{"id":12993,"date":"2016-01-29T19:21:03","date_gmt":"2016-01-29T19:21:03","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=12993"},"modified":"2016-01-29T19:21:03","modified_gmt":"2016-01-29T19:21:03","slug":"esta-coisa-estranha-da-dislexia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=12993","title":{"rendered":"Esta coisa estranha da Dislexia"},"content":{"rendered":"<p>A avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, de um modo geral, \u00e9 um processo de investiga\u00e7\u00e3o sobre o funcionamento mental do sujeito. O funcionamento mental funciona como uma vari\u00e1vel continua em constante muta\u00e7\u00e3o. Neste sentido, a avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica transforma a continuidade da mente numa vari\u00e1vel discreta, constituindo-se assim, enquanto corte no funcionamento mental do sujeito.<\/p>\n<p>Existe uma certa analogia que se pode tecer entre a avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e as an\u00e1lises m\u00e9dicas em geral. Ambas servem o prop\u00f3sito de investigar, ambas produzem resultados diferentes consoante a condi\u00e7\u00e3o actual do sujeito e ambas funcionam de acordo com crit\u00e9rios estat\u00edsticos.<\/p>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o do mesmo teste a uma amostra alargada de uma dada popula\u00e7\u00e3o permite-nos construir um n\u00edvel de &#8216;normalidade&#8217;; como consequ\u00eancia podemos tamb\u00e9m afirmar se o sujeito se encontra abaixo, muito abaixo, acima, ou muito acima do expect\u00e1vel para a sua faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o da dislexia, por exemplo, funciona de acordo com os pressupostos da avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica no geral, tendo por objectivo a investiga\u00e7\u00e3o. E para que seja poss\u00edvel estabelecer este diagn\u00f3stico \u00e9 necess\u00e1rio que se entenda o que devemos procurar.<\/p>\n<p>Falemos agora um pouco deste bicho chamado &#8220;dislexia&#8221;.<\/p>\n<p>A palavra dislexia deriva do grego \u0394\u03c5\u03c3\u03bb\u03b5\u03be\u03af\u03b1, referindo-se a dificuldades ou a um dist\u00farbio do processo de leitura. Neste sentido, a avalia\u00e7\u00e3o da dislexia deve encontrar evid\u00eancia de um d\u00e9fice significativo na flu\u00eancia e na precis\u00e3o de leitura. \u00c9 essencial que se obtenha por isso um n\u00edvel de leitura, ou seja, devemos verificar onde se posiciona o n\u00edvel da crian\u00e7a\/adolescente\/adulto, em rela\u00e7\u00e3o a outros indiv\u00edduos da mesma faixa et\u00e1ria, e por tanto, nesse sentido, os testes aplicados devem ser padronizados. Encontrado o d\u00e9fice de leitura \u00e9 necess\u00e1rio que se entenda o motivo do dist\u00farbio.<\/p>\n<p>Existem m\u00faltiplos factores que interv\u00eam no processo de leitura, sendo essencial que se identifiquem quais os factores que se encontram comprometidos no sujeito, no sentido de propor uma interven\u00e7\u00e3o que seja adequada.<\/p>\n<p>Uma possibilidade \u00e9 que o d\u00e9fice de leitura se deva a uma dificuldade de organiza\u00e7\u00e3o perceptiva ou de lateraliza\u00e7\u00e3o. Neste contexto o que promove a dificuldade leitura ser\u00e1 uma dist\u00farbio na capacidade de organizar perceptivamente o est\u00edmulo gr\u00e1fico (grafema). Aqui s\u00e3o relativamente frequentes trocas ou substitui\u00e7\u00f5es de letras com base na semelhan\u00e7a gr\u00e1fica (e.g. d\/p, q\/d) e n\u00e3o na semelhan\u00e7a de som. Estar\u00edamos na presen\u00e7a de uma Dislexia Diseid\u00e9tica. Uma vez que esta \u00e9 uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para o d\u00e9fice de leitura \u00e9 necess\u00e1rio que sejam aplicados testes padronizados que avaliem as capacidades de organiza\u00e7\u00e3o perceptiva, coordena\u00e7\u00e3o m\u00e3o-olho e lateralidade.<\/p>\n<p>Outra possibilidade \u00e9 que a dificuldade de leitura seja explicada por interven\u00e7\u00e3o de um d\u00e9fice cognitivo. \u00c9 preciso que se entenda se o d\u00e9fice de leitura \u00e9 produto de uma dificuldade de aten\u00e7\u00e3o (em termos de qualidade ou de manuten\u00e7\u00e3o), especificamente de aten\u00e7\u00e3o visual, ou de mem\u00f3ria, ou de outro qualquer tipo de fun\u00e7\u00e3o cognitiva.Se for encontrada evid\u00eancia de debilidade cognitiva, regra geral, n\u00e3o se considera o d\u00e9fice de leitura como sendo produto de uma dislexia.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo ponto, no entanto, \u00e9 controverso. Em parte porque por vezes existe um quadro de co-morbilidade entre debilidade cognitiva e dislexia, e por outro lado porque os crit\u00e9rios de diagn\u00f3stico da CIF (Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Funcionalidade) e DSM (Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico), s\u00e3o pouco espec\u00edficos quanto \u00e0 origem do d\u00e9fice de leitura; pelo que, no contexto deste manuais, apenas interessa o problema manifesto, isto \u00e9, o d\u00e9fice de leitura propriamente dito.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, a avalia\u00e7\u00e3o das capacidades cognitivas do sujeito dislexico \u00e9 sempre fundamental. N\u00e3o s\u00f3 porque permite investigar a origem das dificuldades de leitura, mas tamb\u00e9m porque esperamos que exista um perfil cognitivo t\u00edpico da dislexia (QI&#8217;s normais ou superiores \u00e0 m\u00e9dia, QI verbal inferior ao QI n\u00e3o-verbal, capacidades espaciais &gt; conceptualiza\u00e7\u00e3o verbal &gt; processamento sequencial).<\/p>\n<p>De um modo geral, consideramos a dislexia como produto de uma dificuldade de consci\u00eancia fonol\u00f3gica (dislexia disfon\u00e9tica). Assim, mais uma vez ser\u00e1 necess\u00e1rio que sejam avaliadas as capacidades de consci\u00eancia fonol\u00f3gica, recorrendo a testes padronizados.A aplica\u00e7\u00e3o de uma bateria de testes que tem por objectivo o diagn\u00f3stico e o tipo de interven\u00e7\u00e3o mais adequado \u00e9 fundamental para que o potencial de aprendizagem seja reposto.<\/p>\n<p>Por Dr. F\u00e1bio Mateus<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">imagem@veja.abril<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, de um modo geral, \u00e9 um processo de investiga\u00e7\u00e3o sobre o funcionamento mental do sujeito. O funcionamento mental funciona como uma vari\u00e1vel continua em constante muta\u00e7\u00e3o. Neste sentido, a avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica transforma a continuidade da mente numa vari\u00e1vel discreta, constituindo-se assim, enquanto corte no funcionamento mental do sujeito. 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