{"id":16306,"date":"2017-01-20T21:45:53","date_gmt":"2017-01-20T21:45:53","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=16306"},"modified":"2017-01-20T21:45:53","modified_gmt":"2017-01-20T21:45:53","slug":"todas-as-maes-tem-um-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=16306","title":{"rendered":"Todas as m\u00e3es t\u00eam um nome"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"Texto\">Todas as m\u00e3es t\u00eam um nome<\/h2>\n<p class=\"Texto\">Se h\u00e1 coisa que me incomoda desde que me tornei m\u00e3e \u00e9 ter perdido a\u00a0 minha identidade. N\u00e3o por me ter dedicado exclusivamente \u00e0 maternidade\u00a0ou por ter deixado de ter vida social, ou deixado de trabalhar. At\u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 o caso. Mas porque onde quer que v\u00e1 passei a ser a M\u00e3e. Deixei de ter nome. Eu, e todas as outras m\u00e3es, passamos a ser, n\u00e3o s\u00f3 m\u00e3es dos nossos filhos, mas aparentemente de toda uma classe trabalhadora que agora nos trata por &#8220;m\u00e3e&#8221;..<\/p>\n<p class=\"Texto\">H\u00e1 tempos que andava a pensar escrever sobre o\u00a0tema, mas encontrei este\u00a0texto maravilhoso do Prof. Eduardo S\u00e1, publicado na revista <a href=\"http:\/\/www.paisefilhos.pt\/index.php\/opiniao\/eduardo-sa\/8742-todas-as-maes-tem-um-nome\">Pais &amp; Filhos<\/a>,\u00a0onde diz tudo. Ora leiam!<\/p>\n<p class=\"Texto\"><em><strong>As m\u00e3es \u2013 todas as m\u00e3es! \u2013 deviam insurgir-se contra todos aqueles que \u2013 sendo m\u00e9dicos, psic\u00f3logos, professores, educadores ou enfermeiros \u2013 as tratam, simplesmente, por \u201cm\u00e3e\u201d.<\/strong> Isso n\u00e3o est\u00e1 certo! Ali\u00e1s, qualquer \u201c\u00d3 m\u00e3e!&#8230;\u201d \u2013 utilizado de forma sorrateira \u2013 devia ser duramente tributado por \u201cuso indevido\u201d. Por acaso qualquer um de n\u00f3s, que ame a m\u00e3e, permite que uma fun\u00e7\u00e3o sagrada como essa seja indevidamente usada em favor duma sogra, por exemplo, por mais que o nosso carinho por ela seja verdadeiro e n\u00e3o esteja convalescente? E ser\u00e1 razo\u00e1vel que \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de m\u00e3e se associe uma interpela\u00e7\u00e3o do g\u00e9nero: \u201c\u00d3, faz favor!?&#8230;\u201d, como se, em vez dum apelo aveludado, algu\u00e9m tivesse coletivizado a sua fun\u00e7\u00e3o num clima do g\u00e9nero \u201c\u00e9 tudo nosso\u201d que ningu\u00e9m suporta?<\/em><\/p>\n<p class=\"Texto\"><em>Mas, desde quando \u00e9 que as m\u00e3es \u2013 que s\u00e3o preciosas e insubstitu\u00edveis \u2013 permitem que algu\u00e9m desqualifique o seu jeito singular e, no lugar de lhes falarem no tom doce (de quem n\u00e3o se sente ao n\u00edvel dos milagres que o seu amor promove mas, ainda assim, as olha nos olhos, e lhes estende os bra\u00e7os, esperando que elas os segurem e acarinhem) lhes diga: \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d? Que, ainda por cima, ro\u00e7a o indelicado, porque parece que este \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d \u00e9 dito de cima para baixo, como se m\u00e3e n\u00e3o fosse aquilo que mais distingue e engrandece o cora\u00e7\u00e3o duma pessoa e se tivesse transformado num aspeto menor que n\u00e3o merece nem o cuidado nem a dedica\u00e7\u00e3o que qualquer m\u00e3e exige a todos aqueles que agradecem s\u00f3 por ela existir!<\/em><br \/>\n<em>Que ideia \u00e9 esta de fazer de qualquer m\u00e3e um slogan parecido a \u201ctodos diferentes, todos iguais\u201d, magoando-a com aquilo que ela tem de mais sagrado? Porventura ser\u00e3o as m\u00e3es iguais a todos os demais? \u201c\u00d3 m\u00e3e?&#8230;\u201d Mas pode, por acaso, algu\u00e9m evocar o nome de Deus em v\u00e3o? E se n\u00e3o pode (ou n\u00e3o deve, como preferirem) com que direito h\u00e1 quem o fa\u00e7a \u00e0 m\u00e3e, que \u00e9 \u201co Seu bra\u00e7o direito\u201d?