{"id":13230,"date":"2016-02-24T13:48:22","date_gmt":"2016-02-24T13:48:22","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=13230"},"modified":"2016-02-24T13:48:22","modified_gmt":"2016-02-24T13:48:22","slug":"a-importancia-dos-avos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=13230","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia dos av\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>Minha doce Mariana,<\/p>\n<p>Como j\u00e1 percebes t\u00e3o bem, tens a sorte de ter sete av\u00f3s. Pois \u00e9, eu sei, parece um n\u00famero pouco redondo e talvez exagerado para a import\u00e2ncia desse parentesco mas foi uma das b\u00ean\u00e7\u00e3os com que nasceste. Cedo te aperceber\u00e1s que nem toda a gente tem tantos av\u00f3s assim e farei o meu melhor para te explicar o conceito de fam\u00edlia moderna em que a nossa se insere e para que seja o menos complicado poss\u00edvel para ti. Porque o amor, este amor de que te falo \u00e9 dos mais simples que existe. Ainda antes de nasceres j\u00e1 ele crescia de uma forma um pouco incompreens\u00edvel nos teus av\u00f3s, testemunhas de uma barriga que demorou um pouco a crescer e com a qual tinham alguma dificuldade em conversar. Mas o amor, esse, brotou no momento em que cada um dos teus av\u00f3s soube que deixaria de ser apenas pai ou m\u00e3e de algu\u00e9m para passar a ter mais essa responsabilidade neste seu caminho. Incr\u00edvel o milagre de sentimentos que um ser que mal tem forma provoca em algu\u00e9m, n\u00e3o \u00e9? Todos fomos esse milagre um dia, minha querida, e um dia poder\u00e1s experenciar por ti pr\u00f3pria este amor.<\/p>\n<p>Tive o privil\u00e9gio de ter os meus quatro av\u00f3s perto de mim at\u00e9 bastante tarde. Mas em apenas tr\u00eas anos vi dois deles partirem e deixarem a minha vida mais incompleta. Parte-me o cora\u00e7\u00e3o saber que a av\u00f3 J. e o av\u00f4 S. nunca te pegar\u00e3o ao colo, como fizeram comigo tantas vezes. Como n\u00e3o ter\u00e1s a oportunidade de os conheceres, deixa-me falar-te um pouco deles.<\/p>\n<p>O bisav\u00f4 S. tinha o dom da palavra, muito por causa da sua profiss\u00e3o (voca\u00e7\u00e3o) e um cora\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a que nunca cresceu. Era ele quem nos torcia as orelhas com um sorriso maroto nos l\u00e1bios, nos fazia rasteiras, foi ele que nos fez provar a todos \u2013 a mim, ao tio e aos primos \u2013 vinho tinto muito antes de ser altura para isso. Digamos que 15 anos antes, para teres a no\u00e7\u00e3o do brincalh\u00e3o que ele era. Era tamb\u00e9m o homem mais vaidoso que alguma vez conheci \u2013 e bonito tamb\u00e9m. Se fechar os olhos consigo v\u00ea-lo entrar em casa \u00e0 hora de almo\u00e7o e sentir o cheiro de Old Spice que anunciava a sua chegada. N\u00e3o imaginas as saudades que sinto dele. Conduzia terrivelmente e metia um medo horr\u00edvel \u00e0 bisav\u00f3, que lhe gritava para travar a dez metros do carro da frente. E ele obedecia. N\u00e3o sabia viver sem ela. Era ela que lhe preparava tudo, desde a agenda que usava no dia-a-dia, ao prato de sopa que s\u00f3 tinha de aquecer no microondas se chegava mais tarde. Ele era t\u00e3o desajeitado com as tecnologias que a bisav\u00f3 lhe colou um post-it na parte de tr\u00e1s do telem\u00f3vel com o pin, o puk, a refer\u00eancia multibanco e o pr\u00f3prio n\u00famero de telem\u00f3vel. Consegues imaginar o absurdo? Adorava praia e pass\u00e1mos muitos Ver\u00f5es na casa que ele e a bisav\u00f3 t\u00eam no Baleal. Com ele rezava-se sempre antes da refei\u00e7\u00e3o e se estiv\u00e9ssemos num restaurante rezar poderia perecer um inc\u00f3modo e por isso ele preferia que\u2026 cant\u00e1ssemos! N\u00e3o existia! E n\u00f3s, mi\u00fados de 15 anos, pass\u00e1vamos a que pens\u00e1vamos ser a maior vergonha da nossa vida e hoje quando nos juntamos gostamos de cantar essa mesma m\u00fasica e a vergonha n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. S\u00f3 o amor da recorda\u00e7\u00e3o. E as saudades. O bisav\u00f4 S. ficou doente depois de se reformar, ou melhor, o facto de ter deixado de trabalhar deixou-o doente e isso deu-nos a oportunidade de nos irmos despedindo dele. Como se isso fosse poss\u00edvel\u2026<\/p>\n<p>A bisav\u00f3 J. apesar do seu metro e sessenta, tinha um cora\u00e7\u00e3o