{"id":14936,"date":"2016-07-20T12:00:53","date_gmt":"2016-07-20T11:00:53","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=14936"},"modified":"2016-07-20T12:00:53","modified_gmt":"2016-07-20T11:00:53","slug":"a-maternidade-e-a-recruta-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=14936","title":{"rendered":"A maternidade \u00e9 a recruta das mulheres"},"content":{"rendered":"<h3>A maternidade \u00e9 a recruta das mulheres<\/h3>\n<p>Quando me perguntam qual foi a coisa que mais mudou na minha vida depois de ter sido\u00a0m\u00e3e, al\u00e9m da resposta \u00f3bvia, &#8211; <em>foi s\u00f3 toda a minha vida, desde a forma como a vivo\u00a0todos os dias, \u00e0 forma como a quero viver no futuro<\/em> &#8211; eu costumo dizer que, para mim a maternidade foi uma esp\u00e9cie de recruta das mulheres.<\/p>\n<p>Normalmente as pessoas ficam com aquela cara de poker, e ent\u00e3o explico: passei a dormir muito pouco e a acordar com as galinhas. Aprendi a fazer tudo aquilo que tinha conseguido adiar durante uns anos, e sim, inclui algumas tarefas dom\u00e9sticas e \u00a0muito auto-controlo emocional\u00a0(da emo\u00e7\u00f5es boas e m\u00e1s, porque uma m\u00e3e n\u00e3o pode estar sempre a chorar, caramba!). Aprendi a ser enfermeira, bombeira, educadora, professora, moderadora, entre tantas outras. E tudo isto por causa dos meus filhos. E tudo isto enquanto continuo a ser mulher, companheira, amante e amiga. Porque n\u00e3o podemos deixar de nos <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/continuas-ai-es-mais-que-uma-mae\/\">sentir n\u00f3s pr\u00f3prias.\u00a0<\/a><\/p>\n<h3>Com a maternidade passamos a ter algu\u00e9m totalmente dependente de n\u00f3s.<\/h3>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para escapar uma refei\u00e7\u00e3o por n\u00e3o me apetecer cozinhar, porque a crian\u00e7a tem de comer sempre. N\u00e3o d\u00e1 para desligar o despertador para dormir mais uma hora, e sem querer, dormir mais tr\u00eas. N\u00e3o d\u00e1. A crian\u00e7a precisa de acordar e de mudar a fralda, de tomar o pequeno almo\u00e7o e mudar a fralda, precisa de ouvir uma m\u00fasica ou ler uma hist\u00f3ria. Hoje fazemos um puzzle logo depois de mudar a fralda. A crian\u00e7a precisa de almo\u00e7ar e de dormir a sesta. A crian\u00e7a precisa. <strong>E n\u00f3s m\u00e3es, qual recruta apresentamo-nos ao servi\u00e7o<\/strong>. Com a diferen\u00e7a que n\u00e3o conseguimos estar impecavelmente fardadas, e nem t\u00e3o pouco tentamos. Depois de sermos m\u00e3es, n\u00e3o podemos\u00a0fingir que somos s\u00f3 n\u00f3s. E ainda bem porque quando quando \u00e9ramos s\u00f3 n\u00f3s, a felicidade tinha outro sabor.<\/p>\n<p>Quando comecei a escrever sobre este tema, como habitualmente fa\u00e7o, pesquisei no google para perceber se j\u00e1 algu\u00e9m tinha feito esta compara\u00e7\u00e3o, e encontrei um artigo publicado no P\u00fablico em 2013, da Sofia Anjos, chamado <em>&#8220;Ser m\u00e3e \u00e9 a tropa da mulheres&#8221;. <\/em><\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o li na altura e que a minha express\u00e3o adveio daqui? N\u00e3o fa\u00e7o a menor ideia. N\u00e3o me lembro. Mas despe\u00e7o-me aqui, porque tudo aquilo que eu tinha pensado est\u00e1 aqui t\u00e3o bem descrito. Ora vejam:<\/p>\n<h3><em>&#8220;Ser m\u00e3e \u00e9 a tropa das mulheres<\/em><\/h3>\n<p><em>Consigo segurar o biber\u00e3o com o queixo.