{"id":16598,"date":"2017-02-17T21:20:17","date_gmt":"2017-02-17T21:20:17","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=16598"},"modified":"2017-02-17T21:20:17","modified_gmt":"2017-02-17T21:20:17","slug":"as-criancas-nao-veem-a-sindrome-de-down-do-meu-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=16598","title":{"rendered":"As crian\u00e7as n\u00e3o v\u00eaem a s\u00edndrome de Down do meu filho. Os adulto sim"},"content":{"rendered":"<h2><strong>As crian\u00e7as n\u00e3o v\u00eaem a s\u00edndrome de Down do meu filho. Os adulto sim<\/strong><\/h2>\n<p>Se te perguntassem quem ou o que \u00e9 que te deu a maior li\u00e7\u00e3o de vida at\u00e9 hoje, a resposta seria, provavelmente, um professor que foi uma grande inspira\u00e7\u00e3o, os tempos de faculdade, o ano que passaste a viajar, um melhor amigo, um adulto influente, um familiar muito querido ou os teus av\u00f3s. Todas estas pessoas e experi\u00eancias com certeza influenciaram a minha vis\u00e3o do mundo e, sem sombra de d\u00favidas, moldaram a pessoa em quem me tornei hoje.<\/p>\n<p>Mas a maior aprendizagem na minha vida aconteceu nos \u00faltimos sete anos. O nascimento de meu primeiro filho, com um diagn\u00f3stico de S\u00edndrome de Down, abriu-me completamente os horizontes.<\/p>\n<p>Com esta experi\u00eancia aprendi muito &#8211; sobre mim e os outros, sobre prioridades e igualdade. Mas foi o pr\u00f3prio Seb e as crian\u00e7as \u00e0 sua volta que mais me ensinaram sobre a vida.<\/p>\n<p>Tenho lembran\u00e7as tristes de quando fui informada de que meu filho tinha S\u00edndrome de Down, tinha ele um dia de vida. Fiquei arrasada. A minha cabe\u00e7a foi invadida pelo medo do que o futuro nos reservava e imaginei uma vida de exclus\u00e3o e impot\u00eancia, de isolamento, com ele a ser constantemente alvo de olhares e a sentir-se &#8220;diferente&#8221;.<\/p>\n<p>Por um tempo acreditei que aquela dor nunca iria acabar. Naquele momento, o meu beb\u00e9 n\u00e3o tinha apenas S\u00edndrome de Down, ele era a S\u00edndrome de Down. Eu associei-o a uma s\u00e9rie de estere\u00f3tipos e n\u00e3o consegui ver que, na verdade, ele era um beb\u00e9, e o meu beb\u00e9. Seb.<\/p>\n<p>Aos poucos comecei a ficar mais tranquila \u00e0 medida que me apaixonei pelo meu beb\u00e9. A cada dia que passava ele mostrava-me algo novo sobre si mesmo. Ele passou de um lindo beb\u00e9 para uma crian\u00e7a ador\u00e1vel, ainda que \u00e0s vezes desafiador &#8211; e depois tornou-se um rapaz &#8211; igualmente ador\u00e1vel (e igualmente desafiador).<\/p>\n<p>Hoje em dia adora futebol e andar de skate, adora gelados e batatas fritas, mas odeia lavar o cabelo e ir para a cama. Aprendeu a ler e a escrever, ama ir ao cinema e brincar com seus amigos. A nossa vida em conjunto n\u00e3o poderia estar mais distante das perspectivas sombrias que eu tinha imaginado.<\/p>\n<p>Mas infelizmente deparo-me, frequentemente, com os preconceitos de adultos bem intencionados. As pessoas dizem-me que &#8220;crian\u00e7as como Seb&#8221; s\u00e3o amorosas, generosas ou dizem que o Seb tem \u201caquilo\u201d mas \u00e9 muito leve. E, se digo a algu\u00e9m pela primeira vez que tenho um filho com S\u00edndrome de Down, a rea\u00e7\u00e3o mais comum \u00e9 essa pessoa dizer &#8220;Ah!&#8221; com um desconforto palp\u00e1vel e, mais do que uma vez, seguido por &#8220;que pena&#8221;.<\/p>\n<p>Mas com as crian\u00e7as \u00e9 diferente. H\u00e1 uma inoc\u00eancia maravilhosa no olhar infantil. Elas v\u00eaem a pessoa, n\u00e3o a s\u00edndrome.<\/p>\n<p>Seb frequenta uma escola comum. As crian\u00e7as da escola n\u00e3o sabem que ele tem um &#8220;r\u00f3tulo&#8221;. N\u00e3o t\u00eam ideias pr\u00e9-concebidas do que ele pode fazer e o que deveria fazer. Ele \u00e9 apenas o Seb.