{"id":18357,"date":"2018-02-01T21:55:14","date_gmt":"2018-02-01T21:55:14","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=18357"},"modified":"2018-02-01T21:55:14","modified_gmt":"2018-02-01T21:55:14","slug":"como-falar-sobre-o-cancro-as-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=18357","title":{"rendered":"Como falar sobre o cancro \u00e0s crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<h3>Como falar sobre o cancro \u00e0s crian\u00e7as<\/h3>\n<p>A doen\u00e7a chega muitas vezes sem avisar e a oncol\u00f3gica n\u00e3o escapa \u00e0 regra. Instala-se matreira, \u00e0 socapa e muitas vezes \u00e9 detetada j\u00e1 num est\u00e1gio avan\u00e7ado.<\/p>\n<p>E se para um adulto o diagn\u00f3stico chega acompanhado dum enorme pesar, rodeado de porqu\u00eas e emo\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de compreender, explicar \u00e0 crian\u00e7a esta doen\u00e7a \u00e9 uma miss\u00e3o extremamente dif\u00edcil para qualquer pai ou m\u00e3e, por v\u00e1rias e compreensivas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Numa fase inicial ap\u00f3s o diagn\u00f3stico \u00e9 comum surgirem as grandes preocupa\u00e7\u00f5es: \u201cser\u00e1 que tem cura?\u201d \u201ccomo vai ser com os meus filhos ?\u201d ser\u00e3o talvez as quest\u00f5es que mais passam pela cabe\u00e7a de quem recebe o diagn\u00f3stico, associadas sentimentos de medo e de profunda tristeza.<\/p>\n<p>De forma protetora a pessoa pode ent\u00e3o fazer alguma dissocia\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, distanciando-se do problema. \u00c9 como se estivesse a ver um filme, algo que n\u00e3o \u00e9 real e em que n\u00e3o \u00e9 o(a) protagonista. Este evitamento da doen\u00e7a pode perdurar mais ou menos tempo, mas a confronta\u00e7\u00e3o com a necessidade de tratamento ou de interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica vem deitar por terra este provis\u00f3rio faz de conta.<\/p>\n<p>E se at\u00e9 ent\u00e3o por vezes se esconde das crian\u00e7as a doen\u00e7a, \u00e9 aqui que se revela inevit\u00e1vel comunica-la e falar com os filhos. V\u00eam as noites em branco ou mal dormidas a ensaiar mentalmente o que se vai dizer.<\/p>\n<p>O primeiro cuidado que qualquer pai ou m\u00e3e deve ter antes de falar com os seus filhos sobre a doen\u00e7a \u00e9 informar-se previamente, recolhendo dados de forma real\u00edstica e cient\u00edfica, mas tendo presente que o que \u00e9 verdade em ci\u00eancia hoje pode n\u00e3o ser amanh\u00e3. Quer isto dizer que, um diagn\u00f3stico reservado pode vir a n\u00e3o ter o desfecho inicialmente previsto e nos moldes teoricamente esperados. Fale claramente com o seu m\u00e9dico, informe-se sobre o delineamento do tratamento, o que \u00e9 suposto acontecer e esclare\u00e7a o mais poss\u00edvel todas as suas d\u00favidas.<\/p>\n<p>Quando sentir que est\u00e1 preparado, explique ent\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as \u201ctraduzindo\u201d os conceitos e ajustando a linguagem e a terminologia usada \u00e0 idade e \u00e0 capacidade de entendimento. E se n\u00e3o existe uma receita padronizada sobre a melhor forma de explicar a doen\u00e7a oncol\u00f3gica para cada faixa et\u00e1ria, \u00e9 fundamental que o que dizemos e como o dizemos seja compreendido pela crian\u00e7a. Dito de outra forma, n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio inundar a crian\u00e7a com informa\u00e7\u00e3o excessiva e que ela n\u00e3o consegue processar, mas h\u00e1 que garantir que n\u00e3o ficaram d\u00favidas, fazendo-o com a maior tranquilidade poss\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 melhor alimento do medo que a incerteza.<\/p>\n<p>\u00c9 igualmente importante evitar o cont\u00e1gio emocional. Se o progenitor estiver assustado ou demasiado ativado emocionalmente isso ir\u00e1 ser passado \u00e0 crian\u00e7a. \u00c9 certo qua a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas \u00e9 importante manter a esperan\u00e7a e a f\u00e9 poss\u00edvel num desfecho menos complicado.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o do est\u00e1gio de desenvolvimento da crian\u00e7a assim o di\u00e1logo deve ser ajustado. At\u00e9 cerca dos 3 ou 4 anos a crian\u00e7a n\u00e3o consegue conceptualizar esquemas complicados sobre o que \u00e9 uma doen\u00e7a. Explicar que tem um \u201cdoi-doi\u201d ou que a m\u00e3e ou o pai tem um \u201cdoi-doi\u201d e que \u00e9 preciso tomar rem\u00e9dio para ajudar a ir embora ser\u00e1 a abordagem mais adequada. Mais do que grandes explica\u00e7\u00f5es e por muito aterradora que a doen\u00e7a se imponha, \u00e9 importante que a crian\u00e7a se sinta segura e muito amada, como, ali\u00e1s, em qualquer idade.