{"id":14701,"date":"2016-06-07T12:00:49","date_gmt":"2016-06-07T11:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=14701"},"modified":"2016-06-07T12:00:49","modified_gmt":"2016-06-07T11:00:49","slug":"perturbacao-do-espectro-do-autismo-criterios-do-dsm-5-segundo-a-perspetiva-de-um-adolescente-com-autismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=14701","title":{"rendered":"Perturba\u00e7\u00e3o do Espectro do Autismo (Crit\u00e9rios do DSM-5): Segundo a perspetiva de um adolescente com autismo"},"content":{"rendered":"<p>Hoje tenho 16 anos e a \u00fanica terapia que mantenho \u00e9 a psicologia. Segundo a minha psic\u00f3loga, a minha perturba\u00e7\u00e3o \u00e9 uma perturba\u00e7\u00e3o do neurodesenvolvimento caracterizada, segundo os crit\u00e9rios cl\u00ednicos (DSM-5), por um modelo de dois dom\u00ednios que engloba: d\u00e9fices na comunica\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o social e, padr\u00f5es restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Com ajuda da minha psic\u00f3loga analiso, de seguida, se me enquadro nestas caracter\u00edsticas:<\/p>\n<ol>\n<li><strong><em><u>D\u00e9fices persistentes na comunica\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o social<\/u>:<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<ul>\n<li><u>D\u00e9fices na comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal usada na intera\u00e7\u00e3o social<\/u><\/li>\n<\/ul>\n<p>Comunicar e interagir socialmente com outras pessoas, desde sempre, me causa uma <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/saude-e-bem-estar\/dona-ansiedade\/\">grande ansiedade<\/a>. Para mim, \u00e9 muito dif\u00edcil perceber e responder de forma adequada \u00e0s outras pessoas. Estar a olhar para uma pessoa a falar \u00e9 insuport\u00e1vel, porque ao mesmo tempo que a pessoa est\u00e1 a dizer algo, com flutua\u00e7\u00f5es no tom de voz e pausas no discurso que n\u00e3o entendo, tamb\u00e9m est\u00e1 a fazer mil e uma express\u00f5es com a cara e com as m\u00e3os. <strong>\u00c9 como se todas estas imagens diferentes entrassem, ao mesmo tempo, no meu c\u00e9rebro e eu n\u00e3o conseguisse descodificar, acabando por n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que a pessoa disse. Assim, quando as pessoas falam para mim, eu desvio o olhar para outro sitio e tento concentrar-me somente no que a pessoa est\u00e1 a dizer.<\/strong> A minha psic\u00f3loga ensinou-me a interpretar todo um conjunto de express\u00f5es faciais das pessoas. Disse, que se uma pessoa levantar a sobrancelha isso pode querer dizer: <em>\u201cAcabaste de dizer um grande disparate\u201d; \u201c\u00c9s muito giro, queres sair comigo?\u201d; \u201cN\u00e3o percebi nada do que disseste<\/em>\u201d. Quando ela me disse isto pensei, como \u00e9 que as pessoas interpretam tudo isso sobre uma mera sobrancelha, que para mim \u00e9 apenas um aglomerado de p\u00ealos que serve para proteger os olhos.<\/p>\n<ul>\n<li><u>D\u00e9fices no desenvolvimento e manuten\u00e7\u00e3o de relacionamentos apropriados \u00e0 idade<\/u><\/li>\n<\/ul>\n<p>No outro dia um professor disse-me: \u201c<em>tens de dar o bra\u00e7o a torcer\u201d<\/em>. Fiquei completamente chocado! Como \u00e9 que ele teve a coragem de dizer aquilo? Porque motivo haveria ele de querer que eu lhe desse o meu bra\u00e7o para ele torcer? S\u00f3 esta imagem fez-me entrar em p\u00e2nico. Quando cheguei \u00e0 psic\u00f3loga, ela explicou-me que as pessoas falam muito por express\u00f5es idiom\u00e1ticas: \u201d <em>tive um dia de c\u00e3o\u201d; \u201ddar o bra\u00e7o a torcer\u201d; \u201ddar com a l\u00edngua nos dentes\u201d; \u201cestar com a pulga atr\u00e1s da orelha\u201d<\/em>. Quando tento visualizar esta \u00faltima frase na minha cabe\u00e7a, s\u00f3 me confunde, porque imaginar uma pulga \u2013 \u00a0sifon\u00e1ptero da ordem\u00a0dos insetos\u00a0sem asas, que se alimenta do sangue\u00a0de mam\u00edferos\u00a0\u2013 atr\u00e1s de uma orelha, nada tem a ver com o significado que as pessoas atribuem de <em>\u201cestar desconfiado\u201d<\/em>. Para al\u00e9m destas express\u00f5es, h\u00e1 tamb\u00e9m as met\u00e1foras e a ironia que s\u00e3o ainda mais dif\u00edceis de compreender e dar resposta.<\/p>\n<ul>\n<li><u>D\u00e9fices na reciprocidade socio-emocional<\/u><\/li>\n<\/ul>\n<p>Tal como disse anteriormente, interpretar express\u00f5es faciais, perceber os estados emocionais da pessoa e retribuir com um simples \u201c<em>est\u00e1s bem?\u201d<\/em> ou um simples<a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/o-poder-de-um-abraco\/\"> abra\u00e7o de conforto,<\/a> \u00e9 muito complexo.