{"id":12927,"date":"2016-02-03T20:50:13","date_gmt":"2016-02-03T20:50:13","guid":{"rendered":"http:\/\/uptokids.fredericolopes.com\/?p=12927"},"modified":"2016-02-03T20:50:13","modified_gmt":"2016-02-03T20:50:13","slug":"filho-lobo-pai-cordeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uptokids.fredericolopes.pt\/?p=12927","title":{"rendered":"Filho lobo, Pai cordeiro"},"content":{"rendered":"<h2>Alguma vez sentiu que o seu filho tende a estar no comando do seu dia e que j\u00e1 n\u00e3o consegue faz\u00ea-lo respeitar os seus pedidos, sem que uma birra ou capricho aconte\u00e7a?<\/h2>\n<p>Alguma vez se perguntou como \u00e9 que as escolas conseguem gerir bem tantas crian\u00e7as pequenas e fazer com que comam, durmam, se vistam e se comportem como seres perfeitamente aut\u00f3nomos, bastante diferentes dos que tem em casa?<\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Todos sabemos que as coisas podem tornar-se um pouco dif\u00edceis de gerir l\u00e1 em casa. Muitas vezes isto acontece por uma raz\u00e3o simples: falta energia de um lado &#8211; o seu, e excesso do outro &#8211; o deles. O resultado \u00e9 quase sempre desgastante: ou j\u00e1 n\u00e3o encontra for\u00e7as para resistir e abre m\u00e3o da sua vontade, ou explode (grita, bate com a porta, fala com agressividade). Aconte\u00e7a o que acontecer, arrepende-se sempre. Acima de tudo n\u00e3o compreende porque \u00e9 que depois um dia inteiro a fazer o que tem de ser feito, ainda tem de lidar com o doutor min\u00fasculo a impor-lhe leis ao ser\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltemos ao tema das escolas &#8211; queremos ajudar. As boas escolas e os bons professores sabem como manter o controlo de muitas crian\u00e7as iguais \u00e0 sua, sem com isso colocarem em causa a trilogia de ouro nas rela\u00e7\u00f5es entre adultos e crian\u00e7as: afeto, respeito e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Creio que temos boas not\u00edcias. Pelo que conhecemos das melhores pr\u00e1ticas, \u00e9 poss\u00edvel que a causa de todos os seus problemas se prenda com uma frase feita: est\u00e1 a pecar por excesso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fala demais, espera demais, compra\u00a0presentes demais, d\u00e1 explica\u00e7\u00f5es a mais, promete o que n\u00e3o pode, sacrifica-se em demasia. E mesmo que tudo isso aconte\u00e7a por uma raz\u00e3o maior (ama demais), colocar-se na posi\u00e7\u00e3o de cordeiro s\u00f3 vai servir para que se transforme num adulto amargurado e cansado, sem combust\u00edvel para educar.\u00a0 Lembre-se sempre disto: os pais devem ser l\u00edderes fortes, poderosos estrategas.\u00a0Filho lobo, Pai cordeiro.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito importante que esta mensagem o conduza a uma reflex\u00e3o cuidada. Se muitos dos adultos que conhe\u00e7o assistissem a uma grava\u00e7\u00e3o do seu comportamento subserviente com os filhos, diriam: Aquele n\u00e3o sou eu! \u2013 e continuariam a neg\u00e1-lo at\u00e9 \u00e0 morte, alegariam que foi tudo uma montagem, instigariam a pr\u00f3pria m\u00e3e a comprovar a exist\u00eancia do irm\u00e3o g\u00e9meo cujo filho \u00e9 um tirano.<\/p>\n<p>Agora, certifique-se que o seu sentido de humor est\u00e1 em ON, porque vamos falar dos filhos dos outros, esses mal-educados. Podemos assegurar que n\u00e3o estamos a falar do seu filho, porque se ele na escola \u00e9 perfeitamente aut\u00f3nomo, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para preocupa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 coisas que os mi\u00fados dos outros fazem e dizem com uma flu\u00eancia inacredit\u00e1vel, especialmente se olhadas \u00e0 luz da rea\u00e7\u00e3o dos coitados dos pais. Eis alguns estudos de caso:<\/p>\n<p><strong>Caso 1 &#8211; A sede.