{"id":13081,"date":"2016-02-10T00:12:23","date_gmt":"2016-02-10T00:12:23","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=13081"},"modified":"2016-02-10T00:12:23","modified_gmt":"2016-02-10T00:12:23","slug":"geracao-inabilitada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=13081","title":{"rendered":"Gera\u00e7\u00e3o Inabilitada"},"content":{"rendered":"<h2>\u00a0A cren\u00e7a de que a felicidade \u00e9 um direito tem tornado inabilitada\u00a0a gera\u00e7\u00e3o mais preparada<\/h2>\n<p>Ao conviver com os mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos h\u00e1 pouco e com aqueles que est\u00e3o no caminho para\u00a0tornar-se adultos, percebo que estamos diante da gera\u00e7\u00e3o mais preparada \u2013 e, ao mesmo tempo, a mais inabilitada.<\/p>\n<p>Preparada do ponto de vista das habilidades, inabilitada\u00a0porque n\u00e3o sabe lidar com frustra\u00e7\u00f5es. Preparada porque \u00e9 capaz de usar as ferramentas da tecnologia, inabilitada porque despreza o esfor\u00e7o. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, inabilitada porque desconhece a fragilidade da mat\u00e9ria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrim\u00f3nio da felicidade. E n\u00e3o foi ensinada a criar a partir da dor.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o de classe m\u00e9dia que estudou em bons col\u00e9gios, \u00e9 fluente em l\u00ednguas, viajou para o exterior e teve acesso \u00e0 cultura e \u00e0 tecnologia. Uma gera\u00e7\u00e3o que teve muito mais do que os seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilus\u00e3o de que a vida \u00e9 f\u00e1cil. Ou que j\u00e1 nascem prontos \u2013 s\u00f3 falta apenas que o mundo reconhe\u00e7a a sua genialidade.<\/p>\n<p><strong>Tenho-me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continua\u00e7\u00e3o das suas casas \u2013 onde o chefe seria um pai ou uma m\u00e3e complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja l\u00e1 o que for que queiram. E quando isso n\u00e3o acontece \u2013 porque obviamente n\u00e3o acontece \u2013 sentem-se tra\u00eddos, revoltam-se com a \u201cinjusti\u00e7a\u201d e uma boa parte embirra e desiste.<\/strong><\/p>\n<p>Como esses estreantes na vida adulta foram crian\u00e7as e adolescentes que alcan\u00e7aram\u00a0tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida \u00e9 baseada na constru\u00e7\u00e3o \u2013 e que para conquistar um espa\u00e7o no mundo \u00e9 preciso virar muitos frangos. Com \u00e9tica e honestidade \u2013 e n\u00e3o \u00e0s\u00a0cotoveladas ou aos gritos. Como os seus pais n\u00e3o conseguiram dizer, \u00e9 o mundo que lhes anuncia uma nova e n\u00e3o l\u00e1 muito animadora:<em> viver \u00e9 para os insistentes.<\/em><\/p>\n<p>Porque raz\u00e3o grande\u00a0parte dessa nova gera\u00e7\u00e3o \u00e9 assim? Penso que este \u00e9 uma quest\u00e3o importante para quem est\u00e1 a educar uma crian\u00e7a ou um adolescente nos dias de hoje. <strong>Esta\u00a0\u00e9poca tem sido marcada pela ilus\u00e3o de que a felicidade \u00e9 uma esp\u00e9cie de direito. E tenho testemunhado a ang\u00fastia de muitos pais para garantir que os filhos sejam \u201cfelizes\u201d. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e proteg\u00ea-los de tudo e de todos\u00a0\u2013 sem esperar qualquer\u00a0responsabiliza\u00e7\u00e3o nem reciprocidade.<\/strong><\/p>\n<p>Ler tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/educacao\/o-seu-filho-precisa-mesmo-ser-tao-feliz\/\">O seu filho precisa mesmo de ser assim t\u00e3o feliz?<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00c9 como se os filhos nascessem e imediatamente os pais se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos \u00e9 sin\u00f3nimo de fracasso pessoal.<\/strong> Mas \u00e9 poss\u00edvel uma vida sem frustra\u00e7\u00f5es? N\u00e3o \u00e9 importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas b\u00e1sicas do viver, a frustra\u00e7\u00e3o e o esfor\u00e7o? Ou a falta e a busca, duas faces do mesmo movimento? Existe algu\u00e9m que viva sem se confrontar dia ap\u00f3s dia com os limites tanto da sua condi\u00e7\u00e3o humana como das suas capacidades individuais?