{"id":13530,"date":"2016-03-22T22:57:50","date_gmt":"2016-03-22T22:57:50","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=13530"},"modified":"2016-03-22T22:57:50","modified_gmt":"2016-03-22T22:57:50","slug":"nao-te-atrevas-a-ouvir-a-tua-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=13530","title":{"rendered":"N\u00e3o te atrevas a ouvir a tua m\u00e3e!"},"content":{"rendered":"<h2>Tens quinze anos, cabelo castanho claro curto e uns olhos lindos que engolem o mundo.<\/h2>\n<p>Ontem, quando te dirigias para casa passaste por um casal de adolescentes como tu que estava a discutir. Seguiste o teu caminho at\u00e9 que ouviste as palavras que o rapaz chamava \u00e0 rapariga. Detiveste-te. Olhaste para tr\u00e1s e viste como lhe segurava o pulso com tanta for\u00e7a que faria qualquer um chorar. Ouviste a rapariga a pedir baixinho que ele parasse mas ele n\u00e3o estava a v\u00ea-la, estava furioso.<\/p>\n<p>Eu e a minha filha est\u00e1vamos um pouco mais afastadas, e s\u00f3 me apercebi que se passava alguma coisa porque ela gelou quando as palavras subiram de tom e se agarrou \u00e0s minhas pernas. Estava com medo. N\u00e3o est\u00e1 familiarizada com a viol\u00eancia. Teve a atitude t\u00edpica para algu\u00e9m com um ano e meio. Peguei nela e aproximei-me com calma, a tentar perceber o que estava a acontecer. Tu estavas ainda mais calma que eu, com metade da minha idade. Pedias ao rapaz que soltasse a namorada porque estava a mago\u00e1-la. Ele disse-te para n\u00e3o te meteres. Respondeste que n\u00e3o podias. Chamou-te um nome. Respondeste que n\u00e3o te conhecia, que n\u00e3o eras nada disso e disseste-lhe o teu nome: Laura. E que largasses a rapariga. Ele voltou a si e olhou em volta, percebendo que toda a gente o olhava. Soltou-a. Envergonhou-se e disse que estavam s\u00f3 a discutir. N\u00e3o olhou mais para a namorada e foi-se embora. A rapariga come\u00e7ou a chorar baixinho. Disseste-lhe que j\u00e1 estava tudo bem. Ofereci-lhe \u00e1gua e ela abra\u00e7ou-te. Disse obrigada. Que ele n\u00e3o era assim, mas que \u00e0s vezes ficava irritado. Sabiamente aconselhaste-a a procurar algu\u00e9m que n\u00e3o se irritasse com ela e muito menos que a magoasse. A rapariga disse que gostava dele e que ele tinha muitas coisas boas. Que\u2026 N\u00e3o a deixaste terminar. Disseste que ela \u00e9 que sabia. E chegou a tua m\u00e3e. Quis perceber o que se passava. Dei-lhe os parab\u00e9ns pela filha que tinha. Quando lhe contaste o que fizeste fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o te bateu apenas porque estavas rodeada de pessoas. Proibiu-te de voltar a fazer tal coisa. Entre marido e mulher n\u00e3o se mete a colher. Tentaste ripostar mas a tua m\u00e3e n\u00e3o deixou. Levou-te dali pelo bra\u00e7o, a dar-te o maior serm\u00e3o de sempre. O que \u00e9 que tinhas na cabe\u00e7a?<\/p>\n<p>Por favor n\u00e3o te atrevas a ouvir a tua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Sabes que mais? Ela, tal como a minha filha, tem medo. Medo que te metas numa situa\u00e7\u00e3o perigosa, com algu\u00e9m que n\u00e3o tenha respeito pelos outros e te magoe tamb\u00e9m. Eu entendo-a e deves entend\u00ea-la e ter cuidado. Mas n\u00e3o deixes de ajudar quem precisa.<\/p>\n<p>Isto aconteceu em Lisboa, num final de uma tarde igual a tantas outras. E acontece demasiadas vezes, e em grande parte ningu\u00e9m v\u00ea. Ou n\u00e3o quer ver.