpa minha.<\/p>\n<p>Na realidade n\u00e3o s\u00e3o culpa de ningu\u00e9m at\u00e9 porque a <strong>culpa \u00e9 um nome que s\u00f3 traz infelicidade<\/strong> porque serve para castigar ou para poder explicar qualquer coisa que n\u00e3o controlamos. Quando n\u00f3s n\u00e3o controlamos qualquer coisa sentimos que estamos a falhar.<\/p>\n<p>Pelo menos \u00e9 isto que eu sinto. <strong>Voc\u00eas sentiram isso quando tinham a minha idade?<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>A primeira coisa que vos queria dizer \u00e9 que quando isso acontece n\u00e3o tem a ver com qualquer coisa que eu sou. <strong>Eu n\u00e3o sou uma crian\u00e7a m\u00e1, agressiva ou violenta<\/strong>. N\u00e3o sou nada disso porque n\u00e3o tem a ver com o &#8220;ser&#8221; mas com o &#8220;estar&#8221;. Nesses momentos eu estou aflita, sinto-me perdida e n\u00e3o consigo controlar a minha energia. \u00c9 quase como se o meu corpo me sugerisse que a frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 um lugar muito perigoso, uma esp\u00e9cie de po\u00e7o sem fundo porque n\u00e3o sei lidar com as emo\u00e7\u00f5es negativas. N\u00e3o tenho de mim uma ideia segura.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 voc\u00eas n\u00e3o me darem\u00a0o que eu quero. O problema \u00e9 que a frustra\u00e7\u00e3o que eu sinto nessas alturas \u00e9 um po\u00e7o sem fundo, uma esp\u00e9cie de uma picada forte num m\u00fasculo que n\u00e3o sabe suportar, s\u00f3 sabe reagir.<\/p>\n<ul>\n<li>A\u00a0segunda coisa que eu vos queria dizer \u00e9 que, a primeira coisa a fazer nesses momentos \u00e9 ajudar-me a lidar com essa energia.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>H\u00e1 v\u00e1rias coisas que voc\u00eas podem fazer comigo que me ajudam a ter a sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vou cair num po\u00e7o sem fundo.<\/strong><\/p>\n<p>Podem, por exemplo abra\u00e7ar-me com for\u00e7a enquanto me dizem, com voz calma e decidida que \u00e9 tempor\u00e1rio, j\u00e1 vai passar. Quando eu sei que vai passar, passa mais r\u00e1pido. Se por acaso n\u00e3o vos apetecer abra\u00e7ar-me, porque tamb\u00e9m est\u00e3o zangados ou frustrados com qualquer coisa, ajudem-me a soltar a energia c\u00e1 para fora, sem que isso me fa\u00e7a mal.<\/p>\n<p>Podem fazer uma corrida comigo, fazer um concurso de saltos no mesmo lugar para ver quem d\u00e1 mais em menos tempo, ou at\u00e9 mesmo fazer o bra\u00e7o de ferro comigo para ver quem ganha.<\/p>\n<p>Garanto-vos que, mais tarde ou mais cedo vamos estar a olhar uns para os outros a sorrir de al\u00edvio, por termos sabido \u201cn\u00e3o entrar no po\u00e7o\u201d!<\/p>\n<ul>\n<li>A terceira coisa, talvez aquela que \u00e9 mais importante para o meu futuro, <strong>\u00e9 que voc\u00eas me ensinem qualquer coisa acerca da raiva ou da frustra\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<p>Ensinem-me a identific\u00e1-las, saber quando v\u00eam e de que forma. Podemos arranjar uma palavra ou um c\u00f3digo que voc\u00eas me dizem quando sentem que eu estou a ter aquela energia e colocamos em pr\u00e1tica os exerc\u00edcios que j\u00e1 vos expliquei. Assim eu depois tamb\u00e9m posso dizer-vos a palavra quando precisar de ajuda para lidar com a raiva ou com a frustra\u00e7\u00e3o. Para isso talvez seja melhor voc\u00eas lembrarem-se dos momentos em que se sentiram zangados ou frustrados e pensarem como reagiram. Se calhar sentiram, como eu, que ficaram mais frustrados quando n\u00e3o vos compreendiam nem faziam um esfor\u00e7o para vos compreender, ou quando vos diziam que n\u00e3o simplesmente \u201cporque n\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p>Pois deixem-me que vos explique uma coisa muito importante: para que uma crian\u00e7a fique descansada com um simples \u201cporque n\u00e3o!