{"id":17531,"date":"2017-07-24T13:00:39","date_gmt":"2017-07-24T12:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=17531"},"modified":"2017-07-24T13:00:39","modified_gmt":"2017-07-24T12:00:39","slug":"estou-a-falar-com-a-minha-filha-e-favor-nao-interromper","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=17531","title":{"rendered":"Estou a falar com a minha filha, \u00e9 favor n\u00e3o interromper!"},"content":{"rendered":"<h3>Estou a falar com a minha filha, \u00e9 favor n\u00e3o interromper!<\/h3>\n<p>As crian\u00e7as s\u00e3o cativantes. H\u00e1 crian\u00e7as imposs\u00edveis de \u201cresistir\u201d, com as quais temos vontade de interagir de imediato, seja na sala de espera do pediatra, seja no jardim ao fim do dia.<\/p>\n<p>Mas as crian\u00e7as s\u00e3o pessoas, n\u00e3o nos esque\u00e7amos. T\u00eam direito ao seu espa\u00e7o, \u00e0 sua privacidade. E por que \u00e9 que falo disto? Porque h\u00e1 sempre algu\u00e9m que se sente no direito de mexer no cabelo dos nosso filhos, de fazer festinhas infind\u00e1veis sem perguntar se o pode fazer, de apertar as bochechas \u2013 e tudo isto quando ainda s\u00e3o beb\u00e9s de colo.<\/p>\n<p>Tenho uma amiga que quando estava gr\u00e1vida passava muito mal com o toque que as pessoas faziam quest\u00e3o de lhe impor. Ora, se uma pessoa est\u00e1 gr\u00e1vida, a barriga \u00e9 para ser acariciada por todos, certo? Errado! H\u00e1 mulheres que n\u00e3o gostam e t\u00eam direito a ser respeitadas. Eu aprendi a ir perguntando se posso fazer uma festinha, mas s\u00f3 o fa\u00e7o quando existe alguma proximidade entre a gr\u00e1vida e eu \u2013 mesmo sabendo que dificilmente a pessoa do outro lado diria \u201c<em>n\u00e3o, desculpa l\u00e1 mas n\u00e3o vais fazer festinhas nenhumas nesta minha enorme barriga\u201d<\/em>. Seja como for, pergunto. E a pessoa sente-se consultada, como se importasse. E importa, porque o corpo \u00e9 dela.<\/p>\n<p>Curiosamente, esta mesma amiga teve um beb\u00e9 lindo, ruivo de olhos azuis. Um verdadeiro chamariz. Na rua poucas pessoas n\u00e3o paravam para espreitar, falar, mexer. Ora, desculpem-me, mas isto do mexer na crian\u00e7a \u00e9 igual a mexer-se na barriga. Se n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3ximo, n\u00e3o toca. Se \u00e9 pr\u00f3ximo, tenha a sensibilidade de perceber se faz sentido, se \u00e9 oportuno.<\/p>\n<p>Porque daqui a dezasseis anos nenhuma destas pessoas vai ter a lata de chegar ao p\u00e9 do mi\u00fado no meio da rua e despentear-lhe o cabelo, dizendo que vai quebrar cora\u00e7\u00f5es e que tem c\u00e1 um olho mais lindo\u2026<\/p>\n<p>Se n\u00e3o o fazemos a adultos, porque o fazemos com as crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Hoje, ia no metro com a minha filha e tinha o telem\u00f3vel na m\u00e3o. Estava a guard\u00e1-lo na mala e ela viu-o. Pediu para segurar. N\u00e3o deixei. Para mim telem\u00f3vel n\u00e3o \u00e9 brinquedo e ela habitualmente n\u00e3o mexe nele. Ultimamente tenho cedido a deix\u00e1-la ver fotografias porque revive momentos que a marcaram, mas sempre comigo a supervisionar. N\u00e3o tenho jogos, nem nunca tive. Sim, sou esse tipo de m\u00e3e, que nunca deu o tablet \u00e0 filha nem o telem\u00f3vel para ela jogar. Mas adiante, ela ficou contrariada e come\u00e7ou a choramingar. Foi caminhando na plataforma, de m\u00e3o dada comigo, a dizer que queria o pai. Cem vezes seguidas, sabem como \u00e9. <em>\u201cQuero o pai, quero o meu pai, o pai, quero o meu pai\u201d.