{"id":20197,"date":"2019-04-01T21:00:00","date_gmt":"2019-04-01T20:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=20197"},"modified":"2019-04-01T21:00:00","modified_gmt":"2019-04-01T20:00:00","slug":"nao-e-normal-naoenormal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=20197","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 normal #n\u00e3o\u00e9normal"},"content":{"rendered":"<h3>N\u00e3o \u00e9 normal<\/h3>\n<h3>#n\u00e3o\u00e9normal<\/h3>\n<p>O Movimento N\u00e3o \u00e9 Normal (#n\u00e3o\u00e9normal) surgiu na sequ\u00eancia de um simples pedido do comediante <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/diogofaro\">Diogo Faro<\/a> aos seus (suas) seguidores. Estava a preparar um v\u00eddeo sobre o ass\u00e9dio e a sua inten\u00e7\u00e3o era falar do tema usando a com\u00e9dia. Pedia apenas que as pessoas interessadas em participar enviassem um e-mail com a palavra \u201ceu\u201d se tivessem passado por alguma situa\u00e7\u00e3o deste tipo. Nas primeiras tr\u00eas horas recebeu mais de 700 e-mails com relatos chocantes que o fizeram querer chamar os holofotes para o problema. Juntou-se a alguns amigos e lan\u00e7ou o movimento que est\u00e1 prestes a chegar \u00e0 fala com a Secret\u00e1ria de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><iframe loading=\"lazy\" style=\"border: none; overflow: hidden;\" src=\"https:\/\/www.facebook.com\/plugins\/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fsensivelmenteidiota%2Fvideos%2F390959315018857%2F&amp;show_text=0&amp;width=560\" width=\"560\" height=\"234\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Uns dias depois partilhei com a minha m\u00e3e que fui uma das primeiras centenas de pessoas a responder ao apelo. Como resposta vi o choque no rosto dela, acompanhado pela pergunta \u201c<em>mas tu foste v\u00edtima de ass\u00e9dio?<\/em>\u201d. Imaginei que sentiu o que eu sentiria se fosse a minha filha a dizer-me o mesmo. E limitei-me a responder \u201c<em>m\u00e3e, conheces alguma mulher que n\u00e3o tenha sido<\/em>?\u201d. E ela sabia que era verdade e concordou. Disse que ela mesma tinha passado pela \u00faltima situa\u00e7\u00e3o h\u00e1 apenas uns dias.<\/p>\n<p>Isto significa que o ass\u00e9dio e o abuso di\u00e1rio a que as mulheres est\u00e3o sujeitas caiu numa certa normalidade. \u201cHabitu\u00e1mo-nos\u201d a que fa\u00e7a parte do dia-a-dia, do que somos. Se n\u00e3o tivermos experienciado situa\u00e7\u00f5es extremas de abuso sexual ou viol\u00eancia dom\u00e9stica (ou de qualquer outro tipo), a verdade \u00e9 que n\u00e3o olhamos para n\u00f3s como v\u00edtimas.<\/p>\n<h4>Tenho muitas hist\u00f3rias minhas, nenhuma delas que tenha chegado a extremos. E sei de mais hist\u00f3rias do que gostaria.<\/h4>\n<p>Como a daquela mi\u00fada que vi crescer e soube que aos 14 anos disse repetidamente ao namorado que n\u00e3o estava preparada para perder a virgindade e ele se cansou de \u201cesperar\u201d e a violou, tendo acabado a tortura apenas uns minutos antes de a m\u00e3e dela chegar a casa e ele a ter obrigado a limpar as l\u00e1grimas e a ajeitar-se para que a m\u00e3e n\u00e3o percebesse. Com a amea\u00e7a de que faria a vida num inferno se ela contasse o que acabara de acontecer.<\/p>\n<p>Ou a da rapariga da secund\u00e1ria que engravidou e apanhou tanto do namorado (porque a culpa s\u00f3 podia ser dela por estar gr\u00e1vida) que acabou a fazer um aborto clandestino para seguir com a vida em frente.<\/p>\n<p>Ou daquela vez que uma colega minha, aos 14 anos, chegou \u00e0 escola afogueada e nos contou que estava com outra colega nossa na casa de um rapaz da nossa turma, casa essa onde tantas vezes convivemos todos. E os rapazes tinham come\u00e7ado a brincar e a querer tocar-lhes. E ela tinha dito que n\u00e3o queria. E eles n\u00e3o pararam. E a outra colega deixou-se ficar, petrificada e com medo, porque eles eram mais, e esta tinha fugido. Tinha ido para a varanda do primeiro andar e saltado c\u00e1 para baixo numa das avenidas mais movimentadas da cidade.<\/p>\n<h4>Na altura houve indigna\u00e7\u00e3o e choque mas n\u00e3o fizemos mais que isso.