{"id":18509,"date":"2018-02-23T12:14:07","date_gmt":"2018-02-23T12:14:07","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=18509"},"modified":"2018-02-23T12:14:07","modified_gmt":"2018-02-23T12:14:07","slug":"detestei-amamentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=18509","title":{"rendered":"Detestei amamentar"},"content":{"rendered":"<p>Detestei amamentar. Come\u00e7o assim o texto para n\u00e3o o lerem ao engano.<\/p>\n<p>Nunca pensei que a amamenta\u00e7\u00e3o fosse um momento m\u00e1gico em que ouvimos m\u00fasica celestial, enquanto as pequenas crias sugam o leite das nossas mamas e que o v\u00ednculo entre m\u00e3es e filhos s\u00f3 se desse assim, ou que fosse imprescind\u00edvel para as defesas dos nossos filhos, ou que todas as coisas que nos tentam enfiar na cabe\u00e7a fossem a preto e branco, mas imbu\u00edda do esp\u00edrito de sacrif\u00edcio que toda a m\u00e3e deve ter, amamentei (ou tentei amamentar) os meus filhos.<\/p>\n<p>Tive duas experi\u00eancias diferentes e detestei cada uma delas.<\/p>\n<p>Com a Mariana foi tudo dif\u00edcil, ela nasceu antes das 38 semanas, era min\u00fascula e fazia da mama uma chucha. Eu n\u00e3o o percebi e os enfermeiros que chamei trezentas vezes, enquanto estive na maternidade tamb\u00e9m n\u00e3o. O primeiro que me viu quando fomos para o quarto parecia uma crian\u00e7a maravilhada com um brinquedo novo, juro, mexeu-me nas mamas, espremeu os mamilos, eu tinha imenso leite disse-me radiante. Fiquei estupidamente contagiada com tanto entusiamo, s\u00f3 podia correr bem. N\u00e3o correu. A Mariana passava horas na mama e quando eu os chamava todos me diziam o mesmo, que eu tinha muito leite, para experimentar dar mama deitada para um lado, depois para o outro, depois com a cabe\u00e7a dela numa almofada, depois sentada no cadeir\u00e3o, depois em p\u00e9, depois a fazer o pino e nada. Ralharam comigo, exigiram-me paci\u00eancia. E eu tive. Eram eles que me davam as drogas para as dores e eu obedecia. Passava horas sentada num cadeir\u00e3o e a minha filha passava horas irritada a tentar mamar e n\u00e3o se ouvia m\u00fasica celestial em lado nenhum. Piorou no dia em que dev\u00edamos ter alta. A pediatra informou-me que ela tinha perdido muito peso e que estava desidratada. O mundo desabou na minha cabe\u00e7a. Vi-me inundada em culpa. A mi\u00fada s\u00f3 tem quatro dias e eu j\u00e1 estou a fazer tudo mal. Ainda na maternidade d\u00e1vamos Leite Adaptado para ela ganhar peso e insist\u00edamos na mama, mas a mama era o nosso momento de irrita\u00e7\u00e3o, de frustra\u00e7\u00e3o e de culpa. Continuava a n\u00e3o mamar e eu acabava por lhe enfiar um biber\u00e3o cheio de LA goela abaixo. Ela ficava feliz e eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Quando ela fez um m\u00eas desisti e passou exclusivamente a LA.<\/p>\n<p>Com o Tiago foi tudo f\u00e1cil. No recobro, assim que a enfermeira o meteu na minha mama, eu senti sem qualquer d\u00favida que ele estava a mamar. Ali\u00e1s, aposto que se eu deixasse ele ainda hoje mamava. O meu filho nasceu de 41 semanas e tr\u00eas dias, era grande, e eu tal como da primeira vez, tinha muito leite e o meu pequeno bezerrito mamava de duas em duas horas. Era mamar, arrotar, mudar a fralda, mamar, arrotar, mudar a fralda, mas apesar da aparente facilidade, continuei a detestar com todas as minhas for\u00e7as. Amamentar \u00e9 muito doloroso, eu sei que depois melhora um pouco, mas enquanto n\u00e3o melhora d\u00f3i, os mamilos est\u00e3o gretados, sens\u00edveis, as mamas est\u00e3o sempre inchadas. Eu tinha leite para alimentar uma ninhada de gatos. N\u00e3o havia discos de amamenta\u00e7\u00e3o que aguentassem. Acordava sempre com o pijama molhado, cheguei a tomar banho durante a noite, nos intervalos em que ele me largava as mamas. Que era pouco tempo, porque acordava quatro e cinco vezes para mamar durante a noite. Era desconfort\u00e1vel. Sempre detestei amamentar fora de casa, sentia-me sem privacidade. E era uma pris\u00e3o. A primeira vez que tirei leite com a bomba para poder sair, fui com o meu marido a um concerto, passei o concerto com as mamas a rebentar e quando cheguei a casa estavam cheias de caro\u00e7os e eu chorei de dor. Eu detestava, mas o mi\u00fado gostava e crescia e eu aceitei as condi\u00e7\u00f5es. A \u00fanica vantagem era ser gr\u00e1tis.<\/p>\n<p>Quando ele fez cinco meses precisei de come\u00e7ar a tomar uma medica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pensei duas vezes, comecei imediatamente a dar LA em exclusivo. Como castigo, o meu filho n\u00e3o <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/porque-nao-dorme-o-meu-filho\/\">me deixa dormir bem at\u00e9 hoje<\/a>.<\/p>\n<p>Das duas vezes tomei a decis\u00e3o de deixar de amamentar de forma consciente e sem culpa, sabendo que n\u00e3o estava a prejudicar os meus filhos. A amamenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 sobrevalorizada. Amamentar \u00e9 alimentar e n\u00e3o tem que ser necessariamente com as nossas mamas. Este \u00e9 um tema que gera muita discuss\u00e3o, n\u00e3o raras vezes ac\u00e9fala, acusadora e fundamentalista. Existe muita press\u00e3o dos m\u00e9dicos, dos enfermeiros, da fam\u00edlia e dos amigos, para que a m\u00e3e amamente, chega a ser terrorismo psicol\u00f3gico e pode ser demolidor para quem n\u00e3o souber lidar com isso. Como toda a gente sabe, ser m\u00e3e \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o cheia de sacrif\u00edcio e se tu n\u00e3o sacrificas as tuas mamas pelos teus filhos, n\u00e3o podes ser boa m\u00e3e.<\/p>\n<p>Detestei amamentar e esta \u00e9 a minha experi\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 um manifesto contra a<a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/saude-e-bem-estar\/amamentacao-o-obvio-e-o-menos-obvio\/\"> amamenta\u00e7\u00e3o,<\/a> o que desejo \u00e9 que cada m\u00e3e possa ter a sua experi\u00eancia, fazendo as suas escolhas, sem culpa, sabendo que n\u00e3o \u00e9 a amamenta\u00e7\u00e3o que a define enquanto m\u00e3e.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Detestei amamentar. Come\u00e7o assim o texto para n\u00e3o o lerem ao engano. 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