<\/em><\/p>\n<p class=\"Texto\"><em>Ora, respeita-se isto das pessoas deixarem de ser formais. Sobretudo se os colarinhos abertos vierem acompanhados de um cora\u00e7\u00e3o desabotoado. Mas \u201cm\u00e3e\u201d tem qualquer coisa de cerimonioso. Deve manusear-se com delicadeza. M\u00e3e \u00e9 filigrana! Que se estejam a tirar os doutores e os engenheiros do nome de muitas pessoas todos n\u00f3s percebemos. Sobretudo se, com isso, valorizarmos mais o car\u00e1ter e a atualidade humana do que, propriamente, a forma\u00e7\u00e3o ou a fun\u00e7\u00e3o. Mas m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 t\u00edtulo acad\u00e9mico: \u00e9 atributo divino. Logo, qualquer \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d que n\u00e3o seja usado \u201cpor quem de direito\u201d devia ser interdito. Primeiro, porque num acesso pateta que parece p\u00f4r a igualdade acima de todas as coisas, pressup\u00f5e que uma mulher n\u00e3o tenha um nome, e que tem mais \u00e9 de ser m\u00e3e. Depois, porque n\u00e3o faz sentido que um termo \u00edntimo se tansforme num utilit\u00e1rio ao servi\u00e7o de qualquer estranho.<\/em><\/p>\n<p class=\"Texto\"><em>M\u00e3e \u00e9 m\u00e3e! M\u00e3e \u00e9 um \u201cpetit nom\u201d de \u201cA Minha M\u00e3e\u201d! \u201cM\u00e3e\u201d pode at\u00e9 ser um substantivo comum. Mas \u201cminha\u201d, podendo parecer um pronome possessivo, significa que ela nos pertence, no sentido de fazer, intimamente, parte de n\u00f3s. J\u00e1 o \u201cA\u201d confere-lhe um sentido em tudo diferente daquele que ter\u00edamos se nos refer\u00edssemos a ela como \u201cuma\u201d m\u00e3e. Porque ningu\u00e9m troca o definido pelo indefinido, \u201cA M\u00e3e\u201d, d\u00e1-lhe a singularidade e a exce\u00e7\u00e3o que qualquer \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d lhe retira. Ali\u00e1s, um banal \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d quase parece uma forma de se atestar que n\u00e3o se pode ser \u201cA M\u00e3e\u201d. \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d \u00e9 transformar o \u201cminha\u201d em \u201cnossa\u201d, o que, convenhamos, \u00e9 desaforo. At\u00e9 porque \u201cM\u00e3e\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de tr\u00eas em um: substantivo, adjetivo e nome pr\u00f3prio. S\u00f3 ao alcance de quem o merece. Mas, seguramente, nunca acess\u00edvel a qualquer \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d!\u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d usa-se de v\u00e1rias formas. \u201c\u00d3 m\u00e3e?&#8230;\u201d usa-se em discurso direto quando se pretende chamar ou interpelar, sem direito ao \u201cj\u00e1 vou\u201d com que todas as crian\u00e7as mandam a m\u00e3e \u00e0 despensa ver se os filhos l\u00e1 est\u00e3o.O \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d que anda por a\u00ed at\u00e9 podia ser \u201cOh m\u00e3e!\u201d. E com essa exclama\u00e7\u00e3o de espanto tudo mudava de figura. Mas n\u00e3o. O \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d original \u00e9 uma interpela\u00e7\u00e3o para uso exclusivo dos filhos. E s\u00f3 mesmo \u201cA sua\u201d m\u00e3e merece esse carinho. Faz l\u00e1 sentido que um t\u00e9cnico, seja ele qual for, fale para a m\u00e3e como quem lhe est\u00e1 a pedir p\u00e3o com marmelada, ou a cham\u00e1-la para tentar n\u00e3o fazer os trabalhos de casa sozinho ou a desafi\u00e1-la para um suplemento de mimo, mesmo que v\u00e1 no sentido de se escapar, por uma vez, da sopa? Ali\u00e1s, os \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d das crian\u00e7as v\u00eam embrulhados por toneladas de algod\u00e3o doce, e servem para elas darem um jeitinho muito seu ao lado mais tempestuoso de todas as m\u00e3es sempre que elas se esgani\u00e7am. Por acaso os outros \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d ser\u00e3o assim? N\u00e3o! S\u00e3o secos e funcionais, chegando a parecer quase uma advert\u00eancia. S\u00e3o um \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d embrulhado por um celofane com um la\u00e7arote do g\u00e9nero: \u201cVeja l\u00e1 o que \u00e9 anda a fazer!