\u201d \u00e9 necess\u00e1rio existirem tr\u00eas aspetos fundamentais na rela\u00e7\u00e3o com os pais, que eu chamo os 3 \u201cC\u00eas\u201d: <strong>confian\u00e7a, coer\u00eancia e a clareza<\/strong>. Passo a explicar:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Confian\u00e7a<\/strong> \u2013 Para poder aceitar uma regra eu preciso de confiar em voc\u00eas, que voc\u00eas n\u00e3o me v\u00e3o abandonar se eu desrespeitar a regra, porque ainda estou a aprender e esta coisa da aprendizagem ainda demora uns aninhos. Para isso eu preciso que voc\u00eas me <strong>apoiem e incentivem,<\/strong> que me digam \u201c<em>tu vais conseguir suportar essa dor porque \u00e9s um her\u00f3i e n\u00f3s estamos c\u00e1 contigo, mesmo se falhares\u201d<\/em>.<\/li>\n<li><strong>Coer\u00eancia<\/strong> \u2013 Para poder respeitar uma regra eu preciso de sentir que voc\u00eas a aplicam sempre da mesma forma. Por exemplo, n\u00e3o me podem dizer que \u201c<em>eu n\u00e3o posso jogar computador<\/em>\u201d e depois eu reparo que a regra existe quando voc\u00eas est\u00e3o zangados e deixa de existir quando voc\u00eas est\u00e3o contentes. Prefiro que me digam uma hora para jogar computador e que sejam fortes a cumpri-la, independentemente do vosso estado de humor. <strong><strong>\u00c9 que sen\u00e3o, ningu\u00e9m acredita em voc\u00eas!&#8230;<\/strong><\/strong><\/li>\n<li><strong>Clareza \u2013<\/strong> Para poder perceber uma regra eu preciso de saber as raz\u00f5es da aplica\u00e7\u00e3o da mesma e isso acontece se eu perceber que a regra me vai ajudar a satisfazer, mais tarde ou mais cedo, uma necessidade minha. <strong>N\u00e3o me digam que o facto de eu cumprir a regra serve para vos deixar feliz<\/strong>, porque a\u00ed eu vou pensar que a regra contribui mais do que eu pr\u00f3prio para a vossa felicidade, e isso pode doer.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Espero, por fim, que n\u00e3o se zanguem por vos dizer estas coisas, mas h\u00e1 momentos em que os filhos tamb\u00e9m podem explicar algumas coisas aos pais. Para que os pais os entendam e possam desempenhar melhor o seu papel. A ideia n\u00e3o \u00e9 eliminar as zangas das nossas vidas, at\u00e9 porque \u00e9 muitas vezes zangados que conseguimos mostrar mais claramente as nossas necessidades.<\/p>\n<p><strong> A ideia \u00e9 que a zanga deixe de ser um problema e passe a ser uma solu\u00e7\u00e3o<\/strong>. Para sermos uma fam\u00edlia brutal, claro!<\/p>\n<p>Amo-vos muito<br \/>\nFilh@<\/p>\n<p><em>Por Francisco Gon\u00e7alves Ferreira, presidente da Casa Estrela do Mar,\u00a0para Up To \u00a0Kids\u00ae<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00ab\u00c0s vezes n\u00e3o sabemos como havemos de lidar com a nossa filha&#8230; basta dizermos um &#8220;n\u00e3o&#8221; e come\u00e7a a insultar-nos, aos berros! 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