<br \/>\n<\/strong>Crian\u00e7a deitada no sof\u00e1 a ver desenhos animados sente sede, ap\u00f3s triunfar o duelo pela posse dos canais de televis\u00e3o com o pai, que uma vez derrotado, se retirou para o quarto:<\/p>\n<p>&#8211;<em>Tenho seeeede! Quero \u00e1\u00e1\u00e1\u00e1\u00e1gua! \u00d3 m\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3ae!<\/em><\/p>\n<p>A m\u00e3e apressa-se a terminar o banho, veste-se ainda meia h\u00famida e leva a \u00e1gua ao rapaz. Quando se aproxima, o filho bebe um gole e diz:<\/p>\n<p><em>&#8211; N\u00e3o quero mais, est\u00e1 muito fria. Sai da frente que eu quero ver!<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0Caso 2 &#8211; O jogo.<br \/>\n<\/strong>O pai est\u00e1 sentado na esplanada, relaxado a ler enquanto a crian\u00e7a joga \u00e0 bola. Sem aviso, sente um p\u00e9 pisar-lhe a coxa. O filho ordena:<\/p>\n<p><em>&#8211; Cord\u00f5es!<\/em><\/p>\n<p>Sol\u00edcito, o pai aperta os cord\u00f5es com dois n\u00f3s para maior seguran\u00e7a. Sacode as cal\u00e7as. Lembra o pequeno que \u00e9 melhor vestir o casaco, ao que ele responde com um esticar de bra\u00e7os. O pai veste-lho e volta \u00e0 leitura. O filho pega na bola e afasta-se.<\/p>\n<p><strong>Caso 3 &#8211; O filme.<br \/>\n<\/strong>Hora de almo\u00e7o dram\u00e1tica. A crian\u00e7a protesta dizendo comida da escola \u00e9 muito melhor, que a barriga d\u00f3i, que sente muito sono. Diz que a sopa de casa est\u00e1 mal passada, que a carne \u00e9 muito dura e os legumes cheiram mal. A cada coment\u00e1rio os pais respondem com argumentos v\u00e1lidos e bem estruturados e aliciam a crian\u00e7a com o novo filme que combinaram ver ap\u00f3s o almo\u00e7o. A crian\u00e7a contrap\u00f5e sempre. Depois de muitas tentativas sem sucesso, algu\u00e9m acaba por estrelar um ovo para abreviar o momento, refor\u00e7ando a sobremesa para que a crian\u00e7a n\u00e3o sinta fome. Terminada a longa refei\u00e7\u00e3o, tudo passa, e a fam\u00edlia re\u00fane-se na sala para ver o filme.<\/p>\n<p><strong>Caso 4 \u2013 O peso.<br \/>\n<\/strong>A m\u00e3e estacionou em segunda fila j\u00e1 ap\u00f3s o toque para sair. Entra na escola e gesticula para que a filha venha ao seu encontro. A crian\u00e7a v\u00ea, mas parece n\u00e3o reagir. Para ganhar tempo, a m\u00e3e vai buscar a mochila da escola, a mochila do lanche, o casaco e o guarda-chuva. Volta a chamar a crian\u00e7a que responde a meio da corrida:<\/p>\n<p><em>&#8211; Espera, j\u00e1 vou!<\/em><\/p>\n<p>Toca o telem\u00f3vel. A m\u00e3e suspira e pousa a mercadoria para resolver um assunto de trabalho que ficou pendente. A meio, \u00e9 interrompida:<\/p>\n<p><em>&#8211; Despacha-te que eu quero ir para casa, estou cheia de fome m\u00e3e, anda l\u00e1!<\/em><\/p>\n<p>Faz um gesto para a crian\u00e7a aguardar com a m\u00e3o. Buzinam para que retire o carro mal estacionado.<\/p>\n<p><em>&#8211; Agora vou ficar aqui todo o dia enquanto tu falas ao telefone? Agora j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 com pressa, passou-se!<\/em><\/p>\n<p>Terminada a chamada, a m\u00e3e veste o casaco \u00e0 crian\u00e7a e pede-lhe que ajude a levar uma mochila, pois precisa de correr para ir tirar o carro.<\/p>\n<p><em>&#8211; N\u00e3o, leva tu, estou muito cansada.