\u00a0Foi uma quest\u00e3o de dias, ap\u00f3s o beb\u00e9 nascer, at\u00e9 descobrir umas quantas tarefas que podem ser feitas com uma s\u00f3 m\u00e3o. Algumas com dois dedos apenas. Penso que se um dia ficar maneta, safo-me.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h3><em>Ser m\u00e3e \u00e9 a tropa das mulheres, com recruta m\u00ednima de tr\u00eas meses.\u00a0<\/em><\/h3>\n<p><em>Cresce a barriga, encolhe a barriga, mas n\u00e3o para o mesmo lugar de antes. Tira a mama, recolhe a mama. Volta a tirar a outra mama, volta a recolher.\u00a0Dorme, acorda, esteriliza biber\u00f5es, muda a fralda, mant\u00e9m-te acordada, amamenta, lava a roupa bolsada, p\u00f5e a chucha, mant\u00e9m-te acordada, n\u00e3o-caf\u00e9-n\u00e3o, embala antes a mi\u00fada, n\u00e3o-sentada-n\u00e3o, levanta-te, embala de p\u00e9, canta, abana-te o mais que puderes, de prefer\u00eancia ligeiramente curvada que ela adormece mais rapidamente. Canta, improvisa: Princesa, princesa \/ Princesa gorila \/\u00a0Princesa da m\u00e3e \/\u00a0Gorila do pai.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Odeio biber\u00f5es, n\u00e3o consigo lavar nem mais um sem ter vontade de o esganar. Imagino-me um dia a fazer uma fogueira de biber\u00f5es e eles todos a chorarem e pedirem-me perd\u00e3o.\u00a0<\/em><\/p>\n<h3><em>Sim, os dias assumem tal ritmo que me questiono se terei trocado o Valdispert por um alucinog\u00e9nio.\u00a0<\/em><\/h3>\n<p><em>O banho \u00e9 o vislumbre de um o\u00e1sis no deserto com um minuto para o champ\u00f4, outro para o amaciador e, enquanto este repousa, ensaboo bem o corpinho pois n\u00e3o sei quando terei outra oportunidade. Ao todo, cerca de dois minutos: sempre se poupa na conta da \u00e1gua e n\u00e3o chega para embaciar o espelho.\u00a0E na alcofa no ch\u00e3o, junto \u00e0 porta da casa de banho, h\u00e1 um beb\u00e9 mirone\u00a0prestes a abrir a goela.<\/em><\/p>\n<p><em>A Zara e at\u00e9 mesmo a loja do chin\u00eas est\u00e3o fora de moda. A farda transforma-se em mamas de fora e p\u00e9s descal\u00e7os para n\u00e3o fazer barulho. A sola dos p\u00e9s est\u00e1 negra, pois n\u00e3o h\u00e1 tempo para limpar o ch\u00e3o. As cal\u00e7as s\u00e3o sempre as mesmas, as \u00fanicas que me servem, bolsadas. Se tenho visitas, visto uma das tr\u00eas camisolinhas que acho que me ficam bem.<\/em><\/p>\n<p><em>Por volta das duas da tarde, enfio um iogurte. De prefer\u00eancia com b\u00edfidos que ajudam o intestino a ser feliz e, se fizer\u00a0um\u00a0coc\u00f3\u00a0bonito, a mi\u00fada tamb\u00e9m faz e j\u00e1 somos tr\u00eas a ser felizes. Ao jantar consigo comer mais um pouco, pois o pai j\u00e1 chegou a casa, mas n\u00e3o como necessariamente melhor, pelo que mantenho o corpinho em forma de p\u00eara madura de Alcoba\u00e7a.\u00a0<\/em><\/p>\n<h3><em>Vinho n\u00e3o. Cerveja n\u00e3o. Refrigerantes n\u00e3o. <\/em><\/h3>\n<p><em>\u00c1gua. Aquela que acho que poupo no banho, \u00e9 a que tenho de beber \u00e0s litradas, disse-me a pediatra e o grupo de mam\u00e3s do Google.<\/em><\/p>\n<p><em>Bem-dito cigarro em pausa de tarefas. Sabe a mim, seja l\u00e1 essa quem for, mas que n\u00e3o \u00e9 esta mam\u00e3 com toda a certeza. E quanto mais a outra sou, mais me apetece saber a mim. Quer isto dizer que voltei a fumar. Entre os v\u00e1rios Marlboro, escolho o soft pack, n\u00e3o tanto pelos vinte c\u00eantimos a menos e mais pelo conforto de alma que traz a palavra soft.