<\/p>\n<p>A nossa classe m\u00e9dia parece desprezar o esfor\u00e7o. Prefere a genialidade. O valor est\u00e1 no dom, naquilo que j\u00e1 nasce pronto. Dizer que \u201c<a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/educacao\/a-influencia-dos-elogios-no-desempenho-das-criancas\/\">o fulano \u00e9 esfor\u00e7ado\u201d<\/a> \u00e9 quase uma ofensa. Ter de trabalhar\u00a0para conquistar algo parece j\u00e1 vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bom, bom\u00a0\u00e9 aquele que n\u00e3o estudou, passou a noite nos copos e passou nas espec\u00edficas para entrar em\u00a0Medicina. Este atesta a excel\u00eancia dos genes dos seus pais. Esfor\u00e7ar-se \u00e9, no m\u00e1ximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar o seu lugar no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Da mesma forma que supostamente seria poss\u00edvel construir um lugar sem esfor\u00e7os, existe a cren\u00e7a n\u00e3o menos fantasiosa de que \u00e9 poss\u00edvel viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida s\u00e3o uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma esp\u00e9cie de trai\u00e7\u00e3o ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos t\u00eam pago caro pela cren\u00e7a de que a felicidade \u00e9 um direito. E a frustra\u00e7\u00e3o um fracasso. Talvez a\u00ed esteja uma pista para compreender a gera\u00e7\u00e3o do <em>\u201ceu mere\u00e7o\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Basta andar por este mundo para testemunhar a cara\u00a0de espanto e de m\u00e1goa de alguns jovens ao descobrir que a vida n\u00e3o \u00e9 como os pais lhes tinham prometido. Express\u00e3o que logo muda para o amuo. E o pior \u00e9 que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas n\u00e3o est\u00e3o minimamente preparados para lidar com a dor e as decep\u00e7\u00f5es. Nem imaginam que viver \u00e9 tamb\u00e9m ter de aceitar limita\u00e7\u00f5es \u2013 e que ningu\u00e9m, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, como poderia formular o fil\u00f3sofo Garrincha, \u00e9: \u201c<em>Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria f\u00e1cil\u201d<\/em>? \u00c9 no passar dos dias que a conta n\u00e3o fecha e o projeto constru\u00eddo sobre fumo desaparece deixando nada para tr\u00e1s. Ningu\u00e9m descobre que viver \u00e9 complicado quando cresce ou deveria crescer \u2013 este momento \u00e9 apenas quando a condi\u00e7\u00e3o humana, fr\u00e1gil e falha, come\u00e7a a explicitar-se no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se n\u00e3o temos espa\u00e7o nem sequer\u00a0para falar da tristeza e da confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Parece-me que \u00e9 isto que tem acontecido em muitas fam\u00edlias por a\u00ed: se a felicidade \u00e9 um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensa\u00e7\u00e3o de se sentir desencaixado? <strong>N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para nada que seja da vida, que perten\u00e7a aos espasmos de crescer duvidando do seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da fal\u00eancia do projeto familiar constru\u00eddo sobre a ilus\u00e3o da felicidade e da completude.<\/strong><\/p>\n<p>Quando o que n\u00e3o pode ser dito se torna um sintoma \u2013 j\u00e1 que ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a ouvir, porque ouvir\u00a0significaria rever escolhas e reconhecer equ\u00edvocos \u2013 o mais f\u00e1cil \u00e9 calar. E n\u00e3o \u00e9 por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crian\u00e7as que n\u00e3o se comportam segundo o manual. Assim, a fam\u00edlia pode manter\u00a0o quotidiano sem que ningu\u00e9m precise olhar a s\u00e9rio\u00a0para ningu\u00e9m dentro de casa.<\/p>\n<p>Ler tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/saude-e-bem-estar\/hiperactividade-medicar-e-depois\/\">Hiperatividade?\u00a0Medicar? e depois?<\/a><\/p>\n<p>Se os filhos t\u00eam direito de ser felizes simplesmente porque existem \u2013 e aos pais caberia garantir esse direito \u2013 que tipo de rela\u00e7\u00e3o pais e filhos podem ter? Como seria poss\u00edvel estabelecer um v\u00ednculo genu\u00edno se o sofrimento, o medo e as d\u00favidas est\u00e3o previamente fora dele? Se a rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 constru\u00edda sobre uma ilus\u00e3o, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel fingir.