<\/em><\/p>\n<p>A senhora carrega tudo sozinha. Com uma mochila a balan\u00e7ar no pulso, levanta a m\u00e3o pesada e pede desculpas ao condutor. Abre a porta do carro, e enquanto a filha entra, guarda tudo na bagageira. N\u00e3o parte sem antes colocar-lhe o cinto de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><em>-Parece que \u00e9 desta que vamos para casa.<\/em><\/p>\n<p>Como ainda n\u00e3o recuperou o f\u00f4lego, e n\u00e3o se tratando de uma pergunta, a m\u00e3e decide ignorar.<br \/>\nPensar que estes s\u00e3o casos reais \u00e9 suficiente para colocar em OFF o sentido de humor, certo? E porque \u00e9 importante ser solid\u00e1rio com estes pais que s\u00f3 pensam estar a fazer o melhor para os seus filhos, partilhamos consigo as estrat\u00e9gias que os profissionais das melhores escolas usariam em situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Quando analisar, note como a maioria das\u00a0pr\u00e1ticas de ensino aposta numa distin\u00e7\u00e3o muito clara entre decis\u00f5es de adultos e decis\u00f5es de crian\u00e7a, e em como raramente se misturam as responsabilidades.<strong> Repare como apostar na autonomia pode significar conquistar equil\u00edbrio, tempo e espa\u00e7o na rela\u00e7\u00e3o com os mais pequenos. Tenha particularmente em conta como cada desfecho n\u00e3o significa amar menos as crian\u00e7as, e como amar na medida certa, requer intelig\u00eancia, consist\u00eancia, e planeamento:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00e3o 1<\/strong>\u00a0<strong>\u2013 A sede que ensina a beber.<br \/>\n<\/strong>Quando a crian\u00e7a diz precisar de \u00e1gua, o adulto responde que no momento est\u00e1 ocupado, e lembra que h\u00e1 garrafas pequenas de \u00e1gua em local acess\u00edvel. \u00c0 primeira oportunidade, o adulto elogia a crian\u00e7a por ter cumprido a tarefa e premeia-a, entregando-lhe um copo especial para guardar num local ao seu alcance, que pode usar da\u00ed em diante. Terminados os trinta minutos destinados \u00e0 televis\u00e3o, v\u00e3o brincar juntos para o exterior.<\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00e3o 2\u00a0\u2013 Jogar bem a bola.<br \/>\n<\/strong>No momento que a crian\u00e7a pousa o p\u00e9 na perna do adulto, este pousa o livro como que em sinal de desaprova\u00e7\u00e3o e aguarda sereno que a crian\u00e7a regule o seu pr\u00f3prio comportamento, sem que seja preciso dizer-lhe como. Logo que o rapaz pousa o p\u00e9 no ch\u00e3o, o adulto pega na bola e convida a crian\u00e7a a sentar-se para tentar apertar o cord\u00e3o por si. Volta a pegar no livro n\u00e3o sem antes se mostrar dispon\u00edvel para ensin\u00e1-la, no caso de falhar v\u00e1rias tentativas. N\u00e3o obstante o processo, d\u00e1-lhe um beijo e elogia-a assim que o cord\u00e3o estiver apertado. Diz-lhe que vista o casaco. Devolve-lhe a bola.<\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00e3o 3<\/strong>\u00a0<strong>\u2013 O filme certo.<br \/>\n<\/strong>Aos protestos da crian\u00e7a durante o almo\u00e7o, o adulto responde apenas uma vez, usando um tom seguro. Esclarece que a refei\u00e7\u00e3o foi preparada de acordo com o que \u00e9 necess\u00e1rio para que cres\u00e7a saud\u00e1vel e que \u00e9 importante que a coma em tempo \u00fatil para n\u00e3o se atrasar para ver o filme. Sempre que a crian\u00e7a voltar ao protesto, os adultos mudam de assunto, sem que no contexto surja a possibilidade de um prato opcional. Os adultos aguardam que a crian\u00e7a termine a sopa antes de avan\u00e7arem para a refei\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e assim sucessivamente, desde que respeitando um intervalo de tempo razo\u00e1vel. Se tal n\u00e3o acontecer, terminam a refei\u00e7\u00e3o e v\u00e3o para a sala ver o filme. A crian\u00e7a junta-se a eles quando terminar. Em caso de identificarem sintomas reais de sono, mau estar ou doen\u00e7a, os adultos podem mostrar-se flex\u00edveis, explicando porqu\u00ea.