<\/em><\/p>\n<p><em>Enquanto fumo para finalmente respirar alguma in\u00e9rcia, eis que milhares de pensamentos sobem ao meu c\u00e9rebro como espermatozoides em direc\u00e7\u00e3o ao \u00f3vulo. E penso. A profiss\u00e3o mais velha do mundo n\u00e3o \u00e9 a de puta. \u00c9 a de m\u00e3e. Todas as putas t\u00eam a sua m\u00e3e.<\/em><\/p>\n<p><em>Ser m\u00e3e \u00e9 uma profiss\u00e3o, \u00e9 um emprego full-time sem carteira profissional, sem descontos para o Estado, sem Seguran\u00e7a Social. \u00c9 a profiss\u00e3o ileg\u00edtima\u00a0socialmente mais legal e que transgride todas as leis laborais. N\u00e3o h\u00e1 hor\u00e1rios afixados em lado nenhum, n\u00e3o me pagam horas extra, feriados ou subs\u00eddio de alimenta\u00e7\u00e3o. S\u00f3 vou para casa quando o trabalho estiver conclu\u00eddo, ou seja, daqui a uns 20 anos. \u00a0<\/em><\/p>\n<h3><em>E como dizem \u201cajoelhou, tem de rezar\u201d, quando a mi\u00fada dorme, o lar vira igreja, tal o sil\u00eancio que se ouve. Reconfortante. E sim, rezo, rezo muito para que se mantenha assim por mais de 15 minutos.<\/em><\/h3>\n<p><em>Neste compasso de tempo imagino-me a relaxar comodamente no sof\u00e1, a ler sob uma brisa fresquinha ou a fazer qualquer uma das dezenas de coisas que um dia achei que ia fazer durante a licen\u00e7a de maternidade. Imagino-me uma mam\u00e3 tranquila a ocupar as pausas num jardim, num museu, na esplanada. E enquanto imagino, o tempo passou e um coc\u00f3 amarelo berra na espregui\u00e7adeira. Termina o sil\u00eancio, come\u00e7a a missa e sei que vou ter de passar pela Av\u00e9 Maria e pelo Pai Nosso que estais no\u00a0C\u00e9u.\u00a0Porque aqui n\u00e3o h\u00e1 o s\u00e9timo dia de descanso.<\/em><\/p>\n<p><em>Quanto mais dias passam, mais gosto da minha beb\u00e9.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Podias chamar-te Alice mas n\u00e3o serias tu. Alicinha \u00e9 a av\u00f3 e tu \u00e9s a neta e como primog\u00e9nita merecias um nome todinho s\u00f3 teu, a estrear. Podias ter todos os outros nomes do mundo que n\u00e3o Laura. Mas s\u00f3 Laura te faz Laura, minha Laura.&#8221; &#8211; in Publico, em 28.08.2013<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">imagem@paperboats<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por\u00a0\u00a0Up To Kids\u00ae<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maternidade \u00e9 a recruta das mulheres Quando me perguntam qual foi a coisa que mais mudou na minha vida depois de ter sido\u00a0m\u00e3e, al\u00e9m da resposta \u00f3bvia, &#8211; foi s\u00f3 toda a minha vida, desde a forma como a vivo\u00a0todos os dias, \u00e0 forma como a quero viver no futuro &#8211; eu costumo dizer [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14937,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[62,9],"tags":[54,61,258],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14936"}],"collection":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=14936"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14936\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=14936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=14936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=14936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}