\u201d. <\/em><\/p>\n<p class=\"Texto\"><em>Ora, que a m\u00e3e, fazendo uso do seu estatuto, tenha o direito a dizer \u201cOnde \u00e9 que tu andas com a cabe\u00e7a?\u201d ou \u201cV\u00ea l\u00e1 onde p\u00f5es os p\u00e9s!\u201d, todos entendem. Agora, que pessoas singulares fa\u00e7am de entidade reguladora de todas as m\u00e3es j\u00e1 \u00e9 outra cantiga!<\/em><br \/>\n<em>Estamos de acordo: \u201cM\u00e3e?\u201d pode ser uma vers\u00e3o minimalista de \u201c\u00d3 m\u00e3e?\u201d e pode confundir&#8211;se com \u201cM\u00e3e?\u201d de \u201cOh m\u00e3e?!\u201d. Mas querem l\u00e1 ver que agora as m\u00e3es t\u00eam de andar a matar a cabe\u00e7a com estas coisas? Ali\u00e1s, parece-me a mim que se as m\u00e3es n\u00e3o se enfurecem como leoas sempre que um cidad\u00e3o lhes diz \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d, isso n\u00e3o se deve tanto \u00e0 forma como elas amam quem as trate dessa maneira. \u00c9 que entre nomes pr\u00f3prios, adjetivos, substantivos, espanto e interpela\u00e7\u00e3o, vers\u00f5es com h e sem h, e entoa\u00e7\u00e3o com a\u00e7\u00facar e entoa\u00e7\u00e3o com arestas, \u00e9 tamanha a confus\u00e3o que a m\u00e3e sente em cada \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d que, movidas pelo benef\u00edcio da d\u00favida, as m\u00e3es guardam os \u201cpagamentos por conta\u201d com que se zangam por antecipa\u00e7\u00e3o para as birras com que presenteiam aos filhos, de vez em quando, e \u2013 ensarilhadas por tantas d\u00favidas \u2013 optam por \u201cjogar \u00e0 defesa\u201d ou por contarem at\u00e9 100 antes de esganarem os incautos que evocam em v\u00e3o o seu nome.<\/em><br \/>\n<em>Resumindo, se preferirem: quem tem uma m\u00e3e tem (quase) tudo; quem tem muitas m\u00e3es \u00e9 bem capaz de n\u00e3o ter (mesmo) nada. Sendo assim, este \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d que parece fazer de todas as m\u00e3es A M\u00e3e de todas as pessoas, devia acabar! Eu sei que Deus n\u00e3o podia ter um nome, porque sen\u00e3o deixava de ser Deus. Compreende-se. Que sentido faria se Deus se chamasse Ermelinda ou Hermenegildo, por exemplo? <\/em><\/p>\n<p class=\"Texto\"><em>\u00c9 claro, tamb\u00e9m, que todas as m\u00e3es t\u00eam um nome: mesmo que se chamem S\u00f3nia Vanessa ou Domic\u00edlia, por exemplo. Ser\u00e3o, se for assim, e quando muito, \u201cA M\u00e3e da Marta\u201d ou \u201cA M\u00e3e do Ant\u00f3nio\u201d. Tudo com mai\u00fasculas, porque a seriedade da b\u00ean\u00e7\u00e3o que isso representa n\u00e3o \u00e9 para menos! J\u00e1 o \u201c\u00d3 m\u00e3e\u201d \u00e9 um \u201ctu c\u00e1, tu l\u00e1\u201d que ro\u00e7a a falta de respeito. At\u00e9 porque M\u00e3e, sem mais nada, \u00e9 para uso exclusivo dos filhos. Est\u00e1 para os nomes pr\u00f3prios como Hermenegildo ou Ermelinda para o nome de Deus. N\u00e3o existe! M\u00e3e \u00e9 substantivo, adjetivo e nome pr\u00f3prio. S\u00f3 faz sentido se juntar espanto e interpela\u00e7\u00e3o. Entoa\u00e7\u00f5es com assinatura. E declara\u00e7\u00f5es de amor a torto e a direito. O que, convenhamos, n\u00e3o se admite a qualquer um que decida evocar o \u201cnome de Deus\u201d em v\u00e3o! &#8211; <\/em>Prof. Eduardo S\u00e1, para A Revista Pais &amp; Filhos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todas as m\u00e3es t\u00eam um nome Se h\u00e1 coisa que me incomoda desde que me tornei m\u00e3e \u00e9 ter perdido a\u00a0 minha identidade. N\u00e3o por me ter dedicado exclusivamente \u00e0 maternidade\u00a0ou por ter deixado de ter vida social, ou deixado de trabalhar. At\u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 o caso. 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