<\/em> E a minha toler\u00e2ncia \u00e9 grande mas sei que as pessoas \u00e0 volta n\u00e3o t\u00eam de ser danos colaterais destas \u201cbirras\u201d. Cheguei-me a um canto e baixei-me para estar ao n\u00edvel dos olhos dela enquanto ela continuava com aquela choraminguice e estava a come\u00e7ar a falar com ela para a acalmar quando vejo uma sombra laranja que se aproximou e come\u00e7ou \u201c<em>Ah, que grande birra! Isso \u00e9 tudo sono, queridinha? Dormiste pouco, foi?<\/em>\u201d. Interrompeu-me e n\u00e3o gostei. Nem olhei para a senhora, limitei-me a pegar na minha filha ao colo e avancei uns passos para poder, finalmente, falar com ela. Eis que vejo novamente a mancha laranja aproximar-se e desta vez a tocar no bra\u00e7o da minha filha para a ouvir com mais aten\u00e7\u00e3o. Mal come\u00e7ou a dizer \u201c<em>sabes uma coisa? Vem a\u00ed o homem mau e\u2026<\/em>\u201d. N\u00e3o a deixei acabar. Fiz algo que provavelmente deixaria os meus pais um pouco desiludidos, mas simplesmente afastei-me virando costas, sem olhar uma segunda vez para a senhora (nem olhei a primeira, n\u00e3o saberia sequer dizer que idade tinha, apenas que pela voz teria mais de cinquenta anos e, por isso, deveria saber o que estava a fazer). Fui, em marcha, a falar com a minha filha, que se acalmou e me explicou porque estava a chorar, consegui explicar-lhe por que motivo chorar quando \u00e9 contrariada n\u00e3o ajuda, apesar de perceber que ela n\u00e3o consegue ainda expressar-se muito bem. Fiz ali o meu trabalho de m\u00e3e, mas muito a custo.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude deixar de pensar, que a semelhan\u00e7a do rapaz ruivo, se fossem dois amigos de trinta anos a conversar, um deles mais abatido que o outro, a senhora JAMAIS se aproximaria e interferiria na conversa. E ainda bem.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho nada contra a interac\u00e7\u00e3o que naturalmente surge com as crian\u00e7as, n\u00e3o me interpretem mal, mas se n\u00e3o t\u00eam nada de positivo para acrescentar, ent\u00e3o dispenso, obrigada.<\/p>\n<p>Houve muitas situa\u00e7\u00f5es em que pessoas com boa energia se aproximaram e tentaram distrair a minha filha em algum momento, porque gostariam mais de a ver a sorrir do que a chorar. E essas ser\u00e3o sempre bem vindas.<\/p>\n<p>Tenho sempre isto no fundo da minha cabe\u00e7a quando interajo com os filhos dos outros. Saber diferenciar em que momento \u00e9 apropriado ficar \u00e0 dist\u00e2ncia e quando faz sentido fazer parte.<\/p>\n<p>Acredito que todos juntos somos melhores. E n\u00e3o podemos ser melhores quando estamos rodeados de julgamentos, cr\u00edticas e interven\u00e7\u00f5es despropositadas.<\/p>\n<p>E \u00e9 esse o exemplo que devemos passar aos nossos filhos.<\/p>\n<p>Para que o futuro seja bom, para que o mundo esteja cada vez mais povoado por pessoas que s\u00f3 multiplicam o bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">imagem@weheartit<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ff0000;\">LER TAMB\u00c9M&#8230;<\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/o-poder-do-dialogo\/\">O poder do di\u00e1logo<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/educacao\/saber-ouvir\/\">Saber ouvir<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ff0000;\">A import\u00e2ncia de saber ouvir os nossos filhos sem interromper<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou a falar com a minha filha, \u00e9 favor n\u00e3o interromper! 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