{"id":18075,"date":"2017-11-24T20:45:45","date_gmt":"2017-11-24T20:45:45","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=18075"},"modified":"2017-11-24T20:45:45","modified_gmt":"2017-11-24T20:45:45","slug":"ainda-as-praxes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=18075","title":{"rendered":"Ainda as praxes"},"content":{"rendered":"<p>Estamos em novembro e num dos jardins mais conhecidos de Lisboa h\u00e1 ainda jovens universit\u00e1rios de capa e m\u00e3o em riste a ordenar que outros, de penicos na cabe\u00e7a, mergulhem no lago.<\/p>\n<p>Estamos em 2017 e n\u00e3o consigo que a frase que acabei de escrever fa\u00e7a sentido.<\/p>\n<p>Percebo que para muitos as praxes sejam um ritual de passagem, uma passagem de testemunho, a inicia\u00e7\u00e3o num percurso, uma b\u00ean\u00e7\u00e3o que garante que todos se conhecem, todos passaram pelo mesmo.<\/p>\n<p>Percebo isso, mas acho que n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico caminho.<\/p>\n<p>A minha faculdade era anti-praxes e levava esta m\u00e1xima muito a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>No primeiro dia foi-nos dito que havia actividades de recep\u00e7\u00e3o ao caloiro mas ningu\u00e9m era obrigado a ir e n\u00e3o haveria \u201crepres\u00e1lias\u201d para quem n\u00e3o fossem. E isso fez com quem muitos participassem, como eu, para ver de que se tratava.<\/p>\n<p>Fomos at\u00e9 \u00e0 redac\u00e7\u00e3o de um conhecido jornal e, da rua, cant\u00e1mos a pedir que nos dessem emprego (porque \u00e9ramos do curso de ci\u00eancias da comunica\u00e7\u00e3o). Dali seguimos para um jardim onde fomos emparelhados com os nossos padrinhos para os pr\u00f3ximos 4 anos. Foram dois dias em que os la\u00e7os foram estabelecidos, os contactos feitos. Depois da\u00ed quem queria sair sa\u00eda, quem n\u00e3o queria sair com os padrinhos n\u00e3o sa\u00eda, mas n\u00e3o and\u00e1mos meio ano a passar vergonhas na rua.<\/p>\n<p>A minha filha j\u00e1 viu jovens aos latos, farinha e ovos na cabe\u00e7a, a fazer o pino numa corrida que obviamente nunca mais vai terminar e perguntou-me do que se tratava. E como explicar uma coisa que para mim n\u00e3o faz qualquer sentido? Que aqueles enfermeiros tenham de andar a tresandar a ovos podres para se sentirem integrados n\u00e3o far\u00e1 deles melhores profissionais eu sei, mas como explicar a uma crian\u00e7a de tr\u00eas anos? Fui pela resposta simples: est\u00e3o a fazer o que acham que t\u00eam de fazer para se sentirem integrados. Quando me arregalou os olhos e perguntou \u201co qu\u00ea, m\u00e3e?\u201d, reformulei e disse que estavam a brincar. Deixei a conversa das praxes para outras n\u00fapcias.<\/p>\n<p>Porque na realidade me custa que os mi\u00fados de dezoito anos, que acabaram de entrar na maioridade, a quem dizemos que s\u00e3o capazes de fazer as suas escolhas, que s\u00e3o respons\u00e1veis pelo caminho que escolhem sejam acolhidos e tratados como se beb\u00e9s grandes se tratassem. Muitos deles come\u00e7am a sua viagem universit\u00e1ria nas praxes, fazem coisas com as quais n\u00e3o se sentem confort\u00e1veis, bebem mais do que seria desej\u00e1vel e s\u00f3 come\u00e7am a focar-se no curso nos rimeiros exames, tarde demais.<\/p>\n<p>Sim, eu sei que para muitas pessoas as praxes s\u00e3o mem\u00f3rias de tempos divertidos, importantes no estabelecimento de la\u00e7os. Sim, eu sei que muitos que praxaram nunca puseram ningu\u00e9m em situa\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis. Sim, eu sei que muitos praxados n\u00e3o beberam mais por isso, nem se desleixaram das aulas como consequ\u00eancia. Estou a generalizar porque sei que, no geral, em 2017 n\u00e3o faz sentido que as praxes existam como as vejo na rua.<\/p>\n<p>Trata-se de humilhar, de rebaixar.<\/p>\n<p>\u201cCaloiro n\u00e3o tem fome\u201d \u00e9 uma frase que ouvi demasiadas vezes.<\/p>\n<p>Nem sequer vou falar da trag\u00e9dia que aconteceu h\u00e1 alguns anos, acho que n\u00e3o vale a pena \u2013 porque a\u00ed havia um extremismo para o qual n\u00e3o encontro ainda palavras.<\/p>\n<p>O que acho essencial \u00e9 dar as ferramentas para que os nosso filhos saibam que n\u00e3o t\u00eam de, aos dezoito anos, quando a sua personalidade j\u00e1 est\u00e1 num pico de forma\u00e7\u00e3o, fazer o que os outros lhes dizem com medo de n\u00e3o ser aceites.<\/p>\n<p>E temos de dar as ferramentas aos nossos filhos para que se se encontrarem do outro lado sejam capazes de ser razo\u00e1veis, gentis.<\/p>\n<p>Aceito as praxes inclusivas, se quem delas fizer parte estiver l\u00e1 voluntariamente (em consci\u00eancia e sem medo!).<\/p>\n<p>Porque o percurso universit\u00e1rio devia ter muito pouco a ver com quem consegue humilhar mais e quem consegue manter o sorriso depois de uma grande humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>imagem@arquivo da TVI24<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos em novembro e num dos jardins mais conhecidos de Lisboa h\u00e1 ainda jovens universit\u00e1rios de capa e m\u00e3o em riste a ordenar que outros, de penicos na cabe\u00e7a, mergulhem no lago. 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