do tamanho do mundo. O pouco que tinha era para os outros e fazia quest\u00e3o de dar pequeninas lembran\u00e7as aqui e ali, com tanto cuidado e dedica\u00e7\u00e3o que era incr\u00edvel. Chegava a fazer marcadores de lugares para colocar na mesa dos restaurantes quando o bisav\u00f4 fazia anos e jant\u00e1vamos fora. Se, j\u00e1 em adulta, ia almo\u00e7ar com ela e o bisav\u00f4, fazia um banquete com entrada, marisco, prato principal e sobremesa, s\u00f3 com os meus pratos preferidos. Gosto de acreditar que herdei dela esse gosto de fazer algo pelos outros mas estou a anos-luz de ser t\u00e3o atenciosa como ela. Orgulhava-se dos nossos bons modos. Enchia o peito quando, em mi\u00fados, est\u00e1vamos com alguma das suas amigas e diz\u00edamos \u201cn\u00e3o tem de qu\u00ea\u201d. Foi ela que me ensinou a rezar antes de dormir, coisa que nunca mais deixei de fazer. Era na casa dela que havia o pote dos rebu\u00e7ados a que eu e o tio corr\u00edamos assim que l\u00e1 cheg\u00e1vamos. Era ela que fazia os melhores carac\u00f3is do mundo. Era ela que nos preparava p\u00e3o-de-leite com fiambre e n\u00e9ctar de p\u00eassego para o lanche quando o tio e eu \u00edamos passar uns dias de f\u00e9rias com ela e o bisav\u00f4 ao escrit\u00f3rio. Nunca gostou de praia, mas enquanto os filhos foram crian\u00e7as n\u00e3o falhou um Ver\u00e3o. Por eles. Nem quando adoeceu e ficou no hospital deixou de se preocupar com os outros. Se lhe ligava a avisar que ia passar por l\u00e1 para lhe dar um beijinho, pedia para passar na pastelaria e comprar uma sandes e um sumo para o bisav\u00f4. Porque se fosse ela a dizer para ele comer, ele dizia sempre que n\u00e3o tinha fome. E estava certa. Eu chegava com o lanche, o bisav\u00f4 aceitava e comia e bisav\u00f3 piscava-me o olho, agradecida. N\u00e3o cheguei a despedir-me dela porque acreditava piamente que ia ficar boa, mas na \u00faltima vez em que nos vimos abracei-a com for\u00e7a. J\u00e1 tinha aprendido com o bisav\u00f4 S. que n\u00e3o podemos deixar para depois.<\/p>\n<p>Os bisav\u00f3s que ficaram e que tiveram a sorte de te conhecer n\u00e3o t\u00eam as caras metades com eles. Vejo a felicidade que sentem quando percebem que j\u00e1 sabes dar beijinhos e lhos d\u00e1s a eles e o jeito com que dizes \u201cb\u00fa\u201d para chamar a bisav\u00f3 se ela por acaso est\u00e1 a olhar para a televis\u00e3o em vez de te ver dan\u00e7ar. Espero que possas conhec\u00ea-los, que estejam c\u00e1 muitos anos para te ver crescer mas deixa-me contar-te tamb\u00e9m dois segredos sobre eles: a bisav\u00f3 F., independente e muito \u00e0 frente para o seu tempo, aprendeu a conduzir sozinha e durante 13 anos conduziu sem carta de condu\u00e7\u00e3o! O bisav\u00f4 A. quando namorava com a bisav\u00f3 J. tinha de escolher entre ir ao cinema ou lev\u00e1-la a lanchar porque o dinheiro n\u00e3o dava para as duas coisas. Pediu ao chefe para lhe dar dois dias de folga quando se casou, ele prometeu que falariam em breve e\u2026 at\u00e9 hoje nunca os gozou.<\/p>\n<p>Desculpa se te macei com tanta informa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o posso deixar de te dizer de onde vens. \u00c9 esta a tua heran\u00e7a\u2026 Pede ao pai que te conte sobre os av\u00f3s dele, tamb\u00e9m tem hist\u00f3rias bonitas para partilhar contigo.<\/p>\n<p>Cresci com os meus av\u00f3s por perto e isso moldou a minha forma de ser. E \u00e9 por isso que o pai e eu fazemos tanta gin\u00e1stica para estares com os teus.<\/p>\n<p>Porque com eles por perto ser\u00e1s uma pessoa melhor, mais rica.<\/p>\n<p>Daqui a uns anos ser\u00e1s tu pr\u00f3pria a dizer-me se tenho ou n\u00e3o raz\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Ah, e filha? Aproveita-os bem, abra\u00e7a-os tantas vezes quanto puderes, liga-lhes para saber deles, deixa-os saberem de ti.<\/p>\n<p>Confia na m\u00e3e, vai valer a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">imagem@akkarbakkar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha doce Mariana, Como j\u00e1 percebes t\u00e3o bem, tens a sorte de ter sete av\u00f3s. Pois \u00e9, eu sei, parece um n\u00famero pouco redondo e talvez exagerado para a import\u00e2ncia desse parentesco mas foi uma das b\u00ean\u00e7\u00e3os com que nasceste. 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