<\/p>\n<p>Para crian\u00e7as um pouco mais velhas a explica\u00e7\u00e3o pode ser um pouco mais detalhada, ainda que com recurso a conceitos simples. Podem ser descritos alguns problemas e sintomas associados \u00e0 doen\u00e7a, como por exemplo, a necessidade de ir com uma determinada frequ\u00eancia ao hospital para tratar a doen\u00e7a, a necessidade de repouso, as indisposi\u00e7\u00f5es, o desconforto. Um dos pontos que mais impacto pode ter, pelas consequ\u00eancias no visual da pessoa, \u00e9 a perda de cabelo. Permita-se encarar com a leveza poss\u00edvel este acontecimento e use a sua criatividade para \u201cdar a volta\u201d \u00e1 situa\u00e7\u00e3o. As explica\u00e7\u00f5es podem ser complementadas com v\u00eddeos ou com literatura infantil. Atualmente j\u00e1 existe algum material de qualidade e que \u00e9 facilitador neste processo.<\/p>\n<p>A partir dos 7 anos a crian\u00e7a j\u00e1 come\u00e7a a conseguir entender os conceitos mais concretos associados \u00e0 doen\u00e7a. Por outro lado come\u00e7a a desenvolver caracter\u00edsticas emocionais e relacionais mais s\u00f3lidas. Pode, ent\u00e3o, ser mais explicativo mas prepare-se, tamb\u00e9m, para mais perguntas e para o soltar das emo\u00e7\u00f5es. Esta fase \u00e9 talvez a mais dif\u00edcil para as crian\u00e7as, em termos de compreens\u00e3o, quer se trate da sua pr\u00f3pria doen\u00e7a ou de um familiar.<\/p>\n<p>Em tempos, numa festa do dia da fam\u00edlia de uma escola, reparei numa crian\u00e7a que chorava. Alguns colegas estavam junto a ela, dando-lhe carinho e ajudando da forma que sabiam e conseguiam. Dirigi-me at\u00e9 ela e na medida em que me permitiu aproximar abracei-a e procurei perceber a raz\u00e3o de estar a chorar. No meio dos solu\u00e7os, l\u00e1 explicou que estava triste porque as m\u00e3es dos outros meninos estavam l\u00e1 e a m\u00e3e dela n\u00e3o porque estava doente. Fal\u00e1mos um pouco sobre a doen\u00e7a e expliquei-lhe que se ela quisesse m\u00e3e poderia estar sempre com ela, pois o amor da m\u00e3e estava no seu cora\u00e7\u00e3o. Sim, a presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 f\u00edsica e aquela crian\u00e7a percebeu que apesar de a m\u00e3e n\u00e3o estar ali, ela poderia sentir a sua presen\u00e7a e o seu amor quando pensava nela com carinho.<\/p>\n<p>Na adolesc\u00eancia o problema pode ser explicado com mais detalhes t\u00e9cnicos e de forma menos fantasiosa. Nesta fase da vida o entendimento da doen\u00e7a oncol\u00f3gica j\u00e1 \u00e9 relativamente pr\u00f3xima da compreens\u00e3o e da l\u00f3gica do adulto. Pode at\u00e9 resultar numa maior aproxima\u00e7\u00e3o e uni\u00e3o entre os v\u00e1rios elementos da fam\u00edlia. \u00c9 comum os jovens passarem a estar mais presentes e a valorizar mais os momentos passados em conjunto.<\/p>\n<p>Tenha presente que, atualmente, a informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 acess\u00edvel \u00e1 dist\u00e2ncia de um clique, mas que nem sempre \u00e9 a mais adequada ou com a qualidade desej\u00e1vel. Por isso n\u00e3o omita o essencial e o fundamental dentro das possibilidades de compreens\u00e3o da crian\u00e7a. Tenha aten\u00e7\u00e3o \u00e0s conversas paralelas ou com outros adultos na presen\u00e7a das crian\u00e7as. As crian\u00e7as, mesmo a brincar, t\u00eam as \u201catenas sincronizadas\u201d na conversa dos adultos. Evite que sinta que se passa algo que lhe est\u00e3o a ocultar.<\/p>\n<p>E permita-lhe que questione e que expresse as emo\u00e7\u00f5es. Fazer de conta que n\u00e3o se passa nada de grave \u00e9, no m\u00ednimo, amb\u00edguo e confuso. D\u00ea \u201ccolo\u201d e receba o \u201ccolo\u201d que, tamb\u00e9m, precisa. E se poss\u00edvel, permita-se sorrir e fazer sorrir. Uma atitude facilitadora pode fazer a diferen\u00e7a na aceita\u00e7\u00e3o consciente da doen\u00e7a por toda a fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">imagem@stopcancerportugal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como falar sobre o cancro \u00e0s crian\u00e7as A doen\u00e7a chega muitas vezes sem avisar e a oncol\u00f3gica n\u00e3o escapa \u00e0 regra. Instala-se matreira, \u00e0 socapa e muitas vezes \u00e9 detetada j\u00e1 num est\u00e1gio avan\u00e7ado. 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