{"id":18666,"date":"2018-03-28T21:00:29","date_gmt":"2018-03-28T20:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=18666"},"modified":"2018-03-28T21:00:29","modified_gmt":"2018-03-28T20:00:29","slug":"criancas-sem-empatia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=18666","title":{"rendered":"Crian\u00e7as sem empatia"},"content":{"rendered":"<h2><strong>Crian\u00e7as sem empatia<\/strong><\/h2>\n<p>Desde que me tornei m\u00e3e h\u00e1 uma s\u00e9rie de coisas que mexem muito comigo mas tudo o que diga respeito a crian\u00e7as e maus tratos deixa-me de rastos.<\/p>\n<p>Os maus tratos de que hoje falo n\u00e3o s\u00e3o de pai para filho, mas sim de filho para pai. Este tipo de comportamento existe e parece longe de estar erradicado.<\/p>\n<p>H\u00e1, como em todo o tipo de rela\u00e7\u00f5es, v\u00e1rios g\u00e9neros de maus tratos, v\u00e1rios n\u00edveis, nenhum por\u00e9m que n\u00e3o seja grave a meu ver.<\/p>\n<p>Ontem estava no metro e entraram comigo uma senhora com os seus 40 anos e a filha adolescente, talvez de uns treze. Tinham muito bom aspecto (digo isto j\u00e1 porque h\u00e1 um preconceito, que muitas vezes tamb\u00e9m cruza a minha sensibilidade, em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de pessoas que est\u00e1 envolvida em algumas situa\u00e7\u00f5es). Por defeito profissional estou atenta ao comportamento de quem me rodeia, gosto de \u201cabsorver\u201d a forma como as pessoas lidam umas com as outras, o modo como o amor ou a rejei\u00e7\u00e3o se manifestam nas v\u00e1rias idades, entre pessoas diferentes, etc. Levantando os olhos do meu livro reparei que tanto a m\u00e3e como a filha estavam ambas focadas nos telem\u00f3veis. A m\u00e3e estava nas redes sociais, a filha a jogar. A primeira \u201cchapada\u201d que recebi aconteceu quando a filha, possivelmente ao falhar o objectivo do jogo, lan\u00e7ou um improp\u00e9rio cabeludo, daqueles palavr\u00f5es que nunca a minha m\u00e3e disse ou me ouviria dizer nem que passasse uma eternidade. O meu olhar voltou-se para a m\u00e3e, que agiu como se nada se tivesse passado. Pensei que n\u00e3o tivesse ouvido. Fiquei a matutar e quando ambas se levantaram para sair na sua esta\u00e7\u00e3o algo me escapou, algo que a rapariga disse \u00e0 m\u00e3e e a que esta n\u00e3o respondeu. Recebeu como senten\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211;<em>\u201cPara al\u00e9m de atrasada \u00e9s surda\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Estremeci. Fiquei paralisada no meu lugar, incr\u00e9dula, \u00e0 espera da reac\u00e7\u00e3o da m\u00e3e e n\u00e3o minto quando digo que esperava uma resposta do mesmo calibre. Mas n\u00e3o foi isso que aconteceu. A m\u00e3e demorou pelo menos trinta segundos a responder, sendo que a filha voltou a repetir a mesma frase, j\u00e1 numa impaci\u00eancia tal que parecia que queria que toda a gente \u00e0 volta dela concordasse. Por fim a m\u00e3e l\u00e1 disse, num tom suave e discreto, sem qualquer sinal de estar a controlar os nervos:<\/p>\n<p>-\u201c<em> V\u00ea l\u00e1 se controlas a m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 bem? Ainda s\u00e3o cinco da tarde<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>E sa\u00edram.<\/p>\n<p>Caramba, aquela mi\u00fada tratou a m\u00e3e abaixo de c\u00e3o e ainda lhe passaram a m\u00e3o pelo p\u00ealo. Duas coisas me ocuparam de imediato o pensamento: quando \u00e9 que a vida daquelas duas pessoas tinha chegado ao ponto em que era ok a filha chamar nomes \u00e0 m\u00e3e? E teria havido um comportamento semelhante em que a filha se espelhasse? Se tivesse de apostar diria que sim, que a postura da m\u00e3e \u00e9 passiva, que eventualmente nem nunca lhe chamou nomes ou a maltratou mas aposto que houve outra algu\u00e9m (o pai, quem sabe) que ter\u00e1 passado a vida toda daquela mi\u00fada a rebaixar a m\u00e3e e a dirigir-lhe ofensas sempre que n\u00e3o correspondia ao que esperavam dela. Ou talvez nem tivesse sido assim, quem sabe? \u00c0s vezes as rela\u00e7\u00f5es de abuso come\u00e7am por a v\u00edtima mostrar uma fragilidade e o abusador aproveitar para a controlar. Mas aqui falamos de uma mi\u00fada e mexeu comigo.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o estes os filhos que quando os pais, j\u00e1 idosos, v\u00e3o parar aos hospitais os abandonam \u00e0 sua merc\u00ea? S\u00e3o estes os filhos que roubam os pais? S\u00e3o estes os filhos que maltratam fisicamente os pais, como tantas vezes vemos nas not\u00edcias, seja por viol\u00eancia f\u00edsica, seja por os deixarem \u00e0 fome?<\/strong><\/p>\n<p>Como \u00e9 que uma pessoa que n\u00e3o respeita a m\u00e3e (ou o pai, ou ambos) pode respeitar seja quem for na sua vida adulta? E falo de rela\u00e7\u00f5es em que os pais merecem respeito, que tamb\u00e9m existem pais que de pais s\u00f3 det\u00e9m o t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Custa-me muito pensar nas mem\u00f3rias que est\u00e3o a ser criadas, na falta de empatia que existe, porque aquela mi\u00fada n\u00e3o hesitou em magoar a m\u00e3e nem se preocupou sequer com o facto de estarem diante de outras pessoas. Quem faz isto de que mais ser\u00e1 capaz?<\/p>\n<p>H\u00e1 todo um tipo de viv\u00eancias de que estou muito distante, felizmente. Cresci num lar em que o respeito \u00e9 pedra basilar, em que h\u00e1 amor, compreens\u00e3o e sempre houve limites. \u00c9 esse o mundo que estou a tentar recriar para a minha filha mas sei que ir\u00e1 deparar-se com pessoas com um background completamente diferente.<\/p>\n<p>Pergunto-me se mi\u00fados que t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o abusiva com os pais s\u00e3o passivos de serem salvos mais tarde ou mais cedo, seja por for\u00e7a do amor, da conviv\u00eancia, de boas influ\u00eancias.<\/p>\n<p>Quero acreditar que sim.<\/p>\n<p>Gosto de acreditar que o bem triunfa sempre. E que aquela m\u00e3e, um dia, ser\u00e1 amada como merece.<\/p>\n<p>imagem@weheartit<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crian\u00e7as sem empatia Desde que me tornei m\u00e3e h\u00e1 uma s\u00e9rie de coisas que mexem muito comigo mas tudo o que diga respeito a crian\u00e7as e maus tratos deixa-me de rastos. 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