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na hora de mudar a mentalidade que aquela m\u00e3e nomeava: entre marido e mulher n\u00e3o se mete a colher. \u00c9 por isto que tantas v\u00edtimas continuam v\u00edtimas. Porque os vizinhos sabem, ouvem, mas n\u00e3o fazem nada. Porque h\u00e1 na pol\u00edcia quem receba as queixas mas n\u00e3o lhes d\u00ea seguimento. Porque h\u00e1 assistentes sociais que t\u00eam conhecimento mas permitem que o agressor permane\u00e7a perto das v\u00edtimas. Nem todos viram a cara, h\u00e1 quem fa\u00e7a um trabalho extraordin\u00e1rio, mas ainda h\u00e1 demasiadas pessoas que se escusam de agir. (Nota: tanto pol\u00edcias como assistentes sociais t\u00eam as suas tarefas dificultadas e h\u00e1 verdadeiros her\u00f3is, que felizmente s\u00e3o a maioria. Aqui refiro-me \u00e0s excep\u00e7\u00f5es, \u00e0queles que por motivos de v\u00e1rias ordens n\u00e3o conseguem fazer o seu trabalho como deveriam).<\/p>\n<p>Ler tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/carta-aos-adolescentes\/\">Carta aos adolescentes<\/a><\/p>\n<p>E est\u00e1 na hora tamb\u00e9m de ensinar aos nossos filhos que os tempos mudaram e as mulheres procuram a igualdade (de direitos, quando \u00e9 que entendem de uma vez?) mas isso n\u00e3o significa que se deva esquecer a m\u00e1xima: a uma mulher n\u00e3o se toca nem com uma flor. E est\u00e1 na hora de ensinar as nossas filhas a valorizarem-se. A afastarem-se de quem as oprime, as rebaixa, as faz sentir que n\u00e3o s\u00e3o merecedoras de um tratamento humano. Porque \u00e9 disto que se trata. Ensinemos isto e ensinemos tamb\u00e9m os nossos filhos a n\u00e3o se deixarem usar por aquela rapariga de quem gostam h\u00e1 tanto tempo e que finalmente reparou neles (e lhes saca os apontamentos e os goza e embara\u00e7a quando est\u00e3o em p\u00fablico), de ensinar as nossas filhas que ningu\u00e9m \u00e9 mais que ningu\u00e9m, que n\u00e3o devem maltratar os rapazes s\u00f3 porque podem e isso lhes aumenta o ego.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia no namoro, permito-me dizer, passou a ser algo considerado normal. Porque eles se irritam (culpa delas, claro), porque elas n\u00e3o t\u00eam paci\u00eancia (eles olham demasiado para as outras mi\u00fadas) e as rela\u00e7\u00f5es se baseiam no controlo tanto psicol\u00f3gico como f\u00edsico. E na viol\u00eancia. O respeito escasseia.<\/p>\n<p>Ler tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/opiniao\/cronicas\/violencia-juvenil-em-casais-de-namorados-bates-forte-ca-dentro\/\">Viol\u00eancia Juvenil em casais de namorados &#8211; bates forte c\u00e1 dentro.<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 nosso dever dar as ferramentas aos nossos filhos para n\u00e3o serem v\u00edtimas. Para se conseguirem libertar de situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o devem estar, a pedir ajuda, se n\u00e3o conseguirem sozinhos. \u00c9 nosso dever dar educa\u00e7\u00e3o aos nossos filhos para que n\u00e3o se tornem agressores, seja em que forma for.<\/p>\n<p>\u00c9 nosso dever incentivar os nossos filhos a ajudar, a denunciar. A ter cuidado, sempre, mas a nunca calar situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Querida Laura, o que a tua m\u00e3e te queria dizer era: foste t\u00e3o corajosa! Que orgulho eu tenho de ti. Mas tem cuidado, porque pode n\u00e3o correr sempre bem.<\/p>\n<p>Cuida de ti, Laura. E continua a ajudar os outros. Pode ser que um dia tenhas mesmo de ajudar a tua m\u00e3e. E a\u00ed ela vai perceber: como mesmo tendo medo te ensinou para seres mais e melhor.<\/p>\n<p>E, Laura?<\/p>\n<p>N\u00e3o te atrevas a ouvir a tua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Que essa tua coragem nunca se apague.<\/p>\n<p>Tenho orgulho de ti.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tens quinze anos, cabelo castanho claro curto e uns olhos lindos que engolem o mundo. Ontem, quando te dirigias para casa passaste por um casal de adolescentes como tu que estava a discutir. Seguiste o teu caminho at\u00e9 que ouviste as palavras que o rapaz chamava \u00e0 rapariga. Detiveste-te. 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