<\/h4>\n<p>Eu deixei de falar com os rapazes em quest\u00e3o durante duas semanas mas depois voltou tudo ao normal. Nunca, em altura alguma, nos junt\u00e1mos para lhes dizer que era imperdo\u00e1vel o que tinham feito. Que tinha sido uma viola\u00e7\u00e3o da dignidade e da vontade e liberdade daquelas duas raparigas, que eram amigas deles. Nunca guard\u00e1mos esse rancor contra eles e eles cresceram para se tornarem homens e provavelmente nem se lembram desse epis\u00f3dio. Mas aposto que elas sim. Eu nunca esqueci, tamb\u00e9m muito por causa da culpa que sinto por ter deixado isso passar, mas na altura n\u00e3o soube fazer mais nem melhor. N\u00e3o que isso seja desculpa.<\/p>\n<p>Aquela situa\u00e7\u00e3o em espec\u00edfico \u00e9 muito demonstrativa das duas posi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade em que as mulheres ficam em situa\u00e7\u00f5es como estas: n\u00e3o conseguir fazer nada, por causa do medo, e arriscar fugir, pondo-se em perigo. Porque raramente h\u00e1 lugar para um meio termo.<\/p>\n<p>Considero que tive uma inf\u00e2ncia e uma adolesc\u00eancia perfeitamente saud\u00e1veis mas quando penso nestas e noutras situa\u00e7\u00f5es (ocupariam demasiadas p\u00e1ginas), algumas com quase 20 anos, tenho a certeza que me marcaram. Sei que sim.<\/p>\n<h4>Porque ser mulher n\u00e3o \u00e9 efectivamente o mesmo que ser homem.<\/h4>\n<p>Porque quando ando de metro sozinha \u00e0 noite vou o caminho todo a rezar baixinho, sem conseguir relaxar, at\u00e9 enfiar a chave na porta de casa. E at\u00e9 chegar l\u00e1 acelero o passo, escolho os caminhos mais iluminados e respiro com mais tranquilidade se houver gente a passar.<\/p>\n<p>Porque quando preciso que v\u00e1 um t\u00e9cnico a casa (electricista, etc) tento usar a roupa mais desinteressante do mundo porque isso me d\u00e1 uma seguran\u00e7a, apesar de ser totalmente contra a cren\u00e7a de que a roupa dita o consentimento: mas a realidade \u00e9 que a minha maneira de pensar n\u00e3o \u00e9 partilhada por muitos homens e isso coloca-me numa posi\u00e7\u00e3o de risco.<\/p>\n<p>Porque quando pe\u00e7o uma pizza e estou sozinha em casa deixo a tv da sala ligada e em bom volume para dar a sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 vida algures nas outras divis\u00f5es e n\u00e3o estou sozinha.<\/p>\n<p>Porque foram demasiadas as vezes em que tive algu\u00e9m a ro\u00e7ar-se em mim nos transportes.<\/p>\n<p>Porque ao ir para a escola, em mi\u00fada, tantas vezes apanhei com a minha melhor amiga tarados a tocarem-se.<\/p>\n<p>Porque quando pe\u00e7o um t\u00e1xi ou um uber tento organizar-me mentalmente para abrir a porta e sair assim que poss\u00edvel se for necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Porque quando saio \u00e0 noite s\u00f3 com amigas sei que somos um alvo f\u00e1cil e raramente voltamos para casa sem algu\u00e9m nos ter importunado de forma inapropriada.<\/p>\n<p>Porque li algures que a maior parte dos homens heterossexuais s\u00f3 d\u00e1 valor ao consentimento quando entra num bar gay. E isso \u00e9 demasiadamente triste e verdadeiro (e at\u00e9 um pouco absurdo e bizarro).<\/p>\n<h4>Sou m\u00e3e de uma menina e tento cri\u00e1-la com os princ\u00edpios b\u00e1sicos para que se torne um ser humano decente.<\/h4>\n<p>Sei que vai ter de enfrentar muitas mais barreiras do que se fosse um rapaz. Que vai viver situa\u00e7\u00f5es horr\u00edveis para as quais n\u00e3o a vou conseguir proteger. Sei disso porque sou m\u00e3e mas tamb\u00e9m sou filha e a minha m\u00e3e s\u00f3 soube de algumas das hist\u00f3rias que vivi muitos anos depois. Porque simplesmente h\u00e1 muitas coisas que n\u00e3o partilhamos pelas mais variadas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Disse num dos e-mails que enviei ao Diogo Faro que \u00e9 mais \u201cf\u00e1cil\u201d criar uma rapariga feminista do que um rapaz feminista, por motivos \u00f3bvios.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que ele est\u00e1 de parab\u00e9ns, porque est\u00e1 a dar a cara e a fazer chegar a mensagem a muitos homens que ainda v\u00e3o a tempo de mudar a nossa realidade.