<\/p>\n<p>Aos filhos cabe fingir felicidade \u2013 e, como n\u00e3o conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, j\u00e1 que estas s\u00e3o as mais f\u00e1ceis de alcan\u00e7ar \u2013 e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que \u00e9 uma mentira porque a sentem na pr\u00f3pria pele dia ap\u00f3s dia. \u00c9 pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que d\u00e3o o que ningu\u00e9m pode dar, e os filhos simulam receber o que s\u00f3 eles podem alcan\u00e7ar. E por isso, \u00e9 preciso criar uma nova demanda para manter o jogo a funcionar.<\/p>\n<p>O resultado disso \u00e9 pais e filhos angustiados, que v\u00e3o conviver uma vida inteira, mas n\u00e3o se conhecem. E, portanto, est\u00e3o a perder\u00a0uma grande chance. <strong>Todos sofrem muito neste teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo \u00e9 o atalho mais r\u00e1pido para alcan\u00e7ar n\u00e3o a frustra\u00e7\u00e3o que move, mas aquela que paralisa.<\/strong><\/p>\n<p>Quando converso com estes jovens no parapeito da vida adulta, com as suas imensas possibilidades e riscos t\u00e3o grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade \u00e9. Sim, assumir a narrativa da pr\u00f3pria vida \u00e9 para quem tem coragem. N\u00e3o \u00e9 complicado porque voc\u00ea vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores \u00e0\u00a0sua, mas porque se tornar aquilo que se \u00e9, buscar a pr\u00f3pria voz, \u00e9 escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada.<strong> \u00c9 viver com d\u00favidas e ter de responder pelas pr\u00f3prias escolhas. Mas \u00e9 nesse movimento que\u00a0um jovem se transforma em adulto.<\/strong><\/p>\n<p>Seria muito bom\u00a0que os pais de hoje entendessem que t\u00e3o importante quanto uma boa escola ou um curso de l\u00ednguas ou um Ipad, dizer de vez em quando: \u201c<em>Organiza-te, d\u00e1 a volta\u00a0e resolve, meu filho. Poder\u00e1s\u00a0contar sempre comigo, mas essa batalha\u00a0\u00e9 tua\u201d<\/em>. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela \u00e9: <em>\u201cOlha, o meu dia foi dif\u00edcil\u201d<\/em> ou \u201c<em>Estou com d\u00favidas, estou com medo, estou confuso<\/em><strong>\u201d<\/strong> ou \u201c<em>N\u00e3o sei o que fazer, mas estou a tentar\u00a0descobrir\u201d<\/em>. <strong>Porque fingir que est\u00e1 tudo bem e que tudo pode significar dizer ao seu filho que voc\u00ea n\u00e3o confia nele nem o respeita, j\u00e1 que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a mat\u00e9ria da exist\u00eancia. \u00c9 t\u00e3o mau\u00a0quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o fr\u00e1gil equil\u00edbrio dom\u00e9stico possa ser dito.<\/strong><\/p>\n<p>Agora, se os pais transmitiram\u00a0que a felicidade \u00e9 um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paci\u00eancia. De nada vai adiantar choramingar ou amuar\u00a0ao descobrir que vai ter de conquistar o seu espa\u00e7o no mundo sem qualquer\u00a0garantia. O melhor a fazer \u00e9 ter a coragem de escolher. <strong>Seja a escolha de lutar pelo seu desejo \u2013 ou para descobri-lo \u2013, seja a de abrir m\u00e3o dele. E n\u00e3o culpar ningu\u00e9m porque eventualmente n\u00e3o resultou, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desist\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>Crescer \u00e9 compreender que o facto da vida ser insuficiente\u00a0n\u00e3o a torna menor. Sim, a vida \u00e9 insuficiente. Mas \u00e9 o que temos. E \u00e9 melhor n\u00e3o perder tempo a sentir-se\u00a0injusti\u00e7ado porque um dia a vida\u00a0acaba.<\/p>\n<p>Por\u00a0Eliane Brum, publicado na Revista \u00c9poca, por <a href=\"https:\/\/clinicaalamedas.wordpress.com\/author\/clinicaalamedas\/\">Cl\u00ednica Alamendas<\/a><br \/>\nAdaptado por Up To Kids\u00ae<\/p>\n<p>imagem@saltoyouth<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0A cren\u00e7a de que a felicidade \u00e9 um direito tem tornado inabilitada\u00a0a gera\u00e7\u00e3o mais preparada Ao conviver com os mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos h\u00e1 pouco e com aqueles que est\u00e3o no caminho para\u00a0tornar-se adultos, percebo que estamos diante da gera\u00e7\u00e3o mais preparada \u2013 e, ao mesmo tempo, a mais inabilitada. 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