<\/p>\n<p>Se pedirmos para o descreverem, os amigos dizem que ele \u00e9 bom a andar de skate, que ama futebol, que corre r\u00e1pido ou que precisa de uma ajuda extra na escola. Se perguntassemos a mesma coisa aos pais destas crian\u00e7as, acredito que &#8220;S\u00edndrome de Down&#8221; estaria na primeira frase dita por eles.<\/p>\n<p>Hoje o Seb tem dois irm\u00e3os mais novos, e eu nunca lhes disse que o mano tem S\u00edndrome de Down. Quero que eles cres\u00e7am a ver o Seb como Seb. N\u00e3o quero que ele seja rotulado ou que o tratem de forma especial.<\/p>\n<p>Por isso, fiquei meio desconcertada quando o irm\u00e3o de 4 anos de idade do Seb, do nada, diss-me: &#8220;M\u00e3e, o Seb \u00e9 engra\u00e7ado a falar, n\u00e3o \u00e9?&#8221;. Eu n\u00e3o estava nada preparada para esta pergunta e tive que pensar r\u00e1pido.<\/p>\n<p><em>&#8220;Bem, sabes, alguns de n\u00f3s s\u00e3o bons em algumas coisas, outros s\u00e3o bons em outras&#8221;,<\/em> disse eu a ganhar tempo para a verdadeira explica\u00e7\u00e3o..<\/p>\n<p>&#8220;<em>Por exemplo, sabes como o Seb \u00e9 bom a jogar futebol, e tu \u00e9s bom a falar? Ent\u00e3o, somos todos bons em coisas diferentes.<\/em>&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;<em>Ah, sim!&#8221;<\/em>, respondeu animado. &#8220;<em>Se calhar ele estava a falar espanhol. Ele \u00e9 bom a\u00a0espanhol!&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Mais nada. Aceitou esta explica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o falou mais no assunto.<\/p>\n<p><strong>Quando fui informada do diagn\u00f3stico do Seb, adorava ter conseguido ver o mundo pelos olhos de uma crian\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p>A not\u00edcia teria tido muito menos impacto em mim, ou se calhar n\u00e3o me tinha afectado nada. Fico triste por ter desperdi\u00e7ado aqueles primeiros dias preciosos com um medo t\u00e3o desnecess\u00e1rio. O p\u00e2nico que tomou conta de mim foi, sem d\u00favidas, fruto da minha ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Cresci numa \u00e9poca em que crian\u00e7as (e adultos) com alguma defici\u00eancia de aprendizagem raramente eram vistas. N\u00e3o me lembro de ter tido a oportunidade de falar ou de conhecer alguma\u00a0pessoa com uma defici\u00eancia durante minha inf\u00e2ncia. Crian\u00e7as com dificuldades de aprendizagem e defici\u00eancias em geral n\u00e3o eram vistas na escola, nas festas, no caf\u00e9, no campo de futebol ou no\u00a0cinema.<\/p>\n<p>De facto, as pessoas com defici\u00eancia ficavam segregados \u00e0 sua pr\u00f3pria comunidade. Eu nunca tive a chance de ver para al\u00e9m do r\u00f3tulo que lhes era dado. E, no fim de contas, quando o meu filho foi diagnosticado com S\u00edndrome de Down, fiquei arrasada e desconfort\u00e1vel com isso.<\/p>\n<p>Envergonho-me disso at\u00e9 hoje, e provavelmente para sempre.<\/p>\n<p>Por\u00a0<i>Caroline White, para <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2015\/02\/150219_crianca_sindrome_down_depoimento_rb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">BBC.com<\/a><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>LER TAMB\u00c9M&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/cronicas\/ca-em-casarotulos-sao-para-as-embalagens\/\">C\u00e1 em casa#R\u00f3tulos s\u00e3o para as embalagens<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/sao-tempos-de-rotulos-ver-as-criancas-com-olhos-de-cao\/\">S\u00e3o tempos de r\u00f3tulos | Ver As Crian\u00e7as Com Olhos De C\u00e3o<\/a><\/p>\n<p>A ponte para a diversidade \u2013 crian\u00e7as com necessidades educativas especiais<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>imagem@CarolineWhite<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as n\u00e3o v\u00eaem a s\u00edndrome de Down do meu filho. 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