<\/p>\n<p>Como m\u00e3e fa\u00e7o o que posso e desejo que todos os que est\u00e3o no meu lugar fa\u00e7am o mesmo.<\/p>\n<p>Por um mundo em que as raparigas n\u00e3o andem com medo na rua. Num pa\u00eds sem guerra. Em Portugal.<\/p>\n<p>Deixo-vos o manifesto do Movimento N\u00e3o \u00e9 Normal para reflex\u00e3o. Que subscrevo na totalidade.<\/p>\n<p>Tentarei ser melhor para que haja mudan\u00e7a \u00e0 minha volta. Porque pura e simplesmente #n\u00e3o\u00e9normal.<\/p>\n<p><a class=\"dt-single-image\" href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/imagem-texto-170-I.jpg\" data-dt-img-description=\"\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-20201\" src=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/imagem-texto-170-I.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"364\" \/><\/a><\/p>\n<h3>\u201cN\u00c3O \u00c9 NORMAL: Um Manifesto<\/h3>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal deixar as coisas mal, n\u00e3o querer evoluir, deixar andar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal n\u00e3o querer ouvir, n\u00e3o querer saber, ignorar ou compactuar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal n\u00e3o saber, perceber e aceitar que \u201cn\u00e3o\u201d \u00e9 \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal for\u00e7ar, pressionar, chantagear.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal assediar, amea\u00e7ar, assustar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal agredir, humilhar, violar.<\/p>\n<h4>N\u00e3o \u00e9 normal haver tantas v\u00edtimas. Por ano, por m\u00eas, por dia, por hora.<\/h4>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal homens estarem contra as mulheres, nem mulheres contra homens. T\u00e3o pouco o \u00e9 homens contra homens ou mulheres contra mulheres.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal o \u00f3dio ser a solu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, nunca foi, nunca poder\u00e1 ser.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal confundir opini\u00f5es com verdades ou ideias com factos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal ser do contra apenas por ser, nem ser a favor s\u00f3 porque sim.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal n\u00e3o pensar pela pr\u00f3pria cabe\u00e7a nem pensar apenas sozinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal crian\u00e7as n\u00e3o saberem o que \u00e9 igualdade de g\u00e9nero. Nem jovens, nem adultos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal saber e n\u00e3o querer lutar por ela.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal ser demasiado insens\u00edvel, n\u00e3o ter empatia, ser t\u00e3o ego\u00edsta.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal um assunto t\u00e3o certo ter um caminho t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal aceitar que o normal seja uma anormalidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 normal, mas acontece. E isso tem de mudar.\u201d<\/p>\n<h4>Fa\u00e7am-se ouvir. Sempre.<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 normal #n\u00e3o\u00e9normal O Movimento N\u00e3o \u00e9 Normal (#n\u00e3o\u00e9normal) surgiu na sequ\u00eancia de um simples pedido do comediante Diogo Faro aos seus (suas) seguidores. Estava a preparar um v\u00eddeo sobre o ass\u00e9dio e a sua inten\u00e7\u00e3o era falar do tema usando a com\u00e9dia. Pedia apenas que as pessoas interessadas em participar enviassem um e-mail [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":40,"featured_media":20198,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,513],"tags":[10,525,699,432,81,624,156],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20197"}],"collection":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/40"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=20197"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/20197\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=20197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=20197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=20197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}