\u00a0 Para mim, dar abra\u00e7os e beijinhos \u00e9 constrangedor, porque n\u00e3o consigo atribuir isso a uma sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel. Contudo, n\u00f3s nunca negamos o afeto e alguns dos meus amigos com esta perturba\u00e7\u00e3o apresentam at\u00e9, uma fixa\u00e7\u00e3o pelo cheiro (perfume), pelo tocar na cara de pessoas que lhes s\u00e3o familiares, procurando o contacto f\u00edsico e querendo dar e receber carinho constantemente.<\/p>\n<p><strong><em><u>2. Padr\u00f5es restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades:<\/u><\/em><\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><u>Ades\u00e3o inflex\u00edvel a rotinas ou padr\u00f5es ritualizados de comportamentos<\/u><\/li>\n<\/ul>\n<p>O meu dia a dia j\u00e1 o memorizei, tenho as mesmas rotinas h\u00e1 anos, porque me acalma saber o que vai acontecer a seguir e eu consigo antecipar e controlar a minha vida. Se algo muda na minha rotina, fico muito nervoso. Quando era pequeno, sempre que havia uma mudan\u00e7a, eu berrava, guinchava e \u00e0s vezes tornava-me agressivo. Com a minha psic\u00f3loga, aprendi a controlar-me e agora, apesar de ainda ficar nervoso com a mudan\u00e7a, j\u00e1 consigo dizer o que me incomoda, respirar para me acalmar e distrair-me com outra coisa para reduzir a ansiedade.<\/p>\n<ul>\n<li><em><u>Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos<\/u><\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p>Desde que me lembro, fa\u00e7o movimentos intencionais repetitivos \u2013 estereotipias \u2013 que passam por abanar as m\u00e3os (<em>flapping<\/em>), balan\u00e7ar o corpo, alinhar objetos segundo um padr\u00e3o de cores. Normalmente fa\u00e7o isto quando estou muito entusiasmado, ou quando estou entediado. Eu sei que estes movimentos s\u00e3o esquisitos e inadequados, e que as outras pessoas acham muito estranho, mas para mim \u00e9 muito dif\u00edcil controlar isto. \u00c9 como se fosse uma descarga do meu corpo que eu nem sempre controlo. \u00c9 como se o meu corpo me estivesse a obrigar a fazer isso.<\/p>\n<ul>\n<li><em><u>Interesses altamente restritos e fixos, na intensidade ou foco<\/u><\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p>Quando era pequenino a minha m\u00e3e dizia que eu vivia obcecado com os n\u00fameros, memorizava uma sequ\u00eancia enorme de n\u00fameros primos e debitava a sequ\u00eancia, vezes sem conta. \u00c0 medida que fui crescendo os meus interesses foram variando, j\u00e1 memorizei os nomes e as caracter\u00edsticas dos mais variados animais, e atualmente interesso-me por memorizar datas de factos da hist\u00f3ria de Portugal.<\/p>\n<ul>\n<li><em><u>Hiper ou hiporeactividade a est\u00edmulos sensoriais<\/u><\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p>A minha perturba\u00e7\u00e3o implica altera\u00e7\u00f5es senso-percetivas, o que significa que h\u00e1 pessoas com esta perturba\u00e7\u00e3o que podem ter hiper ou hiporeactividade a determinados est\u00edmulos sensoriais. Estar no recreio ou a num centro comercial \u00e9 um tormento: o cheiro, as luzes, o barulho dos saltos altos, as pessoas a falarem, todas estas perce\u00e7\u00f5es entram de uma s\u00f3 vez nos meus ouvidos, com o mesmo n\u00edvel de intensidade, fazendo com que eu nem as consiga diferenciar. Estas sensa\u00e7\u00f5es s\u00e3o de tal maneira fortes que n\u00e3o me consigo concentrar em mais nada.<\/p>\n<p>A par destes dois grandes dom\u00ednios que caracterizam esta <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/saude-e-bem-estar\/a-intervencao-nas-criancas-com-perturbacao-do-espectro-do-autismo\/\">perturba\u00e7\u00e3o,<\/a> podem surgir outras caracter\u00edsticas, as mais comuns s\u00e3o: d\u00e9fices intelectuais (a grande maioria de n\u00f3s n\u00e3o tem capacidades de \u201cg\u00e9nio\u201d), d\u00e9fices na linguagem (expressiva ou recetiva), dificuldades ao n\u00edvel da aten\u00e7\u00e3o e problemas de ansiedade.<\/p>\n<p>\u00c9 importante referir que n\u00e3o existem duas pessoas que estejam exatamente no mesmo ponto do espectro, n\u00e3o existem duas pessoas que sejam afetadas exatamente da mesma forma por esta altera\u00e7\u00e3o do neurodesenvolvimento.<\/p>\n<p>Por fim, enganam-se as pessoas que pensam que n\u00e3o percebemos o que se passa \u00e0 nossa volta. \u00a0<u>O facto de interagirmos pouco ou parecer que estamos mais distantes n\u00e3o quer, de todo, significar que estamos ausentes!<\/u><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje tenho 16 anos e a \u00fanica terapia que mantenho \u00e9 a psicologia. 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