<\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00e3o 4\u00a0&#8211; O peso desapareceu<\/strong>.<br \/>\nLogo que o adulto chega, esfor\u00e7a-se por manter contacto visual com a crian\u00e7a, sem se dirigir ela fisicamente. Quando consegue, gesticula para que venha ao seu encontro. Se lhe parecer que a crian\u00e7a est\u00e1 muito interessada na brincadeira, volta a gesticular para que perceba que pode brincar mais 1 minuto e posiciona-se de modo a observar a viatura mal estacionada. Quando se d\u00e1 conta de um lugar livre por perto, sai para estacionar corretamente. Quando toca o telem\u00f3vel, avista a crian\u00e7a junto ao port\u00e3o e pede-lhe para aguardar no interior. Atende. Quando regressa cumprimenta-a, pede-lhe para verificar se trouxe todos os seus pertences. Abre a bagageira e espera que a crian\u00e7a os guarde, ajudando com os objetos mais pesados. Senta-se no lugar do condutor, coloca o cinto de seguran\u00e7a e s\u00f3 arranca assim que a crian\u00e7a fizer o mesmo. Explica durante o caminho porque \u00e9 que n\u00e3o aguardou no interior da escola, destacando que \u00e9 sempre complicado estacionar na zona, pelo que a crian\u00e7a deve manter-se ao port\u00e3o ap\u00f3s o toque de sa\u00edda.<\/p>\n<p>S\u00e3o mudan\u00e7as subtis de atitude que fazem toda a diferen\u00e7a, n\u00e3o acha? Optar auxiliar somente a crian\u00e7a naquilo que n\u00e3o \u00e9 capaz de fazer sozinha, mostrar vontade de colaborar em vez de promover a depend\u00eancia, influenciar mais por omiss\u00e3o do que por a\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Os conselhos que por norma os pais ouvem antes de nascer um filho, ainda que bem-intencionados, podem ser bastante vazios de conte\u00fado, in\u00fateis e desfasados da realidade. \u00c9 verdade que \u00e9 lindo ter um filho, \u00e9 verdade que muitas coisas mudam, mas exatamente o que \u00e9 que isso significa? Ningu\u00e9m explica a um pai ou m\u00e3e inexperiente, que ser um bom l\u00edder familiar \u00e9 muit\u00edssimo relevante para conseguir educar sem comprometer severamente o bem-estar dos mais novos e dos mais velhos. Um filho vai sofrer e fazer sofrer, se desde muito pequeno os pais n\u00e3o trabalharem a sua capacidade de o influenciar e de o orientar como um treinador a um atleta. Educar pode ser muito divertido, acredite.<\/p>\n<p><strong>Imagina-se a ler este \u00faltimo par\u00e1grafo a um amigo seu com uma crian\u00e7a dif\u00edcil? Ent\u00e3o guarde-o num lugar perto de si para usar quando for conveniente e considere que toda a cautela \u00e9 pouca, para tratar um assunto t\u00e3o delicado. Pense:\u00a0<em>\u00e9\u00a0o filho dele mas podia ser o meu<\/em>. E vai ver que tudo corre bem.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">imagem@cathsheard.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguma vez sentiu que o seu filho tende a estar no comando do seu dia e que j\u00e1 n\u00e3o consegue faz\u00ea-lo respeitar os seus pedidos, sem que uma birra ou capricho aconte\u00e7a? 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