{"id":18651,"date":"2018-03-21T21:17:41","date_gmt":"2018-03-21T21:17:41","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=18651"},"modified":"2018-03-21T21:17:41","modified_gmt":"2018-03-21T21:17:41","slug":"ha-dias-em-que-nem-os-sorrisos-dos-filhos-nos-salvam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=18651","title":{"rendered":"H\u00e1 dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam"},"content":{"rendered":"<h3><strong>H\u00e1 dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.<\/strong><\/h3>\n<p>Tecnicamente estou acordada desde as duas da madrugada.<\/p>\n<p>O mais novo, como quase sempre, acordou a chorar e, como quase sempre, acordou a irm\u00e3 e, como quase sempre, foram os dois para a nossa cama. O circo estava montado.<\/p>\n<p>Ele vira-se de cabe\u00e7a para baixo, destapa-se, deita-se em cima do pai, puxa os cabelos \u00e0 irm\u00e3, n\u00f3s vamos acordando e adormecendo, sem coragem para ir vendo que horas s\u00e3o. Resmungamos, ralhamos, batemos com a cabe\u00e7a na parede. Ela tosse, eu levanto-me e dou-lhe xarope, ela continua a tossir, o pai levanta-se e volta a dar-lhe xarope. Estamos a ficar malucos. A tosse acalmou. Passo a noite toda destapada, desisti de lutar por um peda\u00e7o do edred\u00e3o.<\/p>\n<p>O despertador toca \u00e0s seis horas e quinze minutos, desligo-o e deixo-me ficar at\u00e9 sentir os p\u00e9s do meu marido a expulsar-me da cama. Tenho frio. Levanto-me, meto o caf\u00e9 a fazer, enfio-me no banho, visto-me, o meu marido faz o pequeno-almo\u00e7o, tomamos o pequeno-almo\u00e7o sentados no sof\u00e1, enquanto vemos as not\u00edcias. Os pequenos dem\u00f3nios ainda dormem. E eu com uma dor de cabe\u00e7a a querer rebentar. J\u00e1 passa das sete horas, cara\u00e7as, est\u00e1 na hora de irmos acorda-los.<\/p>\n<p>Damos o leite, vestimos, lavamos a cara e os dentes, o pai penteia, eu fa\u00e7o o tot\u00f3, tudo a passo de caracol. <em>\u201cM\u00e3e, o que \u00e9 que eu levo para comer na escola?<\/em>\u201d, vestimos os casacos, metemos os gorros na cabe\u00e7a, \u201c<em>Est\u00e1 de noite, m\u00e3e?\u201d, \u201cN\u00e3o est\u00e1 de noite, \u00e9 o nevoeiro.\u201d<\/em> D\u00f3i-me cada vez mais a cabe\u00e7a. Quando nos sentamos no carro e respiramos fundo j\u00e1 s\u00e3o oito e dez.<\/p>\n<p>\u201c<em>Adeus m\u00e3e, bom trabalho<\/em>!\u201d, \u201cBoa escola, meus amores.\u201d Beijos e sorrisos, at\u00e9 parece que dormiram a noite toda.<\/p>\n<p>Chego ao terminal dos barcos e apetece-me cortar os pulsos. Centenas de pessoas do lado de fora dos torniquetes, \u00e9 o nevoeiro, s\u00e3o os barcos suprimidos, \u00e9 a porra de um gajo bipolar que manda naquela porcaria toda. Junto-me \u00e0 multid\u00e3o. Tomo um comprimido para a dor de cabe\u00e7a. H\u00e1 um homem que fuma no meio das pessoas, filho da m\u00e3e. Tomo mais um comprimido para a dor de cabe\u00e7a, que o dia ainda n\u00e3o come\u00e7ou. Os torniquetes abrem, as pessoas empurram-se, pisam-se, ningu\u00e9m quer ficar de fora. Os carneiros, como dizia algu\u00e9m um dia destes: \u201c<em>Somos todos uns carneiros<\/em>\u201d. Que se lixe. Junto-me \u00e0 carneirada, n\u00e3o me posso atrasar mais.<\/p>\n<p>O barco atraca em Lisboa e vou a correr para o metro. Faltam nove minutos para o pr\u00f3ximo metro, em hora de ponta nove minutos s\u00e3o uma eternidade, outro bipolar a mandar nesta porcaria. Mudo da linha azul para a linha verde. \u00c9 a pior linha de todas, juro, as pessoas cheiram a areia de gato com uma semana misturado com \u00f3leo de fritar chamu\u00e7as. Consigo sentar-me e tenho \u00e0 minha frente dois homens sa\u00eddos do \u201c<em>Feios, Porcos e Maus<\/em>\u201d, n\u00e3o sei a que cheiram, mas envolve vinho e apetece-me vomitar, levanto-me e vou em p\u00e9, com o len\u00e7o a tapar-me o nariz. Respiro o menos poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Chego ao destino, lembro-me para onde vou e apetece-me fazer todo o caminho de volta para casa. Arrasto-me, pico o ponto, sento-me ao computador e finjo que vou fazer alguma coisa que gosto.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam. Tecnicamente estou acordada desde as duas da madrugada. O mais novo, como quase sempre, acordou a chorar e, como quase sempre, acordou a irm\u00e3 e, como quase sempre, foram os dois para a nossa cama. O circo estava montado. 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